
O amanh
a Deus pertence

Zibia Gasparetto



Reviso e Editorao Eletrnica: Arqutipo Design + Comunicao
Direo de Arte: Luiz Antnio Gasparetto
Capa: Luiz Antnio Gasparetto e Ktia Cabello
6a edio
Novembro 2006
10.000 exemplares
Publicao, Distribuio
Impresso e Acabamento:
CENTRO DE ESTUDOS
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dos textos sem autorizao
prvia do editor.

I
Marcelo deixou-se cair na cadeira assustado, a carta que segurava entre as mos foi ao cho e ele no fez um gesto para apanh-la.
Nervoso passou a mo pela testa como a querer afastar do pensamento a notcia inesperada. Gotas de suor brotaram em seu rosto enquanto que um aperto desagradvel 
no peito surgiu de pronto.
Aquilo no podia ser verdade. Agora que conseguira equilibrar as despesas, estava ganhando bem, comprara a casa, mobiliara com capricho, Aline o deixara.
Talvez tivesse entendido mal. No podia acreditar. Abaixou-se, apanhou o papel do cho com mos trmulas e leu:
Caro Marcelo,
Quando ler  esta carta j terei ido embora. H algum tempo venho tentando dizer-lhe a verdade, mas voc no me deu chance. Sinto vontade de viver, ser feliz, ver 
o mundo, aproveitar minha mocidade.
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Recebi uma boa oferta de trabalho em outro pas e aceitei. A vida a seu lado tornou-se uma rotina e no  essa a vida que quero para mim. Voc  um homem bom e certamente 
encontrar outra mulher que aceitar o que pode oferecer. No me procure mais. Vou em busca da felicidade, e desejo que voc tambm seja feliz. Adeus,
Aline.
Marcelo suspirou triste. Precisava render-se  realidade. Aquela carta o apanhara de surpresa.
Aline no deixara transparecer desinteresse, nem insatisfao. Comeou a imaginar que talvez houvesse acontecido alguma coisa que ela no desejara contar-lhe.
S podia ser isso. Levantou-se depressa, apanhou a pasta, a chave do carro, e resolveu ir ao aeroporto procur-la a fim de tentar impedir que embarcasse.
Durante o trajeto, recordando o namoro, o casamento, os momentos de amor que tinham desfrutado durante os sete anos de convivncia, inclinava-se a acreditar que 
alguma coisa muito grave teria acontecido para ela tomar aquela atitude.
Pisou no acelerador, precisava chegar o quanto antes para descobrir o que havia e impedi-la de ir embora. Aline o amava, tinha certeza.
Ela era o grande amor de sua vida. No se conformaria em perd-la para sempre.
Imerso em seus pensamentos, desejando chegar logo, para encurtar o caminho, entrou em uma rua de pouco movimento, sem diminuir a velocidade e nem percebeu que um 
caminho manobrava prximo  esquina.
Bateu de frente, sua cabea pendeu sobre o volante, suas pernas ficaram presas entre as ferragens.
Os populares correram tentando socorr-lo, mas era tarde. Marcelo estava morto.


A polcia chegou, tomou as providncias necessrias. Um policial fez a identificao. Segurando a carta de motorista leu:
Marcelo Duarte. Vinte e nove anos.
Comentou com um colega:
- Que pena! To jovem e forte!
O motorista do caminho, plido, aproximou-se e disse nervoso:
-  No tive culpa! Ele entrou com tudo na rua, Eu estava manobrando, garanto que olhei, mas no vi carro nenhum. De repente, esse estrondo!
Um homem aproximou-se:
- Ele est falando a verdade. Eu vi tudo. O moo entrou - em velocidade, acho que no viu o caminho.
-Tudo bem. O senhor poder testemunhar. Algum mais viu como foi?
As pessoas foram saindo e o policial reiterou:
- Colaborem. O rapaz morreu. Vamos precisar de testemunhas.
Uma senhora voltou e disse:
- Est bem. Eu tambm vi. Estava na janela, ali em frente. Ele entrou em velocidade, acho que no viu mesmo o caminho, eu vi que ia bater e gritei com tudo, mas 
no adiantou. Foi horrvel. Nunca vou esquecer isso.
O policial anotou os nomes, o corpo foi removido, e no local tudo voltou ao normal. Mas as pessoas que estiveram ali, ainda comentaram durante alguns dias o trgico 
acontecimento.
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II

Aline subiu no avio, colocou a mala de mo no bagageiro e acomodou-se gostosamente. Apanhou uma revista que a aeromoa lhe ofereceu e comeou a folhe-la.
Mas no conseguiu prestar ateno no que estava escrito. No conseguia pensar em outra coisa que no fosse a aventura que a esperava em Miami.
Desde a adolescncia sonhara um dia poder ir morar nos Estados Unidos, esforara-se estudando ingls que falava com certa fluncia.
Segunda filha de um casal de classe mdia, desde cedo se empenhara nos estudos pensando conseguir uma bolsa em alguma escola Norte Americana.
Procurou o consulado, informou-se das possibilidades. Apesar de haver intercmbio cultural entre os dois pases, eles no estavam facilitando as coisas.
Foi convidada a preencher alguns formulrios, percebeu logo que a instituio no tinha interesse em receber alunos brasileiros.
Enquanto cursava o colegial, fez tudo que sabia para conseguir o que desejava, mas foi intil.
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Quando entrou para a faculdade de letras, conheceu Marcelo, que cursava o terceiro ano de arquitetura. E desde o primeiro dia apaixonou-se por ela.
Aline no estava querendo namorar firme. Tinha outros projetos. Mas Marcelo insistiu, cercou-a de tantos carinhos que ela acabou cedendo.
Tanto Mrio como Dalva, seus pais, simpatizaram logo com ele e faziam gosto no namoro. Era um rapaz de boa famlia, bem situado na vida, inteligente, simptico e 
logo estaria formado.
Mrio, pai de Aline, viera de uma famlia modesta. Trabalhara alguns anos em uma fbrica de calados, porm com muito esforo, sacrifcio e economia, conseguiu realizar 
seu sonho. Tornou-se comerciante: abriu uma loja de calados no bairro de Santana.
Quando alugou o local para montar a loja, Dalva ficou temerosa.
- Vai deixar o emprego, e se no der certo? Voc nunca foi comerciante.
- Nunca fui, mas sei o que estou fazendo. O comrcio  melhor. Mais lucrativo. Acho que tenho jeito para vender. Depois as meninas esto crescendo e podero nos 
ajudar. Juntos vamos prosperar.
Mrio era amvel, srio, tratava os clientes com ateno, pagava as contas pontualmente e aos poucos sua loja ganhou credibilidade e ele foi prosperando.
Aline e Arete, esta a irm mais velha, ajudavam na loja quando voltavam da escola.
Quando Marcelo conversou com Mrio desejando marcar a data do casamento, Aline tentou esquivar-se. Ela gostava dele, mas ao mesmo tempo no desejava desistir de 
seus projetos.
Seus pais nunca a haviam levado a srio. Para eles, Aline era sonhadora como todas as moas naquela idade. Logo se casaria, teria famlia e esqueceria essas fantasias.
Marcelo era um rapaz atraente, bonito, cheio de vida. A princpio Aline sentira-se muito orgulhosa de desfilar

com ele pelas ruas do bairro e ver os olhares invejosos das moas da vizinhana.
Mas com a convivncia, comeou a gostar dele de verdade e naqueles tempos deixou de lado todos seus projetos.
Quando ele se formou, o pai deu-lhe dinheiro para montar um escritrio. Ele associou-se a um colega e comearam a trabalhar. Rodrigo, como ele, pertencia a uma famlia 
de classe mdia. Tornaram-se bons e prsperos profissionais, obtiveram sucesso.
Marcelo montou uma linda casa e casou-se com Aline. A princpio tudo correu bem. Ela envolveu-se inteiramente com a nova vida, continuando os estudos e dedicando-se 
aos afazeres da casa.
Mas com o passar do tempo, a rotina foi tomando conta, fazendo-a retomar seus antigos objetivos.
Marcelo desejava filhos, mas ela esquivava-se alegando que s os teria quando acabasse os estudos e pudesse se dedicar completamente ao papel de me.
Depois de formada, sentiu-se frustrada, no tendo onde exercer seus conhecimentos. Pensou em arranjar um emprego, Marcelo foi contra.
Porm, Aline foi se tornando uma pessoa triste, irritada, dizendo que havia estudado durante tantos anos para nada.
- Logo teremos filhos e voc, como me, ser mais feliz do que trabalhando para os outros.
Mas ela no engravidava e a cada dia tornava-se mais aborrecida. Ele no suportava v-la triste, sem vontade de conversar e acabou concordando que ela arranjasse 
um emprego, fazendo-a prometer que quando a gravidez chegasse, o abandonaria.
Aline logo arranjou um emprego em uma empresa de comrcio exterior e comeou a trabalhar com entusiasmo.
Dentro de pouco tempo voltou a ser a moa alegre de sempre e Marcelo sentiu-se feliz.
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Aline remexeu-se na poltrona do avio lembrando-se do marido. Uma sensao desagradvel a acometeu. Naquela hora ele certamente j teria lido a carta. Deveria estar 
desesperado.
Ela havia pensado  muito  antes  de tomar aquela deciso. Reconhecia que Marcelo era um marido ideal, que a amava profundamente, mas por outro lado sentia que nunca 
havia correspondido esse amor como ele merecia.
Muitas vezes sentia-se irritada com a maneira como ele a tratava, fazendo-lhe todas as vontades, sendo to passivo.
Nessas ocasies, tornava-se um tanto agressiva, provocando-o para ver se ele reagia, mas no. Marcelo fazia exatamente o oposto do que ela queria.
Ela teria preferido que ele se posicionasse de outra forma, fosse mais exigente. Aos poucos Aline foi perdendo a admirao que sentia por ele e o amor foi morrendo.
Por outro lado, a vontade de deixar aquela vida sem graa, de tentar a sorte nos Estados Unidos reaparecia com toda fora.
Quando recebeu a proposta de uma empresa para trabalhar no escritrio de Miami, ela no conteve o entusiasmo.
Era tudo o que ela mais queria. No podia perder essa chance to ardentemente desejada. Sabia que Marcelo no aceitaria e para ir teria que acabar com o casamento.
Para ela aquele casamento havia acabado h muito. No o amava mais, e no desejava continuar fingindo um sentimento que no possua.
Sabia que ele iria sofrer, mas considerava pior continuar enganando-o. No comeo, ele ficaria desesperado, mas com o tempo acabaria esquecendo, tocando sua vida 
para frente, encontrando outra pessoa que lhe oferecesse o amor que ela no estava apta para dar.
Naquele momento, reconheceu que nunca o havia amado de verdade. Por isso, mesmo sem ele saber, continuara tomando plulas para no engravidar.
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A aeromoa estendeu-lhe a bandeja com o jantar e Aline, arrancada de seus pensamentos ntimos, apressou-se a abrir a mesa  sua frente colocando-a.
Sentiu fome e comeou a comer prazerosamente. Precisava banir os pensamentos tristes. Estava realizando seu grande sonho e vivendo um momento especial em sua vida. 
O passado tinha ficado para traz.
Certamente seus pais no aceitariam o que ela havia feito. Quando soubessem iriam tentar faz-la voltar atrs, mas ela no cederia. Estava disposta a assumir as 
conseqncias de sua deciso e seguir em frente.
O filme ia comear na televiso  sua frente e Aline ajeitou-se satisfeita, disposta a no perder nada. Era uma comdia e ela adorou.
Depois, as luzes foram apagadas e todos tentaram dormir. Aline ajeitou o pequeno travesseiro, colocou a manta sobre as pernas e procurou acomodar-se.
Estava cansada, mas sem sono por causa da excitao da aventura. Quase no dormira na noite anterior e o dia havia sido cansativo, tendo que preparar tudo s escondidas.
Procurou relaxar e finalmente adormeceu. Algum tempo depois, sonhou que o avio estava atravessando uma tempestade e havia perigo. Os passageiros estavam assustados 
e de repente, ela viu entre eles a figura de Marcelo, rosto machucado, sangue escorrendo do peito e das pernas.
Ele gritava seu nome desesperado. Parou em sua frente e disse aflito:
-Aline! Finalmente a encontrei! No me deixe nunca mais! Diga que ficar para sempre a meu lado.
Aline deu um grito e acordou suando frio, com dificuldade de respirar.
Na mesma hora as luzes do avio acenderam e uma aeromoa foi at ela dizendo:
- Calma. Est tudo bem. Voc sonhou.
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- O que aconteceu com Marcelo? Ele estava cheio de sangue. Como veio parar aqui?
Outra aeromoa colocou um copo com gua em sua mo dizendo:
- Acalme-se. Voc teve um pesadelo. No tem ningum aqui.
Aline tomou a gua sentindo seu corao bater descompassado. Respirou fundo e por fim disse:
- . Acho que foi um pesadelo mesmo. Foi horrvel. Havia uma tempestade, os passageiros estavam assustados, o avio ia cair.
-  comum acontecer isso com quem tem medo de voar. Est tudo bem. Quer um calmante?
- No, obrigada. Eu no tenho medo de voar.
- Seja como for, voc sonhou. Veja, est tudo calmo. As pessoas voltaram a dormir. Procure descansar.
Aline tentou se acalmar. Fora mesmo um pesadelo. A viagem s escondidas de todos, a separao do marido... Tudo isso certamente a impressionou mais do que ela havia 
suposto.
Seu corao ainda batia descompassado e ela esforou-se para manter a calma. Conseguiu at certo ponto, porm no dormiu mais.
Quando fechava os olhos tentando dormir, a figura de Marcelo desesperado, olhos esbugalhados, corpo cheio de sangue reaparecia em sua frente, fazendo-a se assustar.
Comeou a pensar que talvez houvesse sido melhor ter enfrentado a situao ao invs de fugir.
Sabia que Marcelo no aceitaria com facilidade a separao e por isso decidira agir daquela forma. Ele sofreria o abalo, mas como a situao estava consumada, no 
teria outro remdio seno aceitar e tocar a vida.
Novamente a lembrana do sonho reapareceu e ela viu Marcelo desesperado  sua frente.
Remexeu-se na poltrona inquieta. Ela havia programado aquela viagem h muito tempo, no imaginava que fosse ficar to assustada.
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Sim, porque um pesadelo como aquele s poderia ter acontecido porque ela, apesar de no perceber, estava com medo.
Chamou a aeromoa e disse que aceitaria um calmante. Tomou o comprimido e acomodou-se tentando relaxar. Logo estaria em Miami e teria esquecido aquele momento desagradvel.
Pouco depois, adormeceu e desta vez sem sonhos. Mas a seu lado, durante todo tempo estava o esprito de Marcelo.
No momento do acidente, ele sentiu que foi projetado para longe e perdeu os sentidos. Quando acordou em uma rua desconhecida, apesar de atordoado, lembrou-se que 
precisava procurar Aline e impedi-la de viajar.
Olhou em volta e viu o carro, o caminho, pessoas ao redor e lembrou-se do estrondo que ouvira. Pelo jeito sofrer um acidente e fora atirado para fora do carro.
Aproximou-se do local e pensou:
- Ainda bem que fui jogado fora, o carro acabou. Felizmente eu estou vivo.
Precisava ir ao aeroporto. Aproximou-se mais, querendo saber se o carro ainda teria condies de uso. Sentiu uma tontura que o obrigou a sentar-se no meio fio.
Respirou fundo procurando reagir. Ele no podia desmaiar agora. Aline ia embora e ele precisava impedir. Mas estava sem poder se levantar.
Foi quando ele viu um furgo aproximar-se e um corpo ser a custo retirado do carro. Reconheceu ser ele mesmo e gritou com todas as suas foras:
- No! No pode ser! Eu no estou morto!
Sua viso turvou-se e ele perdeu os sentidos. Quando acordou, estava deitado em uma maa e um enfermeiro estava do seu lado.
- Onde estou? - indagou ele.
- Vamos indo para um hospital. Voc sofreu um acidente e precisa de tratamento.
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- No posso ir. Preciso ir ao aeroporto impedir Aline de tomar aquele avio.
- Acalme-se. Agora no est em condies. Quando melhorar, poder procur-la.
- Ento ser tarde. Ela ter partido.
- Voc agora precisa de tratamento. Acalme-se.
Marcelo sentou-se na maa. Seu corpo doa, conforme se movia o sangue escorria de suas feridas abertas. Ele no se importou.
Observando sua inquietao o enfermeiro disse:
- Se no deitar e ficar quieto, serei forado a dar-lhe um calmante.
- No quero nada. Minha vida no importa mais se eu perder Aline. Preciso encontr-la!
Disse isso com tanta fora que foi arremessado para fora do veculo. O enfermeiro disse a seu companheiro que conduzia a ambulncia:
- Vamos para o Posto de Socorro. O paciente no aceitou nossa ajuda.
Imediatamente o veculo mudou o rumo enquanto eles conversavam sobre as dificuldades que as pessoas tm de aceitar o desencarne.
Marcelo encontrou-se em um corredor escuro, com poltronas e pessoas adormecidas. Passou por elas procurando Aline.
Exultou quando a viu dormindo. Finalmente a encontrara. Chamou-a vrias vezes querendo acord-la, mas foi intil. Ela dormia.
Decidiu esperar. De repente, teve uma estranha sensao. Viu-a entrar no avio e aproximar-se do seu corpo adormecido.
Foi quando ele a encarou dizendo:
-Aline! Finalmente a encontrei. No me deixe nunca mais. Diga que ficar para sempre ao meu lado.
Aline deu um grito e mergulhou no corpo adormecido. As luzes se acenderam e as aeromoas foram
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conversar com ela enquanto algumas pessoas acordaram e olhavam assustadas.
Marcelo no entendeu de pronto o que estava acontecendo. Porque ela gritara ao v-lo? Certamente assustou-se por causa de seus ferimentos.
Mas no lhe deu tempo de explicar. Ouviu a conversa delas e pensou:
- No consegui chegar no aeroporto e ela embarcou. Estamos no avio. Como vim parar aqui?
Sentiu aumentar a tontura e reagiu com medo de perder os sentidos outra vez. Havia sofrido um acidente e precisava se recuperar. Seria melhor no tentar saber o 
que havia acontecido, pelo menos at estar mais forte.
Quando pensava nisso sentia-se mal. O que importava era estar ao lado dela. Viu quando ela tomou o comprimido e adormeceu.
Ele esperou que ela deixasse o corpo, mas desta vez isso no ocorreu. Ele no notou nada. Ento se acomodou ao lado dela. Sentia-se mais calmo agora. Aline no mais 
o deixaria. Iria com ela onde ela fosse.
Afinal, o mais importante era estarem juntos. Pensando assim, conseguiu relaxar at que finalmente adormeceu.
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III

Aline desembarcou, e depois de passar pelos controles de identificao, empurrando o carrinho com as malas, saiu olhando ansiosa por todos os lados. Sorriu ao ver 
um rapaz segurando um carto com o nome dela.
Aproximou-se dele satisfeita, apresentando-se. Era um rapaz alto, elegante, louro, olhos azuis que se apertavam um pouco quando sorria.
Apertou a mo que ela lhe estendia dizendo:
-  Muito prazer. Meu nome  Michael, trabalho na empresa. Fui encarregado pela direo de dar-lhe as boas vindas e lev-la at o lugar onde ficar hospedada.
-Obrigada.
- Permita-me levar suas malas.
Aline afastou-se um pouco e ele segurou o carrinho e continuou:
- Meu carro est no estacionamento. Vamos. Aline acompanhou-o com satisfao. O dia estava
lindo e ela olhava curiosa a sua volta, no querendo perder nenhum detalhe.
Naquele momento havia esquecido completamente do pesadelo, do marido que ficara para trs.
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Seus olhos brilhavam alegres, enquanto caminhavam at o carro. Michael a observava, curioso. Notou a euforia dela e indagou:
-  a primeira vez que vem a Miami?
-  a primeira vez que saio do Brasil. Desde criana sonhava conhecer os Estados Unidos.
- Pensei que j tivesse vivido aqui. Voc fala corretamente nosso idioma.
Aline sorriu alegre.
- Estudei ingls desde criana. Parece um sonho estar aqui.
Chegaram no carro, ele abriu a porta para que ela se acomodasse. Depois acomodou as duas malas e sentou-se ao lado dela.
Durante o trajeto ele sorria observando a curiosidade dela, olhando tudo. Conversou um pouco sobre a cidade, sobre a empresa, e finalmente parou em frente a um prdio 
de trs andares.
- A empresa alugou um flat para voc. Se no gostar, mais tarde poder se mudar.
- Vamos ver - respondeu Aline.
Estava adorando o jardim cheio de flores, o prdio simples, mas elegante. Tentou parecer natural, no queria que ele a achasse provinciana.
Entraram, no saguo, ele apresentou-a, apanhou a chave e subiram um lance de escada. Michael abriu a porta e entraram na espaosa sala mobiliada com gosto. Logo 
chamou a ateno dela um balco, atrs do qual havia uma pequena cozinha.
Michael levou as malas para o quarto e colocou-as sobre uma mesinha.
Aline olhava tudo encantada. Voltaram para sala e Michael perguntou:
- Acha que ficar bem aqui?
- Sim, obrigada.
- Voc deve estar cansada da viagem. Amanh, cedo, s oito passarei aqui para lev-la at a empresa.
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- No precisa vir me buscar. Amanh s oito horas estarei l.
Ele meneou a cabea negativamente:
- De forma alguma. Fui encarregado de lev-la e  o que farei. Depois poder ver-se livre de mim.
- No diga isso. Eu apreciei muito voc ter me recebido e acompanhado. Pensei em facilitar as coisas para voc.
- No pense. Eu sou suficiente para cuidar de mim.
- Tenho certeza disso.
- Comprei algumas coisas e coloquei na geladeira. Espero que goste. Se desejar algo mais, h um mercado h trs quadras daqui.
- Obrigada.
Depois de um aperto de mo ele se foi e Aline suspirou feliz. Foi logo ver a cozinha, abriu a geladeira olhando curiosa os alimentos.
Na parede havia um porta-chaves pintado com motivos culinrios, onde estavam dois chaveiros com chaves. Ao lado, um outro com lugar para correspondncia. Dentro 
havia um papel que ela apanhou e leu. Eram algumas regras de convivncia dos moradores e algumas instrues para o manuseio dos aparelhos eltricos.
Aline sentiu fome, mas queria tomar um banho antes de comer. Foi para o quarto, abriu as malas, apanhou o que precisava e foi ao banheiro.
O perfume gostoso do lugar e as novidades que observava davam-lhe uma grande sensao de liberdade.
Parecia estar sonhando. Finalmente estava livre para viver todos os seus sonhos. Dali para frente, tudo seria diferente. Novos amigos, novos ambientes, nova vida.
A gua jorrava sobre seu corpo e ela sentia-se feliz. Quando saiu do banheiro, estava renovada. Todo o cansao da viagem havia desaparecido.
Ela foi para a cozinha pensando:
- Vou comer alguma coisa e sair para dar uma volta.
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Havia po de forma, queijos e manteiga. Abriu as gavetas do armrio, adorou a loua, os copos, tudo. Arrumou a mesa, com um jogo americano, colocou vrias iguarias 
sobre ela e sentou-se para comer.
Era um lanche simples, mas para Aline era como se fosse um banquete.
Depois de comer, apanhou algum dinheiro e saiu. O dia estava quente e o sol forte. Ao passar por uma loja, Aline entrou pensando em comprar uns culos escuros.
Havia deixado o seu no Brasil na certeza de que em Miami encontraria um mais bonito.
Notou que as pessoas vestiam-se de modo descontrado e em matria de moda havia de tudo.
Passou pelo mercado que Michael lhe indicara e entrou para conhec-lo.
O calor era forte e ela tomou um sorvete. Depois continuou andando, entrando nas lojas que lhe agradavam.
At que, sentindo-se cansada, comprou algumas revistas e resolveu voltar para casa.
O sol ainda estava alto e ela no sabia que horas eram, pois no havia ainda acertado seu relgio.
Quando chegou no saguo do seu prdio, viu que o relgio de l marcava apenas sete horas. Acertou o seu e subiu para o flat.
Havia comprado alguns petiscos, comeu um pouco, tomou refrigerante e sentou-se na sala para ver televiso.
Lembrou-se de Marcelo e sentiu uma sensao desagradvel. Certamente ele estaria triste, inconformado.
Suspirou pensativa. Apesar de no querer mago-lo, pensava que havia sido a melhor soluo. Ela no o amava mais e no seria justo fingir um sentimento que no tinha.
Ele sofreria a princpio, mas como no sabia onde encontr-la, com o tempo a esqueceria.
O esprito de Marcelo, que a havia seguido durante todo o tempo, aproximou-se. Ela estava pensando nele. No havia feito isso durante o dia inteiro.
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Havia momentos em que ele se sentia atordoado, as dores voltavam e ele recostava-se para descansar. As imagens misturavam-se em sua cabea, mas apesar disso ele 
pensava que acontecesse o que acontecesse ele no poderia perd-la de vista.
Sua prioridade era ficar ao lado dela. Tinha esperanas de que em algum momento ela o pudesse ver ou ouvir.
s vezes duvidava que tivesse morrido naquele acidente. Ele ouvira dizer que estava morto, mas ento porque desejavam lev-lo a um hospital? Porque ele sentia-se 
vivo, apalpava-se percebendo os msculos de seu corpo?
Sabia que alguma coisa diferente havia lhe acontecido, mas no tinha certeza de nada.
Sentindo que ela pensava nele aproximou-se esperanoso e procurou ouvir seus pensamentos.
-  Eu preferia ter conversado com ele, explicado meus motivos. Foi cruel fugir e deixar apenas uma carta. Mas se eu houvesse conversado, seria pior, ele no aceitaria 
e faria tudo para me impedir de vir.
- Porque voc insiste em querer me deixar? Voc  minha. Eu nunca vou deix-la fazer isso. Ficaremos juntos para sempre - disse ele abraando-a.
Aline no ouviu o que ele lhe dizia, mas sentiu um arrepio desagradvel.
-  melhor que eu esquea este assunto. Ele no sabe onde estou, ter que se conformar. Um dia ainda me agradecer por haver sido to sincera.
-  Nunca, Aline. Jamais me conformarei com seu abandono. Eu nunca a deixarei.
Sem ouvir o que ele dizia, Aline continuou pensando:
- Eu no poderia ficar vivendo com ele sem amor. Quando o amor acaba o melhor  separar. O nosso acabou. No tem volta.
Marcelo beijou-a vrias vezes na face dizendo aflito:
- Como pode dizer isso? Ns nos amamos. Juramos pertencer um ao outro para sempre.
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Ele agarrou-se mais a ela soluando e Aline sentiu forte tontura. Sua respirao ficou difcil e ela levantou-se assustada tentando respirar fundo. Foi at a cozinha. 
Suas mos tremiam e as pernas estavam bambas.
Apanhou um copo, colocou gua e tomou alguns goles tentando reagir. Talvez fosse cansao. Vivera muitas emoes em pouco tempo. Resolveu se deitar.
Vendo que ela no estava bem, Marcelo largou-a fitando-a preocupado.
Ela sentiu-se melhor e resolveu se deitar. Precisava estar bem disposta no dia seguinte. Vestiu o pijama, lavou-se e mergulhou prazerosamente na espaosa cama. Apesar 
de excitada com a viagem, a cama era macia, ela estava cansada e logo adormeceu.
Acordou bem disposta na manh seguinte e levantou-se apressada. Michael foi pontual, quando tocou a campainha eram oito horas e Aline estava pronta.
Foram imediatamente para a empresa. L, Aline foi apresentada ao Doutor Edward, seu chefe e a alguns dos seus colegas com os quais teria contato mais direto.
Tratava-se de uma empresa de comrcio exterior importando produtos do mundo todo, suprindo o mercado interno e exportando os excedentes.
Aline fora contratada para fazer parte da equipe do Doutor Edward, um dos diretores e scio da empresa. A chefe de pessoal conduziu-a a sala onde deveria trabalhar.
- Por enquanto voc vai dividir a sala com a Rachel. Vocs j foram apresentadas.
A moa alta, magra e muito elegante aproximou-se sorrindo;
- Seja bem vinda.
- Obrigada. - respondeu Aline.
Janet, a chefe de pessoal entregou-lhe um livreto dizendo:
- Aqui voc encontrar todas informaes que dever saber sobre nossa empresa. Se no entender alguma
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coisa, pode procurar-me. Ha algumas facilidades que nossa empresa oferece s pessoas como voc.
- Quais?
-Alm das que voc j foi informada, o financiamento de um carro com juros baixos e bom prazo para pagar.
Satisfeita com a novidade e interessada em aprender tudo rpido e realizar um bom trabalho, Aline dedicou-se inteiramente s novas tarefas.
Tratava-se de uma empresa importante e o cargo que ela ia ocupar junto  diretoria lhe proporcionava alm do timo salrio, alguns privilgios.
Aline simpatizou com Rachel desde o primeiro momento. Alm de mostrar-se cordial, olhava direto em seus olhos quando falava, agia com naturalidade e notava-se que 
era muito eficiente.
Michael havia lhe contado que Rachel trabalhava naquele posto h mais de cinco anos e era a secretria predileta do presidente da empresa, pois cuidava de todos 
os seus assuntos pessoais.
O dia passou depressa e na sada Rachel ofereceu uma carona.
- No se incomode - respondeu Aline um pouco acanhada - sei como voltar para casa.
Ela notou o constrangimento da outra e explicou:
- Eu moro pouco depois de voc. De qualquer forma terei que passar pela sua casa. Ser uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor.
- Nesse caso, aceito. Estou querendo mesmo fazer amigos.
Durante o trajeto, Aline ficou sabendo que Rachel era divorciada e tinha um filho de oito anos que ela mencionava com entusiasmo.
- E voc, no tem filhos?
- No. Mas acho que foi melhor assim, fui casada sete anos, mas acabamos de nos separar. Com criana, tudo fica mais complicado.
Rachel pensou um pouco depois respondeu:
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- Tudo depende da maneira como voc faz isso. John  um menino inteligente, entendeu nossas razes e aceitou bem a situao. Para mim foi bom porque ele  muito 
ligado a mim,  um excelente companheiro.
Aline suspirou pensando em sua famlia. Como teriam recebido sua partida?
Rachel olhou-a rapidamente e continuou:
-  a primeira vez que voc vem a Miami?
- . Eu nunca havia viajado para fora do meu pas.
- Admiro sua coragem. E uma mudana radical. No vai sentir falta de sua famlia?
- Talvez. Mas desde criana eu sonhava vir trabalhar nos Estados Unidos.
- O que esperava encontrar aqui?
- No sei. Houve poca que chegou a ser fixao. Eu no pensava em outra coisa. Por isso dediquei-me ao estudo do idioma, costumes etc.
- Sei que em muitos pases os jovens tm esse sonho. Mas voc acha que vale a pena, abdicar do pas de origem, onde esto as razes de famlia, o ambiente onde foi 
educada para se aventurar em um lugar estranho onde no conhece ningum, e no sabe o que vai encontrar?
- Achei que valia a pena tentar. Eu no me iludo quanto  vida aqui. Sei que se no trabalhar duro, no der o melhor de mim no terei sucesso. Mas eu quero pelo 
menos experimentar. Se no gostar, voltarei para o meu pas.
-Voc me parece determinada. Penso que vai gostar de viver aqui.
- Por enquanto estou adorando. Estava precisando mudar, eu vivia em uma rotina que com o tempo tornou-se insuportvel. Quando no agentei mais, virei a mesa, aceitei 
a oferta de emprego e vim para c.
- Assim? De repente?
- Foi. Preparei tudo sem ningum saber. Deixei uma carta para meu marido e vim embora.
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-  Pensei que fosse corajosa, estou vendo que nem tanto.
- Agi assim no por falta de coragem, mas por pacincia para lidar com o apego de Marcelo. Ele no fazia nada sem mim. Jamais aceitaria nossa separao. Faria drama, 
iria insistir, me perseguir. Ento, vim embora sem dizer a ningum onde estou. No podendo me encontrar, ele acabar aceitando a separao, e quando isso acontecer, 
faremos o divrcio.
Rachel olhou-a sria e considerou:
- Voc deve saber o que est fazendo. Espero que tudo saia como deseja. Chegamos.
O carro parou diante do prdio e Aline convidou:
- Quer entrar, tomar alguma coisa?
- Obrigada, agora no d, preciso pegar John no colgio. No posso me atrasar.
Aline no insistiu. Agradeceu e se despediu. Subiu para o apartamento pensando nos acontecimentos do dia.
Eram quase sete horas, mas o sol, embora no to forte, ainda no havia se escondido. Entrou em casa alegre, pensando como iria gastar sua noite.
Gostaria de sair, conhecer a cidade, ver coisas novas, mas pensou melhor e resignou-se a dar uma volta pelas redondezas e procurar um lugar para jantar.
Tomou um banho, arrumou-se e saiu. Estava comeando a escurecer e ela caminhou pelas ruas observando as pessoas, olhando as vitrines, acabou entrando em uma livraria.
Circulou por l entretida, pensando em comprar um livro quando uma moa se aproximou dizendo:
- Posso ajud-la?
- Obrigada, se eu encontrar alguma coisa que me interesse, irei procur-la.
- No sou vendedora. Meu nome  Ruth. Sou a relaes pblicas do Instituto Ferguson. Pensei que tivesse vindo por causa da palestra do Doutor William Morris.
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Aline interessou-se:
- Quando ser essa palestra?
- Logo mais, s nove horas no auditrio do primeiro andar.
-  Estou morando na cidade apenas h trs dias. No conheo esse Instituto. O que se estuda l?
- Paranormalidade. O Doutor Ferguson  um cientista que h muitos anos estuda esse assunto. Comeou a pesquisar desde que perdeu sua nica filha em um acidente.
- Sou brasileira e no meu pas esse assunto  muito discutido. Alguns acreditam, outros no.
- E voc, de que lado est?
- De nenhum. Nunca pensei muito a respeito. Ruth pegou um carto e entregou-o dizendo:
- Se um dia voc se interessar e quiser conhecer as pesquisas do Instituto sobre isso, procure-nos. Temos vrios cursos a esse respeito e muitas provas da continuidade 
da vida aps a morte, conseguida em anos de trabalho.
- Nunca pensei que existisse aqui quem se dedicasse seriamente a esse assunto.
Ruth sorriu e respondeu:
- Por que no? Afinal, todos vamos morrer um dia e enfrentar o outro lado da vida. Com conhecimento, tudo ficar mais fcil.
Aline sentiu um arrepio e pensou:
- Pois eu no quero me envolver com isso. Sorriu tentando dissimular o que sentia e perguntou:
- A palestra de hoje  sobre que tema?
-Vida aps a morte. Estaro presentes dois mdiuns muito bons que vo trabalhar com as pessoas presentes. Se quiser ir, tenho apenas mais dois lugares.
Aline hesitou e Ruth sugeriu:
- Talvez seja til para voc assistir. Sinto que vindo para c sua vida mudou radicalmente. Muito mais do que imagina. Veio buscar uma coisa e talvez encontre outra.

Aline olhou-a admirada:
-  Como sabe que mudei minha vida? Voc no me conhece.
- Eu sinto. Voc est precisando de ajuda espiritual.
- No  verdade. Estou muito feliz por estar aqui. Agradeo seu interesse, mas est enganada. Obrigada pelo convite e boa noite.
Aline deu as costas e saiu.
Ruth acompanhando-a com os olhos pensou:
- Que pena! Seria melhor ter aceitado meu convite. Aline deixou a livraria inquieta. Como Ruth sabia o
que estava acontecendo na sua vida? Isso no era possvel. Ela dissera aquelas palavras porque estava interessada que ela assistisse aquela palestra e pagasse o 
convite.
Acertara por acaso. Nunca se sentira to feliz. Tinha certeza de que trabalhando direito, faria carreira, ganharia dinheiro, encontraria amigos.
Continuou caminhando e, ao passar por um restaurante de aspecto agradvel, viu que estava cheio e pensou:
- A comida deve ser boa.
Entrou, acomodou-se. As pessoas conversavam alegres e Aline sentiu-se  vontade. Pediu a comida, enquanto esperava olhou em volta.
Trs rapazes na mesa vizinha a olhavam com insistncia e ela fingiu no perceber. A garonete trouxe a comida e ela comeou a comer com apetite.
Quando terminou, um dos rapazes, segurando um copo de vinho aproximou-se dizendo:
- Meu nome  Robert e o seu? Aline sorriu:
- Aline.
- Pronto, estamos apresentados. Posso me sentar?
- Pode.
Ele era alto, louro, olhos azuis, cabelos encaracolados, rosto fino e quando sorria parecia um menino.
- Eu e meus amigos jantamos aqui com freqncia e  a primeira vez que a encontramos. Onde se escondia?
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Aline sorriu novamente:
-  a primeira vez que venho aqui. Sou brasileira, cheguei h poucos dias.
- Nesse caso, fao questo de mostrar-lhe nossa cidade.
Fez um sinal para os dois amigos que imediatamente se aproximaram sorrindo. Robert fez as apresentaes:
- Steve e Roy. Esta  Aline, veio do Brasil. Depois dos apertos de mo, eles se sentaram. Steve
no era to alto como Robert, ombros largos, olhos castanhos e cabelos lisos. Roy era magro, alto, cabelos escuros, pele morena, lbios grossos e quando sorria exibia 
dentes alvos e bem distribudos.
Aline notou logo que eram rapazes bem educados e gentis. Convidaram-na para irem a um bar onde havia msica, mas Aline recusou:
-  tarde, preciso ir para casa. Amanh levanto cedo para trabalhar.
A conversa foi agradvel, eles falando sobre coisas da cidade e fazendo perguntas sobre o Brasil, que eles no conheciam.
Aline pediu a conta, pagou e levantou-se:
- Adorei conhec-los. Vocs so as primeiras pessoas, alm dos meus colegas de trabalho, com as quais tive o prazer de conversar. Mas, preciso ir.
-  cedo. Fique um pouco mais - pediu Robert.
- No posso.
- Gostamos de voc - disse Steve - gostaramos de mostrar-lhe a cidade.
- No faltar oportunidade - prometeu ela.
Eles trocaram telefones e Roy tornou com ar misterioso:
- No nos esquea. Esta cidade  perigosa para moas bonitas e sozinhas. Est cheia de conquistadores inveterados. No vamos deixar que caia na lbia deles. Temos 
orgulho de ser seus primeiros amigos e acredite, vamos tomar conta de voc direitinho.
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-  verdade. - concordou Robert - Queremos apresentar-lhe algumas amigas. Gente boa, voc vai gostar.
- Nada de apresentar marmanjo. - disse Steve.
- Voc est de carro? - perguntou Robert.
- No.
- Nesse caso vamos lev-la at em casa.
- No  preciso. Moro perto e gosto de andar.
A custo eles a deixaram sair. Aline caminhou contente de volta para casa. Tudo estava correndo conforme ela havia desejado. Estava conhecendo pessoas, fazendo novos 
amigos.
Chegou, foi preparar-se para deitar. Passava das onze e ela estava com sono.
O esprito de Marcelo a olhava com raiva. Ela estava passando dos limites permitindo que outros homens a assediassem.
Ele bem viu que os rapazes a olhavam com admirao. Principalmente Robert, que se sentira muito atrado por ela.
Enquanto eles conversavam, Marcelo ficou atrs dela, prestando ateno a tudo. Pronto para reagir se eles tentassem se aproximar mais.
Felizmente isso no aconteceu. Mas ela estava toda sorrisos, gostando de estar com eles, como se fosse uma mulher livre, no tivesse marido.
Marcelo desejava falar com ela. Dizer o que estava sentindo. Mas ela no o escutava. Quando isso acontecia, ficava desesperado.
Porque ela no o ouvia? Estaria morto mesmo? Nesse caso, porque sentia a rigidez do seu corpo, as dores dos seus ferimentos?
Ele notara que, quando se desesperava, essas dores aumentavam de maneira insuportvel. s vezes desejava procurar um mdico, mas imaginava que se sasse de perto 
de Aline, poderia perd-la de vista. Isso ele no queria.
Aline adormeceu e ele deitou-se ao lado dela, tentando acalmar-se. Foi ento que viu o esprito de Aline
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sair pela cabea de seu corpo adormecido e ficar em p ao lado da cama.
Imediatamente Marcelo levantou-se e a chamou angustiado:
- Aline! Aline. Sou eu, Marcelo. Estou aqui.
O esprito de Aline fixou os olhos nele assustada:
-  Marcelo! O que faz aqui? Porque est ferido desse jeito?
-  Foi o acidente! Voc me deixou, mas eu estou novamente aqui. Nunca a deixarei! Voc  minha.
Aproximou-se dela, querendo abra-la. Aline no suportou. Atirou-se sobre seu corpo adormecido, acordou gritando apavorada:
- Que horror! Isso no  verdade! Foi um pesadelo. Quando conseguiu se mexer, sentou-se na cama,
corao batendo descompassado, sentindo arrepios pelo corpo.
Acendeu a luz, olhou em volta e procurou se acalmar. Havia sido apenas um pesadelo. Foi  cozinha, tomou um copo de gua, e voltou para o quarto.
Lembrou-se do sonho no avio onde Marcelo havia aparecido ferido, igual ao que sonhara agora.
Era muita coincidncia. Teria acontecido alguma coisa com ele? Ela no deixara endereo nem se comunicara com sua famlia. Queria dar um tempo para que ele se acalmasse 
e no viesse atrs dela, pedir para voltar.
Aline ficou com medo de apagar a luz e dormir. Deixou a luz do abajur acesa, deitou-se novamente. Mas a lembrana da presena de Marcelo, ferido, cheio de sangue, 
falando em acidente, no a deixava em paz.
Tentou se acalmar. Talvez ela no fosse to corajosa quanto gostaria e estivesse se sentindo culpada por haver fugido dele daquela forma.
Esses sonhos poderiam ser fruto de sua prpria imaginao, por sentir culpa.
Mas quando pensava nele, sentia-se angustiada, inquieta, aflita.
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- No posso continuar assim - pensou - Preciso saber se tudo est bem com ele. Amanh cedo vou ligar para mame e saber como ele est. Mas no vou dar meu endereo.
Tendo resolvido isso, sentiu-se mais calma, mas ainda assim, o dia estava clareando quando ela, vencida pelo cansao, adormeceu
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IV

Por ter dormido pouco, Aline acordou tarde na manh seguinte. Pretendia ligar para casa de seus pais, saber se estava tudo bem, mas estava atrasada e no queria 
chegar tarde ao trabalho.
A lembrana de Marcelo ferido no lhe saa do pensamento. Sentia-se ansiosa, angustiada. Queria ligar logo, mas teria de esperar pela hora do almoo.
Foi trabalhar e para ela o tempo custou a passar. Rachel notou a inquietao dela e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa? Voc parece nervosa.
- D para notar?  que dormi mal esta noite. Tive um pesadelo horrvel.
- Voc ficou impressionada.
- Fiquei. Tanto que na hora do almoo vou ligar para casa de meus pais, saber se tudo est bem.
- Tem sonhos que parecem verdade.
-  Foi to real que cheguei a temer que estivesse acontecendo mesmo.
- Porque no liga logo?
- No posso ligar daqui.
-  Basta informar a telefonista. Ela far a ligao. A taxa ser descontada do seu salrio.  praxe.
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- Nesse caso vou pedir a ligao.
Ela acessou a telefonista e deu as indicaes. Pouco depois Aline reconheceu a voz de sua me:
- Me, sou eu, Aline.
- Aline, minha filha! Onde voc est? O que voc fez?
- Estou ligando para dizer que estou bem. Mas pensando muito em vocs, principalmente em Marcelo. Como ele est?
Por alguns segundos, Dalva guardou silncio. Aline sentiu seu receio aumentar:
- Ento me, Marcelo est bem?
- No filha. Infelizmente aconteceu uma coisa horrvel. Ele sofreu um acidente de carro... - a voz de Dalva estava trmula e ela parou um pouco para criar coragem.
- O que, um acidente? Fala me, como ele est?
- Ele ficou muito ferido e no resistiu. Foi enterrado h dois dias.
Aline empalideceu, o telefone escorregou de suas mos e ela desfaleceu sobre a mesa.
Rachel correu para ela e ouviu a voz do outro lado do fio que gritava:
- Aline, Aline, minha filha, fale comigo!
Sem entender o que estava ouvindo, Rachel segurou o telefone e disse:
- Sorry, I don't speak portuguese - e desligou. Depois discou para o departamento pessoal pedindo
ajuda. Enquanto esperava, tentou reanim-la batendo levemente em seu rosto, chamando:
- Aline, Aline, acorde. Volte.
Pouco depois o mdico da empresa apareceu na sala:
- Ela estava falando com uma pessoa da famlia, deu um grito e desmaiou. Deve ter recebido uma notcia ruim.
Pouco depois ela suspirou e comeou a voltar a si. Ao lembrar-se das palavras de sua me, no conseguiu conter o pranto.
Rachel segurou a mo dela com carinho e perguntou:
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- O que aconteceu, Aline?
-  No foi um pesadelo Rachel. Foi verdade. Meu marido morreu em um acidente de carro.
O mdico que as observava interveio:
- Ela est muito nervosa.  melhor ir para casa.
- Nunca pensei que isso pudesse acontecer - disse Aline sem conter as lgrimas - Preciso ligar de novo e saber como foi.
O mdico tornou:
- Voc at pode fazer isso, mas no momento ser melhor se acalmar. Vou dar-lhe um calmante. V para casa, deite-se e tome o remdio. Voc est muito abalada. Precisa 
descansar.
- Eu sinto muito. No queria incomodar ningum.
- Em um caso como o seu a empresa oferece uma semana de descanso. Vou assinar a ordem.
- Obrigada, doutor, mas no quero ficar tanto tempo. Sou nova na empresa.
-  uma regra geral. Voc perdeu o marido, portanto tem direito a essa pausa. Aproveite esse tempo para se refazer e se sentir melhor. - Voltando-se para Rachel, 
ele continuou:
-  bom algum acompanh-la at em casa.
- Eu mesma irei. Vou avisar Mary para atender Mr. Morris em meu lugar.
- No precisa se incomodar - balbuciou Aline. -Vou tomar algumas providncias, iremos em seguida. Aline sentia a cabea atordoada, o estmago enjoado, e as pernas 
bambas.
Deixou-se levar sem dizer nada. Durante o trajeto, chorava baixinho, e repetia de vez em quando:
- Era ele! Foi verdade. Era ele! Meu Deus, que horror! Preciso ligar, saber como foi.
- Acalme-se. Chegando em casa voc liga novamente. Pode ser que no tenha entendido direito.
- Ouvi muito bem. Minha me disse que ele sofreu um acidente de carro e morreu.
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- Se for isso, ter que se conformar. A morte  irreversvel.
- A culpa  minha! Eu no conversei com ele, fugi, o abandonei. Ele ficou louco, vai ver que no foi acidente. Ele pode ter feito de propsito.
- No exagere. Sua me no disse que foi um acidente? Ela no respondeu, continuou chorando. Quando
chegaram em casa ela imediatamente ligou para me, que atendeu aflita:
- Filha, onde voc est? Fiquei desesperada com tudo isso, sem saber onde encontr-la. Foi horrvel. O que deu em voc? Por que fugiu dessa forma?
- Me, voc sabe que eu desde criana desejava morar no exterior.
-  Mas voc no podia fazer isso. Abandonar um marido bom, que a amava. Onde estava com a cabea? Seu pai no se conforma.
- Me, nunca pensei que isso pudesse acontecer. Como foi o acidente?
- Ele virou uma esquina e no viu o caminho que manobrava. Bateu de frente. As testemunhas do acidente dizem que ele estava dirigindo em velocidade. Morreu na hora. 
Ns ainda no nos recuperamos do choque.
- Dona Ivone e Seu Joo devem estar desesperados.
- Tanto eles como Mrcio no se conformavam. Quando soubemos eu e seu pai fomos ao velrio e eles nos trataram mal. Encontraram sua carta no bolso de Marcelo. Principalmente 
Seu Joo, no se conformava de perder o filho. Marcelo era o orgulho dele. Seu pai tentou conversar, dizer que ns no sabamos porque voc o havia deixado. Mas 
acho que eles no acreditaram. Queriam que eu ligasse para voc, a chamasse. Mas eu no sabia onde encontr-la.
Aline soluava desalentada.
- Me, eu nunca podia imaginar essa desgraa.
- Porque no me procurou, contou o que se passava. Ele fez alguma coisa que a desagradou?
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- Ele no fez nada. Eu  que cansei da rotina, queria mudar de vida. Algumas vezes tentei convenc-lo a vir para c, mas ele nunca me levou a srio.
- Mas voc se casou por amor.
-  verdade, mas depois percebi que no o amava mais.
- Voc arranjou outro? Foi por isso que fugiu sem dizer nada?
- No, me. Nunca tive outro. Ofereceram-me um bom emprego aqui em Miami e eu quis vir.
-  Se voc tivesse nos contado, teramos evitado essa loucura.
- No contei exatamente por isso.
-  melhor arrumar suas coisas e voltar o quanto antes.
- Quando eu soube, desmaiei. Estava na empresa trabalhando. O mdico me deu um calmante e uma semana de folga para me refazer.
- Seu lugar  aqui, no seu pas, junto com sua famlia. Tome o primeiro avio e volte para casa.
-  No, me. Vou descansar conforme o mdico mandou e pensar o que fazer.
- Volte. Estamos sentindo muito a sua falta.
- Agora vou desligar. O calmante que tomei est fazendo efeito. Vou me deitar. Depois eu ligo.
- Quero o nmero do seu telefone.
- Vou me deitar. Quando me sentir melhor, voltarei a ligar. Sinto muito tudo o que aconteceu. At amanh.
Ela desligou antes que Dalva tivesse tempo de dizer mais alguma coisa. Rachel a observava e perguntou:
- E ento, como foi? Aline contou e finalizou:
- Estou me sentindo culpada. Se eu no o tivesse abandonado, nada disso teria acontecido.
- Como pode saber? Eu acredito que a morte no acontece por acaso. Voc no teve culpa de nada. Foi um acidente.
- Foi. Mas ele sempre dirigiu com cuidado. Entrar em uma rua em velocidade, sem olhar, ele nunca faria
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se estivesse em estado normal. Ele estava desesperado.
- Agora  melhor se deitar, tentar dormir, esquecer. No adianta ficar sofrendo por uma coisa que no pode remediar.
- Tenho medo. Ele me apareceu, no avio, no sonho, ferido, o sangue escorrendo em vrios lugares. Como pode ser isso? Ele est morto!
Rachel ficou calada sem saber o que dizer. Aline lhe contara o sonho, antes de saber a verdade.
No podia duvidar do que ela estava dizendo. Tentou justificar:
- Pode ser coincidncia. Voc estava preocupada por haver sado sem se despedir, e imaginou esse drama. Os mortos no voltam.
-  Era ele. No avio ele disse: "Aline, finalmente a encontrei. No me deixe nunca mais. Diga que ficar para sempre a meu lado!"
Rachel sentiu um arrepio percorrer seu corpo e respondeu assustada:
- Voc no pode dar fora a esse pensamento. No devemos evocar os mortos.
- Eu no o estou evocando. Sequer sabia que ele havia morrido. Repito, a alma dele veio atrs de mim.
- Que horror! No se deve mexer com essas coisas.  melhor dormir, descansar, recuperar a calma e tentar esquecer. Nenhuma atitude sua o trar de volta.
- Eu queria pelo menos no sentir tanta culpa.
- Voc est fragilizada. O que pensa fazer? Vai voltar para o Brasil?
- Penso que no. Agora tenho mais razo para ficar por aqui. Nas frias, se sentir saudade irei visitar minha famlia.
- Como se sente?
- Com sono.
- Voc vai dormir e eu vou embora. Se precisar de alguma coisa, voc tem todos os meus telefones. Pode ligar a qualquer hora.
- Obrigada.
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Ela se foi, e Aline, depois de acompanh-la at a porta, foi para o quarto, trocou de roupa, deitou-se.
Apesar de sonolenta, a figura de Marcelo ferido, sangue escorrendo, no lhe saa do pensamento.  que o esprito dele estava l, sentado na beira da cama, deprimido, 
triste, desanimado.
Era verdade. Ele estava morto. Por uma razo desconhecida, sentia-se vivo, suas feridas ardiam, seu corpo doa quando se movimentava e o sangue apesar de estar escorrendo, 
no caa.
A princpio ele queria estanc-lo achando que perderia os sentidos quando ele se acabasse. Mas depois notou que embora ele continuasse escorrendo no o estava perdendo.
Marcelo seguira Aline o tempo todo. Vira quando ela ligara para a me e desmaiara.
Emocionado pensou:
- Ela ainda me ama. Est sofrendo por causa do acidente.
Apesar da sua tristeza confirmando que estava morto, Marcelo sentiu certa satisfao por ela estar se culpando.
-  isso mesmo. Ela  a culpada de tudo. Se eu no estivesse to fora de mim no teria provocado o acidente. Ela  a nica culpada. Agora ela vai perceber que nunca 
ser feliz longe do meu amor. Foi preciso que eu morresse para que ela pudesse avaliar o quanto nos amamos e a falta que farei em sua vida.
Chegou mais perto de Aline que havia adormecido e acariciou seus cabelos dizendo:
-  Nunca vou deixar voc. Ficarei a seu lado para sempre. Um dia, voc vai morrer e estarei esperando.
Ele sentiu-se cansado, deitou-se ao lado dela na espaosa cama, tentou abra-la, mas suas mos atravessavam o corpo dela. Apesar disso, aconchegou-se mais que pode 
e ficou ali, triste e ao mesmo tempo satisfeito por estar ao lado dela.
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Aline dormia profundamente, seu esprito descansava nas brumas da inconscincia provocada pelo calmante fortssimo que o mdico lhe dera.
Dalva desligou o telefone aflita, deixando que as lgrimas rolassem por sua face. No se conformava com aquela desgraa.
A notcia da fuga de Aline e do acidente do genro cara como uma bomba sobre a famlia que at ento ela considerava feliz e bem constituda.
Arete aproximou-se dela dizendo nervosa:
- Era Aline novamente?
- Era.
- Ela contou porque fez isso? Disse onde est?
- S sei que est nos Estados Unidos. Ela est louca. Sempre com aquela mania de ir morar l. Pensei que depois do casamento houvesse esquecido essa bobagem.
- Ela nunca esqueceu. Eu temia que um dia ela fosse embora. Em que lugar est e com quem?
- Ontem, Seu Joo insinuou que ela deve ter fugido com outro. No  verdade. Ela foi trabalhar.
- Dona Ivone me disse a mesma coisa. Eles acham que ela se apaixonou por outro. Voc acha que isso pode ter acontecido?
- No creio. Ir trabalhar, morar l, sempre foi o sonho dela desde pequena.
- Nesse caso nunca deveria ter se casado.
- Quando ela se apaixonou por Marcelo pensei que houvesse desistido desse sonho bobo. Mas no. Agora, ela est l, cheia de culpa, chorando. Deve ter se arrependido 
do que fez. Mas agora  tarde, a desgraa est feita. Eu disse para ela vir embora.
- Ser que ela vai voltar? -Seria o melhor.
- No sei. Aqui ela sofreria ainda mais. A famlia, o scio dele, os amigos, todos a esto culpando pela morte dele. Se eu fosse ela, ficaria por l, pelo menos 
mais algum tempo.
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- Ela disse que ia pensar, mas eu prefiro que ela venha. Junto da famlia, estar melhor.
- Ela deu o endereo, o telefone?
- No. Ela estava atordoada porque quando falou comigo a primeira vez, desmaiou. O mdico da empresa a atendeu, e sabendo da ocorrncia deu-lhe um calmante forte. 
Mandou-a para casa e uma colega a levou. Ficou de ligar quando estiver melhor.
As lgrimas desciam pela face de Dalva e Arete abraou-a comovida dizendo:
- Me, estamos chocadas, mas no podemos fazer nada. Temos que nos conformar.
- Ela jogou a felicidade fora, foi castigo.
- No diga isso, me. Ela foi embora porque no amava mais o marido. Penso que ela nunca o amou de verdade. Estava infeliz.
-  No posso entender. Estavam casados h sete anos, ele sempre foi um marido maravilhoso.
- Mas ela no o amava.
- No deveria ter fugido daquele jeito.
- Se ela houvesse contado a Marcelo o que pretendia, talvez houvesse sido pior. Do jeito que ele era agarrado nela. Eu at penso que foi esse apego dele que a fez 
enjoar da sua companhia. Eu no gostaria de ter um homem meloso, agarrado a minha saia.
- Voc no sabe o que est dizendo. A vida no  como voc pensa. O Amor no  aquele sonho maravilhoso e o prncipe encantado nunca existiu. Muitas mulheres gostariam 
de ter um marido apaixonado como ele.
- O que me incomoda, me,  que agora todos vo culp-la. Mas pensando bem, quem estava dirigindo o carro era ele, ela nunca imaginou que isso pudesse acontecer.
-  No gosto quando voc fala essas coisas. No entendo sua frieza diante dessa tragdia.
- No  frieza. Sempre que acontece um acidente como esse ao invs de lamentar a ocorrncia, as pessoas logo procuram um culpado para atirar sobre ele o peso da 
situao.
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- Mas ela era a culpada. Se no houvesse fugido, Marcelo ainda estaria vivo.
- Quem garante isso, me? Se havia chegado a hora dele morrer, isso aconteceria de um jeito ou de outro. Eu penso que Aline no dever voltar, pelo menos por enquanto. 
J basta para ela carregar o peso dos acontecimentos. Se fosse eu, nunca mais voltaria.
- E voc reclama quando eu digo que  fria, no tem sentimentos. Seria capaz de abandonar seus pais e ficar para sempre longe da famlia?
-  No falei em abandono. Quando a saudade batesse, enviaria passagens para que fossem ficar comigo algum tempo.
- Espero que voc tambm no esteja pensando em nos abandonar.
- Por enquanto no. Mas quem sabe o que nos reserva o futuro?
- No diga isso nem por brincadeira. J chega uma filha desmiolada.
Arete sorriu e respondeu:
- Pois se eu me casar com um homem bem rico, como pretendo, irei viajar pelo mundo, conhecer outros pases, voc ter de se conformar.
A campainha tocou e Arete foi abrir. Rodrigo, scio de Marcelo estava na soleira.
- Precisamos conversar - disse srio.
- Entre, Rodrigo.
Ela conduziu-o at a sala e pediu que se acomodasse e tornou:
-  Meu pai ainda no chegou da loja. Vou chamar mame.
Assim que Dalva entrou e o viu, recomeou a chorar. Ele levantou-se, abraou-a dizendo:
- Sei que esto muito chocados com o que aconteceu e que talvez eu devesse esperar um pouco mais para vir conversar com vocs. Mas eu estou meio perdido, sem saber 
direito o que houve. No tenho conseguido

trabalhar. Pensei que talvez vocs pudessem me dizer alguma coisa.
-  No consigo aceitar o que aconteceu. O Mrio reabriu a loja hoje, mas tambm est perdido - tornou Dalva esforando-se para conter o choro.
- Eu li a carta que Aline deixou, e fiquei muito surpreso. Eles pareciam to felizes. Marcelo vivia para ela. S pensava nela, tudo que fazia era para que ela o 
aprovasse. Porque ser que tomou essa atitude?
Foi Arete quem respondeu:
- Desde pequena Aline tinha vontade de morar nos Estados Unidos. Estudou ingls desde cedo, tanto que ela fala corretamente e sem sotaque. Quando Marcelo se apaixonou 
por ela, a cortejou, ela entusiasmou-se por ele. Ns pensamos que ela houvesse esquecido esse sonho da adolescncia. Mas no foi isso que aconteceu.
- Quer dizer que ela foi para os Estados Unidos? -Foi.
- Com quem? Quem arrumou tudo para ela ir?
- Aline foi sozinha. Pelo que sabemos ela recebeu uma oferta de emprego l e decidiu aceitar.
Rodrigo deixou-se cair no sof e no respondeu logo. Dalva que havia parado de chorar interveio:
- Ela fez tudo sozinha e em segredo. Nenhum de ns sabia o que ela pretendia fazer.
-  difcil acreditar que ela tenha ido embora sozinha. Algum deve t-la encorajado a tomar essa iniciativa.
-  Sei o que todos esto pensando - disse Arete contendo a irritao a custo - Mas ela no traa o marido nem fugiu com homem nenhum. Ela nos ligou ainda h pouco 
da empresa onde est trabalhando. Quando soube do acidente, desmaiou e precisou ser atendida por um mdico.
- No  isso que os pais de Marcelo esto dizendo. Desculpe, no quis insinuar nada. Acontece que ela agiu de maneira estranha.
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Arete disse com voz que a indignao tornava firme:
-  Estou certa de que Aline nunca imaginou que pudesse acontecer o que aconteceu. Est arrasada como todos ns, lamentando esse fato. Sei que vocs todos a esto 
julgando culpada do acidente.  uma injustia. Ela foi embora porque no amava mais o marido e se ela houvesse dito isso a ele, do jeito que era apegado, a desgraa 
poderia ter sido maior. Apesar de tudo o que houve, reconheo que minha irm tem direito de decidir com quem ela deseja viver.
Rodrigo olhou-a como se a estivesse vendo pela primeira vez. Ele no a conhecia bem, apesar da convivncia com Aline e seu scio.
Sentou-se novamente, passou a mo nos cabelos, depois disse com ar preocupado:
-  difcil aceitar a situao. Posso imaginar como Marcelo ficou quando leu essa carta.
Dalva, mais calma interveio:
- E como ns ficamos quando soubemos de tudo. Ele hesitou um pouco, dizendo logo depois:
- Bem, no sei o que dizer. Naturalmente depois do que houve Aline vai desistir desse emprego e voltar. Sabe quando?
- Receio que ela no volte. Quando nos falamos, eu pedi que voltasse. Ela estava muito chocada, chorosa, disse que ia pensar.
- Eu penso que ela vai preferir ficar por l. Depois de tanto esforo para ir porque voltaria? - perguntou Arete.
- Bem, Marcelo era meu scio. De tudo que temos na empresa, a metade era dele. Vim procur-los porque quero conversar com Aline sobre isso. Seu Joo quer que eu 
entregue tudo a ele, mas no posso fazer isso. Por direito, pertence  Aline.
- Eles esto com raiva dela e eu, como me, fico muito triste com isso.
- Eu fico em uma situao incmoda. Mas no posso passar por cima dos direitos de Aline e fazer o que eles
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querem. Vocs no acham?
- Depois do que houve, quero ficar fora disso. Eles acham que Aline  culpada at do acidente, o que de certa forma  uma injustia. Por mim, eles podem ficar com 
tudo.
- No pode ser assim Dona Dalva. Quero fazer o que  direito. Gostaria que me desse o telefone dela para podermos conversar.
- Se eu tivesse o nmero, daria de bom grado. Mas quando ela falou comigo disse que passou mal e o mdico havia lhe dado um calmante muito forte. Ficou de me ligar 
quando estivesse melhor.
- Ento, por favor, assim que souber o nmero do telefone ou o endereo dela, me avise. Quanto  casa onde moravam, os pais dele esto com a chave. A polcia tambm 
lhes entregou os pertences pessoais.
- Assim que tiver notcias, ligaremos para voc.
- Voc vai continuar sozinho com a firma? - indagou Arete.
- Por enquanto vou. Marcelo era muito bom no que fazia. Tenho medo de colocar outra pessoa e me arrepender.
-  Para uma sociedade dar certo  preciso haver muita seriedade e confiana.
-  exato. Bem, vou pensar no que fazer.
Ele levantou-se e ao despedir-se Dalva reiterou sua promessa de ligar assim que Aline desse notcias.
- Esse  outro que ficou sem cho - comentou Dalva - Onde Aline estava com a cabea quando decidiu ir embora?
- No adianta criticar agora. Ele saber se arranjar muito bem sem Marcelo, voc vai ver. Aos poucos tudo acabar indo para seu lugar. Nisso tudo, o pior foi a morte 
de Marcelo. Esse nunca mais voltar.
- Isso mesmo. Esse se foi para sempre.
47II
V

Alguns dias depois, Aline ligou e Dalva atendeu e perguntou:
- Como voc est?
-  Mais calma. Amanh cedo voltarei ao trabalho. Como vo as coisas a?
- Mal, muito mal. Fomos  missa de stimo dia do Marcelo. Seu pai no queria ir. Est ofendido por que os pais dele nos trataram mal. Mas eu insisti. Ele era como 
um filho para ns.
- Vocs foram?
- Sim. Mas eles fizeram de conta que no nos conheciam. Nem nos cumprimentaram. Ento, assim que a missa acabou viemos embora. Nem fomos dar os psames.
-  No fique triste. Eles esto chocados. Quando refletirem melhor, voltaro atrs.
- Seu pai est muito revoltado. Por enquanto ser melhor que eles nem apaream. E voc, quando vai voltar?
- Eu pensei muito e decidi continuar aqui.
- No pode fazer isso. Precisa vir pelo menos para cuidar de suas coisas. O Rodrigo esteve aqui e disse que as chaves de sua casa esto com Seu Joo. Depois Marcelo 
tinha bens, certamente ter que ser feito o inventrio. Voc ter que estar presente.
49
Aline ficou silenciosa durante alguns segundos, depois respondeu:
- No posso voltar agora. Tenho que pensar em meu futuro. No quero perder o emprego. Quero falar com Arete.
Dalva foi chamar e ela atendeu em seguida. Depois dos cumprimentos Aline disse:
- No posso ir para o Brasil agora. Este emprego  muito importante para mim. Depois no estou com cabea para discutir com meus sogros. Eles no vo me poupar. 
Voc pode me ajudar?
- Claro. Estou desempregada e tenho auxiliado papai na loja apenas para no ficar em casa. Tenho todo tempo disponvel. O que voc quer que eu faa?
-Vou redigir uma procurao com amplos poderes em seu nome para que possa cuidar de todos os trmites legais. Tenho certeza que far isso muito melhor do que eu.
- Rodrigo mencionou que a parte de Marcelo na sociedade agora pertence a voc. Vai ser preciso cuidar disso tambm. Ele estava preocupado. Voc sabe que era Marcelo 
quem cuidava de toda parte financeira enquanto que ele ficava mais nos projetos. Ele no quer arranjar outro scio. Tem receio de dar errado. Se voc voltasse, poderia 
trabalhar com ele. Estou certa de que cuidaria de tudo to bem como Marcelo. Depois, estaria cuidando do que  seu ao invs de trabalhar para os outros.
- Eu ainda no estou em condies de voltar. Porque voc no assume isso por mim? Sabe tanto ou mais do que eu de administrao. Tem experincia.
- Voc acha que ele aceitaria?
- Acho que adoraria. Conheo sua capacidade. Combine uma retirada como se fosse eu. Esse dinheiro ficar todo para voc. Estou ganhando muito bem, no preciso de 
nada. Va procurar Rodrigo e diga-lhe que eu gostaria que voc ficasse em meu lugar na sociedade at eu voltar.
- Acha que ele aceitar?
-Acho.

50


Quanto ao problema da casa, Tudo que h l lhe pertence por direito.
- Quando vim embora deixei tudo. Abandonei o lar. No tenho direito a nada.
- Mesmo assim vou conversar com Dona Ivone e ver o que eles pretendem fazer com as coisas.
- Eles vo falar mal de mim, dizer que sou culpada pela morte de Marcelo.
- Foi um acidente. Voc no teve culpa de nada. Eu quero mesmo ter uma conversa com eles.
- Faa o que achar melhor. No quero que se aborrea por minha causa.
- Fique sossegada. Sabe como eu sou. Nada que eles faam ou digam vai tirar meu bom humor. No tenho medo de cara feia nem ligo para o que os outros pensam.
- Eu queria ser como voc. Mesmo sabendo que foi um acidente, h momentos em que me sinto culpada. Afinal, se eu no tivesse fugido ele poderia estar vivo.
- No creio. Para mim a morte tem o momento certo. A dele estava marcada para aquele dia. Se voc tivesse esperado um pouco mais, estaria viva e teria ido embora 
com o aval de todos.
- Como  que eu poderia imaginar uma coisa dessas?
- S se fosse vidente. Alis, voc ligou porque sonhou com Marcelo ferido. Como foi isso?
- Vou escrever contando em detalhes. Nossa ligao est muito longa. Vou deixar meu endereo e telefone. Anote a.
- Pode falar, estou com papel e caneta na mo. Depois de tudo anotado, Aline se despediu:
- Assim que tiver alguma novidade, me ligue.
- No esquea de me escrever contando detalhadamente como foi esse sonho.
- Pode deixar, vou mandar junto com a procurao. D um beijo em mame, diga ao papai que me perdoe e no fique zangado comigo.
Ela desligou e Dalva no se conformava:
51
- Ela tinha que estar aqui para se defender. Eles a esto acusando de adultrio.
- Ela no fez nada e um dia eles descobriro isso. Ela quer que eu assuma o lugar dela no escritrio de Marcelo.
- Pelo menos isso. Segundo sei, Marcelo colocou nessa sociedade muito dinheiro.
- Hoje mesmo vou falar com ele. Se aceitar minha colaborao, trabalharemos juntos.
-  uma boa soluo. Seu pai vai sentir sua falta na loja. Acostumou-se, afinal voc fazia at a contabilidade.
- Posso continuar fazendo isso para ele. Mas preciso ajudar Aline. Ela faz bem em no voltar agora. Para que? Vai se aborrecer ainda mais. Tomar conhecimento dos 
detalhes do acidente, rever sua casa vazia, enfrentar os problemas com a famlia dele, os amigos. L, pelo menos ningum vai lhe cobrar nada.
Dalva suspirou triste:
- Comeo a pensar que voc tem razo. Se eu pudesse tambm iria viajar por algum tempo s para no ouvir os comentrios at das pessoas que se diziam amigas dela.
- Me, voc precisa deixar de se importar com o que os outros dizem. Isso tira seu sossego e no ajuda em nada.
- Voc  fria, no sei a quem saiu.
- Sou controlada, tenho bom senso. Isso no quer dizer que no esteja sentida com o que aconteceu. Mas de nada adianta me preocupar com uma coisa que no tem remdio. 
O mais importante agora  conservar a lucidez para enfrentar a situao procurando resolver sso da melhor forma possvel.
- Ainda bem que voc pensa assim. Eu no tenho essa coragem.
Arete riu pendendo levemente a cabea para trs, em um gesto muito seu.
- Agora vou me arrumar muito bem e ir ao escritrio conversar com Rodrigo. Vou levar meu currculo para que ele saiba onde est entrando.
- Ele j deve saber que voc  boa no que faz.
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- Ele no sabe. Alis, ele sempre foi retrado, nunca procurou estreitar a amizade com nossa famlia. Marcelo falava muito bem dele. S espero que no seja implicante 
nem mal humorado.
- Pelo menos se vocs se entenderem, estar trabalhando de novo.
-  bom. Nesses seis meses em que perdi o emprego, no procurei outro porque queria descansar um pouco. Mas agora, j estava pensando em voltar a trabalhar.
-  bom mesmo que voc v cuidar dos interesses de sua irm. Do jeito que ela est com a cabea  bem capaz de no querer nada o que no  justo. Eles eram casados 
com comunho de bens e mesmo que seus sogros no queiram, ela tem direito a todos os bens.
- Foi por isso que aceitei enfrentar a situao. Vou imediatamente resolver isso.
Pouco depois, Arete desceu as escadas, muito elegante, segurando uma pasta de couro, como convinha a uma executiva.
Dalva no se conteve:
-Voc caprichou!
- A boa aparncia  um quesito indispensvel no trabalho. Liguei para Rodrigo, ele est me esperando.
- Boa sorte. Se encontrar Seu Joo ou a Ivone, fique firme.
- Deixe comigo. Sei como fazer.
Meia hora depois ela chegou ao elegante escritrio e a secretria a conduziu imediatamente  sala de Rodrigo.
Ele encontrava-se em p diante de uma prancha examinando um desenho. Vendo-a entrar, aproximou-se e perguntou:
- Ento, Aline ligou?
- H meia hora.
- Sente-se, vamos conversar.
Com um gesto designou uma poltrona diante da escrivaninha, depois que ela se sentou, ele acomodou-se do outro lado.
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- Como ela est?
- Muito abalada.
- Disse o que pretende fazer?
- No momento no deseja voltar ao Brasil. Vai mandar-me uma procurao com amplos poderes e pediu-me que a representasse em tudo.
Rodrigo passou a mo nos cabelos pensativo e ficou calado durante alguns segundos. Depois tornou:
- E como vai ser? Voc sabe, os pais de Marcelo no se conformam e a culpam pelo acidente. Esse  um assunto muito delicado. No quero entrar nessa discusso. Contava 
que ela viesse e resolvesse diretamente com eles as pendncias.
- Que pendncias?
-  Eles no querem que ela receba nada do que pertenceu ao Marcelo. Esto revoltados. Por outro lado, ela tem seus direitos e eles no querem aceitar isso. Marcelo 
foi mais do que um amigo, era como um irmo, no quero indispor-me com seus pais que esto sofrendo muito essa perda. Talvez se voc lhe explicasse isso ela voltaria, 
nem que fosse apenas para resolver esse assunto.
- Aline avalia sua situao e deseja cooperar para que voc no seja prejudicado. Pediu-me que lhe fizesse uma proposta, se aceitar, tudo estar resolvido.
- Proposta? Como assim?
-Aline pediu-me que enquanto ela no voltasse ao Brasil, eu a substitusse. No apenas nas formalidades legais, mas tambm aqui, na empresa de vocs.
-Voc?
- Sim. Sei que Marcelo cuidava da parte administrativa e financeira da empresa, e que voc no gostava desse setor. Bem, embora eu no entenda de arquitetura, sou 
formada em Administrao de Empresas, tenho oito anos de experincia e sei que posso cuidar muito bem dessa rea.
Arete abriu a pasta de couro, tirou uma pasta e entregou a ele dizendo:
!>
- Aqui est meu currculo. Pode examin-lo. Voc disse que no pretende arranjar outro scio. Se aceitar o que estou lhe propondo, no precisar disso. Aline continuar 
sendo sua scia, tudo estar resolvido. Quando ela decidir voltar, vocs decidiro se desejam continuar com a sociedade.
Rodrigo a olhava pensativo.
-  Estou surpreso. No esperava isso. Estava me preparando para depois do inventrio, pagar a Aline a parte dela, o que neste momento no me seria fcil porque talvez 
precisasse vender alguns bens.
Arete sorriu:
-  Nosso arranjo ser de emergncia. Mas estou certa de que facilitar muito.
- Para mim ser uma boa soluo. O que me preocupa  a reao dos pais de Marcelo. Vo brigar comigo e eu no gostaria que isso acontecesse.
- Eles vo brigar de todo jeito. Quando um advogado lhes disser que Aline tem direito ao que Marcelo deixou e que no h nada que eles possam fazer para impedir, 
voc estar no meio dessa briga quer queira quer no.
- . Acho que no tenho escolha. De todo jeito estou metido nisso at o pescoo.
- Marcelo era um timo rapaz e muito querido em nossa famlia. Todos estamos sofrendo pelo que aconteceu. Porm, Aline est sendo caluniada sendo que seu nico pecado 
foi deixar de amar o marido e desejar acabar com o casamento.
- Eles no acreditam nisso.
- Mas eu sei que esto enganados. E pretendo enfrent-los, esclarecer os fatos, dizer-lhes a verdade. Voc no precisar envolver-se.  um problema de famlia e 
compete a ns esclarecer.
- Se voc conseguir isso, ficarei bastante aliviado.
-  No precisa decidir agora. Pense bem, analise meu currculo, e quando tiver uma resposta, me ligue.
- Est bem. Vou pensar.
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Arete levantou-se e entregou um papel a ele dizendo:
- Aqui tem o telefone de Aline, mas, por favor, no d o nmero a ningum. Principalmente aos pais de Marcelo.
- Fique tranqila.
-  bom evitar comentrios.
- Compreendo. Obrigado por ter vindo.
Depois que ela se foi, ele abriu a pasta que ela lhe deixara, leu as informaes e admirou-se do nvel de conhecimentos que Arete possua.
Profissionalmente ela estava muito acima das necessidades dele.
- Ela est fazendo isso para ajudar a irm. Eu seria um irresponsvel se no aceitasse sua proposta.
Ele olhou a pasta que a secretria colocara em sua mesa onde havia alguns contratos em andamento, extratos bancrios. Ele odiava mexer com isso e no queria nem 
aprender. Naquele momento decidiu telefonar a Arete, aceitando sua proposta.
Se ela fosse boa como dizia naquele currculo, sua situao estaria resolvida.
Arete voltou para casa satisfeita. Estava certa de que Rodrigo aceitaria. O arranjo seria muito conveniente para ele que no dispunha do dinheiro para pagar a parte 
de Aline.
Vendo-a entrar Dalva perguntou:
- E ento, como foi?
- Bem. Rodrigo est precisando de ajuda. Ele no tem dinheiro para pagar a parte de Marcelo. Voc sabia que os pais dele no querem que Aline receba nada?
- Eles esto com raiva. Imaginei mesmo isso. E para dizer a verdade, penso que Aline no vai exigir nada.
- O que  isso, me? Ela tem direito ao que ele deixou. No concordo que deva abrir mo do que lhe pertence.
- Eles podem alegar abandono do lar.
- Ainda assim, ela era casada em comunho de bens. Depois, eles nem sabem porque Aline foi embora e a esto caluniando.

- A perda de um filho  um golpe duro.
- Concordo. Mas ainda assim no acho justa a forma como esto agindo. Depois, eles so abastados, no precisam de nada. Esto fazendo essa exigncia apenas para 
castigar Aline.
- De certa forma ela fez por merecer. Onde j se viu fazer o que ela fez?
- A primeira vista pode parecer que ela agiu mal. Porm, ns no sabemos como era a vida ntima deles. Marcelo era muito agarrado a ela. Todos achavam que era o 
marido ideal, carinhoso, atento aos menores desejos dela, mas eu no suportaria viver ao lado de um homem assim. Estaria me sufocando. Privada da minha liberdade.
- Por isso est solteira at agora. Uma mulher precisa de um companheiro, algum que a ame. Se Aline houvesse tido filhos, no teria feito o que fez.
- Outro engano seu. Filhos no seguram um relacionamento. Na verdade, penso que Aline enjoou do assdio constante de Marcelo.
- Voc est exagerando. No era tanto assim.
- No? H pouco tempo, quando Aline teve alguns dias de frias, fui  casa dela devolver um livro que pegara emprestado. Fiquei l durante duas horas. Nesse tempo, 
Marcelo ligou quatro vezes.
- Vai ver que estava preocupado com alguma coisa.
-  Que nada. Ligava para perguntar alguma coisa sem importncia e eu acho at que era para controlar, saber se ela estava em casa.
- Ele era muito ciumento mesmo.
- O que demonstra que no era to bom como parecia.  por isso que eu no gosto de julgar os outros. Quem pode saber o que vai no corao das pessoas?
Dalva suspirou pensativa. Depois disse:
- Seja como for, a atitude dela foi irresponsvel. Ainda acho que se ela no queria viver mais com ele, deveria ter conversado, enfrentado.
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- Essa foi a forma que ela encontrou para se libertar desse casamento que no desejava mais.
O telefone tocou e Dalva atendeu:
- Al,  Dalva... Sim, ela est. Um momento. - voltando-se para Arete, continuou:
-  o Rodrigo. Quer falar com voc.
Arete atendeu logo.
- Al Sim.
- Estou ligando para dizer que aceito sua proposta. Antes devo dizer que talvez o que posso lhe oferecer como salrio no seja o que voc est habituada a receber 
pelo seu trabalho.
- Tenho certeza de que vamos nos entender quanto a esse ponto. Estou fazendo isso para ajudar minha irm.
- Nesse caso, quando poder comear?
- Estarei a amanh s oito. Est bem?
- Combinado. Estarei esperando. Ela desligou o telefone contente.
- Sabe, me? Estou contente por enfrentar esse desafio.
- Por qu?
- Rodrigo est preocupado com os pais de Marcelo. Sabe que no vai poder fazer o que eles querem com relao  herana. Sabe que eles no vo entender.
- Eles esto muito revoltados e a situao dele  delicada.
- Eu me ofereci para enfrent-los nesse problema.
- Voc? Quer arranjar mais encrencas com eles? J no basta o que Aline fez?
- O que Aline fez no foi to grave assim e eles esto se mostrando muito maldosos. Marcelo morreu em um acidente. Ela no teve culpa nisso.
- Se ela no tivesse ido embora, ele no teria corrido atrs dela daquele jeito.
- Quem pode garantir isso? Poderia ter acontecido mesmo sem ela ter sado de casa. Ningum morre antes da hora. A senhora se diz pessoa de f, vive rezando na igreja, 
vai  missa sempre e no acredita que uma fora maior  quem determina a hora da morte de uma pessoa?
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- Voc gosta de me confundir. Uma coisa no tem nada a ver com a outra. Mas tome cuidado, pense bem o que vai fazer para no arranjar mais problemas. Voc no deveria 
se meter nisso.
- Vou tomar um banho e preparar algumas coisas. Amanh comearei a trabalhar. Antes vou ligar para Aline contar-lhe como esto as coisas.
Na manh seguinte, Arete chegou ao escritrio s oito em ponto. A recepcionista a atendeu e ela se apresentou:
- Sou Arete, irm de Aline, viva de Marcelo. Rodrigo j chegou?
- Ainda no, deve estar chegando.
- Bem, no sei se ele lhe disse que a partir de hoje, eu viria trabalhar aqui.
- Disse sim, senhora. Venha comigo. Arete a acompanhou at uma das salas.
- Era nesta sala que o Doutor Marcelo fazia a administrao. - Ela abanou a cabea negativamente e continuou com voz triste: - Parece mentira. Ainda no consegui 
me conformar.
- No  fcil mesmo.
- Ele era to moo, to bonito, to educado! Era o homem com o qual toda mulher gostaria de se casar.
Pelo tom dela, Arete sentiu que atrs desse comentrio escondia-se uma crtica ao procedimento de Aline.
- Pena que quando o conheceu ele j estava casado, seno, quem sabe, talvez ele a escolhesse.
Um vivo rubor apareceu no rosto dela que se apressou a responder:
- Eu no quis dizer isso. No quero que a senhora pense que eu era apaixonada por ele. O Doutor Marcelo sempre foi um homem respeitoso, dedicado  esposa.
- Est bem. Mas ns estamos aqui para trabalhar e no para avaliar as qualidades de ningum. Pode voltar para seu lugar. Se precisar de alguma coisa, avisarei.
Ela saiu apressada. Era de se esperar que ela estivesse com raiva de Aline. Havia ido ao enterro, estado
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com os pais de Marcelo. Teria ouvido a opinio deles e se revoltado.
Olhou em volta. Era uma sala elegante, espaosa. Bem decorada. Havia cartas sobre a mesa e ela comeou abrindo-as.
Nesse momento Rodrigo entrou:
- Voc foi pontual.
- Dou muita importncia  pontualidade.
- Vou mostrar-lhe onde esto as coisas. No momento estou sem muito tempo. Estvamos trabalhando em um projeto grande, e dois dias antes do acidente, assinamos o 
contrato. Temos prazo para realizar o trabalho e com o que nos aconteceu, eu ainda no consegui comear.
- No se preocupe. Vou ler os documentos, tomar conhecimento de como esto as coisas. Marcelo me parecia muito organizado. Penso que encontrarei tudo em ordem.
Ele suspirou aliviado.
- Se precisar de alguma coisa, me avise.
- No se preocupe. Vou cuidar de tudo.
- Nesse caso vou cuidar do nosso projeto.
- Boa sorte e sucesso.  o que desejo.
Ele sorriu e ela notou que se formavam duas covinhas em sua face. Sorriu tambm. Apesar de tudo, sentia-se alegre por recomear a trabalhar.
Sentou-se atrs da escrivaninha e imediatamente comeou a abrir as cartas.
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VI

Aline levantou-se, tomou caf e desceu  garagem para apanhar o carro. Fazia seis meses que ela estava trabalhando e trs que a empresa financiara seu carro.
Durante a semana que ficara de licena por causa da morte de Marcelo, ela refletira muito e apesar da tristeza decidira continuar em Miami.
No tinha vontade de voltar e enfrentar os comentrios da famlia de Marcelo, dos conhecidos. Eles nunca entenderiam o que ela fizera. Se at seus pais a recriminavam 
deixando subentendido que ela fora a culpada pela morte do marido, o que poderia esperar dos demais?
Melhor era ficar, trabalhar, adaptar-se  nova vida e buscar esquecer aquele triste acontecimento.
Apesar de adorar o novo emprego, a maneira como era tratada pelos colegas e estar fazendo novas amizades, estava sendo difcil esquecer o que acontecera.
Durante o dia, dedicava-se ao trabalho e no pensava em mais nada, porm  noite, sozinha em seu apartamento, a lembrana de Marcelo no a deixava.
Havia momentos em que parecia v-lo ferido, pedindo ajuda, outros em que recordava o namoro, os primeiros anos de casamento.
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Quando isso acontecia, ela chegava a sentir o sabor dos beijos que trocavam e os momentos de intimidade que haviam desfrutado, como se estivessem realmente acontecendo 
naquela hora.
Embora naquele tempo ela houvesse se sentido feliz, agora, recordar esses momentos provocava nela desagradvel sensao.
Ao acordar ela pensava:
- Por que ser que isso est acontecendo comigo? Por que no consigo me desligar do passado? Embora as pessoas possam me julgar culpada, eu no me sinto assim. Eu 
nunca pensei que Marcelo pudesse morrer dessa forma. Eu nunca desejei nenhum mal a ele. Minha nica fraqueza foi acreditar que o amava e aceitar esse casamento. 
Essa foi minha culpa. Eu nunca deveria ter desistido dos meus projetos para casar com ele.
Naquela manh, enquanto dirigia rumo ao trabalho, o sonho que tivera com o marido na noite anterior no lhe saa do pensamento.
Sonhara que estavam trocando beijos apaixonados, enquanto ele repetia o quanto a amava e que nunca a deixaria, falando dos primeiros tempos de casamento.
Mas apesar daquele tempo haver sido bom, agora, no estava sendo prazeroso, Aline sentia-se mal, nervosa, acordara fraca, indisposta.
Sentia que esses sonhos com Marcelo no estavam lhe fazendo bem. Ao contrrio. Desejava esquecer, apagar de sua vida aqueles anos ao lado dele, contudo no conseguia.
Ele estava sempre presente em seus pensamentos, reagindo a cada coisa que ela dizia ou fazia, como se ele estivesse presente ali.
Isso no podia continuar. Ela estava precisando de ajuda profissional. Acreditava que o choque produzido pelos acontecimentos a haviam traumatizado. Iria procurar 
um psiclogo.
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No refeitrio da empresa, durante o almoo, conversou com Rachel sobre o problema. Ela prontificou-se a lhe indicar um terapeuta seu amigo.
- Ele  maravilhoso - disse - Estou certta de que ele vai dar jeito nisso.
Aline agradeceu aliviada. De volta a>o escritrio, Rachel entregou-lhe um carto dizendo:
- Aqui est o telefone dele.
- Irei procur-lo hoje mesmo.
- No sei se ele poder atend-la to depressa. Tem muitos clientes.
- Quero resolver o quanto antes. No suporto mais pensar no que aconteceu.
- Nesse caso, vou interceder. Norman  meu amigo, verei o que posso fazer.
- Fico-lhe muito grata.
Aline entregou-se ao trabalho com determinao e firmeza, disposta a no pensar mais em Marcelo. Duas horas depois, Rachel a procurou:
- S agora consegui conversar com a secretria dele. Infelizmente, Norman est fora do pas, em um congresso. S voltar daqui dez dias. Tentei marcar uma consulta 
para quando ele voltasse, mas ela nem queria alegando que no tinha hora. Por fim, deixei seu nome com ela, no caso de haver alguma desistncia.
- Ele deve ser muito bom.
-   timo mesmo. Se voc puder esperar, pelo menos teria a certeza de ser atendida por algum muito competente.
- Obrigada Rachel. Vou tentar.
- Olha, porque no procura distrair-se, sair, encontrar pessoas, divertir-se. Ficar em casa sozinha no vai ajud-la em nada.
- Eu gosto de sair, conheci alguns rapazes muito agradveis perto de casa, mas todas as vezes que os encontro, acabo me sentindo mal.
-  porque voc se sente culpada, ainda no aceitou o que aconteceu. Penso que deve insistir, sair mesmo
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assim. Eu tenho muitos amigos e posso introduzi-la em nossa roda. So pessoas alegres, do nosso nvel, o que torna muito agradvel os nossos encontros.
-Talvez tenha razo. Eu preciso reagir. No h nada que eu possa fazer quanto ao passado. Preciso andar para frente.
- Isso mesmo. Assim  que se fala. Hoje mesmo ao sair daqui fiquei de encontrar-me com alguns amigos em um barzinho. Voc pode vir comigo.
- Eu dormi muito mal esta noite. No sei se seria uma boa companhia.
- Voc vai, fica um pouco e vai embora. Pelo menos conhecer algumas pessoas interessantes.
- Est bem. Irei.
No final do expediente, Aline retocou a maquiagem, apanhou o carro e seguiu Rachel. Estava disposta a reagir, esquecer o passado, virar aquela pgina de sua vida.
Depois de estacionar ao lado da amiga, Aline olhou em volta. O lugar era bonito. O prdio era um pouco afastado e havia um enorme hall, cheio de plantas, muito bem 
decorado. Era um hotel, onde o restaurante dava para o jardim e o bar ficava em uma rea envidraada, cheia de plantas e flores.
Estava lotado e Aline adorou o lugar.
- Que lindo! - comentou animada.
-  Eu adoro vir aqui - respondeu Rachel alegre -Meus amigos j chegaram, venha vou apresent-la.
Ela abanou a mo para uma mesa onde havia duas moas e dois rapazes.
- Esta  Aline. Vivian, Vanessa, Robert e Nicolas. Aline cumprimentou a todos e Rachel continuou:
- Aline est h pouco tempo na cidade. No conhecia este lugar.
- Estou encantada - disse ela. Acomodaram-se, a garonete aproximou-se e elas
fizeram o pedido. A conversa fluiu fcil. Vivian era mida,

loura, olhos azuis, sorriso suave, Vanessa alta, vastos cabelos castanhos, esguia, olhos grandes, voz firme. Robert estatura mediana, cabelos e olhos castanhos, 
sorriso fcil. Nicolas, alto, magro, pele clara, mas com cabelos escuros, olhos negros, lbios grossos, queixo forte.
Aline gostou de todos e sentiu-se  vontade. O assunto girou em torno dela, porque nenhum deles conhecia o Brasil e estavam curiosos para saber como era a vida em 
nosso pas.
Aline aproveitou para esclarecer alguns boatos que circulavam por l em relao  sociedade brasileira. A conversa estava boa e Aline foi ficando.
Rachel olhou o relgio e levantou-se:
- Passa das nove. Preciso ir. Tenho que buscar John na casa de Emily.
Aline levantou-se. Rachel continuou:
- Mas voc pode ficar.
- A conversa est boa, mas preciso ir. Despediram-se, Aline trocou telefones com eles e saram. Uma vez fora, Rachel perguntou:
- E ento, o que achou?
- Gostei muito. Por momentos esqueci de todos os problemas. Voc tem razo. O que eu preciso  sair, me divertir.
-  Isso mesmo. Eles tambm gostaram de voc. Acho que poderemos passar bons momentos juntos.
Um pouco mais animada, Aline foi para casa. Ligou o rdio e logo o som de um bolero encheu o ar e ela recordou-se que aquela msica estava muito em moda no Brasil.
O esprito de Marcelo, fisionomia irritada, estava a seu lado. Como ela podia estar passeando, rindo, conversando com as pessoas, como se nada houvesse acontecido?
Se fosse ela que tivesse morrido, ele estaria triste, inconformado, deprimido. Como Aline podia ser to indiferente ao que lhe acontecera? Logo ela que fora a culpada 
de tudo?
Olhou para ela com raiva. Aline sentiu uma sensao desagradvel, pensou em Marcelo.
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Ele, notando que conseguira envolv-la, disse-lhe:
- Voc quer me esquecer, no me ama mais, mas eu no vou deixar. Por sua causa estou neste estado. Voc destruiu minha vida. Logo eu, que tudo fiz para torn-la 
feliz. Sua ingratido no tem desculpa.
Aline comeou a lembrar-se de como Marcelo a cercava de atenes e um sentimento de culpa a invadiu. Ela reagiu:
-  No sou culpada pelo acidente. Ele exagerou como sempre. Se ele no fosse to dramtico e apegado, eu no teria fugido. Teria conversado, dito que no o amava 
mais e queria seguir minha vida, conforme havia planejado desde a infncia.
Marcelo irritou-se ainda mais. Como ela podia ser to fria? Ele havia sido a vtima e ela ainda o culpava!
Aline sentiu-se mal, teve nuseas, a cabea atordoada, dores no corpo. No via a hora de chegar em casa.
Marcelo continuava enraivecido:
- Se voc pensa que eu vou deix-la divertir-se com esses desocupados, est enganada. Voc precisa voltar para nossa casa.  l que eu quero que fique comigo.
Aline entrou em casa plida, as pernas bambas e foi logo tomar um banho. Melhorou um pouco, mas estava preocupada.
Talvez fosse bom procurar ajuda com outro terapeuta. No podia continuar se sentindo assim. O que ela mais desejava era progredir no trabalho, mas para isso precisava 
ficar bem, ter a cabea lcida, esquecer aqueles pensamentos desagradveis que a estavam deixando doente.
No podia perder essa oportunidade que fora to duramente conquistada.
Sentou-se na cama, lembrou-se de sua famlia com saudade. Pensou em sua me, lembrou-se de que ela costumava dizer:
- Quando voc no sabe o que fazer, pea a ajuda de Deus. A ajuda Dele nunca falha.
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Dalva era catlica convicta. Freqentava a missa sempre que podia e reclamava porque as filhas no iam.
- Como quer que Deus se lembre de vocs se nunca rezam nem conversam com ele?
Aline acreditava em Deus do seu jeito e nunca fora ligada a nenhuma religio. Mas naquele momento, as lgrimas brotaram em seus olhos e ela teve vontade de conversar 
com Deus.
Por que estava sendo to castigada? Apesar de tudo sua conscincia no a acusava de nada. Por que ento estava to mal e no conseguia esquecer o passado? Estaria 
sendo punida por desejar uma vida melhor, por no amar mais o marido? Por que agora que ela estava realizando seus sonhos da juventude, se sentia to mal?
Aline deu livre curso s lgrimas. Quando se sentiu mais calma, disse baixinho:
- Meu Deus, me ajude a entender o que est acontecendo comigo. Eu quero melhorar. Por favor, me mostre o caminho.
Marcelo, confortado pelo sofrimento dela, acomodou-se em um canto do quarto. Apesar de triste, ele achava justo que ela tambm chorasse. Eles estavam unidos e o 
que um sentia deveria afetar o outro.
Aline suspirou aliviada. O mal estar desapareceu e ela decidiu preparar as roupas e dispor as coisas para o dia seguinte.
Ao mexer em uma bolsa, um carto caiu no cho. Ela o apanhou e leu:
"Instituto Ferguson - Doutor William Morris - Estudos sobre Paranormalidade".
Aline lembrou-se da moa que encontrara na livraria e que a convidara para assistir uma palestra sobre vida aps a morte.
Sentou-se na cama pensativa. Aquela moa lhe dissera que talvez lhe fosse til assistir a palestra e mencionara sua mudana de vida. Como ela poderia saber?
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Um arrepio percorreu seu corpo. Nunca se detivera pensando sobre a vida depois da morte. O que aconteceria com as pessoas que morrem? Seria o fim de tudo? Existiria 
como alguns diziam, um outro mundo para onde eles iriam?
Se isso fosse verdade, Marcelo teria ido para outro lugar. Isso no era possvel. Esse assunto lhe ocorrera por estar nervosa.
Jogou o carto na bolsa e tentou esquecer. Mas a fisionomia da moa na livraria no lhe saa do pensamento.
Ela se impressionara com o que ela lhe dissera, mas isso fora apenas coincidncia. Aquela moa no a conhecia, portanto no sabia nada sobre sua vida. Dissera aquelas 
palavras para convenc-la a assistir  tal palestra.
Ligou a televiso decidida a no pensar mais nisso. Porm, na manh seguinte, no escritrio, ao ler os jornais, um anncio chamou sua ateno: "O Doutor William 
Morris fala sobre a vida aps a morte e paranormalidade".
Em meio a uma platia lotada, o professor Morris, como gosta de ser chamado, apresentou alguns fatos que ele diz comprovar que a vida continua em outras dimenses 
do universo.
Ele garante, aps mais de vinte anos de pesquisas que no s isso  verdade, como os que morrem podem se comunicar com os vivos e interferir em suas vidas.
Nossa reportagem o abordou depois da palestra, questionando suas afirmaes ao que ele respondeu:
- O mundo dos espritos  coexistente com o nosso. Quando algum morre, abandona o corpo de carne, que lhe serviu de instrumento para interagir neste mundo. Porm 
conserva o corpo astral que possua antes de nascer. Nossos olhos no podem v-los, porque o corpo astral, preparado para viver em outras dimenses, vibra em uma 
faixa que nossos olhos no alcanam.
- Como  a vida nessas dimenses?
- Diversificada. H muitas moradas no universo. Na Bblia voc encontra muitas citaes sobre elas. Possuem
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vrios nveis, e cada ser que morre, vai viver conforme seu nvel espiritual.
-O senhor disse que eles podem influenciar nossa vida? No lhe parece assustador fazer uma afirmao dessas?
- De modo algum. Quem morre continua igual era no mundo. Com os mesmo sentimentos, afetos, necessidades. Os que so apegados aos bens materiais, as pessoas que amam, 
muitas vezes permanecem ao lado delas influenciando-as. No h nada de assustador porque dizer a verdade faz com que as pessoas identifiquem o que lhes est acontecendo 
e procurem ajuda.
- No ser uma forma de fazer proselitismo?
- Permita-me convid-lo para uma visita em nossos grupos de estudos, onde poder pesquisar e comprovar o que estou dizendo. Ento descobrir que  melhor saber e 
tomar providncias. Os laos afetivos no se rompem com facilidade, os do dio tambm. Tanto um quanto outro, provocam situaes que podem levar  loucura. Portanto, 
penso que  hora de estudar o assunto.
- Pode estar certo de que voltarei. Obrigado pela entrevista.
As pessoas estavam ansiosas para conversar com o Doutor Morris, querendo contar suas experincias. Mas ele mandou que elas procurassem o Instituto no expediente 
diurno para maiores informaes.
Havia uma foto do Doutor Morris: Um homem de meia idade, elegante, rosto enrgico, porm -afvel.
Ela fechou o jornal chocada. Se isso fosse verdade, o esprito de Marcelo estaria do seu lado e nunca  a deixaria.
Rachel aproximou-se:
- Aconteceu alguma coisa? Voc est plida.
- Voc acredita em vida aps a morte? Voc acha que quem morre pode envolver nossa vida?
- No sei. H muita gente sria que estuda isso e acredita. Eu, porm, nunca me detive nesses assuntos. Por que pergunta?
Aline estendeu o jornal para Rachel:
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- Leia isso.
A outra obedeceu depois devolveu o jornal dizendo: -Voc se impressionou com essa entrevista. Ainda est nervosa com a morte de seu marido.
- No foi s por isso.
Aline contou o encontro com a moa na livraria e continuou:
- Ontem, quando voltava para casa, comecei a me sentir mal, aflita, desesperada. O mal estar no passava e lembrando as recomendaes que minha me costumava fazer, 
rezei, pedi a ajuda de Deus. Senti-me um pouco melhor. Depois, quando fui arrumar minhas roupas para hoje, apanhei uma bolsa e o carto desse Instituto caiu no cho.
- Estou arrepiada, Aline. Que coisa! Isso pode ser um sinal. Acho que voc deve ir a esse Instituto.
- Ser? Eu nunca mexi com nada disso. Tenho medo.
- Eu gosto de ver os sinais que a vida d. Esse seu foi incrvel.
- Acha mesmo?
- Olha, agora at eu fiquei curiosa. Vou pesquisar, tomar informaes sobre esse Instituto. Se for um lugar srio, voc deve ir.
- No sei. S em pensar nisso fico nervosa.
- Eu vou com voc. No tenho medo de nada.
No fim da tarde, Rachel aproximou-se de Aline e
entregou-lhe algumas folhas de papel:
- Veja, tomei informaes sobre esse Instituto.  um lugar srio, dirigido por pessoas ilustres. O Doutor William Morris, alm de mdico psiquiatra, tem doutoramento 
em filosofia.  autor de vrios livros, nos ltimos vinte anos vem se dedicando s pesquisas de parapsicologia ao lado do professor Rhine. D aulas em duas famosas 
universidades,  muito respeitado.
- Acha que devo ir?
Acho. Agora, at eu fiquei curiosa. Irei com voc.

- No sei... S em pensar nisso sinto medo. Parece que nesse lugar vai me acontecer alguma coisa ruim.
- Voc est impressionada. Pelas informaes, esse Instituto  freqentado por pessoas srias e no h razo para temer. Se o que o Doutor Morris diz for verdade, 
o esprito de seu marido pode mesmo estar perto de voc.
Aline sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo:
- Nem diga uma coisa dessas.
- Apegado como voc disse que e!e era, no caso dele continuar existindo em outro mundo, acha que ele no ficaria a seu lado?
-  isso que me assusta. Se isso for verdade, de nada valeu eu ter me separado. Marcelo sempre jurou que nunca me deixaria.
-  Pois eu, se fosse voc, iria hoje mesmo a esse Instituto. O Doutor Morris afirma que embora possa ser assustador,  melhor saber do que ignorar. Eu penso como 
ele.
- Apesar do medo que estou sentindo, acho que tem razo.  melhor ir mesmo, porque se as coisas forem como eu acredito, de que quem morre no volta, acabarei com 
esta histria.
- Assim  que se fala. Enfrentar nossos medos  sempre melhor.
Depois que Rachel saiu, Aline dedicou-se ao trabalho. No horrio do almoo, procurou o telefone do Instituto e ligou.
A atendente informou que o horrio de atendimento comeava s trs da tarde e iria at s oito da noite.
Aline anotou o endereo e no fim do expediente, quando saam, ela disse a Rachel:
- Estou com o endereo do Instituto. Eles atendem at s oito, pretendo ir agora. Voc me acompanha?
- Sim. S vou ligar para Beth ir apanhar meu filho no colgio.
Depois que ela ligou, saram. Rachel iria  frente, porque sabia onde ficava a rua do Instituto e Aline a seguiria.
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O Instituto estava localizado em um prdio de seis andares, muito bonito, com estacionamento no sub solo. Havia muitas pessoas entrando e saindo, e elas encaminharam-se 
para a portaria.
Uma recepcionista as atendeu, perguntando o que elas pretendiam no Instituto, e Aline contou que lera a entrevista no jornal e elas haviam se interessado em estudar 
esse assunto.
Depois de preencher um formulrio respondendo algumas perguntas, foram encaminhadas cada uma para um atendente.
Aline sentou-se diante de um jovem aparentando uns vinte e poucos anos, louro, cabelos encaracolados e revoltos que sorriu para ela, olhando em seus olhos.
Aline sorriu tambm e ele perguntou atencioso:
-  a primeira vez que voc vem aqui?
Aline em poucas palavras contou-lhe que se separara do marido para trabalhar em Miami e ele havia falecido em um acidente de carro. E finalizou:
- Eu no sei se fiquei impressionada com a notcia de sua morte, mas no tenho me sentido muito bem.
- O que voc sente?
- Angstia, medo, parece que alguma coisa terrvel vai me acontecer. Sou uma pessoa alegre, mas agora tenho sentido depresso, sonolncia, mas quando durmo meu sono 
 agitado. s vezes sinto dores no corpo, ora de um lado, ora de outro. Enjo...  difcil explicar. Sempre fui uma pessoa saudvel, nunca estive doente.
Ele olhou-a firme e perguntou:
- Seu marido era um homem moreno, bonito, alto, cabelos castanhos, covinha no queixo?
Aline remexeu-se na cadeira inquieta:
- Sim. Como sabe?
- O amor dele era dominador, foi por isso que voc acabou se separando.  difcil suportar uma situao dessas.
-  verdade. Voc acha que o esprito dele pode estar perto de mim?
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-No tenha medo. Ele no deseja fazer-lhe nenhum mal.
- De fato. Ele sempre me protegeu. Mas agora, ele est morto. No creio que ele possa de alguma forma estar aqui.
- Mas ele est. Vestindo um terno azul, rosto ferido, sangue escorrendo do peito e das pernas. Ele precisa de ajuda.
Aline empalideceu. O rapaz descrevera Marcelo do mesmo jeito que ela sonhara com ele no avio. Assustada, trmula, no conteve as lgrimas que desceram pelo seu 
rosto. Sentiu vontade de fugir dali. Levantou-se.
O rapaz levantou-se tambm e segurou-a pelo brao dizendo:
- Venha comigo.
- Eu quero ir embora. No posso ficar aqui.
- Venha, no tenha medo.
Ele conduziu-a a uma sala onde um grupo de pessoas meditavam em silncio. F-la sentar-se e a um sinal, duas pessoas se aproximaram e a moa sentou-se na frente 
de Aline, segurou suas mos enquanto o homem colocava-se atrs da cadeira dela, impondo as mos sobre ela, orando em silncio.
Aline sentiu que um calor brando invadiu seu corpo e aos poucos uma sensao de alvio a envolveu. Ela foi relaxando e sentiu-se melhor.
Depois de alguns minutos, os dois se afastaram e o atendente a conduziu novamente para sua sala fazendo-a sentar-se na sua frente.
- Sente-se melhor? - indagou atencioso.
- Sim. Estou aliviada. O que aconteceu naquela sala?
- Voc recebeu uma doao energtica. Vai sentir-se mais forte.
-  difcil para eu aceitar que Marcelo continua existindo em outro mundo. Isso me apavora porque ele era muito apegado, tanto que para poder separar-me dele, precisei 
fugir porque ele nunca iria aceitar.
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- Ele no aceita a separao e a culpa pelo acidente.
- Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Nunca desejei mal a ele.
- Eu sei. Voc no tem culpa de nada.  bom ter isso em mente, porque ele deseja que se sinta culpada para poder domin-la.
- Ele pode estar me odiando.
- No, isso no. Ao contrrio, ele acha que  amor e que a vida s tem sentido a seu lado. Ele est enganado. As pessoas so livres. Ningum  de ningum e cada 
um tem todo o direito de escolher seu caminho. Portanto, no d importncia aos pensamentos ruins que passam pela sua cabea. No so seus. Os pensamentos que est 
captando so dele ou at de outros espritos desencarnados que podem querer tirar partido da situao.
- Acha que alm dele, pode haver outros?
- Ns estamos rodeados de seres da outra dimenso. Espritos que viveram neste mundo e depois da morte do corpo se negam a seguir rumo a outros destinos. Eles nos 
inspiram pensamentos depressivos e ns acreditamos que sejam nossos porquanto os estamos sentindo da mesma maneira que costumeiramente nossos pensamentos funcionam.
- Como podemos diferenciar os nossos dos deles. No acha que isso  injusto e assustador? Ns no os estamos vendo e no temos como nos defender. Por que Deus permitiria 
tal situao?
- Ns temos livre arbtrio, bom senso e podemos escolher no dando importncia aos pensamentos destrutivos e alimentando os bons. Dessa forma, estaremos livres dessas 
influncias.
Aline ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
-   uma situao difcil com a qual no sei lidar. Parece impossvel que algum possa nos assediar mesmo depois de morto.
- Essa  uma realidade que ter de enfrentar.
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-  isso que me apavora. Embora seja difcil aceitar, voc o descreveu do jeito que o vi em meus sonhos. Como poderia saber?
- Ele est do seu lado e eu o vi.
Aline remexeu-se na cadeira inquieta. Depois perguntou:
- O que me aconselha?
- A fazer um tratamento espiritual em nosso Instituto.
- Em que consiste esse tratamento?
- Em doao de energia para que se sinta mais forte e ao mesmo tempo ajud-lo a aceitar a separao.
- Eu o conheo e sei que no ser fcil. Ele sorriu levemente e respondeu:
- Tudo fica fcil quando Deus ajuda.
-  verdade. Havia me esquecido disso. Acha que poder faz-lo entender e aceitar?
- Vamos tentar.
- Est bem.
Ele apanhou um bloco, uma caneta. Entregou-o a ela dizendo:
- Anote aqui o nome dele completo, o dia de sua morte. Precisamos de uma foto tambm.
- Foto? Para que?
- Para nossa equipe poder mentaliz-lo e trabalhar. Voc precisar vir duas vezes por semana.
- Acha que ficarei bem?
-Acredito que sim. Mas prometa que vai nos ajudar, procurando no dar importncia a qualquer pensamento triste, doloroso ou de culpa que sentir.
Ela prometeu. Ele escreveu um papel, entregou-o a ela dizendo:
-  Quando vier traga este papel e procure chegar no horrio.
Ela agradeceu, despediu-se e saiu. No saguo Rachel a esperava ansiosa:
- E ento?
- Foi incrvel. Estou tremendo at agora.
Em poucas palavras contou tudo e depois perguntou:
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- E voc, como foi?
- A moa que me atendeu no falou nada sobre quem j morreu, porm falou sobre pessoas vivas.
- Como assim?
-  uma histria antiga e complicada. Depois eu conto.
- Desculpe, no quis ser indiscreta.
- No se trata disso.  que preciso de tempo para pensar no que ela me disse. Como  que ela podia saber tanto sobre minha vida?
- Vai ver que algum esprito lhe contou, como aconteceu comigo.
- Vamos embora que preciso buscar o John. Outro dia vou lhe contar tudo.
- No  preciso. Eu s queria saber se com voc aconteceu o mesmo que comigo.
- Ela pediu-me que me inscrevesse em um dos cursos. Disse que me ajudaria a lidar com meu problema. Vou pensar, mas estou inclinada a fazer. Agora vamos.
Elas saram logo, despediram-se e cada uma foi apanhar o carro.
Durante o trajeto, Aline no podia esquecer das palavras do atendente. Marcelo estava vivo e do seu lado.
Pensando nisso encolheu-se receosa.
De fato, ele estava ali, triste, assustado. Quando Aline entrara naquela sala e as pessoas comearam a rezar, ele sentiu-se angustiado.
Aquelas pessoas desejavam separ-lo dela. Assustado, saiu e foi esper-la perto do carro. Estava disposto a no permitir que o separassem dela.
Resistiria. Faria qualquer coisa para ficar com ela. Estava sentado ao lado dela no carro. Notou os pensamentos dela e disse angustiado:
- No tenha medo de mim. Acha que lhe faria mal? Aline sentiu arrepios pelo corpo e encolheu-se ainda mais. Ele afastou-se triste e resolveu manter distncia at 
que ela se acalmasse.
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VI

Aline chegou em casa mais calma. Por mais que a incomodasse o pensamento de que o esprito de Marcelo a estivesse assediando, confortava-a saber que poderia contar 
com a ajuda do Instituto.
Eles falavam do assunto com tal naturalidade, demonstravam tanto conhecimento que certamente encontrariam uma forma de resolver seu problema.
Decidiu ento fazer a sua parte, evitando os pensamentos tristes. Ligou a televiso e uma cano em voga encheu o ar. Satisfeita, ela preparou algo para comer, e 
sentou-se diante do aparelho, com a bandeja na mo, esforando-se para esquecer suas preocupaes e prestar ateno no show.
Em poucos instantes, esqueceu de tudo, embalada pela msica, o que irritou Marcelo.
- Como ela pode ser to indiferente? Ficar to alegre enquanto eu estou sofrendo? Eu fiz tudo por ela, at morri por culpa dela. Faz to pouco tempo e ela nem liga. 
Parece at que ficou feliz com minha morte.
Nesse momento, ele viu uma luz muito clara aproximar-se e logo uma mulher aparentando uns quarenta anos, muito bonita, trajando um lindo vestido azul que ia at 
os ps, entrou na sala.
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Ele notou logo que no se tratava de uma pessoa encarnada, porque ela o viu de pronto e sorriu.
- Quem  voc? - indagou ele admirado.
- Sou Cora. Uma pessoa amiga que deseja ajud-lo.
- Estou muito bem e no preciso de ajuda.
- Voc est ferido. Precisa de tratamento.
- Isso foi por causa do acidente, mas est melhorando. Com o tempo ficarei bom.
- Vim busc-lo para fazer um tratamento.
- Voc quer me separar de Aline. Eu sei.
- Eu quero que voc fique curado. Quando estiver bem, se quiser poder voltar.
- Eu no posso ir. Tenho que cuidar dela sozinha nesta cidade estranha.
- Ela sabe se cuidar. Sem atendimento seu estado pode piorar.
- No adianta insistir. Eu no quero ir.
- Seria melhor para voc. O que espera conseguir ficando ao lado dela do jeito que est? Sempre que se aproxima dela, passa sua angstia, suas dores, seu mal estar, 
sua tristeza. Ela sente-se mal.
- Ela se sente assim por causa da culpa. Voc sabe, ela foi a causadora da minha desgraa.
- No  verdade. Voc foi o causador do seu acidente. Ele irritou-se:
- Eu sei que voc veio porque quer me separar de Aline. Eu ouvi aquele sujeito dizer que iriam me tirar do lado dela. Acho que voc faz parte daquele grupo. Pois 
podem fazer o que quiserem, mas eu no vou. No saio daqui de forma alguma.
- Voc s ir comigo se quiser. Porm, devo adverti-lo de que ser muito melhor ir comigo do que insistir em ficar em um lugar que no  o seu.
- Deixe-me em paz. Daqui eu no saio.
Ela afastou-se e desapareceu. Marcelo suspirou aliviado. Pouco depois, um rapaz alto, forte, cabelos escuros, trajando um terno cinza, entrou no quarto e
Marcelo olhou-o preocupado.
- No se assuste amigo. Desculpe a intromisso, mas acho que voc precisa de ajuda.
- Se veio me pedir para deixar Aline, pode desistir. Ela  minha mulher e daqui eu no saio.
- Voc est certssimo. Seu lugar  ao lado dela. Eu vim porque vi que voc est sendo envolvido por pessoas que no desejam seu bem.
- A quem se refere?
- quela mulher que esteve aqui h pouco. Ela faz parte daquele grupo onde sua mulher foi hoje  tarde.
- Logo vi. Foi o que pensei.
-  Ela  perigosa. Com essa conversa mansa, vai envolvendo e acaba conseguindo o que quer.
- Ela quer me separar de Aline, mas no vai conseguir. Ele riu irnico:
- Ela tem fora e se voc no se preparar, ela logo voltar com mais fora e voc ter de ceder.
- Nunca! Eu no teria aonde ir longe de Aline.
- Voc gosta mesmo dela.
- Adoro. No a deixarei nunca.
- Essas histrias de amor me comovem. Eu tambm amei muito e sofri demais. Entendo o que voc est passando. At sei o que vai acontecer. Uma mulher jovem, bonita, 
cheia de vida como Aline, um dia vai aparecer um outro, ela vai se interessar e quando voc menos esperar, estar casada de novo.
Marcelo fechou os punhos com raiva:
- Isso nunca vai acontecer. No vou deixar.
- Estou aqui para ajud-lo. Voc precisa fazer com que sua mulher lhe d o valor que merece. Notei que ela nem se incomodou com sua morte. Voc pensou que ela o 
amasse!
- Pensei. Nunca imaginei que ela pudesse fazer o que fez. Mas ainda assim, eu no quero perd-la.
Ele aproximou-se dando uma palmadinha nas costas de Marcelo dizendo:

- Voc no vai perd-la. Eu estou aqui para ajud-lo.
- Obrigado. At que enfim, encontrei um amigo.
- isso mesmo. Um amigo para o que der e vier. Meu nome  Vitor.
- Eu sou o Marcelo.
- Foi bom t-lo encontrado. Voc precisa conhecer meus amigos. Juntos poderemos fazer qualquer coisa.
- Gostaria de conhec-los, mas no quero sair daqui. Aline pode fazer uma besteira.
- H tempo para tudo. Logo ela estar dormindo e ns poderemos ir.
- Mesmo assim, no quero ir. Custei para encontr-la e se eu sair, outros podero tomar o meu lugar. Aquela mulher, por exemplo.
- No se preocupe. Eu posso colocar perto dela um alarme e se algo acontecer, voltaremos imediatamente.
Marcelo hesitou.
- Voc tem esse poder?
- Claro! Se fizer o que eu digo, ter esse poder e muito mais.
Marcelo olhou-o admirado:
- Voc deve ser importante mesmo.
O outro ergueu a cabea com altivez e respondeu:
- Eu perteno a um grupo que tem muita fora.
- Eu estou um tanto perdido. Desde o meu acidente, no tenho estado bem. Sinto dores e de vez em quando a cabea roda, parece que vou perder os sentidos.
-  por isso que quero apresent-lo a meus amigos. Eles vo cuidar de voc, e logo ficar bom.
- Eu gostaria, mas no posso sair daqui.
-  Olhe, ela j se deitou. Assim que adormecer poderemos ir.
Aline estava cansada e com sono. Virou-se de lado e logo adormeceu. Marcelo viu quando ela deixou o corpo e imediatamente quis abord-la, porm Vitor o impediu dizendo:
- No faa isso. Deixe-a ir. Ela est acompanhada de um amparador.
- No estou vendo ningum.
Vitor colocou a mo direita sobre a testa dele que imediatamente viu o esprito de Aline se distanciando, abraada a uma mulher jovem e bela, iluminada por uma luz 
azul.
- Quem  essa mulher? Ela est levando Aline. No vai roub-la de mim?
- No. Aline est apenas dormindo. Essa mulher a est protegendo e o aconselho a no se aproximar dela.
- Por qu?
- Ela trabalha para a luz.
- E voc trabalha para quem?
- Para os que como ns queremos cuidar dos nossos problemas. Os servos da luz so cheios de regras. Tm conversa mansa, nos levam para longe e nos prendem. Ento, 
somos obrigados a fazer tudo que eles mandam.
- Deus nos livre.
- Isso mesmo. Ns no queremos ningum nos dizendo o que fazer, nos unimos e somos capazes de cuidar dos nossos problemas. No so s eles que tm poder, ns tambm 
temos. Nosso grupo  poderoso. Venha, agora podemos ir.
Marcelo hesitou:
- No sei. E se eles nos prenderem tambm? Vitor riu incrdulo:
- Nem pense nisso. L somos uma democracia, lutamos pela nossa liberdade. Venha comigo, garanto que no se arrepender. Estaremos de volta antes de Aline.
- Nesse caso, eu vou.
- Assim  que se fala.
Vitor segurou o brao de Marcelo e juntos voltaram rumo ao desconhecido. Marcelo estava deslumbrado. Desde que desencarnara nunca havia deslizado pelo espao.
Via-se transportado aos lugares, sem saber como havia transposto a distncia. Pensava e de repente via-
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se no lugar. Assim entrara naquele avio, assim descobrira o flat de Aline.
Vitor deveria ser mesmo poderoso para conduzi-lo daquela forma. A princpio andaram sobre a cidade adormecida vendo o cu cheio de estrelas, mas logo entraram em 
uma onda de neblina e Vitor recomendou:
- Esta zona  um tanto perigosa. Mas no tenha medo, eles no podero nos ver.
Marcelo viu vultos escuros, pessoas mal vestidas parecendo doentes, assustou-se, mas acalmou-se ao notar que eles deslizavam sem serem vistos.
A neblina se foi e ele divisou uma fortaleza, cercada por altos muros. Vitor parou em frente ao grande porto dizendo:
- Chegamos.
Marcelo olhou em volta preocupado. Pareceu-lhe haver regredido no tempo e voltado a idade mdia.
Vitor disse o nome e o porto se abriu. Eles entraram. Marcelo sentiu um arrepio de medo vendo o imenso porto fechar-se novamente.
O lugar no era nada alegre. Havia homens de uniforme por toda parte. Vitor parecia muito  vontade, cumprimentando-os.
-Venha, desejo apresent-lo um amigo. Mimo  um dos diretores desta casa.
- Estou preocupado. Tem certeza de que estaremos de volta antes que Aline acorde?
- Nunca duvide da minha palavra. Eu disse que o levaria de volta e vou cumprir.
-  Desculpe.  que estamos muito longe. Eu no saberia voltar l sozinho.
- Eu o levarei. Conheo bem o caminho. Venha. Foram andando pelo imenso ptio at um dos lados do prdio e pararam diante de uma porta que se abriu assim que eles 
subiram o degrau que a antecedia.
Entraram em um corredor de pedra, iluminado por archotes at um saguo onde havia uma mesa e um
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homem sentado manipulando uma maquina muito parecida com um computador.
Vendo-os chegar, Vitor cumprimentou-o, apresentou Marcelo e pediu:
- Quero falar com Mimo.
- Ele os est esperando. Podem entrar.
Vitor conduziu Marcelo para uma porta toda trabalhada dizendo;
-A sala dele  aqui.
No precisou dizer nada e a porta abriu-se, eles entraram. A sala era luxuosa, cheia de tapearias e veludos, os mveis pesados e de madeira caprichosamente trabalhada, 
as cores escuras, tornando o ambiente pesado que a luz de alguns lampies tornavam um tanto irreal.
Marcelo no gostou do que viu. Sentado em um diva, estava um homem calvo, gordo de meia idade, vestido com uma roupa de veludo, fumando em um aparelho parecido com 
o de pio, soltando baforadas no ar.
Em seu rosto redondo, os olhos argutos e magnticos prendiam a ateno. Vitor aproximou-se, saudando-o e dizendo:
- Trouxe um amigo que precisa de ajuda.
Mimo fixou-os e seu rosto tornou-se amvel, quase terno quando respondeu:
- Fez bem. O amigo est mesmo muito necessitado. Aproxime-se.
Animado pelo tom suave, quase carinhoso, Marcelo aproximou-se.
Mimo designou o lugar a seu lado dizendo:
- Sente-se aqui, meu filho. Vamos ver o que posso fazer por voc. Conte-me tudo.
Marcelo obedeceu e, assim que se sentou, foi acometido de forte emoo. Recordou-se de tudo quanto lhe acontecera desde que encontrara a carta de Aline e deixou 
que a emoo tomasse conta de si. Chorou desesperado, enquanto Mimo passava a mo pela sua cabea.
- Chore, meu filho. Desabafe. Voc tem razo de se revoltar. O que essa mulher fez com voc foi terrvel. Ela
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no teve pena de sua dor. Pagou com ingratido tudo quanto fez por ela. Estou vendo o que voc passou. Pobre menino. Ela no merece seu amor. Ela tem que pagar.
- No. Eu a amo. S quero que ela me veja e que fique comigo.
- Apesar de tudo quer ficar com ela?  uma mulher que no o merece.
-  Mas eu no posso viver sem ela. Eu quero que ela fique comigo.
- Nesse caso, podemos fazer com que ela venha para c.
- Como pode ser isso?
- Podemos acabar com o corpo dela. Assim ela vir para c e ficar com voc.
Marcelo assustou-se:
- Mas eu a amo. No posso querer que ela morra.
- Nesse caso no podemos fazer nada. Essa  a nica forma dela vir ficar com voc.
Marcelo suspirou triste sem saber o que dizer. Bem que ele gostaria que Aline viesse ter com ele, mas a esse preo, seria justo?
- Foi justo o que ela fez com voc? - indagou ele. Marcelo percebeu que Mimo lera seu pensamento.
Era de fato muito poderoso. Ele teve medo do que poderia acontecer a Aline. Por isso respondeu:
- No quero chegar a esse ponto. S desejo ficar ao lado dela para sempre.
- Nesse caso ter de esperar que chegue a hora dela.
- Estar ao lado dela  tudo quanto quero. Se quer me ajudar, no deixe que ningum nos separe e eu ser-lhe-ei eternamente grato.
Mimo deu uma aspirada no aparelho de pio depois disse sorrindo:
- Aqui ningum precisa da sua gratido. Ns trabalhamos a base de troca. Fazemos favores e as pessoas nos fazem favores.  tudo muito srio e organizado. S no 
admitimos traio. Aqui a palavra vale mais do que tudo. Eu posso conseguir o que voc quer, do jeito que
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quiser, mas  bom saber que ter de nos prestar um servio em troca.
- Que tipo de servio?
- O que for preciso.  um trato justo, no acha? Marcelo hesitou um pouco depois concordou:
- , acho que .
- Aqui ns no obrigamos ningum. As pessoas so livres para decidir. Volte para a casa dela, pense bem, mas se aceitar nossa ajuda, saiba que ter de corresponder 
conforme nosso trato.
Marcelo concordou e Vitor aproximou-se:
- Obrigado mestre. Marcelo ainda no se recuperou do acidente. Suas feridas sangram, sente dores. Posso lev-lo a enfermaria para um curativo?
- Vamos atend-lo por cortesia. Pode lev-lo.
Eles agradeceram e saram. De volta ao ptio, Marcelo respirou aliviado. Vitor conduziu-o a uma ala do prdio onde Marcelo foi atendido e encaminhado a uma enfermeira.
- Mirela, este  meu amigo Marcelo. Precisa de ajuda. Ela voltou-se e fixou-o emocionada:
- Renato! Quanto tempo!
Marcelo olhou-a admirado. Era uma mulher de uns trinta anos, pele clara, olhos azuis e cabelos castanhos, muito bonita. Seu rosto era-lhe familiar. De onde a conhecia? 
No se lembrava.
- Voc est enganada. Meu nome  Marcelo. Ela abraou-o trmula e respondeu:
-Voc ainda no se lembra! Mas eu nunca o esqueci.
- Eu disse que est enganada. Ns no nos conhecemos.
-  No vou insistir. Tudo acontecer a seu tempo. Venha, vou ajud-lo.
Conduziu-o a sala ao lado dizendo:
- Deite-se na maca.
Ele obedeceu. Olhou em volta e viu que havia vrios aparelhos atrs da maca, ligados entre si. Mirela apertou um boto e a sala ficou iluminada de luz azul.

Marcelo sentiu a cabea rodar e quis levantar, mas ela o segurou:
- Relaxe. No tenha medo. Estamos limpando suas feridas. Acalme-se. Logo se sentir melhor.
Marcelo reviveu o momento do acidente, mas aos poucos a sensao de pnico foi passando.
- Respire fundo e no se preocupe com nada. Relaxe. Ele sentiu-se mais calmo e notou que a queimao
que sentira nas feridas havia passado. Ela acendeu uma luz verde e Marcelo comeou a sentir uma sensao de paz que h muito no sentia.
Mirela comeou a passar as mos sobre o corpo dele, sem toc-lo. De suas mos saam uma energia laranja que penetravam em seu corpo provocando-lhe a sensao de 
vigor.
Ele no soube dizer quanto tempo durou esse tratamento, mas quando ela acendeu as luzes e perguntou como ele estava se sentindo, respondeu:
- Parece um milagre. A dor, o mal-estar desapareceu. A um gesto dela Marcelo sentou-se. Ela desligou
alguns aparelhos e perguntou:
- Voc tambm ter de ficar aqui?
- No. Vim s conhecer. Vou voltar j para o lado de minha mulher.
- Voc est casado?
- Estou. Mas minha esposa ainda vive no mundo. Eu sofri um acidente de carro e vim para c. Mas no me conformo. Embora ela no possa me ver, vou ficar l, com ela.
Mirela olhou-o triste:
- Voc precisa aceitar a separao. No  bom insistir em uma coisa que no tem como continuar. Chegar o dia em que ter de deix-la quer queira ou no.
Marcelo trincou os dentes:
-  Isso nunca acontecer. Obrigado pela ajuda. Estou me sentindo aliviado. Veja, as feridas esto cicatrizadas. Nunca esquecerei o que fez por mim.
- Gostaria de fazer muito mais. Infelizmente no posso.
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- Preciso ir. Vitor est me esperando. Vamos voltar a Terra.
Mirela hesitou um pouco depois disse:
- Cuidado com as pessoas daqui. Voc fez algum trato?
- No. Por que est me dizendo isso?
- Porque nem sempre as coisas so o que parecem.
- Bem, preciso ir. Mais uma vez obrigado por tudo. Ele dirigia-se para a porta, mas Mirela segurou no seu brao:
- Por favor, no conte ao Vitor o que eu lhe disse. Eles podem no gostar.
- Fique sossegada. No direi nada.
Mirela fixou-o emocionada e em seus olhos havia o brilho de uma lgrima quando disse:
- Apesar de tudo, v-lo foi uma gratificante emoo. Marcelo sentiu uma onda de ternura envolv-lo e
abraou-a com carinho:
- No sei explicar, mas parece que j vivemos outros momentos como este.
- J sim. Um dia voc se lembrar e ento, quem sabe poderemos falar do passado, rever nossos sentimentos.
- Sinto que isso  verdade. Por que ser que no me lembro?
- Porque seu corao ainda est mais ligado aos que ficaram na Terra do que a sua vida astral. Quando isso passar, voc vai lembrar.
- Por que no me conta tudo?
- Porque  voc que precisa recuperar sua memria. Isso tem de acontecer de uma forma natural.  melhor no forar.
- Nesse caso j vou. Obrigado. Estou me sentindo muito melhor. Gostaria de fazer alguma coisa por voc em agradecimento.
- Eu tambm preciso de ajuda. Reze por mim.
- No sou muito de rezar, mas vou tentar.
Ela abriu a porta e Marcelo saiu. Vitor o esperava e vendo-o disse contente:
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 - Nossa, como voc melhorou! Perdeu aquele aspecto aterrador.
- Essa enfermeira faz milagres. Estou me sentindo timo. Vitor fixou-o com certa preocupao e perguntou:
- Ela chamou-o de Renato, disse que o conhecia. Voc se lembrou de onde?
- No.
- Ela no contou nada?
- No. Achei curioso, mas se fosse verdade eu teria lembrado. Ela deve ter se enganado.
- Pode ser mesmo.
- O tratamento dela  poderoso. O que fez comigo parece um milagre.
- Ela tem o Dom de curar as pessoas. Precisamos ir embora. Vamos.
Marcelo concordou. Vitor segurou seu brao e foram volitando. Dentro de pouco tempo estavam de volta no apartamento de Aline.
Entraram no quarto dela que dormia tranqila. Da sua nuca saia um cordo prateado que se perdia na distncia.
- O que significa isso? - indagou Marcelo admirado;
- Nada de mais. O esprito dela ainda no voltou ao corpo.
- Ela dorme todas as noites, mas eu nunca tinha visto isso antes.
-  porque voc agora melhorou, est mais sensvel. Bom, mas eu preciso ir. Pense bem no que o mestre lhe disse. Vou ficar ligado a voc. Se desejar me ver  s 
chamar que virei.
- Obrigado por tudo.  muito bom ter um amigo.
- Pode contar comigo.
Ele se foi e Marcelo sentou-se ao lado da cama. A aventura daquela noite havia sido fantstica. Lembrou-se de Mirela e sentiu certo enternecimento.
Quem seria ela? Algum dia teria representado alguma coisa em sua vida? No saberia dizer. Mas a emoo aparecia quando se lembrava dela.
De repente ele teve sua ateno despertada. Aline estava entrando atravs da janela fechada. Estava linda, seu corpo espiritual envolvido em luz.
Marcelo fitou-a embevecido. Parecia uma deusa. Mas ela passou por ele e acomodou-se no corpo adormecido, suspirando levemente. Depois, virou de lado e continuou 
dormindo.
Ainda sob a forte emoo do momento, Marcelo acomodou-se do lado dela na cama, abraou-a e por sua vez adormeceu.
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VII

 Rodrigo chegou ao escritrio mais cedo e dirigiu-se logo  sala de projetos. Na noite anterior havia trabalhado at tarde e no conseguira acabar. Tinha de apressar-se 
porque o prazo estava vencendo e a multa contratual era alta.
Fazia um ms que Arete havia comeado a trabalhar em sua empresa e ele estava muito satisfeito. Ela cuidava da parte administrativa e financeira com competncia 
e seriedade, deixando-o livre para fazer seu trabalho com tranqilidade.
Alm disso, trazia toda documentao em ordem, com capricho e dedicao. Nunca a empresa estivera to bem gerenciada como nas mos dela.
Satisfeito, Rodrigo sentou-se diante da mesa de trabalho revendo o que fizera no dia anterior e comeou a trabalhar.
Pouco depois a porta abriu-se e um homem entrou sem bater e Rodrigo olhou-o surpreendido:
- Seu Joo! O que quer aqui?
- Primeiro quero saber: o que aquela mulher est fazendo aqui?
Rodrigo no entendeu e perguntou:
- Mulher, que mulher?
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- A irm daquela safada da Aline.
- O senhor est nervoso sem razo. Sente-se, vamos conversar.
- No quero ningum daquela famlia na empresa de meu filho. Mande-a embora.
Rodrigo olhou-o srio. Sentou-se novamente e respondeu:
- No posso fazer isso.
- Como no?
- Primeiro porque quer o senhor queira ou no, Aline  a nica herdeira dos bens de Marcelo. Segundo, porque Arete ofereceu-se para ajudar-me em lugar da irm, 
 muito competente e eu no posso ficar sem ela.
Joo passou a mos nos cabelos nervoso:
-  No posso acreditar no que est dizendo. Ela abandonou o lar, foi a culpada pela morte de meu filho, no pode herdar seus bens.
- Marcelo morreu em um acidente de carro e Aline nem estava presente. A lei no reconhece nela nenhuma culpa. Portanto, ela  sua nica herdeira.
- Eu e minha mulher no vamos aceitar isso. H de haver justia nesta Terra. Vou entrar com uma queixa crime contra ela.
- Faa como quiser, Seu Joo, mas ser intil. Vai gastar dinheiro  toa.
- De que lado voc est? Pensei que fosse amigo de Marcelo. Agora vejo que nunca foi.
- O senhor est sendo injusto.
- Se fosse amigo dele no aceitaria essa mulher nesta empresa.  uma traio sem tamanho.
-  No penso assim. Acho que o senhor deveria refletir melhor antes de condenar Aline. Ns no sabemos as razes que ela teve para ir embora.
- Certamente fugiu com outro. O que mais poderia ser? Por que uma mulher casada com um homem que a adorava, lhe dava uma vida de rainha, fazia-lhe todas
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as vontades, iria embora? S pode ser por uma paixo desenfreada, uma loucura.
- Pelo que sei no foi isso que aconteceu. Aline no est vivendo com ningum. Est trabalhando.
-  o que dizem seus familiares para encobrir seu erro. Mas em casa todos sabemos a verdade.
- O senhor est sendo maldoso.
- Voc est aprovando o que ela fez.
- Eu no aprovo nem desaprovo uma vez que no estou dentro dela para saber os motivos que a levaram a fazer isso.
- Voc est mais  arranjando uma desculpa para poder justificar sua atitude dando emprego  irm dela.
Rodrigo procurou conter a indignao com a atitude dele. No queria levar adiante aquela discusso, primeiro porque era o pai de Marcelo e ele estava ferido pela 
dor da perda do filho e segundo porque precisava estar com a cabea leve para poder terminar o trabalho.
Respirou fundo e respondeu:
- O senhor pensa diferente de mim. Respeito seu ponto de vista. No vamos discutir. O senhor ainda no disse o que veio fazer aqui.
- Eu vim justamente para tratar dos negcios de Marcelo.
- Nesse caso  melhor procurar um advogado porque pelo que sei a famlia de Aline j abriu o inventrio.
- No podiam fazer isso sem nos consultar. -Tanto podiam que fizeram. Segundo a lei, Aline  a nica herdeira dos bens de Marcelo. Se no acredita, aconselho-o procurar 
informar-se.
- Vai ver que foi voc quem os orientou a fazer isso na calada da noite, aproveitando-se que estvamos mergulhados na dor.
Rodrigo estava no auge da irritao e a custo conseguiu dominar-se:
- Olha, Seu Joo, eu o respeito muito, sei que est sofrendo, mas isso no lhe d o direito de me ofender.
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V para casa, procure se acalmar, e outro dia voltaremos a conversar.
Joo levantou-se, lanou um olhar irritado e disse nervoso:
-  Pensei encontrar um amigo, estava enganado. No tenho mais nada para falar com voc. De agora em diante vou procurar meus direitos perante a lei. Voc no perde 
por esperar.
Ele saiu pisando duro e batendo a porta com fora. Rodrigo sentou-se angustiado. Arete entrou em seguida:
-  Desculpe, mas vocs falavam alto e no pude deixar de ouvir.
-  Foi difcil me controlar. Se ele no fosse o pai de Marcelo...
-  Foi melhor assim. Seu Joo estava fora de si. Nunca procurou se informar sobre o que aconteceu. preferiu transformar sua dor em dio e jogar tudo sobre Aline 
e nossa famlia.
- Escolheu o pior caminho. Isso s o levar a uma dor maior.
- Pensam que s eles esto sofrendo. No sabem o quanto meus pais esto chocados e Aline est sofrendo,
Rodrigo olhou-a nos olhos e disse srio:
-  Eu tambm tenho me perguntado o porqu de Aline ter ido embora daquele jeito.
- Aline desde pequena desejou ir morar nos Estados Unidos. Comeou estudar ingls to cedo e com tanto empenho que fala esse idioma com perfeio, No queria namorar 
nem casar, mas ir para l. Marcelo se apaixonou e a seguia por toda parte. Comearam a namorar aps muita insistncia dele que a cercou de tanto carinho, que a conquistou. 
Meus pais no queriam que ela deixasse o pas e fizeram de tudo para que ela se casasse com ele.
- Sempre me pareceu que eram felizes juntos.
- Ela gostava dele, mas penso que no o suficiente para esquecer completamente seus planos. Diante da

famlia, ela no os mencionava, mas comigo se abria, falando do seu entusiasmo com tudo que se relacionara  aquele pas.
- Talvez se tivessem tido filhos ela teria esquecido isso. O instinto maternal  muito forte.
- Segundo sei, apesar de Marcelo desejar ter filhos, Aline sempre os evitou sem dizer nada a ele. Sei que ela tomava plulas.
- Nesse caso, Aline no foi sincera com ele. Eu fui testemunha o quanto ele desejava ser Pai-
- Apesar de casada, penso que Aline nunca deixou de pensar em realizar seus sonhos de criana. E foi isso que ela fez. Arranjou um emprego em uma companhia em Miami, 
no disse nada a ningum e se foi.
- Marcelo era muito apegado a ela. Imagino como ficou chocado ao encontrar a carta. Imaginou que podia tentar impedi-la de embarcar, Pegou o carro e deu no que deu. 
Talvez se Aline houvesse conversado com ele, dito a verdade, teria sido melhor-
- Minha irm sempre enfrentou seus problemas de frente, mas no caso de Marcelo, no sei se teria dado certo. Ele telefonava vrias vezes Por dia, no dava folga, 
ficava o tempo inteiro em volta dela. Nunca permitiria que ela fosse embora.
-   por isso que eu nunca vou amar. Tenho horror  dependncia.
- Voc nunca se apaixonou?
-  Nunca. Nem vou me apaixonar. A vida a dois  muito difcil. A mulher  muito diferente do homem.
- Voc  contrrio ao casamento-
Havia uma certa provocao nos olhos dela ao que ele respondeu sorrindo:
- Sou, mas no contra as mulheres.
-  Pela quantidade de telefonemas femininos d para notar.
- Tenho muitos amigos e gosto da vida social. Mas voc parece o oposto. Nunca nos encontramos nos lugares da moda.
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- Eu prefiro um bom livro, ou uma conversa inteligente com amigos. No freqento lugares da moda onde as amizades so superficiais. Costumo selecionar meus amigos.
Rodrigo olhou-a pensativo.
- Eu deveria ter dito que tenho muitos conhecidos, porque de fato, amigos verdadeiros so raros. Mas voltando ao nosso assunto, voc acha que Aline se arrependeu?
- Ela ficou muito chocada com a morte trgica de Marcelo. De certa forma sentiu-se culpada, mas por outro lado disse que no o amava mais e que no era justo continuar 
vivendo com ele. Lamenta o que aconteceu, mas resolveu continuar vivendo l, gosta do emprego, da cidade. Quer tocar a vida para frente.
- Talvez seja melhor mesmo ela no voltar, pelo menos por enquanto. Os pais de Marcelo no a poupariam.
- Sem falar das recriminaes de meus pais. Eles so pessoas simples, gostavam muito de Marcelo, pensavam que casando Aline com ele, estariam isentos de problemas 
futuros. No conseguem entender o que ela fez.
- Com o tempo eles vo esquecer. J a famlia de Marcelo ser mais difcil. Esto muito revoltados.
- D para entender. Perder um filho  a maior dor que um ser humano pode sentir. Agora vamos esquecer e trabalhar. A vida continua e temos que seguir em frente.
Rodrigo concordou e voltou  mesa para continuar trabalhando. A conversa com Arete tivera o Dom de faz-lo esquecer a irritao que as palavras de Joo haviam provocado.
Mais disposto, retomou ao seu projeto e comeou a trabalhar.
Seu Joo deixou o escritrio do filho ruminando a raiva. Rodrigo no era o amigo de Marcelo que ele pensara que fosse. Onde j se viu ficar do lado de Aline?
Ele no podia perdoar isso. Arete, trabalhando na sala que fora de Marcelo era ultrajante. Era como colocar no lugar do filho, seu prprio inimigo. Mas isso no 
podia ficar assim.
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Com mos trmulas procurou na carteira o carto de um advogado que haviam lhe dado, encontrando-o decidiu procur-lo imediatamente.
Foi at l e infelizmente para ele, a resposta que obteve no foi a que desejava. As palavras do advogado confirmaram o que Rodrigo havia lhe dito.
Marcelo se casara em comunho de bens e Aline era sua nica herdeira. Joo no poderia fazer nada e o advogado aconselhou-o a esquecer o assunto.
Joo chegou em casa inconformado. Ivone o esperava ansiosa. Assim que o marido entrou perguntou:
- E ento?
- Voc no pode imaginar o que aconteceu.
- Pela sua cara vejo que deu tudo errado.
Ele sentou-se, tirou o leno, enxugou o suor e suspirou nervoso.
- Fala homem, como foi? - insistiu ela.
- Quando entrei na sala do Marcelo, sabe quem estava l com ares de dona? Arete!
- A irm daquela desavergonhada?
- Essa mesma. Est trabalhando no lugar do nosso filho, como se o escritrio fosse dela.
- Como  que Rodrigo aceitou uma coisa dessas?
- Foi isso que fui perguntar a ele. Mas sua resposta me deixou com muita raiva. Disse que Arete era muito competente e que havia assumido no lugar de Aline por 
ela ser a herdeira de Marcelo.
- O qu? Ela ficou com tudo que era de nosso filho?
- Ficou.
-  Isso  um insulto. Ele deve estar se remexendo no caixo.
- Rodrigo ainda quis defender aquela assassina e eu sa de l muito nervoso.
- Ns no podemos permitir que isso continue. Voc precisa procurar um advogado.
- Eu j fui e ele disse que no podemos fazer nada. Eles eram casados em comunho de bens. Aline  a herdeira de tudo.
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Ivone no se conformou. Lgrimas de revolta desceram pelas suas faces e ela exclamou:
- Deus no h de permitir que eles fiquem impunes e ainda com tudo que era dele.
- Segundo a lei no podemos fazer nada.
- O que est acontecendo aqui? Por que a mame est chorando?
Mrcio havia entrado e eles no haviam notado. Olhando o filho, Ivone chorou ainda mais. Foi Joo quem respondeu:
- A irm de Aline tomou posse de tudo que era de Marcelo. O advogado disse que  um direito dela e no podemos fazer nada.
Mrcio abraou a me que o olhou dizendo:
-  Meu filho, agora s temos voc. Tem que fazer alguma coisa em nome de seu irmo. Isso no pode ficar assim.
Mrcio era irmo dois anos mais novo do que Marcelo e fisicamente parecia-se com ele. Ficou abraado  me sentindo o corao apertado. Seu irmo havia sido seu 
dolo. Enquanto ele era tmido, Marcelo era expansivo, extrovertido e o ajudara muitas vezes em suas dificuldades pessoais.
A morte do irmo atingira-o profundamente. A vida toda se apoiara tanto nele que agora sentia-se meio perdido, sem rumo.
Trincando os dentes respondeu com raiva:
- Tem razo mame. Isso no pode ficar assim.
- Ns no vamos poder fazer nada - interveio Joo - a lei est do lado deles.
- Se a lei no permite, tentaremos outro caminho -tornou Mrcio.
Os dois o olharam interessados e Ivone perguntou:
- Qual?
- Tenho um amigo que freqenta um lugar onde eles fazem milagres.
Joo meneou a cabea negativamente:
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- Isso  bobagem. No creio que possa funcionar.
- Pois eu acredito - rebateu Ivone - Dora descobriu que o marido tinha uma amante, estava a ponto de sair de casa. Ela foi em um terreiro, fez tudo que mandaram, 
pouco tempo depois a outra sofreu um acidente, quase morreu, acabou indo embora para longe e o marido dela voltou para casa com o rabo entre as pernas. Ela me contou.
- Pode ter sido coincidncia - disse Joo.
- No foi no. - O Walter trabalha nesse centro. Desde que comeou a ir l, a vida dele mudou para melhor. Foi promovido, o salrio aumentou, ele est muito satisfeito. 
H tempos me convida para ir tambm. Eu nunca quis. Mas agora, penso que chegou a hora.
-Acho melhor no ir a um lugar desses. No gosto dessas coisas. - Tornou Joo.
-  Pois eu acho que voc deve ir. Afinal, estamos sendo roubados pela mulher que matou nosso filho. Se a justia dos homens no faz nada, temos que procurar a justia 
de Deus.
- Isso mesmo, me. Hoje mesmo falarei com ele e irei at l. Estou certo de que vamos conseguir reverter essa situao a nosso favor.
- Isso mesmo, meu filho. No podemos deixar que essa assassina ainda fique com tudo que era de Marcelo.
Naquele mesmo dia, Mrcio procurou o amigo e contou-lhe o que estava acontecendo e finalizou:
- Pensei em procurar ajuda no seu terreiro.
- Acho uma boa idia. Pai Jos  muito procurado para resolver esses casos de famlia. Amanh  dia de trabalho. Passe em casa s sete e meia e iremos juntos.
Mrcio concordou satisfeito. At ento ele sofrera os acontecimentos como vtima sem poder fazer nada. Agora, havia uma possibilidade de pelo menos castigar os culpados 
pela morte do irmo. A justia seria feita.
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VIII

Depois que Marcelo deixou a sala, Mirela sentou-se pensativa e algumas lgrimas rolaram pelo seu rosto.
Rever Renato, mesmo ainda sem lembrar-se dela, trouxera de volta o grande amor que sentia por ele, que os anos no haviam conseguido apagar.
No sculo dezenove, em uma pequena cidade do sul da Frana, Mirela crescera em meio a trs irmos, em uma propriedade da famlia que se dedicava  viticultura.
Aos quinze anos, Mirela tornara-se uma moa de rara beleza, grandes olhos azuis, pele clara, cabelos castanho escuro, corpo esbelto e bem feito, atraindo admirao 
por onde passava.
Ento foi cortejada por um nobre italiano, dono de um castelo em Veneza que apaixonado pediu-a em casamento. Ela no queria porque ele era bem mais velho, porm 
seus pais, ambiciosos, a foraram a se casar.
Apesar de no amar o marido, ela acabou aceitando que ele a amasse, porquanto rodeava-a de tantas atenes e carinho que ficava difcil rejeit-lo.
Aps o casamento, ela foi morar com ele em seu palcio e quatro anos depois, o casal j tinha um casal de filhos. Marco, o mais velho e Giuliana.
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Com os anos, Mirela tornara-se mais bonita e, quando desfilava com o marido e os filhos pela cidade, era muito admirada.
Assim um gondoleiro apaixonou-se perdidamente por ela que nunca o notara.
Levado pela paixo, Renato comeou a segui-la por toda parte, a princpio discretamente, mais tarde com certa insistncia.
Uma tarde em que ela saiu a passeio com os dois filhos e a pajem, eles entraram na gndola em que Renato trabalhava. Animado por ter sua amada to perto, ele cantou 
canes de amor com tal fora que Mirela fixando-o sentiu dentro de si uma emoo nova.
A partir da, ela comeou a notar sua presena e descobriu como ele a seguia por toda parte. No comeo, Mirela achou graa, notou a beleza do rapaz, sua voz apaixonada 
cantando lindas canes de amor. Sentiu que ele a amava e sua presena comeou a tornar-se indispensvel ao redor.
No aniversrio de Mirela, Giulio, seu marido, querendo agrad-la, contratou msicos para sua festa. Renato estava entre eles.
Vendo-o, ela emocionou-se e procurou controlar seus sentimentos. Em um momento em que foi tomar ar no terrao, Renato passou por ela que conversava com uma amiga 
e sem que ningum notasse colocou em sua mo um bilhete.
Trmula de emoo, Mirela assim que pode escondeu-o no seio. Depois foi at seu quarto, fechou a porta e leu:
Senhora,
Estou ficando louco de amor. No suporto mais estar perto sem poder toc-la. Sei a distncia que nos separa, mas anseio por um beijo seu. Depois posso morrer, pois 
nada mais desejo da vida.
Renato.
102
Mirela estremeceu de prazer imaginando como seria esse beijo. Esse desejo passou afazer parte de sua vida.
Por isso, quando Giulio viajou para Roma, ela no resistiu. Mandou um bilhete para Renato, marcando um encontro em sua casa no meio da noite e com a ajuda de uma 
criada, preparou tudo com discrio.
Na hora marcada, Renato foi introduzido em seu quarto e os dois atiraram-se um nos braos do outro, e em profunda emoo confessaram seu amor.
Mirela nunca havia sentido nada assim e ficou assustada. Pensou que era hora de parar. Porm no conseguiu. Sempre que o marido se ausentava, os dois amantes se 
encontravam e a cada dia mais e mais se amavam.
Mirela desejava ir embora com Renato, ansiava por viver ao lado dele sem precisar esconder-se, mas havia as crianas e ela no tinha coragem de deix-los. Arrast-los 
nessa aventura seria impossvel.
Giulio era um homem bom, mas no aceitaria sua traio e muito menos que seus filhos fossem levados por ela. Certamente a mataria e a Renato.
Foi ento que aconteceu o inesperado. Certa madrugada, Giulio regressou inesperadamente e ao entrar no quarto do casal encontrou Mirela nos braos de Renato.
Ao ver a cena Giulio revoltou-se, aproveitando-se do estupor dos traidores, apanhou o revolver na cmoda e apontou-o para Renato dizendo:
- Traidor maldito, na minha ausncia voc se aproveitava de minha mulher. Vou acabar com voc.
Apavorada, Mirela colocou-se na frente de Renato dizendo aflita:
- Pelo amor de Deus, no faa isso!
O rosto de Giulio contraiu-se em um ritus de dor:
- Eu queria acreditar que ele havia entrado contra sua vontade. Que havia sido um assalto. Mas agora vejo que no. Voc o est defendendo!
- Me perdoe Giulio. Mate-me, mas deixe-o ir. Por favor.
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Giulio sentiu um atordoamento e por alguns instantes cambaleou. Foi o suficiente para Renato pular sobre ele, tomar o revolver e atirar.
Mirela gritou, Giulio caiu e Renato fugiu pela janela, descendo com cuidado sem que ningum o visse.
Os criados correram, tentaram socorr-lo, mas foi intil. Giulio no resistiu.  polcia, Mirela disse que fora um ladro que havia tomado seu revolver e atirado.
A polcia investigou, mas no conseguiu descobrir o assassino. A pajem sabia do seu romance com Renato, mas dedicada  patroa, calou-se embora desconfiasse da verdade.
Mirela resolveu voltar para a cidade onde vivia sua famlia. Vendeu o castelo, comprou uma vila no sul da Frana e mudou-se para l com os filhos. Estava rica e 
poderia dar boa educao aos filhos e manter bem a famlia.
Renato a seguiu pouco depois, e passado algum tempo, aproximou-se da famlia dela. Eles continuaram se encontrando e, por fim, com a aprovao de todos os familiares 
dela, casaram-se e viveram muitos anos juntos.
Recordando-se de tudo isso, Mirela pensava que a felicidade daqueles anos lhes custara muito caro depois que regressaram ao mundo espiritual.
Renato morreu aos sessenta anos e Mirela, inconformada com a viuvez, cinco anos depois, vitimada por uma pneumonia, deixou a vida fsica.
Ao acordar no astral, viu-se amparada por dois enfermeiros e recolhida a um local de recuperao. Contudo, ao ver que a morte fora apenas uma mudana de estado, 
desejou encontrar Renato.
Perguntava por ele a todos que estavam a sua volta, sem conseguir resposta. Ningum sabia onde ele estava.
Esse pensamento tornou-se uma verdadeira obsesso para ela. Tendo certeza de que ele no se encontrava naquele local, quis ir embora, mas no obteve permisso para 
deixar o hospital.
- Voc ainda no est bem, precisa continuar o tratamento - dizia-lhe o enfermeiro.
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- Estamos muito perto da crosta terrestre, - dizia outro - voc no est preparada para sair por a.  muito perigoso.
- Tenha pacincia - dizia-lhe o diretor do hospital -quando voc estiver bem, a ajudaremos a localizar a pessoa que procura.
Mas Mirela no queria esperar. Para encontrar Renato faria qualquer sacrifcio. Tentou vrias vezes, e como no obteve permisso, sentiu raiva, revoltou-se. Comeou 
a no fazer nada que eles pediam.
Uma noite, ouviu uma voz masculina que lhe disse:
- Eu sei onde Renato est.
- Quem est falando? No estou vendo.
- No pode me ver porque estou fora da. No posso entrar porque seno eles me prendem, como fizeram com voc.
- Quer dizer que estou presa mesmo?
- Claro. Ainda duvida?
- Eles dizem que quando for possvel vo ajudar-me a encontrar Renato.
- E voc acredita?  mentira!
Mirela comeou a chorar inconformada. A voz continuou:
- Agora no posso falar muito. Mas quando todos estiverem descansando, v at o jardim e fique mais perto que puder do muro. Eu estarei esperando do lado de fora 
e entrarei em contato para dizer como fazer.
- Est bem. Irei.
Mirela sentiu que o tempo custava a passar. Porm quando viu que tudo estava em silncio, saiu e foi at o jardim e ficou do lado do muro. Em seguida a voz disse 
suave:
- Vamos embora.
- Como vou sair? O muro  alto e tem alarme.
- No se preocupe com isso. Tenho tudo preparado. Voc s precisa imaginar que est do lado de fora. Faa isso com toda fora que puder.
Ela obedeceu e no mesmo instante viu-se do lado de fora. A luz do alarme comeou a piscar e um vulto a puxou enquanto o dono da voz dizia:
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- Vamos antes que eles nos impeam. Enlaou-a pela cintura e comearam a volitar com rapidez. Mirela sentia-se sem ar de tanta emoo.
Quando se acalmou um pouco olhou o homem que a conduzia. Era alto, magro, seus traos pareciam-lhe familiar.
- Quem  voc? - indagou.
- Apenas um amigo.
- Sabe onde Renato est?
-Sei.
- Ele est bem?
- No. Tem estado muito inquieto porque voc no lhe dava paz.
- Como assim?
- No fazia outra coisa seno pensar nele.
- Ele sentia? Continua pensando em mim?
- No posso dizer mais nada. Temos de ficar calados. Estamos atravessando um local muito perigoso. Voc precisa cooperar. Imagine que est escondida que ningum 
a pode ver.
Mirela obedeceu. Logo viu um bando de pessoas maltrapilhas de fisionomia desagradvel e sentiu grande mal estar. Assustada, fechou os olhos e imaginou que ningum 
a estava vendo.
Pouco depois seu acompanhante lhe disse:
- Pode relaxar. Estamos fora deles e perto do nosso destino.
- Como  esse lugar onde Renato est?
-  um grupo de pessoas que trabalham em favor da justia. L voc ver.
Depois de atravessar um lugar onde havia muita neblina, divisaram uma fortaleza medieval, circundada por um muro muito alto.
- Chegamos
- disse ele.
Aproximaram-se da porta. Ele disse o nome e o enorme porto se abriu, eles entraram em um imenso ptio, onde havia muitos homens uniformizados andando de um lado 
a outro em vrias atividades.
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- Onde esta Renato? - indagou Mirela um pouco assustada.
- Est aqui, mas antes temos que conversar com Mimo, que  o diretor e conseguir permisso para v-lo.
Mirela sentia o corao ansioso, mas ao mesmo tempo apertado. No gostou daquele lugar.
Foram at uma porta que se abriu e eles andaram por um corredor de pedra at a sala de Mimo, que os esperava sentado em um coxim.
Vitor saudou-o e apresentou Mirela.
- Ela foi esposa de Renato e deseja v-lo. Mimo fixou nela seus olhos penetrantes e disse:
- Sente-se aqui, a meu lado. Trmula ela obedeceu.
- Voc deseja ver Renato, mas antes preciso dizer-lhe que ele est sob a custdia de um companheiro nosso a quem ele deve obedincia.
- Como assim, no estou entendendo.
- Vou refrescar sua memria. J esqueceu do adultrio que vocs cometeram e depois tiraram a vida de seu primeiro marido?
Mirela estremeceu e sentiu vontade de fugir. Levantou-se assustada.
- Sente-se - ordenou ele com voz firme.
- Nossa organizao ajuda os que sofreram injustias a cobrarem seus direitos. Giulio nos procurou pouco depois que vocs o mataram, pedindo vingana. Estava indignado 
pela traio. Ele sempre a tratou com respeito e no merecia o que lhe fizeram. Alm de tudo ainda lhe tiraram a vida. Por isso, lhe demos nosso apoio. Durante muito 
tempo ele tentou fazer alguma coisa contra vocs, mas no conseguiu porquanto o amor que ele sentia pelos filhos e a felicidade que vocs tinham o impedia de chegar 
mais perto. O amor que os unia os defendia do dio de Giulio.
Ele fez uma pausa enquanto Mirela trmula de terror no conseguia dizer nada. Depois continuou:
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- Ele soube esperar. Quando Renato deixou o corpo, Giulio o estava esperando na beira do tmulo. Ajudamos que ele o trouxesse para c, ele foi condenado a servir 
Giuiio como escravo. Agora voc veio, quer v-lo, mas teremos que pedir permisso para Giulio.
- Ele no vai deixar... - conseguiu balbuciar Mirela.
- Talvez no.
Ela levantou-se exclamando aflita:
- Eu no quero ficar aqui. Preciso ir embora. Quero voltar para onde eu estava.
Mimo riu, aspirou um pouco em um aparelho que parecia conter pio e, soltando a fumaa, disse:
- Tarde demais. Voc agora ficar aqui. Tambm tem contas a ajustar com Giulio.
Mirela tentou correr, porm Vitor a conteve.
- Calma. No adianta fugir.  melhor enfrentar de uma vez.
Mirela respirou fundo e respondeu:
- Nesse caso quero falar com Giulio.
- Leve-a at ele
 - concordou Mimo.
Vitor tomou-a pelo brao e conduziu-a por um corredor escuro, depois desceram vrios degraus at alcanarem um subterrneo escuro e ftido.
Continuaram caminhando e, aos poucos, ela comeou a divisar as celas onde havia alguns prisioneiros.
Por fim pararam diante de uma delas e Mirela viu Giulio parado na porta, do lado de fora enquanto notava Renato do lado de dentro.
Em um segundo Giulio pegou Mirela pelo brao e eles se viram dentro da cela. Mirela vendo Renato gritou aflita:
- Renato, meu amor. At que enfim o encontro! Ele aproximou-se, abrindo os olhos tentando enxerg-la,
- Mirela! Onde voc est? Como chegou a este inferno?
- Estou aqui, meu querido!
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Ela desvencilhou-se do brao de Giulio e correu para Renato abraando-o.
Giulio saltou sobre eles separando-os violentamente.
- Como tem coragem de continuar afrontando-me desta forma? Chegou a hora de pagarem por tudo que me fizeram.
Mirela notou que Renato estava mal. Magro, plido, parecia uma sombra do que fora. Sem poder conter-se ela gritou:
- Giulio! Nunca imaginei que voc pudesse ser to perverso.
- Eu, perverso? Vocs me traram, acabaram com minha vida, ele tomou meu lugar, diante de voc, dos meus filhos e voc ainda o defende? O injustiado fui eu, o perverso 
foi ele! Estou apenas fazendo justia.
- No planejamos o que aconteceu. Eu me apaixonei por Renato e ele por mim. Foi mais forte do que ns. No pudemos evitar.
- Se eu soubesse antes os teria matado. Mas no fim quem morreu fui eu, com minha prpria arma. Mas se a justia dos homens falhou, a minha no vai falhar.
- Faz muito tempo que voc o prendeu. No acha que chega? At quando pretende levar isso adiante?
-At quando eu quiser. Afirmo que no sinto vontade nenhuma de lhes dar liberdade. Vocs nunca mais sero felizes. Isso eu garanto.
Mirela atirou-se sobre ele nervosa:
- Ns nos amamos. Voc no pode fazer isso.
- Posso e farei.
- Por favor, eu imploro, deixe-nos ir. Peo-lhe em nome do amor que um dia sentiu por mim.
- Esse amor h muito no existe mais. Morreu naquele dia. Hoje s sinto dio. Muito dio. Venha Mirela. De hoje em diante voc vai me servir.
- Quero ficar com Renato.
- Vai ficar comigo.  do meu lado que ter de ficar. Venha.
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-  Mirela, no v. Fique comigo. No me deixe. Precisamos conversar - gritou Renato desesperado.
Mas Giulio no lhe deu tempo de reagir arrastou-a para fora e conduziu-a a seus aposentos.
-  aqui, comigo que voc vai ficar. De agora em diante se ocupar s de mim, do meu conforto, de me alegrar, de tudo que eu quiser.
Recordando tudo isso, Mirela passou a mo pela testa como que querendo esquecer o que veio depois.
Durante os primeiros tempos, ela procurou ver Renato mas no conseguiu. Ento, passou da revolta  idia de conquistar Giulio para tentar conseguir o que queria.
Comeou a fingir que estava esquecendo de Renato e a mostrar mais simpatia por Giulio, fingindo interessar-se mais pelos problemas dele.
Havia momentos em que Giulio no se sentia bem, tendo crises de falta de ar, de angstia quando ficava plido, suava frio, caa em depresso.
Nesses momentos, Mirela tentava ajud-lo na esperana de que ele se tornasse menos exigente. Comeou a notar que quando colocava as mos sobre ele, saiam delas alguns 
raios de luz verde que o envolviam e pouco depois ele melhorava.
As pessoas logo descobriram essa particularidade e ela comeou a ser procurada para ajudar as pessoas. Satisfeita por poder fazer algo de bom, Mirela atendia a todos 
que a procuravam com amor e aos poucos foi sendo vista com carinho.
Mimo, tomando conhecimento dessa atividade dela, permitiu que ela ocupasse uma salinha e trabalhasse no atendimento dos que sofriam.
Isso foi um grande alvio para ele que recebia muitas queixas, muitos dos seus habitantes sofriam de algum mal e ele no sabia como fazer para livrar-se deles.
Mirela contribuiu para que ele tivesse menos problemas e Mimo comeou a apreci-la.
Uma tarde, depois dela haver atendido algumas pessoas, Mirela sentou-se pensativa. Estava l h alguns
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anos e durante todo o tempo sentira muito arrependimento por tudo quanto ela e Renato haviam feito.
Ela continuava a am-lo como sempre, porm, o preo que estavam pagando pelo crime cometido estava sendo muito alto. Se pudesse voltar atrs, teria agido de outra 
forma. Sabia que no teriam foras de resistir a esse amor, mas ao invs de cometer adultrio, teria se separado do marido para s depois relacionar-se com Renato.
Estava pensando nisso quando viu uma luz azulada formar-se no canto da sala e a figura de uma mulher apareceu. Ela reconheceu-a de imediato:
-Senhora Gioconda! Tambm deseja vingar-se de mim?
- No, minha filha. Vim em paz. Sei que voc est arrependida do que fez a meu filho Giulio. E o tem auxiliado apesar dele estar cheio de dio.
- Giulio era um homem bom. Eu fui culpada dele ter mudado tanto.
Gioconda abanou a cabea negativamente e respondeu:
-  No. Se ele no tivesse a maldade dentro dele, no teria pensado em vingana. Voc o tem ajudado muito. Suas mos tm o poder de curar e eu vim pedir que me ajude 
porquanto preciso tirar Giulio daqui e s poderei fazer isso se ele desejar ir. Mas ele ainda est preso a vocs dois e se ele conseguir perdoar ou pelo menos esquecer 
a vingana, aceitar vir comigo.
Lgrimas desciam pelas faces de Mirela que respondeu emocionada:
- Senhora, farei tudo que puder para ajud-lo. Desejo de corao que ele consiga nos perdoar e seguir seu caminho. Giulio merece ser feliz. Um dia ele me esquecer 
e encontrar uma mulher que o ame de verdade e seja para ele a esposa que eu no soube ser.
- Obrigada, minha filha. Estou certa que fazendo isso, voc acabar conquistando tambm sua liberdade e a de Renato.
Ela se foi e Mirela comovida firmou propsito de dedicar-se a conseguir o perdo de Giulio.
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A partir desse dia, ela passou a trat-lo com mais carinho e aos poucos ele foi aceitando sua amizade. Havia momentos em que ele esquecia o passado, e voltava a 
ser como antes.
Uma manh em que estavam juntos na sala dela, Mirela mentalizando Gioconda, aproximou-se de Giulio, colocando as mos sobre ele pediu:
- Giulio,  hora de voc seguir seu caminho e eu o meu. Chega de dios e culpas. Eu estou muito arrependida do que lhe fiz e nunca mais voltarei a cometer esse erro, 
esteja onde estiver. Mas no temos como voltar atrs e fazer diferente. E a vida nos empurra para frente. No podemos ficar parados no tempo. Alguns dias atrs sua 
me me procurou pedindo ajuda.
- Minha me pediu ajuda a voc?
- Pediu. Eu pensei que ela houvesse vindo para me cobrar, mas no. Ela veio porque sentiu meu arrependimento e ela sofre porque voc mergulhou na vingana. Sua me 
 um esprito iluminado e sofre por v-lo neste lugar. Deseja lev-lo para um lugar melhor, onde voc poder encontrar paz, felicidade.
- Ela disse isso?
- Disse. Mas s poder lev-lo com ela quando voc esquecer a vingana, nos perdoar e desejar libertar-se do passado.
Giulio ficou pensativo, as imagens felizes de sua infncia na casa paterna passaram pela sua mente e ele suspirou saudoso:
- Estou cansado Mirela. Chega de lutar. Mas no sei se poderei sair daqui. Na busca da vingana contra obrigaes para com este grupo. Talvez eu no possa me libertar.
Antes que Mirela respondesse, um claro azulado formou-se e Gioconda apareceu de braos estendidos.
Giulio atirou-se em seus braos soluando como uma criana.
- Me, me perdoa, me perdoa...
- Filho querido. Deus o abenoe.
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Eu quero ir com voc. Estou cansado desta vida.
- Diga que no quer mais guerra e sim a paz. Liberte Renato e Mirela e voc estar livre para seguir comigo para um mundo melhor.
Giulio olhou para Mirela dizendo comovido:
- Eu a perdo Mirela. H Muito que deixei de odi-la. Quero ir embora, esquecer toda essa dor, esse dio que acabou comigo.
- Perdoe Renato. Liberte-o tambm - pediu Mirela.
- Eu perdo. Afinal o passado est morto e eu quero seguir adiante.
No mesmo instante, Renato entrou na sala olhan-do-os admirado:
- Voc me libertou, Giulio?
- Sim. Eu os perdoei e desejo esquecer o passado. Minha me veio buscar-me.
Gioconda abraou o filho e disse emocionada:
- Finalmente ele aprendeu a perdoar. Eu agradeo a vocs por haver cooperado. Farei o que puder para ajud-los daqui para frente. Podem contar comigo. Agora vamos. 
Fiquem com Deus.
Ela desapareceu abraada ao filho. Renato atirou-se nos braos de Mirela beijando-a com amor.
-  Finalmente estamos juntos. No pode imaginar como desejei este momento.
- Sim, Renato. Estamos juntos. Mas ainda no sei se poderemos sair daqui, pensar em ns.
No mesmo instante, Vitor apareceu na porta dizendo:
- Mimo espera os dois para conversar. Vamos. Renato olhou para Mirela temeroso:
- Ele no vai nos deixar ir embora.
-Acalme-se, Renato. Ele no tem nada contra ns.
- Vamos
- disse Vitor
- Mimo no gosta de esperar.
Mirela deu a mo a Renato e acompanharam Vitor.
Entraram na sala onde Mimo os esperava no lugar de sempre. Despediu Vitor com um gesto, designou um sof  sua frente dizendo:

- Aproximem-se. Sentem-se. Vamos conversar. Os dois obedeceram e esperaram calados. Mimo
aspirou um pouco de pio, soltou uma baforada e tornou com voz calma.
- Giulio desertou e no cumpriu com os deveres que tinha para com nosso grupo. E, pelo que sei, voc Mirela contribuiu para que ele se fosse. Nesse caso, ter que 
nos servir no lugar dele.
- Vocs me trouxeram para c por causa dele. No fui eu quem se comprometeu com vocs.
-  Mas para ver-se livre dele e ajudar Renato, o incentivou a passar para o lado da luz.  justo que a dvida dele passe para voc.
Renato interveio:
- Ns j pagamos pelos nossos erros. Queremos cuidar das nossas vidas.
-  Podero fazer isto depois que pagarem o que nos devem.
Renato ia retrucar, mas Mirela tomou-lhe a dianteira:
-  Est certo. De que forma poderemos pagar essa dvida?
Mimo deu outra tragada, soltou nova baforada, depois disse:
- Voc continuar mais algum tempo na cura das doenas dos nossos companheiros. Renato ir com um dos nossos fazer o trabalho que Giulio tinha que nos fazer.
Antes que Renato respondesse, Mirela perguntou:
- Durante quanto tempo teremos que ficar aqui?
- Depende do desempenho de cada um. Mas me parece que vocs tm muito interesse de sair daqui. No conhecem a vida fora destas paredes, no sabem dos perigos que 
correro. Estamos rodeados de espritos de baixa vibrao. Vocs deveriam estar gratos por lhes permitir que permaneam aqui, protegidos, amparados. O que pensam 
fazer saindo daqui?
Renato olhou para Mirela sem saber o que dizer. Foi ela quem respondeu:
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- Talvez tenha razo.  melhor ficarmos aqui at que pensemos o que fazer.
-  uma deciso sbia. Certamente desejam ficar juntos o eu lhes arranjarei um lugar na nossa comunidade.
Os dois agradeceram e saram. No momento pareceu-lhes a melhor deciso.
A partir da, passaram a viver juntos em um quarto que Mimo lhes ofereceu e apesar da tristeza do lugar e dos problemas ao redor, os dois se sentiam felizes juntos. 
Entretanto, Renato no gostou do trabalho que lhe foi destinado. Tinha que acompanhar dois companheiros at a crosta terrestre, realizando vinganas e armadilhas 
a pessoas, em nome da justia.
Insatisfeito, ele se recusou a continuar nesse trabalho. Era contra seus princpios. Foi ameaado de priso e Mirela teve medo que os separassem novamente. Ela sabia 
que quem no acatava as ordens de Mimo era preso e muitos desapareciam misteriosamente. Apavorada, ela lembrou-se da promessa de Gioconda e a mentalizou pedindo 
ajuda. Horas depois ela apareceu diante dos dois dizendo:
- Ouvi seu chamado. Antes de vir, fui consultar nossos maiores sobre o caso. Descobri que Renato corre perigo ficando aqui. Vim busc-lo.
- No posso
- respondeu ele nervoso
- No quero me separar de Mirela.
-  No tenho permisso para levar os dois. Mirela precisa ficar aqui mais algum tempo. Est sendo muito proveitoso para ela o trabalho que est fazendo aqui. Voc 
pode ir comigo desde j. Mas, quando chegar a hora, ela tambm poder deixar este lugar. Mirela olhou Renato e tentou conter as lgrimas que teimavam em cair, respirou 
fundo e disse:
- V com ela, Renato. No quero que nada de mal lhe acontea.
- A separao ser temporria - tornou Gioconda
-Por enquanto no  possvel ficarem juntos, mas chegar
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o dia em que, tendo vencido seus desafios, podero finalmente seguir um ao lado do outro. Renato abraou Mirela com fora.
- No. Prefiro sofrer seja o que for a ficar longe de voc.
- Voc ouviu o que Gioconda disse. Por enquanto no podemos ficar juntos. Ns erramos muito. Precisamos aprender a agir melhor e hoje eu sei que quando estivermos 
mais conscientes dos valores verdadeiros do esprito, poderemos ficar juntos e ser felizes. Mas agora, v com ela. Nosso amor vencer todas as barreiras, no tema.
Ele ainda tentou objetar, mas Mirela o convenceu.
- Vamos
- pediu Gioconda
- Mimo sentiu minha presena e Vitor est vindo para c. No d para esperar mais.
Ela abraou Renato que com os olhos cheios de lgrimas aceitou seguir e em um gesto de amor, atirou-lhe um beijo com as pontas dos dedos.
Assim que desapareceram, Vitor entrou dizendo:
- Vim buscar Renato.
- Chegou tarde Vitor. Ele se foi.
Vitor resmungou algumas ameaas e saiu praguejando. Mirela deu de ombros. Ela sabia que Mimo no faria nada contra ela porque precisava muito que ela continuasse 
a ajudar as pessoas, permitindo assim que ele tivesse mais paz.
Algum tempo depois, Gioconda a procurou para dizer-lhe que Renato havia reencarnado. Ela ficou triste, preocupada com o tempo que ainda teria de esperar para t-lo 
de volta. Ao que Gioconda respondeu:
- Ele voltar antes do que voc pensa. Devido s circunstncias no ficar muito tempo na carne.
Ela estava certa. Renato voltara, porm era como se continuasse longe. Ele no se lembrava do passado nem do amor que os unia.
Recordando tudo isso, Mirela se perguntava ansiosa:
- Teria perdido Renato para sempre?
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Para encontrar uma resposta, precisaria esperar porquanto tempo, s o futuro poderia dizer.
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IX

Na noite seguinte, faltavam poucos minutos para comear os trabalhos no terreiro de Pai Jos, quando Mrcio entrou junto com seu amigo.
- Espere aqui que quando for a hora eu chamo
-disse ele.
Mrcio concordou, olhando em volta com curiosidade. No era a primeira vez que ele ia a um terreiro e admirou-se da quantidade de pessoas  sua volta.
Mal podia esperar. No se conformando com a morte de Marcelo, sempre sonhara poder fazer alguma coisa para ving-la. Havia chegado a hora e ele mal podia esperar.
S uma hora depois Walter o chamou:
- Vamos. Pai Jos o est esperando.
Corao batendo forte, Mrcio o acompanhou. Ao som dos tambores, vrios mdiuns cantavam enquanto alguns incorporados por seus guias atendiam as pessoas.
Mrcio foi conduzido a uma sala em separado. Walter havia lhe dito que Pai Jos s atendia os casos em que os outros mdiuns no haviam resolvido, mas Walter havia 
lhe pedido que o atendesse e por uma deferncia especial, o esprito concordara.
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A sala estava iluminada apenas por algumas velas coloridas, e a um canto havia um altar com vrias imagens, algumas ervas e alguns objetos que ele no conhecia. 
O mdium estava em p, vestido com uma roupa escura, fumando um charuto e vendo-o entrar disse:
- Si aproxime, meu filho
- Mrcio obedeceu, ele continuou:
- Em que posso ajuda?
- A mulher de meu irmo fugiu e deixou uma carta dizendo que ia para outro pas. Ele chegou em casa sem saber de nada, leu a carta, ficou to desesperado que saiu 
para ver se a impedia de embarcar, sofreu um acidente e morreu.
Mrcio sentia as lgrimas descerem pelo seu rosto, mas no se importou. Respirou fundo e continuou:
- Foi um sofrimento para toda minha famlia. Mas Aline, a mulher de Marcelo nem se importou. Continua morando em Miami como se nada houvesse acontecido. Meu irmo 
tinha uma firma que ia muito bem, e pela lei ela herdou tudo. Colocou a irm para tomar posse do que era dele. Isso no  justo. Foi por causa dela que Marcelo morreu. 
Se ela no tivesse ido embora, ele no teria morrido.
- Por que oc veio me procura?
- Pela lei no podemos fazer nada, mas vocs podem. Meu irmo era um marido maravilhoso, fez tudo por essa mulher e ela foi ingrata. Eu quero que ela perceba o erro 
que cometeu, reconhea sua culpa e pague pelo que fez. E tambm, que os bens de Marcelo voltem para nossa famlia.
Pai Jos sugou o charuto, soltou algumas baforadas e ficou em silncio. Depois de alguns minutos ele disse:
- Seu irmo ama muito essa mui, mas ela num amava ele.
- Isso mesmo.
- Mai ele t l, do lado dela. No pensa em deixa ela. Num se importa com mais nada. S qu fica cum
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ela. Pra diz a verdade, no podemo faz nada contra ela. Ele num vai deixa. Num tem nenhuma raiva pelo que ela fez, s tristeza.
- Isso no  justo! Ele no pode continuar a amar uma mulher que o abandonou, com certeza por outro homem, e que causou a sua morte.
- Ela num t cum outro home. Ela foi embora pru-que num amava mais ele.
Mrcio passou a mo nos cabelos, nervoso:
- Ser que no tem nenhum jeito? Ela vai continuar no bem-bom e ns sofrendo pela morte dele?
- Cum ele do lado, ela num vai fica no bem-bom. Ela num vai pode ser feliz, arranja outro home, nem progredir na vida. Ele qu que ela fique s pra ele. Acho que 
oc num precisa se preocupa. Seu irmo t fazendo tudo. Mai nis podemo atrapai a irm dela na firma. Isso d pr faz.
- Ento faa isso, pai Jos.
- Bo, oc vai t que traz argumas coisas pro trabaio. Valter aproximou-se com um bloco e pai Jos ditou
o que queria. Depois fez o preo. Mrcio disse nervoso:
-  muito dinheiro. Ns lutamos com dificuldades.
- Nesse caso  mi num faz nada. Ou faiz direito ou num d pra faz.
- Est bom. Acha que vai dar cento?
- O que prometo, cumpro. Mas tem que confia.
- Est certo. Vou ver se arrumo o dinheiro.
Ele saiu pensativo. Pai Jos descrevera a situao de Marcelo e se a vida continuava mesmo depois da morte, seu irmo s poderia estar ao lado de Aline. Ele nunca 
a abandonaria. Porm, ele no achava que ela estaria sofrendo. Marcelo faria tudo para que ela fosse feliz. Desde que a conhecera, ele no havia feito outra coisa. 
Mas, por outro lado, Arete haveria de sentir o peso de sua raiva. Isso o deixou cheio de alegria.
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Assim que chegou em casa, Ivone o esperava ansiosa:
- E ento, meu filho?
Em poucas palavras ele contou-lhe tudo e finalizou:
- D para acreditar que apesar de tudo o tonto do Marcelo continua ao lado dela, protegendo-a?
Ivone meneou a cabea negativamente:
- Pois se ele estiver consciente no outro mundo,  o que ele faria mesmo. Voc acha que vale a pena gastar tanto dinheiro?
- Acho. Afinal, no  justo que aquela assassina e sua famlia fiquem com o que era de Marcelo.
- Isso  verdade. Mas ser que esse pai Jos  bom mesmo? No estaremos gastando dinheiro  toa?
- Bom, o Valter diz que sim. Mas eu no sei.
- Seu pai no vai querer. Sabe como ele  com dinheiro.
- Mas se no fizermos nada, tudo continuar como est.
-  verdade. Mas se seu pai no der o dinheiro, no teremos como pagar.
- O jeito  tentar convenc-lo.
Mais tarde, quando Joo voltou para casa, os dois tentaram convenc-lo a dar o dinheiro. Porm, Joo recusou:
- Esse pai de santo est querendo nos explorar. Mrcio objetou:
- Mais pai, isso  nada diante do que vale a firma de Marcelo.
- Voc fala como se eles pudessem mudar as leis. Eu no acredito que esse homem consiga o que est prometendo.
- Pois eu acho que vale a pena tentar - interveio Ivone - Dinheiro nunca  demais. Depois, ser uma forma de punirmos essa gente que desgraou nosso filho.
- No sei, no. Acho loucura. O advogado me garantiu que no h nada que se possa fazer. Decididamente no vou dar esse dinheiro.  melhor vocs pararem com essas 
supersties.
Eles quiseram insistir, mas Joo cortou firme:
- No vou dar e chega deste assunto. No quero ouvir falar mais nisso.
No dia seguinte, quando Mrcio se encontrou com Walter, foi logo perguntando:
- E ento? J arranjou o dinheiro?
-  No. Meu pai no quer dar. Diz que ser intil, que no dar certo.
- Ele diz isso porque no entende dessas coisas. Eu, que tenho ido l, posso dizer que as pessoas esto muito contentes com o que receberam l.
- Eu sei. Se eu tivesse esse dinheiro, faria tudo, mas sou estudante, dependo do meu pai.
- E sua me, no consegue pedir emprestado a alguma amiga? Afinal no  uma quantia to grande assim.
- . Vou falar com ela, pode ser que minha tia Alade empreste. Vamos ver.
- Faa isso. Quando o dinheiro voltar para vocs, podero pagar com juros.
Enquanto isso Aline continuava se dedicando muito ao trabalho na empresa, tentando recuperar a alegria de viver.
H trs meses, ela e Rachel estavam freqentando um curso de paranormalidade no Instituto Ferguson e estudando os fenmenos psquicos.
Diante da afirmao de que a vida continua depois da morte, ela se assustara muito porquanto sabia que se Marcelo continuasse vivo do outro lado da vida, no sairia 
do seu lado.
Uma noite, no final da aula, ela muito aflita foi conversar com o professor:
- Pode dar-me alguns minutos do seu tempo?
- Posso. Vamos at a outra sala.
Aline acompanhou-o calada. Uma vez sentada na sala diante dele, disse nervosa:
- Doutor Morris, a aula de hoje deixou-me muito nervosa.
- Por qu?
Em rpidas palavras Aline contou sua histria e finalizou:
- Estou certa de que Marcelo continua a meu lado. Tenho medo. No sei lidar com isso. Sinto medo. O apego
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dele sempre me incomodou mesmo quando estava vivo, mas agora me assusta.
Doutor Morris sorriu, deixando a mostra uma fileira de dentes alvos e bonitos. Era um homem elegante, de meia idade, olhos vivos, cabelos grisalhos e muita simpatia.
- Acalme-se. Ele no pode fazer-lhe nenhum mal.
- Ele apareceu para mim no avio, estava horrvel dizendo que nunca mais ia me deixar. Pensei que fosse um pesadelo, agora acho que era ele mesmo, ferido do acidente, 
sangue escorrendo. Foi horrvel!
-Tente lembrar-se dele como quando estava aqui e bem. No alimente essa imagem. Certamente o esprito dele j deve ter melhorado.
- Mas eu no quero que ele fique perto de mim. O que posso fazer para evitar isso?
- Continue fazendo tratamento energtico. Estou certo de que nossos amigos espirituais que nos ajudam nesta instituio vo conversar com ele, fazendo-o compreender 
que agora  hora dele cuidar de si mesmo e deve aceitar a separao.
Aline abanou a cabea desanimada:
- Ele no vai aceitar.  determinado.
- Mas voc poder nos ajudar muito mantendo a atitude adequada.
- Eu?! O que posso fazer?
- Conversar com o esprito dele. Quando sentir algo diferente, como arrepios, tristeza, dor, raiva, sem nenhum motivo justificvel, imagine que seu marido est na 
sua frente e converse, explique porque voc o deixou, fale dos seus sentimentos, pea-lhe que siga seu prprio caminho e a deixe seguir o seu. As pessoas so livres 
para seguir o que a vida deseja delas e quando chega a hora elas precisam ir e no h nada que as possa impedir.
- Seria muito bom que Marcelo compreendesse isso.
- Fale com sinceridade. Pense que mesmo quando as pessoas adoram ficar junto, chegar um momento
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em que cada um dever ir para um lado, aprender coisas novas, renovar energias, desenvolver seus potenciais. Feliz daquele que ama e nessa hora consegue deixar o 
ser amado ir libertando-o para que ambos possam amadurecer.
- Farei isso e desejo de corao que Marcelo siga em paz. Sou grata a ele pelo carinho com que sempre me tratou, desejo que seja muito feliz, porm, confesso que 
no consegui am-lo como ele merecia.
- No se culpe. Cada um  como . Seu esprito ansiava por crescer, no se conformava em viver a vida da forma que seu marido queria.
-  verdade. Ele me sufocava, tentando adivinhar o que eu pensava ou queria, telefonava vrias vezes durante o dia e eu no me sentia livre para fazer o que tivesse 
vontade. No que eu desejasse grandes aventuras, mas eu queria desfrutar do prazer de dar uma volta, sem ter que dizer o que estava fazendo, explicar onde estava, 
programar o que comer, aonde ir.
- Sei como  isso. O apego excessivo inutilizou as possibilidades que tinha de ser feliz ao lado dele.
- Estou me sentindo aliviada. Obrigada por me ouvir. Vou seguir seus conselhos.
-  Faa isso. Gostaria de acompanhar esse caso. Qualquer coisa diferente que acontecer, procure-me.
Aline despediu-se e deixou a sala mais calma. Encontrou Rachel na livraria:
- Onde estava? Procurei-a por toda parte.
- Estava conversando com o professor esclarecendo algumas dvidas.
- Sobre a aula?
- No, sobre meu problema pessoal. Saber que a vida continua depois da morte deixou-me inquieta. A presena do esprito de Marcelo a meu lado assustou-me. Doutor 
Morris ouviu-me, ensinou-me a lidar com essa situao. Sinto-me aliviada.
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- Ainda bem. Para mim aconteceu o oposto. Foi gratificante saber que a morte no  o fim e que continuaremos vivos em algum lugar quando chegar a nossa hora. Afinal, 
todos ns, algum dia, teremos de enfrentar essa fatalidade.
As duas saram do Instituto conversando animadamente. Na rua separaram-se e cada uma foi para seu carro.
Naquela noite elas no haviam combinado sair e Aline decidiu parar no supermercado, pois sua despensa estava vazia.
Deixou o carro no estacionamento, entrou, apanhou um carrinho e comeou a escolher alguns produtos. A imensa variedade e o capricho da arrumao atraam sua ateno. 
Acabou comprando mais do que precisava.
Satisfeita, pagou no caixa e foi ao estacionamento. Quando estava colocando as compras no carro, ouviu alguns estouros e algum saltou sobre ela dizendo:
- Abaixe-se, vamos.
Assustada, Aline obedeceu e ouviu passos de pessoas correndo. Fez meno de levantar, mas o homem que havia saltado sobre ela continuava agachado com a mo esquerda 
sobre suas costas e ela notou que na mo direita ele segurava um revolver.
Seu corao disparou, suas pernas tremiam, mas ela conseguiu balbuciar:
- Quem  voc? O que est acontecendo?
- Fique quieta e no se levante. Sou policial. Aline obedeceu. Mais alguns tiros, correrias, gritos
e por fim algum gritou.
- Tudo sob controle.
O homem levantou-se olhou em volta. Depois, voltando-se para Aline, disse:
- Tudo bem. Pode se levantar agora.
Ainda com as pernas bambas Aline levantou-se. Na sua frente um homem alto, moreno, cabelos castanhos, olhos verdes. Aparentando uns trinta anos, vestindo um elegante 
terno cinza, a olhava sorrindo.
Um pouco alm, policiais uniformizados algemavam dois rapazes colocando-os dentro de uma viatura.
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Um dos policiais aproximou-se deles dizendo:
-  Parabns, Gino. Como sempre agiu rpido. -depois fixando Aline continuou - Voc saiu de repente e meu colega no teve tempo de impedi-la. Voc poderia ter levado 
um tiro.
- Eu no vi nada. Como poderia saber que havia perigo? Estava fazendo compras em um supermercado.
Gino interveio:
- A ao foi muito rpida, e voc estava distrada. Aline um pouco mais calma olhou para Gino e sorriu levemente:
- Obrigada. Voc me salvou.
O policial afastou-se, juntando-se aos companheiros e a viatura deixou o local.
- Meu nome  Gino Marchione.
- Aline Dangelo.
- Nome italiano, como o meu.
- Meus avs eram italianos. Eu sou brasileira.
- Os meus avs tambm so italianos. Vieram para a Amrica h muitos anos.
Aline olhou em volta procurando o carrinho com o resto de suas compras que havia desaparecido.
- Eu vi para onde foi.
Ele afastou-se e voltou em seguida trazendo o carrinho e levantando o porta-malas do carro que havia abaixado quando a empurrara para baixo.
- Obrigada mais uma vez.
Ela acomodou as compras e fechou o porta-malas.
- Depois do que passamos estamos precisando de um caf. Aceitaria tomar um comigo?
-  Para dizer a verdade, sinto vontade de ir logo embora daqui. Tem certeza de que no vai acontecer mais nada?
- Tenho. Os dois que tentaram assaltar o mercado foram presos. Mas se quiser poderemos ir a outro lugar.
- Obrigada, mas  melhor eu ir para casa.
- Nesse caso, vou acompanh-la at l.
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- No se incomode, no  preciso.
- Voc ainda est nervosa. E no me custa nada ir atrs de voc at sua casa.
- Eu moro perto daqui.
- Mais uma razo para eu lev-la. Quero v-la em segurana em casa.
Aline concordou e entrou no carro. O esprito de Marcelo, que acompanhara tudo, estava irritado.
No lhe passou despercebido o interesse de Gino por Aline e notou os pensamentos dela com relao a Gino. Ela o achou atraente, agradvel.
Acompanhando-a por toda parte, ele nunca havia notado que ela se sentira atrada por nenhum dos rapazes com os quais conversava. Porm, ele no saberia precisar 
o que era, mas havia no ar alguma coisa nova que o inquietava. Esse Gino era perigoso e ele faria tudo para afast-lo de Aline. Durante o trajeto ela observava Gino. 
Era um homem bonito, seus olhos eram penetrantes, seu rosto forte, mas quando sorria, sua fisionomia parecia a de um menino.
Marcelo remexia-se no assento nervoso. Por que Aline pensava tanto naquele intruso?
Ela chegou em casa, entrou na garagem e Gino, que havia parado no meio fio, desceu do carro. Aline fez-lhe sinal para que entrasse na porta principal, depois desceu 
do carro, deu a volta e Gino esperava no hall.
- Quer que a ajude a carregar as compras? Aline pensou um pouco, depois respondeu:
- S se aceitar tomar aquele caf comigo.
- Feito.
Marcelo teve vontade de saltar sobre ele. Porm conteve-se. Queria ver at aonde eles iriam.
Os dois carregando as sacolas foram at o apartamento de Aline que abriu a porta convidando-o a entrar.
- Se eu soubesse que iria ter companhia, teria comprado algo especial.
- Esse caf j  especial.
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Aline sorriu:
-Voc salvou minha vida. Merece mais do que isso.
Ela colocou a bolsa sobre o sof e foi preparar o caf. Gino a observava com interesse.
Ela colocou as canecas, o pote de creme, o acar e algumas bolachas. O cheiro gostoso do caf encheu o ar e Aline tirou a jarra da cafeteira e serviu.
- Com acar, creme?
- Os dois.
- Eu tambm gosto dos dois.
Sentaram-se saboreando o caf.
-  No posso esquecer o que aconteceu
- tornou Aline
- Eu no tinha percebido nada e de repente voc caiu sobre mim. De onde voc saiu?
- Eu estava dentro do meu carro, estacionado um pouco atrs do seu, de tocaia esperando que os assaltantes sassem. Vi quando eles correram e tentaram entrar no 
carro, sa, arma em punho. Eles me viram e eu senti que iam atirar, mas voc estava entre ns colocando suas compras no carro. Saltei sobre voc a tempo. Felizmente 
apareceram os policiais e conseguiram prend-los.
- Voc no usa uniforme?
- No. Eu perteno ao setor de inteligncia da polcia. E voc, faz tempo que est em Miami?
- Apenas alguns meses. Vim contratada por uma empresa daqui para trabalhar.
- Sua famlia tambm veio?
- No. Vim sozinha.
Aline pensou em Marcelo e uma sombra de tristeza anuviou seu rosto. Gino notou:
- Voc ficou triste de repente, deixou algum amor no Brasil?
- No. Eu fui casada, mas meu marido morreu em um acidente de carro.
- Sinto muito. Voc veio para c a fim de esquecer essa perda.
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-  E. Desde menina eu sonhava vir morar nesta cidade. Esse foi o motivo mais forte que me fez vir.
Marcelo olhou-os com raiva. Ela falava como se nunca o houvesse amado. Ingrata. Esquecera os momentos de felicidade que desfrutaram juntos. No teve coragem de dizer 
que fugira de casa como uma criminosa e que seu gesto tresloucado havia ocasionado a morte do marido.
Os dois continuavam conversando, falando sobre a cidade, seus costumes, as diferenas culturais entre Brasil e Estados Unidos, comparando-as com a Europa.
Aline sentia-se  vontade como se j conhecesse Gino h muito tempo enquanto que ele tinha a sensao de que aquela cena j havia acontecido antes em algum lugar. 
Marcelo, inquieto, desejava que Gino fosse embora, porm ele no parecia ter pressa. Irritado, aproximou-se dele dizendo em seu ouvido:
- Voc est abusando. V embora, chega de conversa. Onde pensa que est? No quero voc aqui. Aline  minha, muito minha.
Gino sentiu alguma inquietao e remexeu-se na cadeira:
- A conversa est to agradvel que eu estou abusando. Estou atrapalhando voc?
- No. Eu havia programado ficar em casa esta noite.
- Se voc tiver o que fazer, pode me mandar embora.
- No se preocupe. Se eu desejasse ficar s, pode estar certo que lhe diria. Desde que cheguei, fiz algumas amizades. Mas como conversamos, os costumes no Brasil 
so diferentes dos americanos. Meus amigos so timos, bons companheiros, mas se relacionam do jeito deles. J voc, talvez por ser descendente de italianos,  muito 
parecido com os brasileiros. Tanto que nos conhecemos hoje e para mim parece que somos amigos de longa data.
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- Folgo em saber disso porque eu tambm sinto o mesmo. Tenho impresso de que a conheo e de que j estivemos juntos conversando.
Marcelo andava de um lado a outro nervoso. Precisava fazer alguma coisa, tirar aquele intruso dali. Aproximou-se de Gino olhando-o com raiva e disse-lhe ao ouvido:
- V embora daqui j. No quero que volte nunca mais - notando que Gino estremeceu ele continuou -V embora. No quero que fique. Voc tem que ir agora.
Marcelo jogou sobre Gino toda sua raiva que ele sentiu uma dor forte na barriga.
- O que foi? - indagou Aline - voc empalideceu.
- No foi nada. Senti um arrepio.
Aline pensou em Marcelo. Ele estaria ali? Preocupada, ela disse:
-  tarde.  melhor voc ir.
- Est certo. Mas, quero seu telefone.
Aline apanhou a bolsa e trocaram cartes. Depois ele despediu-se, beijando-a levemente na face.
Aline estremeceu e sentiu uma onda de calor invadir seu corpo. Ele se foi e ela preparou-se para dormir.
Seu pensamento estava em Gino. Recordava-se de cada gesto, de cada palavra que haviam trocado. Reconhecia que ele era muito atraente.
Marcelo ficou muito irritado. Aline estava se interessando por outro. Pensava que ele estivesse morto, porm ela sabia que ele estava "vivo", era seu marido e ela 
no podia fazer isso.
Ela deitou-se pensando em Gino e ele sentou-se na cama, a seu lado, preocupado: Como iria fazer para afastar definitivamente Gino do caminho dela?
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X

Fazia uma semana que conhecera Gino e apesar do interesse que ele demonstrara em obter seu telefone, no havia ligado.
Aline sentia-se um pouco decepcionada. Depois de muito tempo sentira-se atrada por ele e esperara ansiosamente sua ligao.
Certamente, havia se enganado. Ele no sentira o mesmo interesse que ela. Resolveu esquecer.
Marcelo estava satisfeito. Preocupado, tentara por vrios meios envolv-lo em complicaes de trabalho at que seu chefe o mandou para outra cidade fazer uma investigao.
Se dependesse de Marcelo, Gino nunca mais voltaria ao apartamento de Aline.
Ao chegar na empresa, Aline encontrou Rachel que lhe perguntou:
- O que aconteceu com seu telefone? Tentei falar com voc ontem  noite e no consegui. A telefonista me disse que estava fora de rea.
- Bem que eu notei que nos ltimos dois dias ele no tocou nenhuma vez. Vou pedir a portaria do meu prdio para verificar. O que voc queria?
- Alguns amigos ligaram nos convidando para jantar. Como no consegui, acabei indo sozinha.
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Depois de providenciar a verificao do telefone, Aline pensou que talvez Gino houvesse tentado ligar. Sentiu-se mais animada. Se fosse assim, ele ainda poderia 
ligar.
No fim da tarde, ao chegar em casa, Aline foi falar com o porteiro e perguntar do telefone.
- Fui verificar, mas no havia nada. Estava tudo bem.
- Minha amiga tentou falar comigo ontem  noite e no conseguiu. Tem certeza de que est funcionando?
- Tenho. Fiz teste. Mas chegando l, voc liga para c e ver que est perfeito.
Aline entrou em casa, apanhou o telefone e funcionou perfeitamente. Marcelo que a esperava em casa sorriu. Esse telefone no iria funcionar de novo. No enquanto 
Gino estivesse tentando ligar.
Ele havia tentado vrias vezes, mesmo estando fora da cidade. Marcelo esperava que Gino desistisse.
Aline tomou um banho, estava preparando algo para comer quando a campainha tocou. Ela foi abrir e deparou-se com Gino e corou de prazer.
- Desculpe vir sem avisar, mas h dias estou tentando falar com voc. Seu telefone estava com defeito e eu estava trabalhando fora da cidade.
- De fato, meu telefone no estava bom. Fez bem em vir. Entre.
Ele entrou, beijou-a na face delicadamente e disse:
- Estava ansioso para falar com voc.
- Eu esperei que ligasse.
- Cheguei esta tarde e vim imediatamente para c. Quer jantar comigo?
- Eu estava preparando um lanche.
- Deixe para amanh. Faa-me companhia no jantar.
- Est bem. Sente-se enquanto vou me arrumar um pouco.
Marcelo olhava os dois com raiva. Aline sentia-se animada e arrumou-se com capricho. Ao voltar  sala Gino levantou-se:
- Voc est linda!
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- Obrigada.
Aline estava irradiando alegria. Marcelo no podia entender. Por que ela estava to derretida por aquele desconhecido? Ela o vira apenas uma vez. Nunca pensou que 
Aline fosse to volvel.
Nervoso tentou impedir que sassem, aproximou-se dela dizendo nervoso:
-Voc  minha mulher. No pode sair com ele. Est sendo leviana. No quero que saia.
Mas as energias dele sequer se aproximaram dela. Por que no conseguiu influenci-la? Ento chegou perto de Gino dizendo:
- V embora. Deixe-a em paz. Ela  comprometida, no pode sair com voc.
Mas da mesma forma que Aline, Gino no sentiu nada, continuou empolgado, sentindo o prazer da companhia.
Eles saram e Marcelo os acompanhou. Foram a um restaurante agradvel, com msica ao vivo e pista de dana.
Os dois jantaram, depois foram danar. Vendo-os abraados, Marcelo no se conformava. Por que no conseguia separ-los?
Mandava sobre eles energias negativas querendo que se sentissem mal, que parassem e fossem embora. Mas por mais fora que fizesse, no conseguiu nada.
Os dois continuavam alegres, felizes, sentindo prazer em estarem juntos. Aline, nos braos de Gino, deixava-se embalar pela msica romntica, e achou natural quando 
ele a apertou de encontro ao peito, encostando o rosto no dela.
Ento para eles o tempo parou. Aline queria que aquela noite no acabasse. A princpio ficou um pouco assustada com a fora da atrao que sentia. Mas depois entregou-se 
ao prazer daquele momento, notando que Gino tambm sentia o mesmo.
Era mais de uma hora da manh quando deixaram o restaurante. Sentada ao lado dele no carro Aline comentou:
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- Que lugar delicioso. Adorei.
- S o lugar?
- A companhia contribuiu.
- Estava com medo que no dissesse isso. Ela riu contente. Ele continuou:
- Temos que repetir a dose. O que acha?
- Claro.
- Amanh?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Voc quer dizer hoje? Ele riu.
- Por que no?
- Vamos ver.
Chegaram em casa e ele acompanhou-a at a porta.
- No teria um caf para mim agora?
-  tarde. Fica para outro dia.
Ela abriu a porta e estendeu a mo:
- Boa noite.
Ele enlaou-a e beijou-a nos lbios demorada-mente. Aline sentiu as pernas tremerem e seu corao bateu descompassado.
- Boa noite - respondeu ele - Sonhe comigo. Vou sonhar com voc.
Beijou delicadamente a mo dela que entrou e fechou a porta ainda sentindo a respirao ofegante. Nunca se lembrava de haver sentido uma emoo como aquela.
Enquanto se preparava para dormir, recordava-se de todos os momentos daquele encontro com prazer e emoo.
A um canto do quarto, Marcelo estava inconformado. Precisava fazer alguma coisa. Mas o qu?
Lembrou-se de Vitor. Talvez ele pudesse ajud-lo. Pensava em procur-lo, mas tinha medo de no conseguir achar o lugar onde ele vivia.
Pensou nele com insistncia at que satisfeito o viu entrar no quarto.
- Ainda bem que veio. Precisa me ajudar.
-  Eu sabia que isso iria acontecer. Eu no disse? Ela  jovem, acha que vai se conformar em ficar sozinha?
-  Mas eu no quero. Voc tem que me ajudar a separ-los. Eu tentei e no consegui. Por qu?
- Talvez porque o amor tem muita fora.
- Que amor? No creio que ela possa am-lo. S o viu duas vezes.
- Isso  o que voc pensa. Eles podem se conhecer de outras vidas.
- No aceito isso. Aline  minha e no vou deix-la para outro. Voc disse que seus amigos tm poder, estou certo de que podero me ajudar a separ-los.
- Isso depende.
- De qu?
- De voc prestar alguns servios  comunidade.
- Estou pronto a fazer o que for preciso.
-  Mas voc no quer se afastar dela. Assim fica impossvel.
Marcelo pensou um pouco depois respondeu:
- Se for preciso, se me garantirem que ela no vai ficar com ele, fao qualquer sacrifcio.
- Nesse caso vamos conversar com Mimo.
- Agora?
-  No.  tarde. Amanh  noite virei busc-lo. Pode esperar.
- Eu tenho pressa.
- Antes preciso conversar com Mimo, ver se pode nos atender.
- Est bem. Estarei esperando.
Vitor se foi e Marcelo deitou-se ao lado de Aline que dormia tranqila. Olhou-a embevecido. No ia aceitar que ela fosse de outro. Aproximou-se e embora no pudesse 
roar seus lbios, pousou-os sobre os dela com paixo.
Aline estremeceu, sentiu a presena de Marcelo, voltou para o corpo assustada, o viu na cama debruado
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sobre seu rosto e quis gritar, mas no conseguiu emitir nenhum som.
Quando conseguiu abrir os olhos, olhou em volta, mas no viu ningum. Acendeu a luz do abajur, levantou-se, tomou um copo de gua. Estava trmula, apavorada.
Marcelo ainda estava l. Lembrou-se dos conselhos que haviam lhe dado no Instituto:
- Se notar a presena dele, tente conversar, convenc-lo a se afastar e ir  busca da ajuda espiritual.
- Acho que no terei coragem.
- Se no conseguir, reze, pea ajuda aos nossos guias. Aline fechou os olhos e rezou pedindo proteo dos
espritos. Marcelo estava triste com a reao dela. Por que estava com medo dele? Desejava dizer-lhe que continuava vivo, que sempre a protegeria.
O esprito de Cora entrou e Marcelo encolheu-se no canto do quarto querendo passar despercebido.
Cora aproximou-se de Aline, colocou as mos sobre sua cabea e delas saiam raios de luz azul brilhante que a envolveram. Aline sentiu um brando calor no corpo e 
ficou mais calma.
Afinal, haviam lhe dito que Marcelo desejava proteg-la e nunca iriafazer-lhe mal. Depois, sentiu sono, mas no teve coragem de deitar-se novamente na cama. Ele 
poderia estar l ainda. Apanhou o travesseiro, uma coberta e foi deitar-se no sof da sala.
Cora aproximou-se de Marcelo que a observava receoso.
- Como vai, Marcelo?
- Se voc veio para me levar embora, pode esquecer. No vou deixar Aline.
- No desejo for-lo a nada. Mas penso que seria muito melhor para ambos se voc fosse comigo. Posso lev-lo a um lugar muito bom que ir ajud-lo a se equilibrar.
- Nunca vou deixar Aline. Ela me pertence.
- Isso  uma iluso. Ningum  de Ningum. Cada um  dono apenas de si. Voc se furtaria de muitos problemas se fosse comigo agora.
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- Voc quer me separar dela.
- No. Eu quero que voc fique bem, compreenda o que aconteceu e possa ajud-la de verdade.
- No insista. No quero e no vou.
- Seja feita sua vontade.
Ela afastou-se, passou pela sala, viu que Aline estava dormindo tranqila e se foi.
Marcelo ficou parado, pensativo, sem coragem de ir a sala ver Aline. Aquela mulher era poderosa. Ele viu as luzes que saam de suas mos.
Lembrou-se de Mirela. Ela tambm emitira luzes, embora menos brilhantes. Mas haviam curado suas feridas. Seus amigos tambm eram poderosos e estavam dispostos a 
ajud-lo a ficar ao lado de Aline. Isso era tudo que ele queria.
Na noite seguinte, Gino ligou para Aline que no quis sair com ele. Sentia-se cansada, preocupada com a presena de Marcelo em sua casa. Temia que ele ficasse com 
raiva de Gino e de alguma forma lhe fizesse algum mal.
Porm, ficaram conversando durante muito tempo. Aline sentia-se cada vez mais atrada por ele, percebia que era recproco. Gino era um homem inteligente, culto, 
cuja conversa fcil e agradvel encantava Aline.
Marcelo observava com raiva sem poder intervir. Ele bem que tentou, porm, no conseguiu aproximar-se de Aline. Era como se ao redor dela houvesse uma barreira e 
por mais que ele tentasse no conseguia ultrapass-la.
Eram onze horas da noite quando Vitor chegou e Marcelo apressou-se a cumpriment-lo e a indagar:
- E ento, falou com Mimo? Ele vai me ajudar?
-  Isso eu no sei. Mas ele vai nos receber hoje. Vamos embora.
- Acho bom. As coisas por aqui andam muito mal. Aquela mulher intrometida voltou, queria me levar, mas eu no quis. Depois de ontem no sei o que ela fez, mas no 
consigo me aproximar de Aline.
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- Ela fez uma barreira.
- Isso mesmo. No h um jeito de acabar com isso?
- Sua mulher  protegida dela.  melhor no fazer nada por enquanto. Vamos falar com Mimo.
Eles saram. Uma hora depois chegaram na fortaleza. Entraram e foram conduzidos  sala de Mimo que os recebeu como da outra vez.
- Voc quer falar comigo? - indagou.
- Eu preciso de ajuda.
Em poucas palavras Marcelo contou-lhe o que estava acontecendo. Mimo ficou silencioso por alguns segundos. Depois respondeu:
- Voc sabe que trabalhamos na base da troca.
- Eu sei. Estou disposto a colaborar.
- No sei se voc est mesmo... Afinal  to agarrado a sua mulher que  bem capaz de no dar certo.
- Se voc me prometer que vai afastar aquele sujeito de l, eu farei tudo que for preciso.
- Para isso ter que ficar aqui e provar que est dizendo a verdade.
- Como assim?
-  Ficar e fazer primeiro o servio, depois faremos nossa parte.
Naquele instante, Marcelo sentiu que aquela situao j havia acontecido antes. Viu-se diante de Mimo, seu corpo estava diferente, mas sabia que era ele mesmo.
Foi rpido e logo tudo voltou a ser como antes. Mas ele assustou-se um pouco.
- Ento, aceita?
-Sim.
- J tenho um servio para voc. Ficar aqui at conclu-lo. Vitor, o quarto ao lado do seu est desocupado. Leve-o l e coloque-o a par do regulamento. Amanh o 
chamarei para as instrues.
Eles deixaram a sala e Vitor considerou:
- O chefe aceitou. Voc conseguir o que deseja.
- Tem certeza?
- Tenho. Mas precisa fazer tudo que ele mandar. Aqui a disciplina  rgida.
Voltaram ao ptio e Vitor levou-o ao quarto, entregou-lhe uma lista com as disciplinas, horrios. Depois disse:
- Estou cansado. Vou para meu quarto. Aproveite para descansar. Amanh certamente ter um dia cheio.
Depois que ele se foi, Marcelo olhou em volta. Era um quarto pequeno, escuro, com uma cama de solteiro, uma mesa e duas cadeiras. No havia nenhum objeto de adorno. 
Do teto pendia uma luz amarelecida que deixava o ambiente mais triste.
Marcelo recostou-se na cama pensando em Aline. O que estaria fazendo? Teria sado com Gino? Era provvel, mas dentro de pouco tempo, eles estariam separados. Estava 
certo disso.
Fechou os olhos tentando descansar. Naquele instante o rosto de Mirela apareceu diante dele.
- A enfermeira
- pensou.
Porm desta vez ela lhe pareceu diferente, mais jovem, mais bonita e Marcelo sentiu vontade de beij-la.
Desde que conhecera Aline, nunca mais se sentira atrado por mulher nenhuma. O que estaria acontecendo com ele?
Mirela aproximou-se, ele foi envolvido em um turbilho de emoes. Abraou-a e mergulhou em seus braos. Estavam em um casaro antigo, luxuoso, e se beijavam apaixonadamente. 
Foram para a cama e Marcelo perdeu a noo do tempo. A noite inteira passou revivendo aquela paixo.
Acordou e pensou que fora um sonho. Vitor abriu a porta do quarto dizendo srio:
- O que aconteceu, perdeu a hora? No leu as recomendaes?
Marcelo levantou-se de um salto.
- Desculpe. No sei o que aconteceu comigo. Tive uns sonhos esquisitos, perdi a noo do tempo.
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Vitor olhou-o curioso. Notou que ele estava um pouco diferente. Os traos de seu rosto haviam se modificado. Estaria se recordando do passado?
Ele gostaria de saber o prprio passado, mas at ento no conseguira. Havia regressado do mundo h mais de sessenta anos e nunca tivera nenhuma lembrana.
- Apresse-se. Mimo est nos esperando.
Marcelo levantou, arrumou-se rapidamente e acompanhou Vitor. Ao passarem pelo ptio, Marcelo sentiu uma sensao desagradvel e parou.
- O que foi? - indagou Vitor.
- No estou bem. Quero sair daqui.
-  Por que isso? Somos seus amigos, esqueceu? Vamos ajud-lo no que voc deseja.
Marcelo ficou pensativo por alguns instantes depois perguntou:
- Em que lugar ficam os presos?
- Quem lhe disse que temos presos aqui?
- Ningum. Estou vendo grades e pessoas atrs delas.
- Voc est vendo demais. Acho que no acordou ainda.
- Ao contrrio, penso que agora estou acordando. Acho que j estive aqui antes e minha estadia no foi boa.
-Voc est confundindo as coisas. Eu o trouxe aqui pela primeira vez, lembra-se?
- Lembro. Naquele tempo eu no sabia. Agora sinto que conheo este lugar. Quero ir embora. No vou falar com Mimo.
- No vai fazer uma desfeita dessas a ele que est nos esperando.  melhor irmos at l, conversar, voc explica o que est acontecendo. Ele vai esclarecer tudo 
isso.
- Tenho medo.
- Eu garanto. No vai acontecer nada. Vamos conversar com ele. Depois, se quiser ir embora, poder. Mas no pode sair assim, sem dar nenhuma satisfao. Ele pode 
se ofender e se zangar. Isso sim ser ruim para voc.
- Est bem. Eu vou. Mas depois quero ir embora.
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Vitor concordou. Entraram na sala de Mimo que continuava sentado no coxim, como das outras vezes, fumando e soltando as baforadas no ar.
Assim que se aproximaram, Marcelo o fixou e imediatamente gritou:
- Foi voc! Eu me lembro! Voc me jogou naquela priso mal cheirosa e escura e permitiu que ele me atormentasse.
Mimo fixou-o e respondeu calmo:
- Eu tinha um trato com Giulio e o cumpri. At hoje no sei como escapou. Imagino que algum o tirou as escondidas. Certamente um emissrio do cordeiro. Mas no 
adiantou o haverem escondido na carne. Voc voltou por sua prpria conta.
-Voltei porque no sabia de nada disso. Mas agora desejo ir embora. No quero pedir mais nada a voc.
-  tarde. Pois um emissrio meu j est trabalhando ao lado de Aline para separ-la daquele homem, conforme pediu.
Marcelo torceu as mos, aflito. Em sua mente misturavam-se as cenas do seu sonho com o afeto que sentia por Aline. Ficou confuso. O que estava acontecendo com ele? 
Estaria enlouquecendo?
- Voc no est louco,
- afirmou Mimo
- Est confundindo o que aconteceu no passado, com o presente. Voc mudou. Agora ama Aline e deseja ficar com ela.
- . Aline  minha. Quero ficar com ela.
- Ento por que quer desistir? Ela est se apaixonando por outro. Quer que ela se case com ele? Se no fizermos nada,  o que vai acontecer.
- No. No quero. Aline  minha.
-  Ento, - continuou Mimo com voz suave - Ns podemos conseguir isso para voc.
- Voc vai me prender de novo.
- No. Meu compromisso com Giulio terminou. Eu no tenho nada contra voc. A no ser que no cumpra o trato que fizemos.
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Marcelo ficou pensativo por alguns instantes, depois respondeu:
-  Est bem. Se  assim, farei o que deseja. Mas quero sua palavra que depois me deixar livre.
- Eu j disse isso. Mas voc precisa cooperar, prestar servio para ns.
- Est bem. O que deverei fazer?
- Sente-se. Vou lhe explicar.
Marcelo sentou-se e esperou atento o que ele ia dizer
XI

Aline olhou no espelho, e sorriu satisfeita. Estava linda em seu vestido de seda azul, os cabelos soltos e bem penteados, olhos brilhantes de prazer.
Gino viria busc-la para jantar e ela estava muito alegre. Parecia-lhe ter voltado  adolescncia.
A campainha da porta tocou e ela foi abrir e notou que Gino estava muito elegante. Beijou-a na face dizendo:
- Como voc est linda!
- E voc muito elegante. Quer entrar um pouco?
- Se j est pronta, podemos ir. Desejo lev-la a um lugar muito bonito. Vamos jantar, danar e ver o dia amanhecer.
- Podemos ir.
Aline apanhou a bolsa e saram. Ela sentia que aquela noite tinha algo especial. Havia alguma coisa no ar que a deixara feliz, alegre.
Gino a olhava e em seus olhos podia-se notar um brilho novo, que fazia sua fisionomia tornar-se mais suave, terna.
A noite estava quente, o cu limpo sem nuvens e as estrelas brilhavam em volta de uma lua cheia belssima.
Eles foram a um lugar a beira-mar, com uma varanda que ficava sobre as guas e a vista era maravilhosa.
As luzes dos prdios refletiam-se nas guas, os iates iluminados que passavam a distncia, tornavam a paisagem mais bela.
Na varanda envidraada, janelas abertas, embaixo das quais havia vasos com flores, estavam algumas mesas, dentro no salo, mais mesas.
Um conjunto tocava atrs da pista de danas, e a iluminao suave, meia penumbra, fazia a decorao parecer ainda mais bela, tornando o ambiente de sonho.
Ao sentar-se na varanda Aline no conteve a admirao.
- Que lindo!
- Tambm acho!
Sentaram-se e pediram uma bebida e Gino comeou a falar:
- No sei o que est acontecendo comigo. Estou com trinta e cinco anos. Sou um homem experiente. Mas desde que nos conhecemos no fao outra coisa seno pensar em 
voc. Gostaria de dizer-lhe muitas coisas, mas quando estou perto de voc, emociono-me, no consigo dizer o que gostaria.
- Sei como  isso.
- Sabe? Ser que sente alguma atrao por mim?
- Sinto. E para ser sincera, isso est me assustando um pouco.
- Por qu? No confia em mim?
- Ns nos conhecemos h pouco tempo. No sei como voc realmente .
Ele segurou a mo dela levando-a aos lbios com carinho.
- Pois eu tenho impresso de conhec-la h muito tempo. Para mim  como um reencontro.
Naquela semana no Instituto, Aline ouvira falar muito sobre vidas passadas, e essas palavras tiveram o condo de faz-la pensar que isso poderia ser verdade. Ela 
tambm sentia que podia confiar nele.
- Talvez tenhamos nos conhecido em outras vidas. Ele olhou-a srio e perguntou:
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- Voc acredita em vidas passadas?
- Tenho estudado o assunto no Instituto Ferguson. J ouviu falar dele?
- J. Eu estive l no ano passado, fazendo alguns cursos.
- Que coincidncia!
- Esse assunto me interessou desde que meu sobrinho de quatro anos comeou dizer que ele antes se chamava lvaro e que havia sido pai do meu av, que tivera esse 
nome. A princpio pensvamos que ele estivesse inventando, mas depois ele passou a mencionar certos fatos acontecidos com meu bisav, alguns dos quais s eram conhecidos 
de minha av e nunca mencionados em famlia, ficamos intrigados.
- Ento voc procurou o Instituto.
- Foi. E, descobri muito mais do que fora buscar. Encontrei provas da vida aps a morte o que mudou radicalmente minha forma de ver a vida. Meu sobrinho hoje est 
com sete anos e conforme foi crescendo no menciona mais o assunto. Alis, no curso que fiz, me disseram que isso poderia acontecer. E voc, por que foi ao Instituto?
- Agora no gostaria de mencionar o assunto. Mais tarde contarei tudo.
- Est bem. Notei tristeza em seus olhos. Se no quiser no precisa dizer. Vamos pedir o jantar e danar. Quero que se sinta alegre e feliz.
Ela sorriu:
- Eu estou feliz.
Eles fizeram o pedido e foram danar. Abraados, rosto colado, Aline esqueceu de tudo. Nos braos dele sentia-se protegida e uma sensao de prazer a envolvia embalada 
pela msica romntica e pela beleza do lugar.
Eram duas horas da manh quando deixaram o restaurante. J no carro, Gino abraou-a e beijou-a longamente vrias vezes. Depois, descansando a cabea no peito dele 
Aline comeou a falar e contou-lhe tudo sobre sua
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vida. Seus sonhos, seu casamento, a vontade de mudar e porque procurara o Instituto. Finalizou:
- Desde que estive l, tenho me sentido protegida. No sonhei mais com ele nem tive medo. Eu continuo estudando. Quero saber mais, preciso compreender melhor a vida. 
Eu estava me sentindo culpada pelo acidente que o vitimou. Mas agora sei que no tive culpa de nada e isso me deu grande alvio.
-  Penso que o amor que sentia por ele no foi o bastante para faz-la esquecer seus projetos.
- De fato. Desde o comeo do nosso casamento eu me criticava porque ele me rodeava de tantas atenes, demonstrava tanto amor, que eu me sentia sempre em falta por 
no lhe dar o que ele merecia.
- O que ele sentia no era amor, era apego. Voc para ele era uma muleta na qual se apoiava.
- Eu nunca tinha olhado por esse lado. Mas de fato, ele no decidia nada, no fazia nada sem antes me consultar. E quando eu no apoiava, ele desistia.
- Voc casou com ele e viveu sete anos sem amor, mas por gratido devido  maneira como ele a tratava. Ele a manipulou de tal jeito que voc sentiu-se na obrigao 
de retribuir. Mas isso no satisfaz e voc no agentou mais.
- De fato, eu estava no meu limite. Todas as tardes quando ele entrava em casa eu sentia at certa averso e eu me criticava porquanto ele no merecia. A ruim era 
eu.
Gino apertou-a de encontro ao peito e beijou-lhe os cabelos com carinho.
- Voc fez muito bem de sair desse crculo vicioso que a estava infelicitando. Q amor no  isso,  alegria, companheirismo, amizade, onde cada um tem a liberdade 
de ser como .
- Suas palavras me fazem entender melhor tudo o que aconteceu. E tiram um peso do meu corao. Ningum pode amar por obrigao. O amor  espontneo, aparece.
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Gino beijou-a nos lbios longamente, depois disse com voz que a emoo enrouquecia:
- Eu estou sentindo que neste momento encontramos o amor. Ele vai iluminar nossas vidas de agora em diante.
Ela no respondeu, mas enquanto se beijavam novamente, sentiu que era verdade. Que finalmente havia encontrado o amor.
Enquanto isso, em So Paulo, Mrcio chegou em casa satisfeito e procurou por Ivone.
- Me, finalmente a tia emprestou o dinheiro.
- Seu pai no pode saber, seno vai ser o diabo.
- No precisamos contar. Eu pedi a ela que guardasse segredo.
- Mas como vamos pagar?
- No se preocupe. Ela tambm acha desaforo eles ficarem com tudo que era de Marcelo. Disse que podemos pagar quando pudermos. Esta noite mesmo vou levar ao centro.
- Vamos ver se funciona. Seu pai garante que  impossvel.
-  No seja negativa. Eles disseram que precisamos acreditar.
- Vou tentar.
Aquela noite mesmo, Mrcio voltou ao terreiro e entregou o dinheiro. Falou com pai Jos que ficou de fazer tudo o mais rpido possvel.
Satisfeito, ele voltou para casa. No viu que duas sombras escuras o acompanharam satisfeitas.
- Esse est no jeito - disse um sorrindo.
- Est mais do que maduro. Mas se no fosse eu trabalhar a tia, ela no teria dado o dinheiro.  sovina como s ela.
Mrcio no percebeu nada diferente. Em sua mente previa o que faria com o dinheiro quando os bens do irmo voltassem para suas mos. Ento o pai iria ver que ele 
estava com a razo.
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Alguns dias depois, Arete chegou na empresa um pouco mais cedo. Havia preparado um relatrio demonstrativo para Rodrigo e queria apresentar-lhe antes que ele comeasse 
a trabalhar nos projetos, porque quando iniciava no gostava de ser interrompido.
Pouco depois, quando ele chegou, ela j o esperava e depois dos cumprimentos pediu-lhe para ir  sua sala.
Uma vez l, sentados um na frente do outro, ela apresentou o relatrio onde ele pode ver com clareza os resultados positivos daqueles meses de trabalho.
-  Eu sabia que estvamos crescendo, mas no esperava tanto
- disse ele satisfeito.
-  Eu imaginava. Este ltimo projeto ficou maravilhoso. Voc realmente tem talento.
Os olhos dela brilhavam e Rodrigo notou o quanto ela era bonita. Sua presena no escritrio havia contribudo para harmonizar o ambiente.
Os clientes a admiravam e ela tinha um jeito especial de lidar com eles, com classe e respeito, que davam a empresa um aspecto de eficincia e capacidade inspirando 
confiana.
Ele colocou a mo sobre a dela dizendo:
- Sem voc eu no teria conseguido nada disso. Obrigado por voc ter vindo me ajudar.
- Eu o fiz por minha irm.
-  Eu sei, mas fazendo isso voc me ajudou. Quando Marcelo morreu, me senti sem cho. Alm de perder meu amigo de infncia, no entendo nada da parte administrativa.
-  Entenderia se quisesse. Contudo, entendo que qualquer pessoa poderia fazer isso enquanto que os projetos que voc faz seria difcil encontrar algum com essa 
capacidade.
- No repita isso que posso acreditar.
- Minha me deseja que voc v jantar em nossa casa no Sbado. Ela disse que est com saudades. Depois da morte de Marcelo, voc nunca mais foi em casa.
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Apanhado de surpresa, Rodrigo olhou-a srio e no respondeu logo. Arete fixou-o e perguntou:
- Voc ficou sentido conosco por causa do que Aline fez?
- No se trata disso. A famlia de Marcelo no se conforma com o que aconteceu. Veio pedir-me contas por voc estar trabalhando comigo. Ento eu preferi no ir nem 
a casa deles, nem a sua.
-  Voc tambm julga Aline culpada pela morte de Marcelo?
- Claro que fiquei chocado. Eu acreditava que eles viviam s mil maravilhas. Voc sabe, depois que eles se casaram, eu afastei-me um pouco do casal. Sou solteiro, 
no tenho compromisso com ningum e casados a vida deles era outra. Um casal precisa de privacidade.
- Entendo.
- Mas depois refleti e pensei que as coisas no deveriam estar to bem quanto me parecia. Preferi no julgar. Eu no estava dentro dela para saber o que sentia.
- Sei. Se voc prefere no ir a nossa casa, fique  vontade. Mame vai compreender.
- Gosto de Dona Dalva. No desejo que ela pense que tenho alguma coisa contra sua famlia. Mas se eu for a sua casa no terei como no ir  casa do Seu Joo.
- Faa como quiser.
- No fique sentida comigo.
- No se preocupe. No sou to suscetvel. Agora, vou voltar ao trabalho.
Depois que Arete deixou a sala, Rodrigo passou a mo nos cabelos, pensativo. No se sentiu bem em recusar o convite para jantar. Afinal, mesmo que Aline houvesse 
agido mal, sua famlia no tinha culpa. Sabia o quanto eles ficaram chocados com o acontecimento.
Sentou-se diante da mesa onde trabalhava disposto a esquecer o assunto, mas no estava fcil.
Concentrou toda ateno no desenho que estava na sua frente e comeou a trabalhar. Pouco depois a auxiliar de Arete entrou na sala nervosa:
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- Doutor Rodrigo, corra. Dona Arete caiu da escada e no est podendo se levantar.
Rodrigo saiu correndo e encontrou-a no cho gemendo de dor.
- Acho que quebrei alguma coisa. Est doendo demais.
- Vou lev-la ao hospital
- voltando-se para a auxiliar:
- pegue minha pasta que est sobre a cadeira. Leve no estacionamento.
Em seguida, abaixou-se e perguntou:
- Onde  a dor?
- No brao direito e na canela.
- Passe o brao bom no meu pescoo vou carreg-la at o carro.
Ela obedeceu. Com cuidado ele passou o brao pela cintura dela que gemeu um pouco.
- Tenha um pouco de pacincia. Logo estar sendo aliviada.
Felizmente o estacionamento era no mesmo prdio. Neusa, a auxiliar j estava esperando ao lado do carro com a pasta pedida.
- Abra a pasta e pegue a chave do carro que est no ziper e abra a porta de trs.
Com as mos trmulas, Neusa obedeceu e Rodrigo colocou Arete estendida no banco. Depois entrou no carro e partiu rpido para o hospital que no ficava muito distante.
Uma vez l, Rodrigo conversou com o ortopedista, que por sinal era seu conhecido pedindo-lhe que cuidasse dela. Tiradas radiografias foi constatado que ela luxara 
o brao, mas quebrara a perna.
Rodrigo acompanhou-a penalizado, segurando a mo dela quando a dor era mais forte.
Duas horas depois, perna engessada do tornozelo ao joelho e brao enfaixado e suspenso ela foi dispensada. No foi preciso ficar internada.
Observando de longe estavam dois vultos escuros, trocando risos e palavras entre si.
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- Essa vai ficar de molho por uns tempos.
- Podemos descansar. Daqui alguns dias voltaremos para pensar o que faremos depois que ela ficar boa.
-Vamos embora. Este lugar  guardado, no podemos entrar e quanto mais depressa formos embora  melhor.
Auxiliado por uma enfermeira, Rodrigo instalou Arete no banco da frente porquanto ela no conseguiu entrar atrs.
- Vou lev-la para casa.
- Voc deveria ter ligado para mame, ela tomaria um txi e viria me buscar.
- De forma alguma. Ela iria se assustar e depois eu quero deix-la em casa, e ver se est tudo bem.
- Mas voc no desejava ir at l.
- Pois eu estava errado. Vocs no podem ser responsabilizados pelo que aconteceu com Marcelo.
- Obrigada pelo que est fazendo por mim.
- Preciso cuidar de minha assistente.
Quando chegaram, Rodrigo tocou a campainha e Dalva abriu. Vendo-o sorriu contente:
- Rodrigo! Quanto tempo. Como vai?
- Bem. Dona Dalva, Arete levou um tombo no escritrio, quebrou a perna e luxou o brao. Mas est bem.
- Meu Deus! Est bem mesmo? Onde est ela?
- No carro. Est com a perna engessada e preciso de ajuda para tir-la de l.
Dalva foi at o carro nervosa:
- Arete, minha filha, o que aconteceu?
- No sei como foi. Estava descendo a escada quando vi estava no cho.
- Na escada, santo Deus! Poderia ter sido pior.
- Rodrigo me levou ao hospital, fui muito bem atendida, mas ainda sinto dores no corpo.
- Vamos lev-la para dentro.
-  melhor entrar com o carro no jardim.
Ele concordou. Uma vez l dentro, abriu a porta do carro e disse:
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- Dona Dalva, vou carreg-la, mas a senhora precisa segurar a perna engessada porque  pesada e pode doer muito.
Com cuidado eles a foram levando at o quarto e a colocaram sobre a cama. Rodrigo tirou um pacote do bolso e entregou-o a Dalva dizendo:
- So os remdios que ela precisa tomar. A receita est dentro. Ela tomou um analgsico e se as dores ficarem mais fortes a senhora d outro.
- Est doendo muito, minha filha?
- Um pouco. Mas o pior j passou.
- Vou trazer um caf com leite. Vai ver que nem almoou.
- No mesmo. Mas no quero nada, estou com um pouco de enjo. O Rodrigo tambm no almoou, deve estar com fome.
- Vou trazer um lanche e algumas torradas salgadas. Ajudam a passar o enjo. Voc gosta de caf simples ou com leite?
- No se incomode Dona Dalva. Tenho que voltar ao escritrio. Vou sair logo e comer alguma coisa.
- De maneira alguma. Sente-se. No vou demorar.
Depois que ela se foi Arete disse:
- Amanh cedo vou ligar para Neusa e pedir que me traga minha pasta e alguns documentos. Pretendo trabalhar aqui enquanto no puder ir ao escritrio.
- No  preciso. Voc deve descansar.
- Hoje no posso, mas amanh, se ela puder me ajudar, vou providenciar os pagamentos mais urgentes e ela levar para que assine. H coisas que no podem esperar.
- Se me ensinar eu poderei fazer. Voc no vai poder usar seu brao direito.
- No se preocupe. A Neusa poder fazer o que for preciso.
Dalva voltou com uma bandeja onde alm do caf havia alguns sanduches e torradas e colocou-a sobre
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uma mesinha de apoio ao lado da cama. Serviu o caf a Rodrigo dizendo:
- Coma um sanduche. O po ainda est quente. Ele apanhou um sanduche e Dalva estendeu o prato
com torradas para Arete:
- Coma pelo menos uma. Vai consertar seu estmago.
Ela apanhou uma com a mo esquerda e Dalva ajudou-a a sentar-se colocando dois travesseiros em suas costas. Devagar, ela foi comendo a torrada.
Estava um pouco plida e Rodrigo, aps comer o lanche e tomar o caf, levantou-se dizendo:
-  Obrigado, Dona Dalva, estava delicioso. Arete precisa descansar. Vou voltar ao escritrio
- tirou um carto do bolso e entregou-o a ela
- este  o endereo e o telefone de minha casa. Se precisar de alguma coisa, ligue para mim. No se acanhe. Pode ser a hora que for.
-  Obrigada. No sei como agradecer o que fez por Arete.
- No  preciso
- voltando-se para Arete continuou:
- Procure descansar, dormir. Amanh  outro dia.
- Isso mesmo. Obrigada por tudo.
Ele desceu as escadas e Dalva o acompanhou at a porta:
- Doutor Rodrigo, o senhor precisa me dizer quanto foi a despesa. Amanh, o Mrio mandar o dinheiro para o escritrio.
- A despesa corre por minha conta. Alm de Arete haver se acidentado na empresa, tem me prestado muitos servios alm do que eu poderia esperar. Depois, Aline  
scia da empresa. Tem tido notcias dela?
-Tenho. Apesar da tristeza pelo que aconteceu, est satisfeita com a empresa onde trabalha. Alm do timo salrio, deram-lhe um carro, apartamento para morar e est 
sendo muito bem tratada.
- Ainda bem. Ento ela no pensa mesmo em voltar a morar no Brasil.
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- No pensa mesmo. Afinal realizou o sonho de toda sua vida. Adora viver l, fez amigos, s lamenta o que aconteceu com Marcelo. Ela nunca imaginou que isso pudesse 
ocorrer.
- Pelo menos ela conseguiu o que desejava. Ainda bem. Repito Dona Dalva, se precisar de alguma coisa ligue para mim. Amanh, se eu puder, voltarei para saber como 
Arete est.
- Venha jantar com a gente.
- A senhora j tem trabalho demais em cuidar de Arete que no pode andar. Virei depois do jantar.
Dalva sorriu e ele apertou a mo que ela lhe estendia e se foi. Tinha pressa de ir ao escritrio ver como estavam as coisas e se possvel trabalhar um pouco em seu 
projeto.
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XII

Sentado na frente de Mimo, Marcelo esperava que ele falasse.
- Vitor vai lev-lo ao encontro de Antnio, que lhe dir o que deve fazer. Ele se encontra em um posto nosso, prximo  crosta terrestre, e eu prometi que mandaria 
algum para ajud-lo. Voc tem o tipo de energia para desempenhar sua misso.
- O que terei de fazer?
- Fazer o que ele determinar. Ele lhe dar os detalhes da sua tarefa. Vocs devero partir ao cair da noite. Para esse lugar  melhor ir ao escurecer.
Marcelo queria perguntar mais, porm Vitor puxou-o pelo brao:
- Vamos embora. A entrevista acabou. Marcelo saiu e uma vez no ptio perguntou:
- O que faremos at a hora de ir?
- Eu tenho algumas coisas a fazer. V para seu quarto.
Vitor entrou em uma das portas, Marcelo recordou-se dos sonhos que tivera com Mirela e teve vontade de procur-la. Lembrava-se de onde a enfermeira trabalhava e 
encaminhou-se para l.
Na ante-sala, havia duas pessoas esperando e ele sentou-se disposto a falar com ela quando aparecesse.
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Quando a porta abriu, ela apareceu e vendo-o emocionou-se. Marcelo estremeceu, levantou-se e teve vontade de abra-la.
- Espere, depois falaremos.
Fez sinal para que os outros dois entrassem e fechou novamente a porta. Marcelo sentou-se novamente.
Que emoo era aquela que o acometia quando pensava nela? De onde a conhecia? Por que de repente, sentia um calor forte quando pensava nela?
- No estou aqui por acaso - pensou ele - Tenho de descobrir o que est acontecendo comigo. Essa mulher me atrai e ao mesmo tempo me assusta. Eu amo Aline. Nunca 
tive outra mulher. Por que agora esta atrao to forte? Nunca tive para com Aline uma paixo como esta. Vai ver que este lugar est me enlouquecendo. S pode ser 
isso.
 melhor eu ir embora, sair daqui, no entrar naquela sala. Mas se eu for, Mimo vai me castigar, eu prometi a ele que o serviria em troca do que eu quero.
Vou esperar o anoitecer e ir embora com Vtor e esquecer esta mulher.  melhor eu sair agora...
Ele levantou-se, mas naquele momento lembrou-se do sonho, dos beijos apaixonados que haviam trocado e no teve coragem de sair dali.
Lutando com as dvidas e as lembranas do passado, Marcelo viu a porta se abrir novamente e os dois homens saram.
Mirela estava parada em sua frente dizendo:
- Vamos entrar, Renato.
-  Renato? Por que me chama assim? Meu nome  Marcelo.
Ela no respondeu, entrou e ele a acompanhou. Mirela voltou-se e encarou-o dizendo:
- Quando nos conhecemos seu nome era Renato.
- Voc est me deixando mais confuso do que j estou. Esta noite sonhei com voc. Estvamos em um castelo antigo e...
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- Fazamos amor. Voc est comeando a lembrar-se.
- No pode ser. Eu amo Aline. Por ela vim at aqui. Mirela aproximou-se dele, abraou-o e respondeu:
- Voc veio aqui porque eu o chamei com meu amor! Muito antes dessa mulher que voc diz amar, ns nos amamos. E esse amor ainda est dentro do nosso corao. Foi 
mais forte do que tudo e continua vencendo o tempo e nos aproximando.
Naquele momento Marcelo esqueceu de tudo e via apenas o rosto bonito de Mirela, lbios entreabertos, peito arfando, olhos apaixonados, na sua frente e beijou-a com 
paixo apertando-a de encontro ao peito.
A emoo tomou conta dos dois que trocaram longos beijos apaixonados. Depois, ainda trmulo de emoo Marcelo disse:
- No sei o que est acontecendo comigo. Que feitio  este que voc tem a ponto de fazer-me perder a cabea e esquecer Aline?
- No h feitio algum.  nosso passado que volta, trazendo as emoes daqueles tempos. Ns nos amamos. Eu sou a mulher da sua vida. Estou aqui h anos, quando poderia 
ter ido viver em um lugar melhor. Mas no fui porque sabia que era aqui, onde nos vimos pela ltima vez, que voc voltaria para meus braos. Tenho estado a sua espera 
h muito tempo.
- No consigo entender tudo isso.
-Venha. Sente-se aqui a meu lado. Vou contar-lhe tudo.
Ela acomodou-se em um sof e ele sentou-se a seu lado. Segurando a mo dele, Mirela falou sobre o passado. Contou tudo.
A medida em que falava, suas palavras encontravam eco em seu corao, porm, ele no conseguia aceitar. Apesar de haver sonhado com ela, de saber que no prdio havia 
uma priso, ele hesitava.
Pensava que ela estava tentando envolv-lo em um sortilgio qualquer, a fim de separ-lo de Aline. Isso ele no haveria de consentir.
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Aquela mulher que o visitara, tambm tentara separ-lo de sua esposa. Se aquilo fosse verdade, por que no se lembrava? Essa histria de reencarnao poderia ser 
um engodo.
Sem esperar que ela terminasse, Marcelo tirou a mo que ela segurava e levantou-se:
- Voc est mentindo. Quer me separar de Aline! O rosto de Mirela entristeceu, mas ela no desviou o olhar e respondeu:
-Voc ainda no recuperou as lembranas da vida passada. O que estou dizendo  a mais pura verdade. Sinto que est comeando a recordar. S no conseguiu ainda porque 
est apegado ao que lhe aconteceu agora.
Ela levantou-se tambm, aproximou seu rosto do dele e sem desviar os olhos desafiou:
- Diga que no sente vontade de me beijar como antigamente. Que os momentos de amor que vivemos ainda no fazem vibrar seus sentimentos.
Os olhos dela brilhavam emocionados e Marcelo estremeceu e abraou-a beijando seus lbios repetidas vezes. Depois, de repente, largou-a gritando nervoso:
- Que espcie de sortilgio voc est usando para me deixar assim? Eu amo Aline.  ela que eu quero!
Mirela olhou-o triste e respondeu com voz calma:
- H muito estou esperando por voc. Posso esperar o tempo que for preciso. Contudo, ultimamente tenho recebido um chamamento muito forte para deixar este lugar. 
At agora tenho resistido, mas no sei at quando poderei fazer isso. Estou cansada de viver aqui onde a maldade ronda cada passo. Anseio ir para um lugar melhor, 
mais de acordo com meus sentimentos.
- No sei do que est falando. No tenho nenhum compromisso com voc. Pode ir para qualquer lugar, que no me importo.
- Pode ser que algum dia v importar tanto que no far outra coisa seno me procurar e talvez no seja fcil me encontrar.
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No acredito em nada do que me diz. Hoje mesmo vou embora e depois que cumprir o que prometi a Mimo, no voltarei mais aqui. Tambm no me sinto bem neste lugar.
Mirela segurou o brao dele e perguntou:
Voc se comprometeu a trabalhar para Mimo? 
- Foi uma troca. Ele vai me ajudar e terei de prestar um servio.  justo.
- Voc no devia ter pedido nada a ele. -- Por qu?
- Seria melhor no se comprometer. Pode no dar certo e ento sofrer as conseqncias. Ele lhe disse que tipo de servio dever prestar?
- No. S que devo ajudar a uma pessoa e pretendo cumprir tudo direito.
- E se no conseguir?
- Claro que conseguirei. Voc fala como se Mimo no fosse um homem de bem.
-  No foi isso que eu quis dizer. Mimo  o chefe deste lugar e merece nosso respeito. Mas a tarefa pode ser difcil e voc no conseguir.
- O que pretende? Que eu desista de tudo? No vou fazer isso e acho melhor no se meter em minha vida.
-  que me interesso pelo seu futuro.
-  No precisa, sei cuidar de mim. Vou para meu quarto. Vitor pode estar me procurando.
Ele deixou a sala e Mirela suspirou triste. Quanto tempo ainda teria de esperar para que Renato voltasse para seus braos?
Se ele se metesse em novas complicaes, talvez tivessem que ficar separados muito mais tempo do que esperava.
Mirela no suportava mais viver naquele lugar. H muito sentia vontade de ir embora, respirar em um ambiente melhor onde a amizade, a bondade, a alegria e a beleza 
existissem.
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Nesse instante notou uma claridade no canto do aposento e viu aparecer uma linda mulher de meia idade.
- Quem  voc? - indagou ela assustada.
- Meu nome  Cora. Vim de um lugar que  igual ao que voc deseja viver. H muito voc j poderia ter ido para l. Mesmo vivendo neste lugar sombrio, voc tem permanecido 
no bem.
- A senhora  uma emissria da luz
- respondeu Mirela ajoelhando-se.
Cora aproximou-se e levantou-a dizendo:
-  No faa isso. No mereo. Chame-me apenas de Cora. O lugar onde eu moro  muito bonito. De dia d para ver o azul do cu e  noite o brilho das estrelas. As 
casas so rodeadas de jardins, cobertos de flores perfumadas e as pessoas so amigas e se esforam para ficar no bem. H trabalho e lazer, oportunidade de progresso 
e alegria.
Mirela suspirou encantada:
- Que maravilha! Viver nesse lugar cheio de beleza e de amizades. Aqui, apesar de viver rodeada de pessoas, tenho estado muito s.
- Voc est mergulhada no passado. Mas  hora de seguir adiante. Se voc olhar para frente, progredir, crescer, poder ajudar efetivamente a pessoa que voc ama.
- Tenho medo de perd-lo de vista. Quando nos separamos, passei muito tempo sem o encontrar.
- Vim convid-la a seguir comigo. L, em nossa comunidade temos meios no s de localizar as pessoas que amamos, onde quer que se encontrem e at, se for possvel, 
intervir em favor delas.
-  uma proposta tentadora. Mas no sei se devo aceitar. Logo agora que Renato est aqui.
- Ele ainda est apegado ao que deixou na Terra. Penso que voc ter mais condies de ajud-lo estando conosco do que permanecendo aqui.
- Tem certeza de que no o perderei de vista?
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- Se for comigo e fizer o que nossos maiores aconselharem, no o perder. Renato est precisando de ajuda. S um corao como o seu, que o ama incondicionalmente, 
poder ajud-lo a sair dessa iluso em que se encontra.
- Ele ainda no se recorda do nosso passado.
- Por que est apegado a uma mulher que nunca o amou. Se concordar, posso lev-la comigo agora. Fazendo isso, estou certa de que o ajudar muito mais do que permanecendo 
aqui. Voc precisa se renovar, alimentar-se de energias mais afins com seus verdadeiros sentimentos.
- Eu gostaria de ir, mas no agora. Renato est aqui e eu temo...
- Que ele v meter-se em confuso. Bem, se isso acontecer, no vamos poder fazer nada. Ele  responsvel pelos seus atos e ter que colher os resultados do que fizer. 
Por isso mesmo foi que vim agora. Se voc for comigo, talvez possamos conseguir impedi-lo de fazer o que no deve.
- Pensa que conseguiramos?
-  Pelo menos poderemos tentar. O que espera conseguir ficando aqui? Que condies voc tem de intervir no que eles pretendem fazer?
- Nenhuma. H muito Mimo sabe que no aprovo o trabalho deles. Permite que eu viva aqui porque o ajudo cuidando das pessoas evitando que ele tenha aborrecimentos. 
Mas no tenho permisso para sair nem para visitar outros lugares. Sou uma prisioneira.
- Ento, o que est esperando? Vamos embora.
- Assim, j? O prdio est vigiado. No poderemos sair sem permisso.
Cora sorriu e respondeu:
-  simples. Veja.
Ela passou o brao pela cintura de Mirela e em poucos segundos elas estavam volitando fora dos muros daquela fortaleza elevando-se rapidamente.
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Mirela, inebriada, olhava o cu azul e sentia-se leve deslizando com Cora. Em seu peito uma emoo agradvel a enchia de prazer.
Viajaram assim por algum tempo at que comearam a divisar altos muros.
- Chegamos - disse Cora.
Pararam diante de um porto e Cora disse o nome e ele abriu, elas entraram.
Mirela admirada estava diante de um jardim imenso, cheio de flores coloridas que enchiam o ar de um delicado perfume.
Mais adiante, uma praa e alguns prdios, tudo muito bonito e harmonioso. Cora passou o brao pelo de Mirela dizendo:
- Vamos.
Encaminharam-se para um dos prdios e entraram.
Depois que deixou Mirela, Marcelo foi para o quarto. Estava confuso, emoes contraditrias o envolviam. O que estaria acontecendo com ele? Por que no conseguira 
controlar-se diante de Mirela?
Ela era muito bonita, mas em sua vida conhecera mulheres at mais bonitas do que ela e nenhuma delas o fizera trair Aline.
Lembrou-se de que dormira mal a noite anterior. Estava cansado. Seria bom descansar. Deitou-se e procurou dormir.
Extenuado, logo pegou no sono, mas em seguida comeou a sonhar que estava em um barco brincando com duas crianas e Mirela olhava-o divertida.
Sentia que j havia vivido aquela cena. Mas quando, onde? Em volta, gua e alguns palcios envelhecidos.
Lembrou-se de que Mirela havia dito que teriam vivido em Veneza. Mas ele no acreditava em reencarnao. Contudo aquele lugar era mesmo parecido com Veneza.
Talvez estivesse sugestionado pela narrativa de Mirela. Teve de admitir que nos ltimos tempos muitas coisas estranhas haviam acontecido com ele. Em que acreditar?
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Marcelo debateu-se em indagaes sem encontrar resposta satisfatria at o momento em que Vitor entrou para busc-lo.
- Est na hora. Temos que ir.
Marcelo, meio atordoado levantou-se e acompanhou-o.
- O que aconteceu, voc est com uma cara...
-  Estou confuso. Mirela contou uma histria que mexeu comigo.
- Voc acreditou?
- No. Mas apesar disso, o que ela disse no sai da minha cabea.
- Mimo precisa saber que ela anda contando histrias. Ele no vai gostar.
- Ela falou em uma vida passada que vivemos juntos. Mas eu no acredito em reencarnao.
- Pois deveria. Todos ns vamos reencarnar um dia.
- Me parece impossvel.
- Mas  verdade.
-  Pois eu gostaria de voltar a Terra para viver ao lado de Aline.
- Se voc nascer de novo, vai esquecer todo o passado. Eu voltei h anos e ainda no consigo me lembrar da minha vida anterior.
- Isso tudo me parece loucura.
- Quando eu voltar, falarei com Mimo sobre Mirela. Agora voc precisa esquecer tudo isso e concentrar-se no trabalho que dever fazer.
- Para onde vamos?
- Para a crosta terrestre.
- Nesse caso poderei ver Aline.
- Voc ter que se dedicar ao trabalho. No ter tempo para mais nada.
- Que trabalho  que terei de fazer?
- L voc saber.
Estava anoitecendo quando eles chegaram ao Rio de Janeiro e foram at um subrbio. L pararam diante de uma casa trrea, modesta. Entraram e logo um homem moreno, 
forte, lbios grossos foi ter com eles.
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- Vitor, estava a sua espera.
- Antnio, este  Marcelo. Veio para ajud-lo. Depois dos cumprimentos, Vitor se despediu:
- Ele fica com voc, mas eu tenho pressa em voltar.
- Pode ir. Agradea a Mimo pela ajuda. Depois que ele se foi, Antnio disse:
- Ainda bem que veio.
- O que deseja que eu faa?
- Venha comigo.
Marcelo o acompanhou ao quarto onde uma mulher ainda jovem estava deitada, plida, magra, abatida to debilitada que Marcelo se sentiu penalizado.
- Ela parece mal.
- No tanto como eu gostaria.
- Como assim? - indagou ele assustado.
- Estou aqui para me vingar e voc veio para me ajudar.
- O que ela lhe fez?
- Agora, nada. Mas na vida anterior fomos casados e ela me traiu. O filho que pensei ser meu era do outro. Depois que morri em um acidente, descobri tudo porque 
ela e o amante se casaram. Nunca os perdoei. Desconfio que o acidente que me vitimou foi provocado por eles. Depois que voltei ao astral, procurei-os por toda parte 
sem encontrar. Mas h uns dois anos descobri que eles haviam reencarnado e se casado novamente.
- Tem certeza do que est dizendo?
- Claro que tenho. Eu os vejo como eles eram naquele tempo. Um amigo me levou at o Mimo e fizemos um pacto. Eu prestei-lhe alguns servios e ele prometeu me ajudar. 
Enquanto isso, trabalhei por minha conta. Consegui que o outro fosse mandado embora do emprego e acabasse morrendo em um acidente de carro. Morreu como eu. Ento 
aproveitei que ela ficou deprimida e cuidei que ficasse do jeito que est.
- Ela est mal. No acha que j se vingou o bastante?
- De que lado voc est?
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- Do seu
- apressou-se a afirmar Marcelo.
- Mas acho que j conseguiu o bastante.
- No para mim. Quero que ela venha para c. S assim poderei conversar com ela cara a cara e dizer-lhe tudo o que desejo. Tudo estava indo bem e pensei que Ia conseguir 
o que queria, mas ento, apareceu no sei de onde uma mulher metida a mdium e comeou a rezar com ela. Trouxe aqui um bando de pessoas que vm rezar uma vez por 
semana e fui forado a me afastar. Apelei para Mimo e agora conto com voc.
Marcelo sentia-se inquieto. No estava com vontade de ajudar Antnio em sua vingana. Mas se no o fizesse, temia o poder de Mimo. Por isso achou melhor contemporizar.
- O que deverei fazer?
- Eu pretendo convocar alguns amigos especializados em magnetizao. Fiquei sabendo que eles podero realizar o que desejo rapidamente. Mas no posso sair daqui 
deixando-a sozinha porque esses espritas intrometidos podem ganhar terreno e atrapalhar tudo. Eu quero que voc fique ao lado dela mantendo o nosso trabalho enquanto 
me ausento.
- Por quanto tempo pensa demorar?
-Ainda no sei. Talvez um ou dois dias. Mas enquanto eu no voltar, voc no pode afastar-se dela, a no ser quando vierem rezar. Ento  melhor voc sair antes 
que eles comecem, seno poder ser afastado de ns.
- Como deverei fazer o que quer?
- Vou lhe mostrar.
Antnio aproximou-se da cama, colocou a mo direita sobre a testa da mulher e passou a dizer:
- Traidora! Voc  a culpada da morte de seu marido. Est muito mal, chegou a sua hora.
Da testa de Antnio saam fios escuros e avermelhados que penetravam na testa e no cerebelo da moa que se agitou e passou a mo na testa aterrorizada:
- Eu no vou morrer!
- pensou ela
- quero viver. No posso abandonar meu filho. Ele precisa de mim. O que ser dele se eu tambm morrer?
Marcelo esforou-se para controlar a revolta. Antnio continuava:
- A culpa  sua. Voc  uma mulher m, est muito doente. No vai mais sarar.
Ela soluava aflita e Antnio dizia satisfeito:
- Isso mesmo. Chore e conforme-se. Eu virei busc-la logo mais. Voc no tem cura. Sua doena  mortal.
Voltando-se para Marcelo ele pediu:
- Agora  sua vez. Vamos ver como se sai. Marcelo no teve outro remdio seno obedecer.
Sem saber porque, se sentiu aprisionado em uma cela no prdio de Mimo e ficou aterrorizado.
Antnio esperava e Marcelo procurou fazer tudo igual ao que ele fizera, lutando para no ceder aos escrpulos que sentia.
Antnio deu-se por satisfeito e decidiu:
- Continue assim. Eu vou partir j. Quero resolver tudo o quanto antes.
Depois que ele se foi, Marcelo aproximou-se da moa, mas no teve coragem para mandar-lhe pensamentos ruins.
Dentro dele travava-se uma luta entre a vontade de socorrer a moa e o receio de enfrentar Mimo. Naquela hora arrependeu-se de haver concordado em trabalhar para 
ele.
Lembrou-se que Mirela lhe pedira para no fazer nenhum pacto com Mimo. Ela estava certa.
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XIII

Fazia uma semana que Arete havia se acidentado e durante esse tempo Rodrigo a visitava diariamente. Ao invs de mandar Neusa levar os papis para ela, ele o fazia 
todas as tardes no final do expediente.
Dois dias depois do acidente, Arete j estava de p. A pedido dela, Dalva transformara o quarto em um escritrio, colocando l uma mesa e um computador que Rodrigo 
mandara da empresa.
Mrio e Dalva tratavam Rodrigo com carinho, respeito e ele surpreendia-se com a delicadeza deles junto aos quais se sentia bem.
Seus pais moravam no interior e mesmo tendo alguns amigos, Rodrigo sentia falta do aconchego familiar. O carinho dos pais de Aline e as conversas agradveis com 
Arete eram-lhe prazerosas.
A princpio, ao chegar ele dizia que havia jantado, mas ante a insistncia de Mrio, na vspera, aceitara jantar com eles e adorou a comida caseira. Estava cansado 
de comer em restaurantes.
- No h nada como a comida de casa!
- dissera Dalva
-Voc mora sozinho?
- Sim. Tenho uma faxineira que cuida do meu apartamento.
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- Voc precisa arranjar algum que cozinhe. No  bom comer sempre fora de casa
- aconselhou Dalva.
- Vou pensar nisso Dona Dalva.
Depois do jantar, ele voltou ao quarto de Arete que deixara a pasta pronta para ele levar e continuava sentada na poltrona, mantendo a perna engessada sobre uma 
banqueta.
Acomodou-se na outra poltrona ao lado dela dizendo:
- Sua me cozinha muito bem. Se eu continuar comendo deste jeito, vou engordar.
- No creio. Voc no tem tendncia a engordar. Ele abriu sua pasta, tirou uma fita de vdeo e entregou-a a ela dizendo:
- Trouxe um filme para voc. Fico imaginando uma pessoa gil como voc, tendo que ficar no quarto o tempo todo.
- Ainda bem que tenho podido continuar a trabalhar, ainda que esteja lhe dando tanto trabalho.
- Tenho prazer em vir aqui e conversar com vocs. Antes do seu acidente, eu no tinha me dado conta do quanto sentia falta do convvio familiar. Estar com vocs 
 como estar com os meus.
- Voc deve ter amigos.
- Tenho muitos conhecidos, mas poucos amigos. Marcelo me faz muita falta.
- Ns tambm temos muitas saudades dele. Minha me at comentou que sua presena aqui a tem confortado. Ontem, no jantar, era como se Marcelo ainda estivesse aqui.
Os olhos de Rodrigo brilharam emocionados e ele os baixou tentando dissimular. No queria falar sobre coisas tristes. Arete precisava de distrao.
- Fico contente em poder, de alguma forma, confortar Dona Dalva. Ela  a me que todos gostariam de ter.
- Marcelo dava-se muito bem conosco. Somos uma famlia unida, sempre convivemos em paz. Ele costumava dizer que seus pais eram muito diferentes.
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- De fato. Eu convivi mais com eles do que com vocs e notei a diferena.
- Infelizmente eles nos acusam pela morte de Marcelo. Foi um acidente. Para ser sincera, nem sabamos que Aline planejava ir embora. Para ns foi um drama terrvel. 
Depois do acidente, nem pudemos nos comunicar com ela, pois ainda no sabamos onde estava.
- s vezes me pergunto porque ela fez isso.
- Eu entendo. O erro dela foi haver se casado com ele quando sonhava com uma vida diferente. Ele a amava muito e acabou convencendo-a a casar. Confesso que ns todos 
ajudamos a que ela aceitasse essa unio. Meus pais no entendiam como ela poderia no amar um rapaz bom, bonito, que a amava tanto para ir tentar a sorte em outro 
pas.
- Penso que ela se iludiu e no o amava o suficiente.
- Tambm acho. Se ela o amasse no se sentiria atrada para recomear a vida em outro lugar.
- Seja como for, no  fcil julgar. s vezes a vida nos chama para outro lugar porque l temos que cumprir alguma tarefa. Quem pode saber?
-  Eu j havia pensado nisso. Muitas vezes tenho me perguntado porque Aline desde pequena tinha essa vontade? A morte de Marcelo foi um acidente. Quem nos garante 
que isso no aconteceria mesmo que Aline continuasse aqui?
-  difcil responder.
- A vida tem seus segredos. Uma coisa que tem me intrigado foi o que aconteceu com Aline. Na noite em que foi embora, estava dormindo no avio que a levou a Miami, 
quando acordou e viu Marcelo entrar, com sangue escorrendo em sua testa e nas pernas. Ele aproximou-se dela dizendo:
"Finalmente a encontrei. No me deixe nunca mais! Diga que ficar para sempre do meu lado".
- Ela gritou assustada, acordou todos os passageiros e custou para se acalmar. Durante os dias que se seguiram,
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ela sentiu a presena dele tanto que acabou indo a um Instituto que estuda paranormalidade para se consultar.
- Eu no sabia disso, mas acredito que se a vida continua depois da morte, certamente Marcelo ter ido para junto dela. Era apegado demais.
-  Mas ela nos ligou para perguntar se ele estava bem. E ao saber a verdade, chegou a desmaiar.
Rodrigo quis saber como Aline descobrira esse Instituto, o que lhe haviam dito e como ela estava agora. Arete contou tudo nos mnimos detalhes e finalizou:
- Tudo isso nos deixou intrigados. Nunca fomos interessados em assuntos espirituais. Mas do jeito que Aline fala, nos fez pensar. Ela sempre foi uma pessoa prtica, 
no se ilude com facilidade. O que ela contou deve ter acontecido mesmo.
Rodrigo ficou impressionado. Lembrou-se de sua tia Alice que quando ele era adolescente falava-lhe sobre a vida aps a morte e a comunicao dos espritos.
- Minha tia Alice costumava falar sobre a comunicao dos espritos, mas eu nunca estudei esse assunto. Ela vivia lendo a respeito e afirmava que h muitos livros 
escritos por cientistas que pesquisaram e comprovaram que a vida continua depois da morte.
-  o que Aline diz. No Instituto eles estudam e fazem experincias.
- Deve ser interessante. Afinal, todos vamos morrer um dia e seria bom acreditar que vamos sobreviver depois.
Rodrigo ficou srio por alguns instantes e Arete perguntou:
- O que aconteceu? Voc ficou srio de repente.
- Estava pensando na famlia de Marcelo. Eles esto cheios de raiva e no aceitam a morte dele. Se pudessem saber que ele continua vivo em outro lugar, talvez se 
sentissem confortados.
- Eles revoltaram-se contra ns. Se houvessem tido mais calma eu poderia lhes falar sobre isso. Mas do jeito em que as coisas esto,  impossvel.
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-  verdade. Outro dia encontrei o Mrcio e ele est mais revoltado do que os pais. Era muito apegado ao irmo.
- Eu tentei conversar com ele, mas foi to agressivo que desisti. Um dia eles vo entender que ns no temos culpa de nada. Que Aline no amava mais Marcelo e foi 
sincera, apesar de tudo.
Naquela noite, Rodrigo deixou a casa de Arete pensando em tudo que conversaram. Fazia uma idia muito diferente de Aline.
Quando estava com o casal, ela falava pouco enquanto que ele a cercava de tantos cuidados e atenes que deixavam a impresso de que ela era uma pessoa to suscetvel 
que ele precisava dar muitas voltas para content-la.
Pelo que Arete dissera, Aline no era nada disso. A famlia a tinha como uma pessoa prtica, firme, eficiente. Se de fato esse fosse o temperamento dela, certamente 
se sentiria irritada com o exagero do marido. Ele a sufocava e ela no suportara mais.
Ele mesmo estava sozinho porque no suportava mulheres que passam por cima de tudo para agradar o parceiro e o que  pior, grudam nele como se no existisse mais 
nada no mundo alm dele.
Rodrigo tinha horror de ver-se preso, de ter que dar conta de tudo, at dos pensamentos. Valorizava muito a sua liberdade e por isso era avesso ao casamento.
As mulheres andavam  sua volta como abelhas em torno da luz e ele relacionava-se com algumas, sempre esclarecendo que no pensava em se casar.
No querendo iludir nenhuma delas, quanto mais agia assim, mais elas se sentiam atradas.
Naquele momento ele entendeu porque Aline deixara o marido daquela forma. Mas ser que conseguira livrar-se dele? At depois de morto ele a seguira.
Rodrigo sentiu um arrepio. Que horror! Por que as pessoas gostam de ficar presas umas as outras? Mais uma vez pensou que seria muito difcil ele se casar.
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Enquanto isso, Marcelo, sozinho com a moa doente, sentia-se dividido entre o medo de Mimo e a vontade de no fazer o que Antnio queria.
Olhou para a moa, magra e plida, rosto transtornado e fundas olheiras e sentiu-se penalizado e com vontade de ajud-la,
Mas se fizesse isso, teria que pagar o preo. Alm de no poder contar mais com a ajuda de Mimo, estava certo de que seria castigado por no ter obedecido.
Prestou ateno e comeou a ouvir os lamentos dela:
- Meu Deus, me ajuda! Estou sem foras. No agento mais este tormento. Por que ningum me socorre? O que fiz para ser to castigada?
As lgrimas rolavam pelo seu rosto e ela continuava pensando:
- Talvez seja melhor morrer mesmo. Por que Deus tirou Gerson de mim? Ele no merecia morrer naquele acidente. Depois que ele se foi, a vida perdeu o encanto! Ns 
nos amvamos tanto! O que ser de mim sem ele? Como levar a vida sozinha? Se ao menos eu tivesse coragem para me matar. Mas tenho medo. Se eu fizer isso, talvez 
no possa ir ao encontro dele. O suicdio  pecado.
Marcelo no suportou. Ele tambm havia morrido em um acidente e aquela mulher era diferente de Aline, que no se importara com sua morte. Ela amava o marido e no 
merecia ser tratada daquela forma.
Sem pensar mais, colocou a mo direita sobre a testa dela dizendo:
- Voc no pode morrer. Tenha pacincia. A morte no  o fim. Seu marido continua vivo em outro mundo.
Ela no ouviu o que ele dizia, mas pensou:
- Onde ser que o Gerson est? Ser que h vida depois da morte?
- Claro que depois da morte a vida continua. Eu garanto isso. Tenha f. Voc deve lutar para ficar boa.
- No tenho foras. Estou morrendo.
-   mentira. Voc est sendo subjugada por um esprito que deseja lev-la embora. Reaja!
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Ela lembrou-se das palavras de Geni quando viera rezar com ela:
"O que voc sente no  seu. Est captando energias de um esprito desencarnado!"
- Ser que devo acreditar nisso? Ser mesmo que um esprito pode fazer com que eu me sinta to mal?
- Pode fazer isso e muito mais
- continuou Marcelo. Nesse instante, Marcelo ouviu vozes e algumas
pessoas chegaram. Um deles abriu a porta e Marcelo assustado tratou de esconder-se pensando que Antnio poderia estar entre eles.
Mas no estava. Eram duas mulheres e um rapaz que se aproximaram do leito e uma delas alisou o cabelo da moa e perguntou:
- Como vai Mriam? Est melhor?
- No
- respondeu ela com voz fraca
- Mas estava pensando em voc, Geni.
- ? E o que foi que pensou?
- No que voc disse sobre a causa da minha doena. Na presena de um esprito que me atormenta.
O rapaz segurou a mo dela dizendo:
- Pense que com a ajuda de Deus, tudo  possvel. Confie. Vamos fazer a nossa prece.
Sentaram-se ao redor do leito, deram-se as mos e Geni evocou a ajuda espiritual.
Marcelo, a um canto, observava e viu que do peito dela saam raios de luz azul brilhantes que envolviam a doente enquanto raios multicoloridos formavam um crculo 
ao redor deles, isolando-os.
O rosto de Mriam foi relaxando e sua fisionomia se distendendo. Marcelo notou que do alto desciam sobre a doente, filigranas de luz muito branca e aos poucos ela 
foi se acalmando.
Marcelo nunca havia visto nada parecido. Que poder teriam essas pessoas para tanto?
Quando Geni se calou, eles largaram as mos e o rapaz comentou:

- Hoje aconteceu algo diferente. Miriam est mais lcida e reagiu melhor ao tratamento.
A outra moa interveio:
- Eu notei no ambiente a presena de um rapaz, que morreu em um acidente de carro.
Miriam ouviu e animou-se:
- Deve ser o Gerson, eu estava pensando se existe mesmo vida aps a morte e ele veio para me avisar.
- Acho que no era ele. Esse  mais novo do que seu marido e ainda no est muito bem. Mas apesar disso tentou ajud-la.
Miriam estava mais animada e sentou-se na cama para conversar. Geni foi  cozinha, fez caf com leite, e cortou um generoso pedao da broa fresquinha que comprara 
na padaria e levou para Miriam.
- Coma. Voc est precisando se fortalecer.
Ao invs de recusar como sempre fazia, ela aceitou e comeu tudo de bom grado o que fez os trs sorrirem satisfeitos.
Depois Miriam deitou-se novamente e sentiu sono.
- Vocs dois podem ir. Sei que tm compromisso. Mas eu vou ficar mais um pouco. Quero aproveitar a melhora dela. Vou cozinhar uma boa sopa e deixar para que ela 
tome mais tarde.
Os dois saram e Geni foi  cozinha ver os ingredientes para a sopa. Encontrou feijo e alguns legumes que haviam deixado dois dias antes. Como ela no se levantava, 
eles faziam as compras e deixavam na geladeira.
Miriam tinha uma situao financeira mediana. O marido lhe deixara dinheiro na conta conjunta do banco, fora a pequena empresa da qual ele tirara o sustento dos 
dois. Eles compravam no mercadinho perto da casa e ela pagava depois.
Depois que colocou o feijo na panela de presso para cozinhar, voltou ao quarto e sentou-se do lado da cama.
Miriam dormia tranqila e Geni sorriu satisfeita. Porm, Marcelo a um canto do quarto estava preocupado.
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Antnio poderia voltar a qualquer momento, por certo notaria a melhora de Miriam e suspeitaria dele.
Aquela mulher sentada do lado da cama era poderosa. Ele havia visto quando ela fizera a orao, a luz que saa do seu peito e as que desceram do alto sobre eles.
Ele se aproximou dela pensando no que deveria fazer. Talvez que se lhe contasse o que estava acontecendo e o perigo que Miriam correria quando ela fosse embora e 
Antnio voltasse, ela tomaria outras providncias.
- Preciso lhe falar sobre a doente...
- comeou ele. Geni sentiu um arrepio e percebeu a presena dele.
- Por que est aqui? O que deseja dela?
Geni concentrou-se e viu Marcelo ao lado dela. Percebeu logo que era o rapaz que sua companheira havia mencionado.
- Quero ajudar
- respondeu ele
- Ela est sendo perseguida por algum que deseja vingar-se por fatos que ocorreram em outra vida.
Geni ouviu distintamente e pediu:
- Continue.
- Naquele tempo, eles foram casados e ela o traiu com o que era seu atual marido. Ele causou o acidente que o matou e quer lev-la tambm.
- Era o que eu suspeitava. Mas sinto que voc tambm tem problemas. Sofre. O que est acontecendo consigo?
- Minha mulher me abandonou, fiquei desesperado e acabei morrendo em um acidente de carro. Ela no me ama mais, contudo eu no posso ficar sem ela. Por isso juntei-me 
a um grupo de justiceiros para que me ajudassem. Eles concordaram, mas queriam que eu, em troca, lhes prestasse alguns servios. O primeiro foi este. Eu deveria 
ter ajudado a vingana, porm no tive coragem. Ela amava o atual marido e no merecia isso. Agora preciso ir embora antes que eles voltem seno serei castigado.
Geni entendeu tudo no tanto pelas palavras que ele lhe dizia, mas vendo as cenas enquanto ele falava.
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- Voc fez bem e eu posso ajud-lo.
- Eu quero ficar ao lado de minha mulher sem que esse grupo me encontre. Voc pode fazer isso?
- Ao lado dela  o primeiro lugar que eles o iro procurar. Mas posso escond-lo em um lugar onde eles nunca o acharo. Depois, quando esse caso estiver resolvido, 
voc vai poder rever sua esposa.
- Terei de ficar muito tempo longe dela?
- O tempo que for preciso para no correr risco. Eles podem aprision-lo e no saberemos quando poderemos libert-lo.
- No tenho outro remdio seno aceitar. Voc me garante que vai ajudar a rever minha mulher?
- Garanto. Tenho amigos que cuidaro de tudo.
- Preciso dizer que no devem deixar a doente sozinha. Quando vocs no esto por perto, o esprito que a est prejudicando aproveita para magnetiz-la sem parar.
- Obrigada pelo aviso. Vou cuidar disso. Agora vou cuidar de voc. Chamar uma amiga para que o leve fora do alcance deles.
- O que deverei fazer em troca deste favor?
-Apenas cuidar de voc. Tentar melhorar. Quanto mais
depressa fizer isso, mais rpido conseguir o que pretende.
Geni fechou os olhos e comeou a evocar uma amiga espiritual. Admirado, Marcelo viu sair novamente do peito dela uma luz nas cores rosa e azul que os envolveu.
Pouco depois entrou no quarto uma mulher jovem, de rara beleza, sorriso alegre que a beijou na testa e depois estendeu a mo a Marcelo dizendo:
-Vamos, Marcelo. Hoje voc pode ir para um lugar lindo onde seus inimigos no o podero encontrar.
Marcelo segurou a mo dela que passou o brao em torno da sua cintura e comearam a volitar.
Ele estava inebriado. Nunca sentira uma emoo to grandiosa. Naquele instante esqueceu tudo para viver aquele momento de euforia e satisfao.
178
XIV

Dois meses depois, Arete entrou no escritrio depois de uma sesso de fisioterapia sentindo-se melhor. Finalmente sua perna j no doa e ela podia caminhar sem 
dor.
Na porta do prdio, ela encontrou com Mrcio que estava passando, tentou cumprimentar, porm ele a olhou de maneira desdenhosa e cara fechada.
Arete sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e uma sensao desagradvel a envolveu. Tentou no dar importncia aquele encontro e entrou no escritrio.
Vendo-a entrar, Rodrigo aproximou-se:
- Como vai a perna?
- Melhor. S di se eu caminhar demais.
A amizade de Rodrigo com Arete e sua famlia estreitara-se. Enquanto ela no pde ir ao escritrio, ele ia a sua casa diariamente e quase sempre acabava jantando 
l e ficando mais do que o necessrio, conversando com Arete e o resto da famlia.
- Voc no parece bem. Aconteceu alguma coisa?
- Ao chegar encontrei o Mrcio que me olhou de um modo que at me senti mal.
- A semana passada ele fez o mesmo comigo. No respondeu quando o cumprimentei.

- Eu posso entender que ele ainda guarde ressentimento de mim por causa de Aline, mas o que ele pode ter contra voc?
- Ele tem se portado de forma estranha. Uma noite, quando eu sa de sua casa ele estava na esquina. Uma vez o pai dele esteve aqui para reclamar por voc estar trabalhando 
comigo. Achou que eu estava traindo Marcelo. Queria inclusive que eu passasse a ele os bens que por direito so de Aline. Eu expliquei que no era possvel. Eles 
queriam que eu cortasse relaes com vocs.
- Por isso voc no queria ir  minha casa.
- Eu queria evitar complicaes. Mas a vida fez com que eu aprendesse o quanto estava errado. A convivncia com sua famlia fez-me perceber a diferena que existe 
entre vocs e eles.
- Lamento que eles pensem assim.
- s vezes tenho a impresso que Mrcio est nos espionando.
- No creio. Por que ele faria isso?
-  No sei.  uma sensao desagradvel que eu sinto sempre que penso nele. Ainda agora quando voc mencionou o encontro com ele, senti um arrepio.
Arete admirou-se:
- Foi o que eu senti quando ele me olhou. Vai ver que ele no est muito bem.
- Pode ser isso mesmo.
Depois que passara por Arete, Mrcio foi para casa. Havia ficado na esquina esperando que ela chegasse e vendo-a passar bem disposta sentiu certa decepo.
Afinal, ele havia pago um bom dinheiro e ela estava bem, de volta ao trabalho e o que  pior, Rodrigo no saa da casa dela. Ser que estava apaixonado por ela?
Desde que Arete quebrara a perna, Mrcio passara a acompanhar os acontecimentos, vigiando a casa dela, seguindo os passos de Rodrigo.
O fato dele ir todos os dias ver Arete o incomodou. De que adiantara o acidente se ao invs de afast-la dele o aproximou mais at da famlia?
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Mais de uma vez ele fora reclamar com pai Jos, mas ele pedia-lhe para esperar que tudo seria como ele desejava.
Mrcio entrou em casa irritado. Ivone se aproximou:
- O que foi, meu filho? Voc parece nervoso.
- Estou irritado. Aquele pai Jos pegou nosso dinheiro, mas no est fazendo as coisas direito. Agora mesmo vi Arete toda feliz, entrando no escritrio de Rodrigo.
- Ser que ele  bom mesmo?
- Isso  o que me pergunto.
- Voc precisa voltar l. Exigir que ele cumpra o que prometeu. Afinal pagamos muito bem. Ainda nem sei como vou fazer para pagar sua tia. Se ao menos o dinheiro 
de Marcelo viesse para nossas mos...
-  verdade. Hoje  noite voltarei l para pedir que aja. Chega de esperar. Desta vez ter que ser alguma coisa mais forte.
 noite, pouco antes de comear, Mrcio estava no terreiro de pai Jos. Assim que ele incorporou no mdium, Mrcio aproximou-se:
- Pai Jos, quero lhe falar.
- O que oc qu? Tem muita gente hoje para eu atende. Num posso perde tempo.
-  sobre o meu caso. Hoje vi Arete e ela estava muito bem. Recuperou-se, estava feliz. O senhor me prometeu que iria tir-la do nosso caminho e fazer com que o 
dinheiro de meu irmo viesse para nossas mos.
- Eu num prometi isso. Eu disse que era difcil e o que eu poderia faz era cud dessa moa e afasta ela. Isso eu fiz.
- Ela sarou e voltou a trabalhar. O pior  que apesar de tudo, o scio de meu irmo se aproximou mais dela e da famlia. Ele agora no sai daquela casa. No foi 
isso que lhe pedi.
- Num tenho curpa se eles tm proteo e receberam ajuda espirituar dos esprito de luiz. Eu fiz minha parte, oc num tem do que recram. Agora v embora que tem 
muita gente esperano por mim.

- O senhor no vai me ajudar mais? Vai deixar que as coisas fiquem assim?
- Oc vorta aqui outro dia e nois cunversa. Hoje num posso.
O mdium afastou-se e Mrcio deixou o terreiro nervoso. Agora pai Jos queria tirar o corpo fora. Ele no conseguiu fazer um trabalho forte o bastante e teria que 
tentar de novo ou devolver o dinheiro.
Voltou para casa e Ivone logo que o viu disse:
- Pela sua cara acho que no conseguiu nada.
- Pai Jos pediu para eu voltar outro dia. Havia muita gente para ele atender. Eu o abordei antes dos outros e disse-lhe que ao invs de afastar Arete, Rodrigo 
agora estava mais ligado com a famlia dela.
- E ele?
- Veio com uma conversa de que j havia feito a parte que lhe cabia, que eles tm proteo dos espritos de luz.
- Est claro que ele quis sair fora.
- Foi o que pensei. No acredito que os espritos de luz vo proteger aquele povo depois do que eles fizeram a Marcelo. Se existe justia, Aline e sua famlia devem 
pagar pela morte dele.
-  o que eu penso. Pobre do meu filho. Deu tanto amor quela mulher que certamente a estas horas deve estar nos braos de outro.
Mrcio abraou a me dizendo triste:
- Deixe estar, me. Eles vo pagar pelo que nos fizeram. Eles no viram que os dois vultos escuros que estavam perto dele sorriram felizes.
- Eles esto em nossas mos! - disse um.
- Desta vez vo pagar pelo que nos fizeram - respondeu outro.
Ivone passou a mo na cabea dizendo:
- No estou gostando dessa histria.
- Por qu?
-   No sei. Quando voc falava senti um pressentimento ruim. Voc tome cuidado e no brigue
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com esse pai Jos porque ele pode ficar com raiva e fazer algum trabalho contra ns.
Mrcio trincou os dentes com raiva:
- Ele que no se atreva. Se fizer alguma coisa contra ns, darei parte  polcia.
- Voc est louco? Eu no quero que brigue com ele.
- Acha que vou deixar que fique com nosso dinheiro e no faa nada? Eu no tenho medo dele. Agora estou comeando a pensar que o tombo de Arete pode ter sido coincidncia 
e ele no teve nada com isso. Pode ser que esteja se aproveitando das pessoas, enganando todo mundo e no tendo nenhum poder.
- Pois eu acho melhor que voc no volte mais l. No estou gostando nada disso.
- Bobagem. Eu no vou deixar que ele leve nosso dinheiro sem fazer o que prometeu. Vamos esperar, ver o que ele diz em nosso prximo encontro e conforme for tomarei 
as providncias.
Ivone olhou-o, preocupada. Estava sentindo uma sensao de medo muito desagradvel.
- Eu quero que deixe as coisas como esto. No quero que volte l.
-  fcil falar, mas com que dinheiro pagaremos a tia?
-  Daremos um jeito. Deixe estar. No quero mais que se meta com esse pai Jos.
Ivone estava mesmo muito nervosa e Mrcio tentou acalm-la:
- Est bem. Depois falaremos sobre isso.
- Mrcio, acabou! Chega de se meter com essa gente.
- Sei. Fique calma. Farei o que me pede. Embora tenha dito isso, intimamente ele continuava disposto a enfrentar pai Jos e exigir que cumprisse o prometido ou devolvesse 
o dinheiro.
Dois dias depois, Mrcio voltou ao terreiro para falar com pai Jos. Esperou at que o chamassem e assim que se aproximou dele procurou mostrar-se calmo.
Havia pensado melhor e resolvera que seria melhor tentar conseguir o que queria com jeito.
- Ento, meu filho?
- O senhor sabe o que eu quero.  preciso tirar Arete da empresa de meu irmo e fazer com que o scio dele fique do nosso lado. Do jeito que esto as coisas, ele 
que antes se dava bem com nossa famlia, agora est distante, parece que tem raiva de ns.
- Oc quer que tudo acuntea depressa mai eu perciso de tempo. As pessoa num faiz as coisa como nis qu. Carece ter pacincia, sabe espera.
- Est bem. Tenho sido paciente, mas est demorando demais. O senhor garante que vai dar certo?
- Vou manda meus home l e v o que podemo faz. Nossos trabaio so bem feitos. Isso eu garanto. Agora, si a pessoa tem proteo, das veis nun d pr faz tudo que 
a gente qu.
-  Mas o senhor no tem poder para fazer o que eu quero?
- J disse que tenho. T duvidando?
- No. Mas  que as coisas esto piorando ao invs de melhorar.
Pai Jos tirou algumas baforadas do cigarro de palha que fumava e depois disse:
-  Oc t duvidando de mim. T me ofendendo. E eu num trabaio pr quem me ofende.
- Eu no quis dizer isso. Mas  que as coisas no vo bem.
-  Deixe comigo. Vou mostra que sei o que estou afirmando. Agora pode ir.
O tom que ele usou no admitia mais conversa e logo um auxiliar puxou Mrcio pelo brao dizendo:
- Vamos. Acabou.
- Mas ele no disse se vai fazer mais algum trabalho para me ajudar.
- Ele vai fazer e  melhor ir embora. Pai Jos no gosta que duvidem dele.
Pensando nas palavras que pai Jos dissera, Mrcio resolveu ir embora e se encaminhou para a sada. Estava
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prximo ao porto quando parou. Algum estava chorando copiosamente.
Instintivamente Mrcio procurou perceber de onde vinha o som e notou que atrs da rvore do lado, havia uma pessoa soluando desesperadamente.
Aproximou-se, olhou e viu uma moa que com os dois braos apoiados no tronco da rvore, a cabea sobre os braos, chorava.
Ele se comoveu, tirou o leno do bolso e estendeu-o a ela tocando de leve seu brao. Imediatamente ela ergueu o rosto e Mrcio notou que era muito jovem e bonita.
Lbios trmulos ainda, olhos molhados, ela apanhou o leno e limpou as lgrimas tentando cont-las.
- Se tem vontade de chorar, chore. No  bom engolir o choro.
Ela despencou novamente nos soluos e Mrcio, penalizado, esperou que ela se calasse. Depois, puxou-a pelo brao:
-Venha. Vamos andar um pouco. No tenha medo. Eu s quero ajudar.
Ela fixou-o e ele notou que seus olhos eram grandes e belos. Sem dizer nada, ela deixou-se conduzir por ele que colocou o brao dela apoiado no seu e foram andando 
devagar.
Mrcio notou que ela tinha um corpo bem feito e caminhava com elegncia. A poucos passos dali havia uma praa e ele encaminhou-se para l.
Ao chegar prximo a um banco, sentou-se e puxou-a para que se sentasse do seu lado. Aos poucos ela foi se acalmando e ele perguntou:
- Ento, est mais calma?
- Estou. Obrigada. Desculpe meu descontrole.
- H momentos na vida que a gente precisa desabafar. Eu j tive os meus tambm.
-Voc deve estar pensando que eu sou desequilibrada.
- No estou pensando nada.
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- Obrigada pelo leno. Veja ele todo molhado, terei que levar para lavar antes de devolver.
- No se preocupe com isso. Meu nome  Mrcio e o seu?
- Olvia.
- Voc mora aqui perto?
- No. Moro do outro lado da cidade.
- Veio ao terreiro de pai Jos?
- Vim. Mas no quero falar nisso agora.
-Tudo bem. Vamos falar de outras coisas. Eu moro a umas dez quadras daqui. Quer tomar um caf ou um refrigerante?
- Eu gostaria, mas devo estar horrvel. No quero que ningum mais me veja assim.
- Voc est bem. S os olhos um pouco vermelhos.
- Vou chamar um txi e ir para casa.
- Eu vim at aqui caminhando. Se quiser andar um pouco at minha casa, apanho o carro e poderei lev-la.
- No se incomode. Penso que j abusei demais da sua pacincia.
Mrcio levantou-se e puxando-a pela mo disse:
- Venha. Vamos caminhando. Se no quiser que a leve, respeitarei sua vontade.
Foram andando devagar at que ele parou:
- Eu moro naquela casa do outro lado da rua.
- Nesse caso, vou indo. No quero que sua famlia me veja chegar com voc.
- Por qu? Sou uma pessoa livre.
- Obrigada por tudo.
- No v... Espere, vou tirar o carro.
Ele entrou, apanhou o carro e parou diante dela, abrindo a porta para que ela entrasse. Em sua cabea havia uma srie de perguntas e ele queria encontrar as respostas.
O choro, o fato de no querer falar sobre sua ida ao terreiro envolvia-a em certo mistrio que o atraa.
Durante o trajeto, ela ia indicando o caminho, ele procurou falar sobre assuntos amenos. Pensava que precisava ganhar a confiana dela para que se abrisse.
Descobriu que ela gostava de ler, de ir ao cinema, que tinha dezenove anos e fazia faculdade de jornalismo.
Mrcio por sua vez contou que era formado em economia, tinha vinte e dois anos e trabalhava em uma empresa h alguns meses, mas no estava satisfeito e procurava 
um emprego melhor.
Falou da morte do irmo, mas absteve-se de falar sobre Aline e o que ele fora fazer no terreiro de pai Jos.
Esse era um segredo que no desejava repartir com ningum. Mas gostaria que ela falasse o que fora fazer no terreiro porque queria lhe perguntar se obtivera resultado 
indo l.
Olvia morava em uma bela casa nos Jardins e Mrcio percebeu que ela deveria ser de uma famlia abastada. O que teria ido fazer no terreiro? Desejava perguntar, 
mas no o fez. Seria melhor esperar que ela espontaneamente dissesse.
Olvia, porm, no tocou no assunto. Fora do carro, parados diante da casa, ela estendeu a mo para ele dizendo sria:
- Obrigada por tudo. Voc no sabe o bem que me fez. Para onde deverei mandar seu leno?
- No se preocupe com isso. Apesar de nos termos conhecido em um momento difcil para voc, eu tive imenso prazer em conhec-la. Desde que meu irmo morreu, tenho 
sentido muita solido.
-  Do jeito que estou no seria boa companhia para ningum.
-  justamente por isso que voc me atrai. Eu sofro muito a dor da perda. Marcelo era meu dolo, meu espelho, meu amigo. E vendo-a chorar, logo senti que voc estava 
sofrendo tanto ou mais do que eu. Isso de certa forma fez-me perceber que eu estava sendo egosta,
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pensando que meu sofrimento era maior que o de todos. Penso que poderemos ser amigos e amenizar um pouco nossa tristeza.
- Est bem.
Ela abriu a bolsa e tirou um carto entregando-o a ele onde havia seu nome e telefone.
- Eu no tenho carto comigo
- mentiu, justo ele que nunca havia pensado em mandar fazer um
- mas vou escrever meu telefone.
Tirou um papel da carteira e escreveu seu nome e telefone e entregou-o a ela.
Olvia estendeu a mo que ele apertou depois, ela olhou-o com carinho e levantando-se na ponta dos ps, beijou-o delicadamente na face.
- Mais uma vez obrigada. Se no fosse voc, talvez eu no estivesse mais aqui.
Mrcio sentiu um aperto no peito sem saber se era pelo beijo ou pelas palavras que ela dissera. Depois, ela entrou e ele voltou para o carro, olhou para a casa, 
mas ela j havia entrado. Ento ligou o carro e durante o caminho de volta no pde esquecer o rosto dela, seus soluos, a dor que vira em seus olhos e o mistrio 
que a cercava.
Por que uma jovem de boa famlia, universitria, provavelmente rica, bonita, estaria chorando tanto? Talvez fosse um caso de amor no correspondido, um drama de 
famlia como o seu.
Mrcio chegou em casa e Ivone correu perguntar-lhe o que pai Jos dissera.
- Ele disse que vai cumprir o que nos prometeu.
- Ser?
- Eu insisti, duvidei e ele ficou zangado. Ento achei melhor esperar, confiar.  melhor voc tambm no ficar duvidando. Ele sabe de tudo que ns falamos, ele ouve 
at nossos pensamentos.
- Cruz credo! Eu no quero que ele oua o que eu penso.
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- Mas ele ouve. Por isso  melhor no duvidar dele, pelo menos dar um tempo para ele fazer o que prometeu.
- Est certo. No quero dar motivo a que ele diga que no conseguiu porque somos descrentes.
- Voc entrou, pegou o carro de seu pai e saiu. Onde foi?
- Uma pessoa no terreiro estava passando mal e fui lev-la em casa.
- Voc nunca foi disso. O que ela tem?
- No sei, mas estava mal, por isso tive vontade de lev-la at sua casa.
- Vai ver que era alguma moa bonita.
- Nada disso
- mentiu ele
- era de idade.
Ela meneou a cabea duvidando. Mrcio foi para o quarto, tirou os sapatos, estirou-se na cama pensativo. O rosto de Olvia no lhe saa do pensamento.
Ele esperaria uns dois dias e lhe telefonaria para saber como ela estava e talvez, quem sabe, convid-la para sair, conversar, jantar.
Esperava que ela aceitasse e talvez, quem sabe lhe contasse o que estava acontecendo, porque estava chorando tanto.
Ele custou a dormir e quando pegou no sono, viu-se perseguido por vultos escuros, sentiu medo e acordou. Foi  cozinha, tomou um copo de gua, deitou-se novamente, 
mas o sono no vinha. S muito tarde conseguiu adormecer de novo.
189
XV

Rodrigo chegou ao escritrio com dor de cabea. No havia dormido bem e acordara cansado. Mesmo assim, foi para o trabalho porque estava terminando um grande projeto 
e o proprietrio ficara de ir v-lo dali a dois dias.
Vendo-o entrar, Arete notou logo que ele no estava bem. Aps os cumprimentos, perguntou:
- Aconteceu alguma coisa? Voc parece indisposto.
- Esta noite tive um pesadelo horrvel. Depois meu sono no foi tranqilo. Se no tivesse que terminar o projeto, nem teria vindo.
- H sonhos que parecem verdade.
- Foi a impresso que tive. Estava sendo perseguido por dois indivduos, que queriam me agredir e por mais que fugisse, eles sempre descobriam onde eu estava. Acordei 
apavorado, suando frio e sentindo arrepios pelo corpo. Um deles me dizia que eu ia me arrepender do que estava fazendo. Mas no sei do que ele estava falando.
- Sonho  assim mesmo, no tem coerncia. Mas eu tambm no dormi bem esta noite. Custei a pegar no sono, senti medo, tinha a impresso que minha casa estava sendo 
vigiada que os ladres iam entrar de uma hora para outra.
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Neusa, que estava na sala, interveio:
- Quando vocs comearam a falar, eu fiquei toda arrepiada. A tem coisa!
- Que coisa? - indagou Rodrigo.
- M influncia de espritos perturbadores. Sempre que esto por perto sentimos arrepios. Olhem s como estou arrepiada!
- Isso  crendice
- respondeu Rodrigo.
- Talvez no. Quando eu quebrei a perna, minha prima Dora foi a um Centro Esprita rezar por mim. Eles disseram que o tombo havia sido provocado por espritos interessados 
em me afastar do trabalho.
Rodrigo admirou-se:
- Voc acreditou?
-  Naquele momento, no. Mas agora comeo a pensar que pode ser verdade.
- No creio. Voc se recuperou e se algum houvesse tido interesse em afast-la, isso no teria acontecido.
- Mas desde que eu voltei ao trabalho quando entro aqui sinto arrepios e s vezes dor de cabea, outras parece que algo ruim est para acontecer. No sei explicar, 
mas no estou me sentindo como antes.
- Se fosse comigo, eu procuraria o Centro e faria uma consulta. No ano passado minha me no estava bem, foi l, fez tratamento e ficou boa.
-  Vou pensar, Neusa. Se no melhorar, irei
-disse Arete.
Depois que Neusa deixou a sala, Rodrigo tornou:
- Voc no pensa em ir, no ? Disse isso apenas para no contrari-la.
- No. Estou pensando em ir mesmo.
- Acredita que possa estar sofrendo a ao de espritos? Nesse caso eles estariam invadindo nossa privacidade. No posso crer que Deus permita semelhante coisa.
- Quando estava na faculdade, fui testemunha de um caso desse tipo com uma colega que sofreu obsesso de
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espritos, passou por mdicos, psiclogos e at psiquiatra, nada deu jeito. S sarou quando freqentou um Centro esprita. Eu nunca mais esqueci. Por isso, no custa 
ir, para ver o que acontece. Eu no sou religiosa, mas tambm no tenho nenhum preconceito. Se for para melhorar, eu vou.
- Pois eu no. S porque tive um pesadelo, passei mal uma noite, no  o caso.
Arete pediu a Neusa que lhe desse o endereo do Centro.
- Funciona todas as noites a partir das sete e meia. Se quiser posso ir com voc.
- Obrigada, mas no  preciso. Eu no sei ainda quando irei.
Arete voltou para sala e dedicou-se ao trabalho. Porm, as palavras de Neusa no lhe saam do pensamento.
No fim da tarde, quando chegou em casa, foi falar com Dalva.
- O que foi que Dora disse quando eu havia quebrado a perna?
- Que voc havia sido empurrada por espritos. Eu fiquei muito impressionada. Por que est perguntando isso?
-  que desde que voltei ao trabalho no tenho me sentido bem no escritrio. Fico inquieta, sinto arrepios, tenho vontade de vir embora. E hoje o Rodrigo tambm 
no estava bem. Disse que teve um pesadelo, no dormiu bem. Neusa estava perto, ouviu nossa conversa e ficou toda arrepiada.
- A empresa deve estar com m influncia. Talvez seja preciso benzer. Afinal Marcelo morreu de desastre, e talvez no tenha conseguido paz. Pode ser que seu esprito 
esteja l. Ouvi dizer que muitos quando morrem no sabem que esto mortos e voltam aos lugares que estavam habituados.
- No creio. O esprito de Marcelo, se puder estar em algum lugar, certamente estar perto de Aline. Para que viria ao escritrio?
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- No sei. Foi o que me passou pela cabea. Podemos pedir para um padre ir l benzer.
- Nesse caso prefiro ir ao Centro Esprita que Neusa conhece. Se estamos sendo prejudicados por eles,  no Centro que precisamos ir.
- Nesse caso, quero ir com voc.
- No fica longe. Iremos amanh  noite fazer uma consulta.
Dalva concordou e foi cuidar do jantar. Pouco depois o telefone tocou e Arete atendeu.
- Aline! Que bom que ligou. Como vai?
-  Muito bem. Quero saber de vocs. Papai est bem? Mame e voc tambm?
-  Estamos todos bem. Com saudades de voc. Papai fala em voc todos os dias.
- Eu tambm estou com muitas saudades. Eu gostaria de ir v-los, mas no posso viajar agora. S nas frias. Mas quando penso em encontrar algumas pessoas a, perco 
a vontade.
- Voc continua indo aquele Instituto?
- Eu e Rachel estamos fazendo um curso l e estamos adorando. Agora tenho certeza de que a vida continua depois da morte. Que o esprito de quem se foi pode se comunicar 
conosco e at interferir em nossas vidas.
- Voc tem certeza disso?
- Tive algumas provas e no h como duvidar. Em poucas palavras Arete contou-lhe o que estava
acontecendo e finalizou:
- Pensei em ir ao Centro Esprita amanh, mas ainda estou em dvida.
- V. Voc vai se sentir melhor, tenho certeza. Foi o que aconteceu comigo. Estou me sentindo muito bem. No tenho mais sentido a presena de Marcelo.
Dalva estava perto querendo falar com a filha, Arete respondeu que iria, despediu-se e entregou o telefone  me.
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Enquanto elas conversavam, Arete estava pensativa. Aline no era pessoa impressionvel, ao contrrio. Era extremamente prtica, objetiva, e no se convencia com 
facilidade. Se ela acreditava na influncia dos espritos, deveria ser verdade.
Na noite seguinte, faltando alguns minutos para s sete e meia, Arete e Dalva entraram no Centro. Era uma casa trrea, simples e no hall foram atendidas por uma 
moa que lhes deu uma senha e encaminhou-as a um planto de atendimento.
Sentaram-se no corredor, ao lado de outras pessoas e quando chamaram seu nmero elas entraram em uma sala simples, com trs mesinhas, duas cadeiras em cada uma, 
e apenas em uma havia uma pessoa esperando.
As duas dirigiram-se para l, algum trouxe mais uma cadeira e elas se sentaram diante de um rapaz que as cumprimentou sorrindo.
Deram nome, endereo e disseram que desejavam passar por uma consulta espiritual. Ele olhou para Arete e disse:
- Antes da consulta, voc precisa fazer um tratamento. Naturalmente voc veio porque no est se sentindo bem nos ltimos tempos.
-  De fato, tenho me sentido indisposta, principalmente no escritrio onde trabalho. Desejo saber se h alguma coisa l porque meu chefe tambm no est bem.
O rapaz olhou-a fixamente por alguns instantes depois respondeu:
- O problema no est no lugar, mas em vocs. H algumas pessoas interessadas em tir-la de l. Essas pessoas no se conformam com um fato que aconteceu e mudou 
suas vidas. Elas culpam vocs e tm muita raiva.
- Mas ns no temos culpa de nada.
- Eles atacaram, mas voc se recuperou porque  inocente e tem proteo.
- Eu levei um tombo e quebrei a perna.
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- Voc foi empurrada por espritos que foram mandados para isso.
- Quem teria mandado? - indagou Dalva assustada.
- Pessoas que esto com raiva e esto de olho em uma herana que vocs receberam.
- Como voc sabe tudo isso? - perguntou Arete.
- Meu guia espiritual est me contando. Ele diz ainda que eles vo tentar prejudicar uma loja. Voc tem loja?
- Meu pai tem.
- Querem que vocs percam tudo, fiquem sem nada.
- Que horror! S pode ser a famlia...
- ia dizendo Dalva. O rapaz a interrompeu:
- Se a senhora desconfia de algum, peo-lhe que no se revolte. Pessoas que procuram resolver seus problemas prejudicando os outros sero penalizadas pela vida, 
que sempre responde de acordo com a atitude de cada um. Ns vamos pensar no bem, pedir ajuda espiritual porque s o bem vence o mal.
- Fiquei assustada com o que voc disse
- justificou-se Dalva.
-  No se assuste. Precisei falar o que meu guia espiritual sugeriu, para que acreditem na espiritualidade. Mas vou encaminh-las para o tratamento e pode ser que 
tudo se resolva.
Ele deu um papel a cada uma.
- Vocs vo vir duas vezes por semana, a esta mesma hora devem trazer este papel.
-  a primeira vez que venho a um Centro Esprita. Como  o tratamento?
- Vo comear hoje mesmo. Ns fazemos doao de energias e os bons espritos cuidam do que for preciso.
Elas foram conduzidas a uma sala iluminada apenas por uma luz azul e havia msica suave no ar. Havia pessoas em p e cadeiras vazias onde elas se sentaram.
Arete sentiu arrepios pelo corpo, muito medo e teve vontade de sair correndo dali. Fez meno de levantar-se e uma moa aproximou-se dela dizendo:
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- Calma. Tudo vai passar. Procure orar e pedir ajuda a quem voc tem devoo.
Arete procurou controlar-se pensando que no havia motivo para ter medo. As pessoas eram simpticas, o lugar simples, com flores, sem nada que pudesse justificar 
seu receio.
Desde a infncia ela no fazia nenhum tipo de orao. Pensou em Maria, me de Jesus e rezou pedindo ajuda. Aos poucos foi se acalmando.
A moa em sua frente fazia imposio de mos sobre ela sem toc-la e Arete no conteve as lgrimas que lhe desceram pelas faces. Quando a moa parou, ela sentiu 
que j estava bem. Foi-lhe oferecido um pouco de gua que ela bebeu e deixaram a sala.
Dalva estava eufrica:
- Que maravilha! Nunca me senti to leve, to bem. E o ventinho agradvel com perfume de rosas que passava, apesar da porta estar fechada?
- Eu no senti nada disso. Ao contrrio, tive arrepios, vontade de sair correndo.
- No diga! Como est agora?
- Bem. J passou tudo.
As duas encontraram no corredor o rapaz que as atendera e Arete o abordou contando-lhe o que havia sentido. Ele ouviu em silncio, depois explicou:
- O esprito que estava perturbando voc sentiu medo e teve vontade de sair correndo e eu at acho que ele saiu mesmo. Voc estava captando as emoes dele.  bom 
saber que podemos captar emoes dos outros, estejam encarnados ou no. O processo  to forte que se no o conhecermos, acreditaremos que tudo que estamos sentindo 
seja nosso, o que no  verdade.
- Custo acreditar, mas tem lgica. Pode ser porque assim como veio, foi embora de repente. Por que derramei lgrimas sem querer, seriam dele tambm?
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- No. Seu esprito sensibilizou-se com a situao e as lgrimas aliviaram a tenso. Voc deve ter se sentido muito bem depois delas.
- De fato. Fiquei aliviada.
- Procurem fazer o tratamento direito e se sentiro muito melhor.
Elas agradeceram, despediram-se e enquanto caminhavam de volta para casa, no se cansavam de comentar as experincias daquela noite.
Ao chegar, encontraram Mrio curioso:
- Quando cheguei em casa no encontrei ningum. Posso saber onde foram?
Foi Dalva quem respondeu:
- Voc demorou e no pudemos esperar. Fomos ao Centro Esprita e precisvamos estar l s sete e meia. No viu o bilhete que deixei?
- Vi. Mas fiquei curioso. Vocs nunca freqentaram o espiritismo.
- Vamos contar tudo
- disse Arete.
- Enquanto isso, vou esquentar o jantar. Estou morrendo de fome.
Dalva foi para cozinha enquanto Arete contou ao pai as razes para irem consultar o Centro e tudo quanto o rapaz que as atendera havia falado. Quando mencionou 
a loja, Mrio fez um gesto de surpresa:
- Ele disse isso mesmo?
- Disse.
Mrio passou a mo nos cabelos, depois tornou:
- Como ele pode saber? Eu no contei nada a vocs para no preocup-las, mas este ms no vendemos quase nada. Os poucos fregueses entram e saem sem comprar nada.
- Ento ele estava certo mesmo.
- Estava.  surpreendente. Como ele podia saber?
- Fiz a mesma pergunta e ele disse que o seu guia espiritual pediu-lhe que nos dissesse isso.
- Ele falou se a situao da loja vai melhorar?
- Disse que afastando os espritos que estavam nos atacando, tudo voltar ao normal.
Mrio suspirou aliviado:
- Ainda bem. Se continuar assim, no terei como pagar as contas no fim do ms. Pensando bem, acho que quando vocs voltarem l, irei junto. Quero ver isso de perto. 
Quando eu era criana, meu av sempre contava histrias de espritos. Ele acreditava que os espritos bons ou ruins se comunicavam com as pessoas.
Dalva apareceu na sala:
- Vamos jantar. Eu ouvi o que conversaram. Depois voc vai me contar que histria  essa da loja e do seu av.
- Conto sim. Gostaria que ele ainda fosse vivo para podermos conversar. Agora eu prestaria muito mais ateno ao que ele contava naquele tempo.
Eles foram para a copa e o cheiro gostoso da comida os fez sentar-se e entregarem-se ao prazer de uma boa refeio.
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XVI

Mrcio apanhou o telefone e ligou para Olvia. Ela atendeu e depois dos cumprimentos ele perguntou:
- Como voc tem passado, melhorou?
- Sim. Estou envergonhada pela cena que voc presenciou.
- Gostaria de saber como voc  ao natural. Quer jantar comigo hoje  noite?
[           Ela demorou um pouco para responder e ele teve
!     receio que ela recusasse, mas ela respondeu:
- Est bem. Voc merece isso.
- timo. Passarei em sua casa s oito. Est bem?
- Estarei esperando.
Mrcio desligou o telefone satisfeito. Haviam passado dez dias desde a noite em que a conhecera e ele pensara muitas vezes nela, em seu rosto atormentado, nas lgrimas 
que derramara e na dor que notara em seu pranto.
Sentia-se atrado por ela, mas ao mesmo tempo, pelas palavras que ela lhe dissera, podia ser que concordara em jantar com ele apenas para mostrar sua gratido e 
no havia nenhum outro interesse.
Mesmo assim,  aprontou-se com capricho o que fez com que Ivone reparasse:
201
-  Como voc est bonito! At parece que vai a uma festa.
- Vou pegar o carro do pai. Ele no costuma mesmo sair  noite.
- Tome cuidado.
Ele saiu animado. Olvia era moa de classe, e o carro do pai era um tanto velho. Sentiu que estava na hora de ter seu prprio carro. Antes no havia pensado nisso, 
exatamente porque o pai s usava o carro para trabalhar e  noite nunca saa.
Achava um desperdcio ter outro carro. Mas pela primeira vez notara o quanto o carro do pai era velho.
Chegou em casa de Olvia e apertou a campainha. Uma criada veio abrir: .    - Boa noite, senhor.
- Boa noite. Por favor, diga a Olvia que Mrcio est aqui.
- Ela avisou que o senhor viria e pediu para entrar. .   Ele entrou e acompanhou-a at a sala de estar.
- Sente-se, por favor. Ela j vai descer. O senhor deseja uma gua, um aperitivo, um caf?
- No, obrigado.
Ele afundou no sof e olhou em volta. A sala estava luxuosamente mobiliada e muito bonita. Ele sentiu um pouco de vergonha por estar ali. Apesar de ser de classe 
mdia, morava em um bairro simples e no estava habituado a freqentar lugares assim.
Pouco depois, um perfume gostoso encheu o ar e ele levantou-se. Olvia estava se aproximando. Estava linda em seu vestido verde escuro, os olhos verdes brilhando, 
os lbios bem feitos entreabertos em um sorriso.
Depois dos cumprimentos ela disse:
- Podemos ir.
Eles saram e uma vez no carro, Mrcio no se cansava de admir-la.
- Voc est linda!
- comentou sem poder conter-se. Ela suspirou e respondeu:
- Obrigada. Mas s vezes eu gostaria de ser pobre e feia. Assim teria uma vida mais sossegada.
202
Notando que pelos olhos dela passara uma sombra de tristeza ele tornou:
-  Esta noite vamos esquecer as tristezas e nos alegrar. Afinal, somos jovens, cheios de vida, podemos nos divertir e sonhar com coisas boas.
- Isso mesmo. Vamos nos divertir. Rir, estou precisando de alegria.
- Pois ento falou com a pessoa certa. Eu tambm estou cansado de sofrer e quero esquecer a dor. Vamos nos divertir. Onde quer ir?
- Conheo um lugar bonito onde poderemos danar um pouco. Voc gosta de danar?
- Gosto muito. Voc indica o caminho.
Ela concordou. O restaurante no era muito longe e dez minutos depois chegaram, deixaram o carro no estacionamento e entraram.
O lugar era agradvel, bem decorado, com vasos de plantas e flores. Foram conduzidos a uma mesa de onde podia se ver atravs da janela envidraada o belo jardim 
que circundava o prdio.
- Que lugar agradvel! - comentou Mrcio.
- Eu gosto daqui. A msica  boa e toca de tudo.
Fizeram o pedido e Mrcio observava que as pessoas em volta eram de classe e se perguntava quanto teria de pagar pelo jantar.
Ia ser caro, mas ele no se importava porquanto o prazer de estar ali, com ela, valia todo esforo.
Eles pediram e enquanto esperavam Mrcio convidou-a para danar. Ela aceitou. Ele enlaou-a com prazer aspirando o gostoso perfume que vinha dela.
A msica era romntica e ele nunca havia sentido tanto prazer em uma dana. Olvia era leve e como ele danava bem, ela entregou-se ao prazer da msica.
Durante o jantar, Mrcio conversou sobre amenidades, no queria que ela se entristecesse, embora quisesse muito saber a causa de sua tristeza.
203
Temia que fosse uma desiluso amorosa e que ela estivesse saindo com ele apenas por gratido, sem nenhum interesse pessoal.
Mas sentia que precisava primeiro captar a confiana dela para depois falar sobre seus problemas.
Passava da uma quando deixaram o restaurante. Estavam alegres e Mrcio notava o quanto ela era bonita quando sorria.
Ao chegarem diante da casa dela, ele desceu, acompanhou-a at o porto de entrada.
- Boa noite e obrigada. H muito tempo no tinha uma noite agradvel como esta.
- Eu tambm adorei. Voc dana muito bem.
- Eu adoro danar. A msica faz bem ao nosso esprito.
- Espero que possamos repetir a dose. Ela hesitou um pouco depois respondeu:
- No sei. Estou para fazer uma viagem ao exterior. -Quando?
- Breve. Ainda no sei o dia. Depende de algumas coisas.
- Quanto tempo vai ficar?
- Se eu pudesse no voltaria ao Brasil to cedo. Mrcio sentiu um arrepio lembrando-se de Aline. Por que as mulheres cismavam em morar no exterior? -Voc no est 
fazendo faculdade?
-  Estou, mas se eu for antes das frias, tranco a matrcula e continuo quando voltar.
-  Nesse caso, podemos sair enquanto voc no viajar. Ser que no vai mudar de idia?
- No. Por mim j teria ido. Mas estou dependendo, como eu disse, de algumas coisas. Em todo caso, podemos sair enquanto eu estiver por aqui
- ela estendeu a mo
- Mais uma vez obrigada e boa noite.
- Boa noite
- respondeu ele apertando a mo dela e depois levando-a aos lbios
- Esta noite foi muito especial para mim.
- Eu aprecio sua companhia, mas no quero que se iluda pensando em mim. No posso lhe oferecer mais do que amizade.

- Ligarei assim mesmo.
Ela sorriu, abriu o porto e entrou. Mrcio entrou no carro sentindo uma ponta de decepo. Olvia fora muito Clara. Notara seu interesse e tratara de posicionar-se.
Porm, se ele fora capaz de fazer com que ela esquecesse seus problemas e sentisse prazer em sua companhia, talvez pudesse ter esperanas de manter com ela um relacionamento 
afetivo.
Sentia que ela pertencia a outro nvel social, mas ao mesmo tempo estava disposto a pagar o preo de cultivar um relacionamento que certamente exigiria dele no 
s manter-se  altura, procurando ser elegante, freqentando lugares de luxo aos quais no estava habituado, e ao mesmo tempo tentando melhorar de vida.
O luxo que vira na casa dela, os objetos bonitos, o ambiente agradvel eram muito bons e ele gostaria muito de viver em um lugar assim.
Se ao menos o dinheiro de Marcelo lhes viesse s mos! Poderia abrir seu prprio negcio. Ele no queria ser como o pai que trabalhava em um escritrio de contabilidade 
h mais de dez anos e ganhava apenas o suficiente para manter o padro de vida que sempre tiveram, que no lhes permitia viajar para o exterior, comprar roupas da 
moda.
Ele tambm, apesar de formado, estava trabalhando e ganhando pouco. Embora no precisasse dar dinheiro em casa, seu salrio no lhe permitia extravagncias.
Se Olvia correspondesse a seus sentimentos, ele teria de procurar outro emprego.
Ao pensar nela, sentiu que nunca havia sentido por nenhuma mulher o interesse que sentia por ela e que tudo faria para que ela no fosse viajar. Nutria o pensamento 
de que se dispusesse de mais tempo, se ela demorasse para ir, talvez a fizesse mudar de idia.
A lembrana dos momentos agradveis daquela noite fez com que ele desejasse muito repetir a dose.
205
Ao chegar em casa, deitou-se e comeou a imaginar como seria bom beijar aqueles lbios to bonitos, apertar aquele corpo que sentira em seus braos.
Por fim, decidiu que no dia seguinte iria procurar outro emprego. Afinal, estava formado e no deveria sujeitar-se a um emprego de segunda classe.
Fazendo planos para o futuro, Mrcio adormeceu.
Depois de despedir-se de Mrcio, Olvia entrou em casa procurando no fazer rudo. Tirou os sapatos e ia caminhando devagar quando a porta do escritrio abriu e 
um homem alto, moreno, de meia idade, apareceu.
Seu rosto contrado, testa franzida, olhos brilhantes de raiva:
- O que ficou fazendo na rua at uma hora dessas?
Olvia estremeceu e fixando-o com raiva respondeu:
- Deixe-me em paz.
Ele segurou-a pelo brao:
- Acha que pode fazer isso comigo? Quem voc pensa que eu sou?
-  Eu no penso nada. No quero nada de voc. Deixe-me em paz.
- Voc no vai se livrar de mim dessa forma. Voc  minha e no admito que saia com outros homens.
- Voc est louco!
- Estou. Estou completamente louco. Tanto que no ligo mais para o que possa acontecer. Se continuar me evitando, mostrarei aquelas fotos  sua me e direi que voc 
atirou-se em meus braos. Que voc  uma pervertida que no respeitou nem o marido de sua me!
- Voc sabe que isso no  verdade. Voc sabe tudo que fez para conseguir essas fotos. Eu deveria ir  polcia.
- Pois v. Eu direi a todos que voc no presta, que fez tudo para me enlouquecer.
- S no fao isso porque no quero que minha me descubra toda esta sujeira.
- Eu amo voc. No posso pensar em outra coisa seno em t-la em meus braos! A lembrana daquela noite no sai do meu pensamento. Est me deixando louco!
206
- Nunca farei o que voc quer. Aquela noite eu estava inconsciente. Mas isso nunca se repetir. Estou alerta. Largue-me. Quer que mame acorde?
Eles ouviram uma voz de mulher perguntar:
- Quem est a?  voc Gilberto? Com quem est falando?
Ele largou Olvia e disse baixinho:
-Voc me paga. Tem de me explicar direitinho quem era aquele moo que a trouxe para casa.
Depois subiu e procurando dar um ar calmo a fisionomia, no topo da escada encontrou Olga e explicou:
- Eu estava tomando gua e vi quando Olvia chegou e estava conversando com ela.
Olvia subiu e a me j na porta do quarto perguntou:
- Est tudo bem, minha filha?
Olvia havia enxugado as lgrimas e respondeu com voz que procurou tornar natural.
- Est sim. Boa noite.
- Boa noite, Olvia.
Ela entrou no quarto, fechou a porta e atirou-se na cama chorando muito. A vida em sua casa estava insuportvel.
Desde quando fizera quatorze anos, notara que seu padrasto a olhava com olhos de cobia. Por isso ela o detestava. Fugia dele o mais que podia. No queria que sua 
me soubesse.
Seu pai morrera quando ela tinha sete anos e quatro anos depois sua me se casara com Gilberto, um rico empresrio que herdara do pai um rendoso negcio e muito 
dinheiro.
A situao com o padrasto havia piorado quando sua me ficara internada no hospital por vrios dias por causa de um problema renal, que culminou com a extrao de 
um rim.
Fazia dois dias que Olga estava internada, quando Gilberto antes de dormir convidou-a a tomar um lanche. Ela tomou o refrigerante e dormiu.

Quando acordou, estava deitada na cama ao lado dele que a havia violentado. Ainda tonta, sentindo o corpo dolorido, tentara levantar-se, mas ele a cobrim de beijos, 
chamando-a de meu amor, e Olvia horrorizada, ameaou-o de gritar.
Ele disse que se ela fizesse isso, os criados iriam ouvir e contariam tudo para sua me quando voltasse para casa.
Apavorada, Olvia havia esperado melhorar a tontura e depois, finalmente conseguiu ir para seu quarto onde chorou desesperada.
No dia em que sua me ia voltar para casa, Olvia acordou e enfrentou Gilberto. Ela estava decidida a contar tudo a ela e agentar as conseqncias.
Ento, ele mostrou-lhe algumas fotos que havia tirado enquanto ela estava inconsciente, que deixaram transparecer que ela estivera com ele de boa vontade.
Vendo aquelas fotos, qualquer pessoa pensaria que Olvia era amante do padrasto. Ele fizera as fotos para que se ela fosse  polcia, como era menor, ele provaria 
que ela o conquistara.
Ela era muito bonita e ele no conseguira resistir. Essa seria sua defesa.
Olvia compreendeu que sua me no acreditaria em sua inocncia. Ela amava o marido e era muito ciumenta.
Desde esse dia, sua vida em casa tornou-se um martrio. Gilberto continuava a assedi-la aproveitando todos os momentos em que Olga se afastava.
Olvia procurava ficar fora de casa o maior tempo possvel, mas Gilberto pressionava Olga, fazendo-a ver perigo em suas sadas.
Interessada em afastar-se mais dele, Olvia dissera  me que gostaria de estudar no exterior, conseguira uma escola nos Estados Unidos.
Apesar de no querer ficar longe da filha, Olga concordou, mas depois, Gilberto interveio e ela resolveu esperar que a filha completasse maior idade.
208

Angustiada, ouvira uma colega dizer que estava indo em um terreiro pedir ajuda profissional e conseguira um estgio muito bom.
Sem dizer nada a ningum sobre o problema que a anngustiava, descobriu o endereo do terreiro e foi falar com pai Jos.
Contou-lhe seu drama e ele prometeu ajud-la. Mais animada, Olvia esperou, porm, nada aconteceu.
Naquela noite que encontrou Mrcio, ela havia ido ao terreiro para conversar com pai Jos de novo.
Ele lhe disse que havia estudado o caso e a aconselhava a ter pacincia porque a situao s se resolveria depois que ela completasse vinte e um anos e sasse de 
casa.
Antes disso, se sua me descobrisse, a acusaria de haver se jogado sobre o padrasto e nunca a perdoaria.
Revoltada, sem coragem para continuar mais dois anos suportando aquele martrio, no conteve o choro. Para que ningum visse, escondeu-se atrs da rvore, onde Mrcio 
a encontrou.
Naquela noite, ela havia chegado em casa melhor. Os momentos que passara ao lado de Mrcio, sua gentileza, a msica, o ambiente agradvel, tudo contribura para 
que ela ficasse bem.
Porm, a cena desagradvel com Gilberto, a interveno da me, o medo que sentira que ela descobrisse tudo, a tinham feito pensar que no podia ficar mais dois anos 
esperando, expondo-se ao risco da me descobrir tudo.
Foi para o quarto, estendeu-se na cama e comeou a arquitetar um plano para fugir de casa. Tinha algum dinheiro no banco, que sua me colocara para quando ela se 
formasse, mas no era suficiente para que ela fosse para longe como pretendia.
Precisava juntar mais um pouco e para isso, deveria ficar mais alguns dias, procurando conseguir o mximo que pudesse.
209
Tinha inteno de deixar o Brasil e ir para o exterior. No podia correr o risco de que Gilberto a encontrasse. Ele ficaria furioso por ela haver escapado e por 
certo faria de tudo para descobrir seu paradeiro e traz-la de volta.
Quando fosse  faculdade na manh seguinte, conversaria com Marli, sua professora de ingls, pedindo sugestes do que fazer para estudar nos Estados Unidos.
Ela mencionara uma organizao americana que fazia intercmbio de estudantes e poderia dar-lhe boa sugesto.
Precisava fazer tudo sem que ningum em sua casa soubesse. Quando estivesse tudo resolvido, iria embora, deixaria uma carta para a me, com uma boa desculpa e estaria 
livre.
No se importava de deixar o luxo em que vivia, para ganhar o prprio sustento. O que ela mais queria era poder viver em paz, reencontrar o prazer de viver.
Pensou em Mrcio. Talvez ele pudesse ajud-la. No contaria a ele a verdade. Diria apenas que seu padrasto a odiava e tornava sua vida um inferno.
Ele mostrara-se inclinado em ajud-la, pareceu-lhe sincero, mostrara-se discreto e o mais importante, no era conhecido de ningum em sua roda de amigos ou em sua 
famlia.
No dia seguinte telefonaria para Mrcio mostrando-se interessada em cultivar sua amizade. Sairia com ele algumas vezes para conhec-lo um pouco mais e saber at 
que ponto poderia confiar nele.
O que lhe importava  conseguir seu objetivo. Com a ajuda dele esperava poder realizar seu plano de fuga.
Estava decidida. No dava mais para continuar vivendo daquela forma. Ela queria mudar de vida, de pas, esquecer tudo, procurar dias melhores onde pudesse ser feliz 
e viver em paz.
210
XVII

Antnio chegou  fortaleza de Mimo a procura de Marcelo. Estava muito nervoso. Assim que deu o nome, ouviu uma voz perguntar:
- O que quer aqui?
- No est me reconhecendo? Sou Antnio, j morei aqui durante muito tempo. Quero falar com Mimo.
O porto abriu, ele entrou.
- Vou ver se ele pode lhe atender.
- No  preciso. Somos amigos.
- Estou cumprindo ordens. Quer que eu seja castigado? Antnio concordou e o porteiro entrou enquanto ele
ficou esperando no ptio. Pouco depois, ele voltou:
- Pode entrar, ele o est esperando. Vou acompanh-lo.
- No  preciso, sei o caminho.
Pouco depois estava batendo na sala de Mimo. Depois dos cumprimentos, Antnio disse nervoso:
- Onde est Marcelo?
- No est com voc?
- No. Que belo ajudante voc me mandou. Ele ps tudo a perder.
Mimo aspirou fumo, soltou uma baforada e disse calmo:
- Em primeiro lugar, modere seu tom. Quando falar
211
comigo me chame de senhor. Eu fiz o que me pediu e no tenho culpa se o rapaz no se comportou bem. Antnio procurou engolir a raiva e respondeu:
- O senhor tem certeza de que ele no voltou para c?
- Tenho. Quero saber tudo que aconteceu.
- Ele chegou, eu ensinei o que fazer, ele fez tudo direito. Eu achei que era o momento de agilizar o caso para que Miriam voltasse logo. Deixei-o l com todas as 
instrues e fui  procura de um conhecido que tinha competncia para resolver tudo de uma vez.
Ele fez ligeira pausa olhando atentamente para Mimo que ouvia com os olhos semi cerrados e percebendo que ele estava atento, continuou:
- Fiquei dois dias fora porquanto a viagem era longa e precisei esperar que a pessoa que fui procurar pudesse me acompanhar. Ele me garantiu que seria fcil e que 
naquela noite mesmo, tudo estaria acabado. Eu j antegozava o prazer de olhar Mriam cara a cara e poder consumar minha vingana. Porm, quando chegamos na casa 
dela, havia um guardio da luz na porta, o que nos assustou muito.
-Voc no disse que ela era protegida!
- disse meu acompanhante e depois, sem mais aquela, se foi deixando-me sozinho.
A luz que havia em volta dele fez-me tremer porquanto senti que mesmo  certa distncia todas minhas defesas estavam indo embora. Tratei de sair de l o mais depressa 
que pude.
- Foi interferncia dos seres da luz com certeza. Vai ver que Marcelo foi expulso de l por eles
- disse Mimo.
- No creio. Quando cheguei em minha casa, concentrei-me, e descobri o que aconteceu. Vi tudo. O seu protegido ficou com pena dela e, ao invs de fazer o que mandei, 
comeou a rezar. Pode imaginar uma coisa dessas?
Mimo abriu os olhos e endireitou o corpo dizendo irritado:
- Ele fez mesmo isso?
212
- Fez. Se tem dvida, observe e ver.
Mimo concentrou-se e conseguiu ver o que havia acontecido.
- Esses espritas esto sempre se metendo em nossos negcios. Eles foram os responsveis. Marcelo sabia que havia agido errado e estava com medo de voltar aqui. 
Assim eles o envolveram e levaram.
- E agora, como vou fazer? Voc precisa me ajudar.
- Tudo tem limites. No posso me envolver com os seres da luz. Sei nossos limites. No quero perder tudo que consegui.
- Voc prometeu que me ajudaria!
- E cumpri. Ajudei. Mas no contava que o outro lado tinha tanto interesse em proteger Mriam. Se quer um conselho, desista por enquanto. V cuidar de sua vida, 
no tente nada.
- Eu no vou desistir.
- No conte comigo. Mriam agora est protegida e voc nada poder fazer contra ela.  melhor acalmar seu dio. Afinal voc j judiou dela durante muito tempo. Certamente 
ela j pagou tudo que lhe fez. V cuidar de sua vida, trate de melhorar um pouco sua aparncia que est assustadora.
- Vou pedir a Mirela que me ajude.
- Mirela desapareceu. Foi embora. Cansou de esperar por Renato.
- Nesse caso no sei o que fazer.
- Conforme-se.  o que eu posso lhe dizer. Agora pode ir.
Com um gesto, Mimo despediu Antnio que saiu decepcionado. Ele imaginara que Mimo fosse forte, pudesse tudo. Mas estava enganado.
Que seres eram esses to poderosos capazes de intimidar Mimo? Ele sempre gostara de tratar com os chefes. No queria falar com subalternos. Imaginara que Mimo fosse 
o mximo. Era mentira. Havia outros seres mais poderosos do que ele.
213
Resolveu ir embora. Saiu e comeou a caminhar. No adiantava ficar mais ali e tambm no estava com vontade de voltar ao lugar onde vivera durante alguns anos. Para 
onde iria? O que fazer de sua vida?
Durante mais de seis anos dedicara-se exclusivamente a sua vingana. Conseguira envolver o traidor e provocar o acidente de carro que lhe custou a vida.
Logo que ele deixou o corpo, Antnio, que o esperava satisfeito, havia lhe atirado no rosto sua traio e embora ele no o tenha reconhecido, em seguida foi levado 
por um grupo de socorro.
Antnio no se importou muito porquanto o que ele mais desejava era trazer Mriam para a dimenso onde estava e poder t-la  sua merc e faz-la sentir o peso de 
seu erro.
Mas agora que isso dera errado, estava hesitante, sem rumo, desanimado.
Foi quando o esprito de Cora aproximou-se dele. Ela havia apagado sua luz para no assust-lo. E aproximou-se dizendo:
- Como vai, Antnio? Ele estremeceu:
- Quem  voc?
-  Meu nome  Cora. Eu estava passando e notei que voc est cansado. Muito cansado, sem rumo. Eu venho de um lugar muito bonito, ideal para recuperar suas foras.
- De fato. Estou muito cansado. A vida para mim  um fardo terrvel. Se eu pudesse pelo menos esquecer um pouco, descansar...
- Voc pode. Se quiser o levarei at l.
Antnio sentiu que vinha dela uma energia suave, agradvel que h muito ele no sentia. Suspirou triste:
- Eu quero, mas no sei se devo. Olhe para mim, estou descomposto, sujo, quase maltrapilho. Tenho vergonha.
- D-me sua mo
- ele obedeceu e ela continuou
- e imagine que est vestindo uma roupa limpa e mais arrumado.
214
Ele sentiu saudade de uma roupa que tinha quando vivia no mundo da qual gostava muito e como por encanto viu-se vestido com ela.
-Voc  muito poderoso e se quiser ficar bem, basta imaginar isso.
- , eu sabia que podia fazer coisas atravs do querer, mas nunca usei para isso.
Cora sorriu e convidou:
- Vamos? Estou certa de que vai gostar muito. Antnio sentiu prazer quando essa linda mulher passou o brao pelo seu e comearam a deslizar gostosamente pelo espao, 
subindo, atingindo um cu limpo e sem nuvens.
Olhando para baixo, Antnio via lugares claros, limpos, rios, cidades, muita vegetao e admirado perguntou:
- Onde estamos? Que lugares bonitos.
- Estamos em zona de recuperao. Aqui, o tratamento utiliza a beleza como remdio.
- Eu no sabia que existia isso.
Cora sorriu:
-  H muitas coisas mais que voc um dia vai conhecer. Por agora, voc vai ficar prximo daqui.
Eles desceram perto de um prdio de cinco andares, cheio de janelas, rodeados de rvores e flores.
Antnio estava extasiado, respirando com prazer o aroma suave que estava no ar. Eles entraram em uma das portas e foram andando por um corredor at uma sala onde 
uma jovem senhora os recebeu, abraou Cora que apresentou Antnio:
- Nora, este amigo precisa de atendimento. Estava sem rumo e eu pensei que aqui seria um bom lugar para ele ficar por algum tempo. Convidei-o e ele aceitou.
- Seja bem vindo - tornou Nora estendendo a mo que ele apertou acanhado.
O lugar era muito limpo e arrumado e ele notou que apesar de estar com uma roupa melhor, sua aparncia no era das melhores. Envergonhado, baixou o olhar.

Elas perceberam, porm no mencionaram o as sunto, conversaram durante alguns minutos e por fim Nora segurou Antnio pelo brao dizendo:
- Venha comigo. Aqui, ns cultivamos a beleza. Portanto, antes de eu mostrar-lhe sua casa e apresent-lo aos seus vizinhos, vou lev-lo a uma sesso de transformao 
onde voc vai receber os cuidados que necessita para melhorar sua aparncia. Tenho impresso que nos ltimos tempos voc no cuidou de si mesmo.
- De fato, h muito tempo que no cuido de mim.
- Essa  nossa primeira responsabilidade
- aduziu Cora sorrindo
- O tratamento de beleza aqui  muito bom e voc vai sentir-se to bem que nunca mais vai se descuidar.
Olhos brilhantes de emoo, Antnio foi conduzido a uma sala onde um rapaz jovem o recebeu com um sorriso.
- Quando estiver pronto, eu virei busc-lo para irmos a sua nova casa.
As duas se retiraram e foram at a sala de Nora onde Cora relatou a histria de Antnio finalizando:
- Durante seis anos consecutivos, ele empenhou-se na vingana. Porm, chegou o momento em que a vida deu um basta, impediu-o de continuar, protegeu a pessoa que 
ele perseguia e tirou-lhe qualquer ajuda dos justiceiros. Ento, ele ficou sem rumo porque durante esse tempo se abandonara, no se permitindo nenhuma alegria, cultivando 
s o dio.
- Sentiu-se impotente, percebeu que havia uma fora maior agindo e enfraqueceu.
-  Isso mesmo. Ento eu o procurei. Pensei em traz-lo aqui para atravs da beleza sensibilizar seu esprito to embrutecido pelo dio.
- A beleza toca nossa alma, abre a sensibilidade. O caso dele vai demorar um bom tempo porquanto quanto mais sensibilizado, quanto mais gostar do belo, mais sentir 
em seu interior os erros que cometeu.
- A bondade das pessoas acaba por nos fazer sentir mais nossos pontos fracos.
216
Voc sabe que nossa colnia  fruto das experincias do vale das artes. Os gnios que vivem l esto convictos que qualquer tipo de arte sensibiliza a alma e se 
perguntaram: Por que no usar isso como terapia  com os espritos que ainda acreditam no mal como soluo para seus problemas?
Eu sei que h quase dois sculos eles fundaram esta cidade e eu sou testemunha do sucesso dessa teoria.
A melhora aqui  mais rpida, mais objetiva. Mas como para muitos o contraste entre o que eles acreditavam e a realidade  tanto que trouxemos terapeutas para ajud-los 
quando as crises de remorso ou de depresso os envolve. Alguns ficam to envergonhados que querem se punir, se acusam, se machucam ou querem ir embora porque dizem 
no merecer tantas coisas boas.
Penso que Antnio vai ser um desses. Ele no  um esprito to atrasado que se dedicasse ao mal, mas a traio que sofreu colocou  tona seu lado pior e ele mergulhou 
no dio contra os que o traram. E o outro que eu trouxe, o Marcelo. Como est?
- Ele tem um gosto refinado e um grau de desenvolvimento melhor. Gostou muito daqui, porm ainda tem dificuldade para esquecer a esposa. Fala nela o tempo todo, 
est obcecado. O apego que tem a ela  terrvel.
- Voc sabe o passado dele com Mirela?
- Sei. Mas por enquanto ele est to obcecado pela lembrana de Aline que bloqueia completamente as recordaes de outras vidas.
- Notei que ele havia tido alguns flashs, mas no conseguia concatenar os fatos.
- Ultimamente ele tem ficado inquieto. Est sendo difcil segur-lo aqui.
- Vou conversar com ele.
- Faa isso. Talvez consiga acalm-lo.
Cora deixou a sala e saiu  procura de Marcelo. O dia estava lindo e vrias pessoas conversavam alegres nos jardins em volta do prdio. Mas Marcelo no estava entre 
elas.
217
Foi procur-lo em seu chal. Sentado na varanda, cabea baixa, l estava ele, sozinho. Cora aproximou-se:
- Estava por perto e vim dar-lhe um abrao. Ele levantou-se e abraou-a dizendo:
- Ainda bem que veio. Estou desesperado. Preciso ir ver Aline.
- Ainda no  possvel.
- Vocs me dizem isso, mas estou comeando a duvidar. Por que no querem que eu v v-la?
-  Por que a casa dela est sendo vigiada pelos homens de Mimo. Se for l, ser preso por eles.
- Talvez valha a pena correr o risco. No suporto mais ficar longe de Aline. Depois, voc no sabe, ela acha que eu morri e andava de namoro com outro. Preciso evitar 
isso de qualquer jeito.
-Voc precisa aceitar que aos olhos do mundo, ela est livre para um novo casamento. Voc no poder impedir que isso acontea.
- Eu no aceito! Ela  minha mulher e ningum vai tom-la de mim. Voc diz que  minha amiga, mas parece que est do lado dela.
- Eu estou do lado dos dois. Voc diz que a ama e quem ama deseja a felicidade do ser amado.
- Eu posso faz-la feliz.
- Voc teve a sua chance, mas acabou.  bom saber que as pessoas so livres. Ningum  de ningum. Por mais que voc queira que seja diferente, essa  a verdade.
Marcelo cobriu o rosto com as mos e comeou a soluar. Cora no interveio. Quando ele parou, ela o abraou dizendo:
- Eu sei que  difcil para voc, mas estou certa que vai conseguir vencer esse apego. Voc agora est vivendo em outra dimenso, aqui voc pode encontrar novos 
caminhos, cheios de alegria e de amor. Por que teima em sofrer por uma coisa que no tem volta?
218
- Eu no sei viver sem ela
- reclamou ele triste. Ela sentou-se no banco da varanda e puxou-o para
que se sentasse do seu lado. Passou o brao no dele e respondeu:
-  Dentro de voc h mais fora do que imagina. Voc pode e vai conseguir fazer uma pausa nessa parte de sua vida porque vocs esto separados. Aline ainda vai ficar 
muito tempo vivendo na carne. Mas voc pode esper-la quando ela regressar, ser s uma questo de tempo.
- Eu tenho medo. Ela pode apaixonar-se por outro.
- Voc sabe que isso pode acontecer e no vai poder impedir. No seria melhor voc procurar adaptar-se  vida aqui, fazer amigos, deixar o tempo passar para encontr-la 
face a face quando ela vier?
Ele torceu as mos nervosamente:
-  que eu no sei se ela ainda vai me querer. Ela me abandonou.
- Ela pode ter um caminho diferente do seu. A vida sempre sabe o que faz. Se ela foi embora e o deixou talvez ela tenha deixado de am-lo. Ningum pode obrigar algum 
a gostar. Esse sentimento  espontneo e natural. Se ela no o ama mais,  tempo perdido ficar esperando por ela, ou querer sofrer ao lado dela o que  pior.
-  que eu no consigo deixar de pensar nela.
- Faa um esforo. Se deixar esse pensamento de lado estou certa de que logo vai recordar de outras vidas e essa recordao vai fazer de voc uma pessoa muito feliz.
- Voc acha?
- Estou certa disso.
- s vezes penso que eu nunca tive outras vidas.
Cora sorriu e respondeu:
- E os sonhos. As vises que tem de vez em quando?
- Sonhos no significam nada.
- Podem significar muito. Por que no tenta descobrir o que eles querem dizer?
- Como fazer isso?
- Pensando nas vises que j teve, querendo saber mais,
- Voc diz isso porque conhece meu passado ou  apenas uma sugesto?
- Os sintomas que voc tem fazem-me pensar que voc est prestes a recordar o passado. Sinto at que basta mais ateno ao seu mundo interior para que isso acontea.
- De que adianta querer saber o que aconteceu h muito tempo se meu corao, meu pensamento est em Aline, em nossa vida atual?
-  que a vida os separou e ela deve ter uma razo justa para isso. Insistir agora nessa proximidade  perda de tempo. Vocs vivem em mundos separados, no h como 
ficarem juntos. Enquanto ela precisa viver suas experincias no mundo material, voc est sendo chamado para se renovar e caminhar para frente em sua vida espiritual.
- Mas eu no quero viver uma vida espiritual. Quero estar na Terra onde tenho todos os meus interesses, minha famlia, minha mulher. Meu corao est l, com eles.
- Eu sei. Mas seu corao pode continuar com eles porquanto o amor nunca morre, mas no  hora de estar junto porque cada um vive seu prprio processo de evoluo 
e tem suas necessidades. Para voc,  hora de amadurecer, rever as experincias que teve e buscar tirar delas todos os benefcios possveis.
- Que benefcio pode ter em morrer da forma violenta como eu morri, no apogeu da minha juventude, cheio de planos para o futuro?
- Um dia voc ainda compreender porque teve que passar por isso.  bom saber que a vida no erra e voc veio do jeito certo, na hora certa.
- Como pode afirmar isso?
- Porque tudo tem uma razo de ser. Nada acontece ao acaso. Por isso, procure aproveitar o tempo. Ao invs de ficar pensando em Aline com revolta, insatisfao, 
lembre-se dos bons momentos que viveram juntos, em
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fittttm do amor que diz sentir por ela, deixe-a livre para "nyuir seu caminho.
 difcil para mim.
Voc no pode viver pendurado afetivamente em BUlm pessoa. Ela  para voc apenas uma muleta na ^iml :;e apoiou e no deseja largar.
Isso no  verdade.
Claro que . O amor, quando verdadeiro, coloca em primeiro lugar a felicidade do ser amado. Voc no MIII preocupado com os sentimentos dela, nem se ela era feliz 
a seu lado, quer apenas perpetuar sua ligao com ela. Isso  apego, no  amor.
Eu a amo.
Quem ama liberta, no subjuga o ser amado.
Marcelo no conteve as lgrimas que desceram pelo seu rosto contrado pelo desespero.
Cora alisou a cabea dele com carinho e esperou i|iio ele se acalmasse. Depois disse com voz calma.
- Enquanto voc pensa sobre esse assunto, desejo convid-lo para uma reunio que vai haver na casa de uns amigos meus. Vai haver msica e muita alegria.
- No tenho disposio para visitar ningum. No estou em condies de ser boa companhia.
- Voc vai comigo sim. De que adianta ficar remoendo sua dor? Ao contrrio. V comigo, estou certa de que vai gostar. So pessoas muito interessantes, inteligentes, 
bondosas. O lugar  lindo e muito agradvel.
- No sei...
- H quanto tempo no tem um momento de calma e bem estar? Estou certa que se ficar calmo ser mais fcil encontrar a melhor soluo para seu caso.
- Talvez seja bom mesmo...
- Passarei aqui para busc-lo s oito.
- Est bem. Irei.
- Isso mesmo. Est precisando mesmo de uma boa distrao. Costumo ser pontual.
- Estarei esperando.
Ela se foi e Marcelo sentou-se perto da janela pensativo. De onde estava podia ver o lindo jardim ao redor do prdio.
As palavras de Cora ainda estavam vivas em sua memria: "Quem ama liberta, no subjuga o ser amado". Por mais que lhe doesse reconhecia que ele queria ficar ao lado 
dela de qualquer jeito, sem se perguntar se ela desejava isso.
Pela primeira vez ele sentiu como ela aos poucos fora se distanciando dele. Por isso ela o abandonara. A verdade doeu forte e ele curvou-se abatido. Sentiu que ela 
no o amava o suficiente.
Pensou como a conhecera, lembrou-se dos momentos bons dos primeiros tempos de casamento, de como se sentia feliz em mim-la, em fazer-lhe todas as vontades.
Marcelo sentiu que no queria mais ficar ao lado dela se isso a tornasse infeliz. Essa era a realidade. Ele no fora capaz de torn-la feliz.
Sentiu o peito oprimido, a cabea atordoada, incapaz de pensar com clareza.
Cora tinha razo. Ele precisava fazer uma pausa em sua dor, acalmar seu esprito, talvez ento pudesse descobrir o que fazer de sua vida dali para frente.
222
XVIII

Alguns dias depois, Olvia chegou em casa satisfeita. Conversara com Marli, sua professora de ingls e ela lhe informara que naquela poca do ano no seria possvel 
arranjar o que pretendia. Porm, era muito amiga de uma ex aluna que estava morando em Miami, conversara com ela que lhe dissera:
"D meu telefone a ela e pea para me ligar. Creio que posso arranjar lugar para ela ficar."
Com o corao aos saltos, Olvia anotou o nome e o nmero. Precisava ir ao banco saber quanto tinha na conta, mas isso s poderia ser feito no dia seguinte.
Enquanto isso, cuidaria de arranjar mais dinheiro. Tencionava trabalhar quando chegasse l, porm precisava ter uma reserva para os primeiros tempos.
Na manh seguinte ao invs de ir  faculdade, esperou abrir o banco e foi ver o saldo. Fez as contas de quanto gostaria de levar e no era suficiente.
Estava certa de que mais alguns dias conseguiria o montante que faltava.
Naquela noite, durante o jantar, casualmente ouviu uma conversa de sua me com o marido:
- Quando voc vai dar-me aquele dinheiro?
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- Amanh, pela manh o doleiro vai trazer cinqenta mil dlares. Eu lhe darei uma parte.
- Est bem.
Olvia foi para o quarto, ligou para o nmero que Marli lhe dera e conversou com Mal, a ex-aluna de Marli e ela lhe disse que poderia hospedar-se no mesmo prdio 
em que ela morava, o preo era mdico e o lugar bom. Na mesma hora Olvia pediu-lhe para reservar o lugar que estaria l dentro de dois ou trs dias.
Na manh seguinte, Olvia percebeu quando o mensageiro deixou um pacote para Gilberto. Observou que ele o guardou em uma gaveta da escrivaninha no escritrio
Fez seus planos. Saiu, foi ver a passagem para Mi ami, tinha um vo para a noite seguinte e ela comprou a passagem e pagou com cheque. Passou no banco, retirou o 
saldo disponvel, deixando l o dinheiro e o cheque e foi para casa.
Passou a tarde fazendo uma avaliao de suas roupas, decidindo o que levaria. Deixou tudo separado pronto para colocar na mala.
Durante todo o tempo em que o padrasto esteve em casa observou disfaradamente todos os seus passos e viu quando ele deu um envelope volumoso para a me dizendo:
- Aqui est. Pague tudo e no faa mais dvidas.
- Irei amanh  tarde. Cedo tenho hora no mdico. Depois, guardou o pacote em uma das gavetas da cmoda.
Na manh seguinte, quando Olga saiu para ir ao mdico, e padrasto foi para o trabalho, Olvia foi ao quarto da me e apanhou o pacote, abriu, contou, tinha trinta 
mil dlares.
Em seguida, escreveu uma carta para a me dizendo que ia tentar a sorte no exterior e pegara emprestado os trinta mil dlares, que os devolveria assim que pudesse.
No deixou endereo nem disse para que pas iria.
224Depois, apanhou as malas que havia arrumado na noite anterior, chamou um txi e rumou para o aeroporto.
O vo s sairia  noite, mas ela no quis esperar em casa, temendo a reao da me e do padrasto. Estava eufrica, segurando a passagem e o passaporte.
Quando subiu no avio, sentiu que finalmente estava livre daquele pesadelo. Sabia que Gilberto faria tudo para lev-la de volta, mas ela no voltaria, no enquanto 
ele estivesse com Olga.
Sabia que sua me ficaria triste, no entenderia, a acusaria de sem juzo. Porm, tudo isso era melhor do que a verdade que a machucaria muito mais.
Quando o avio decolou, Olvia recordou-se que se esquecera de despedir-se de Mrcio. Voltara a sair com ele algumas vezes, notara que ele estava interessado em 
namor-la. Ela o apreciava. Era um rapaz bonito, agradvel, mas ela no queria namorar ningum por quanto no pretendia permanecer no Brasil.
Quando chegasse a seu destino, ela lhe mandaria uma carta de despedida.
Seu corao batia forte pensando que estava livre para fazer tudo que gostaria e principalmente para viver em paz.
Naquela noite, quando Mrcio ligou para Olvia, a criada falou que ela havia viajado de repente sem dizer para onde, ele ficou muito triste.
Desde que a conhecera, pensava nela o tempo todo. Estava apaixonado. Percebia que Olvia no estava correspondendo como gostaria, mas sentia que ela gostava dele 
e por isso acariciava a esperana de com o tempo faz-la apaixonar-se por ele.
Essa viagem cara sobre ele como uma ducha fria. Ela mostrara-se sua amiga, por que no lhe contara sobre a viagem? Claro que ela fugira de casa por causa do padrasto 
que a maltratava, mas porque no lhe dera o endereo? Sabia que podia confiar nele.
Esse pensamento o irritou muito. Por que para ele tudo dava errado? A nica vez que gostara de fato de uma mulher ela ia embora para longe?
Se ao menos soubesse para onde Olvia havia ido, talvez pudesse pensar futuramente ir at l. Mas para isso precisaria de dinheiro.
Seu emprego no era ruim, ganhava um salrio razovel, porm no dava para tanto.
Marcelo dava generosa mesada aos pais e Mrcio podia ficar com todo o seu salrio, mas depois da morte de Marcelo, coube a ele ajudar nas despesas.
Se ao menos seus pais houvessem ficado com a empresa de Marcelo, certamente no precisaria dispor desse dinheiro, poderia pensar em ir ter com Olvia.
Pensou em pai Jos. Pelo visto ele no era capaz de fazer nada. Mais uma vez sentiu raiva por haver lhe dado o dinheiro. Teria que pagar a tia sem haver conseguido 
nada.
Mas isso no ia ficar assim. Pai Jos prometera, e ele iria cobrar. Pensou em ir ao terreiro naquela mesma noite.
Na hora que comeou o trabalho, Mrcio estava l ao lado do mdium e assim que pai Jos chegou, ele se aproximou:
- Oc di novo aqui, meu filho?
- Sim, pai Jos. Vim saber se tem alguma novidade no meu caso.
O mdium ficou calado, tirou uma baforada do charuto, depois disse:
- A moa que foi simbora vai manda uma carta. Pode espera.
Mrcio estremeceu. Ele no havia dito nada sobre Olvia.
- Tem certeza? - indagou alegre.
- Oc duvida di pai Jos, mai  bo aquerdit. Essa moa  muito boa mai num  pro c.  mi esquece ela.
- S por que ela  rica?
- Num  por isso.  que o distino dela  diferente do seu.
- Eu gosto dela e quero que ela volte para mim.
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Eu posso tenta. Ela pode int vort, mais num fica pra sempre.
Como  que o senhor sabia dela?
Pai Jos sabe di tudo que acuntece com seus fios. Oc veio aqui, to trabaiando pra oc, tenho di sabe di tudo.
O senhor vai conseguir afastar Arete da empresa do meu irmo?
Estou esperando a hora. Oc vai v. Nun carece vir aqui toda hora sabe. Quando acuntece, oc vai v.
- Obrigado, pai Jos. Estarei esperando.
Mrcio deixou o centro insatisfeito. Ele queria Olvia. Ela era tudo que sonhara em uma mulher. No acreditava no que pai Jos havia dito.
Olvia gostava dele e com o tempo isso poderia transformar-se em amor. S precisaria ir at onde ela estava ou fazer com que ela voltasse ao Brasil.
Na manh seguinte, Olvia chegou a Miami, apanhou um txi e foi direto a casa de Mal que a recebeu muito bem.
Era uma jovem alegre, bem humorada e seu sorriso amigo despertou em Olvia muita simpatia.
- Deixe as malas aqui, vou falar com o senhorio que vai mostrar-lhe o apartamento.
Ao entrar no apartamento mobiliado que Mal reservara, Olvia gostou muito. Tinha quarto e sala e uma pequena cozinha em um dos lados.
- Tem garagem tambm - esclareceu Mal. Olvia alugou o apartamento e foi buscar as malas.
- Sente-se, tome um caf comigo. Ainda tenho meia hora antes de ir trabalhar.
- Obrigada por me haver feito esse favor.  a primeira vez que venho a esta cidade, no conheo ningum.
-   um lugar muito bom para se viver. Eu adoro morar aqui.
- Vou arrumar minhas coisas e depois comprar um jornal, procurar trabalho.
- Pela sua conversa com o senhorio, vi que tem um
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ingls muito bom. Por isso penso que no ser difcil arranjar uma colocao. Eu trabalho em uma empresa de publicidade, mas l sei que no h vagas.
- No se preocupe. Tenho tempo para a procurar.
- As acomodaes so modestas, mas eu gosto daqui.
- Voc falou em prdio e eu fazia uma idia de um edifcio igual aos que temos no Brasil. Mas este  diferente. So apartamentos individuais, que mais parecem casas 
de construo graciosa e bonita. Alm de tudo mobiliada com gosto. Penso que ficarei muito bem.
-Aqui a maior parte dos moradores so brasileiros ou cubanos. Voc vai gostar deles. Apesar de no ter famlia aqui, no me sinto sozinha. Vou ajud-la com as malas.
As duas saram com as malas, caminharam pelo jardim, e viram uma moa saindo de um dos apartamentos.
Mal sorriu para ela dizendo:
-Aline, quero apresentar-lhe sua nova vizinha. Acaba de chegar do Brasil.
Aline aproximou-se e Mal fez as apresentaes. Depois dos cumprimentos, Aline disse:
- De onde voc veio?
- De So Paulo.
- Minha famlia mora l, em Santana.
- A minha mora nos jardins.
- Agora preciso ir trabalhar. Quando eu voltar, conversaremos melhor. Seja bem vinda.
- Obrigada. Bom trabalho.
Mal tambm despediu-se para ir trabalhar, Olvia entrou no apartamento, abriu as janelas e comeou a arrumar suas coisas.
Sentia-se livre, alegre, leve. No estava preocupada com a me porquanto ela amava Gilberto, vivia mais para ele e por certo no sentiria tanto sua falta.
Quando o tempo passasse, ela poderia vir visit-la e assim, nunca saberia do verdadeiro motivo que a fizera sair de casa.
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Durante o trajeto para o trabalho, Aline pensou na famlia e sentiu saudade. A presena de Olvia, recm chegada de sua cidade natal, a fizera recordar dos seus.
Era muito bom morar em Miami, sempre desejara IHSO, tinha um bom emprego, ganhava o suficiente para se sustentar em um nvel bom, havia Gino, em quem estava muito 
interessada, mas apesar de todas as vantagens, s vezes sentia-se fora do seu meio, de sua terra, das coisas do seu pas.
Antes ao comparar o Brasil a Miami, via somente as vantagens de viver nos Estados Unidos, e os problemas que havia em seu prprio pas.
Agora, porm, ao fazer a comparao, comeara a perceber a espontaneidade dos brasileiros, menos formais, fazendo amizades com facilidade, um povo que em meio a 
burocracia de um pas menos desenvolvido, exercitava a criatividade, a alegria, fazendo do sorriso e da msica uma vlvula de escape de suas frustraes.
No que ela pensasse em voltar logo a morar no Brasil. Um pouco mais dentro da realidade, vislumbrara a possibilidade de uma carreira que lhe desse realizao profissional.
Se na juventude desejava morar l para sempre, aos poucos fora mudando de idia. Ficaria l durante alguns anos, tempo suficiente para conseguir o que queria.
Ao chegar no escritrio, Aline ligou para Arete para saber da famlia.
-  Est tudo bem
- informou ela satisfeita
- Eu ia mesmo ligar para voc. Rodrigo no est dando conta de fazer os projetos sozinho e est querendo trazer outro arquiteto para ajud-lo. Pediu-me que falasse 
com voc para saber se concorda.
-  Eu no estou a par dos negcios da empresa. O que voc acha?
- Ns estamos progredindo e alm de contratar um auxiliar para pesquisar novos materiais, preos etc. Ele tem recusado novos projetos por falta de tempo.
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Penso que se contratarmos outro arquiteto, poderemos crescer mais. Ele no far parte da sociedade da empresa, ganhar metade dos lucros de cada projeto que fizer.
- Diga a ele que tudo bem. Voc entende mais disso do que eu. O que voc decidir eu assino embaixo. Eu liguei porque estou com saudades de vocs.
- Ns tambm. Mame no se cansa de falar em voc... Fica se perguntando se voc est bem, se est feliz.
Aline hesitou um pouco, depois perguntou:
- Tem tido notcias da famlia de Marcelo?
- Penso que tudo continua na mesma. Tenho visto Mrcio algumas vezes na rua e ele nem me cumprimenta. Acho que me odeia por estar trabalhando aqui.
- Voc est ajudando, ele deveria entender.
- O que eles queriam era que a parte de Marcelo ficasse para eles.
- No fiz nada para herdar isso.  de lei, ns nos casamos com comunho de bens. Pensei que com o tempo eles entendessem o que aconteceu.
- Acho difcil. Voc no deve esperar muito deles.
-   uma pena. Diga a mame e papai que estou bem e mandei um beijo para cada um. Beijo para voc.
- Outro. Ligue sempre que puder.
Arete desligou o telefone e foi ter com Rodrigo na outra sala.
- Aline ligou e nos deu carta branca para contratar quem voc quiser.
- Vou ligar para o Hamilton e formalizar o convite. Estou certo de que ele vir nos ajudar. Depois que se formou, foi para o Rio de Janeiro trabalhar em uma construtora. 
Na semana passada nos encontramos casualmente, ele veio ver a famlia que mora em So Paulo, disse que no est satisfeito com o emprego e gostaria de voltar para 
nossa cidade. Ele foi meu colega de faculdade e  muito bom no que faz.
- Ento no perca tempo. Fale com ele.
Arete foi para sua sala e pouco depois Rodrigo foi ter com ela:
-  Hamilton adorou a idia. Vir hoje mesmo para conversarmos.
- Nesse caso talvez possamos aceitar aquele projeto que voc ficou muito interessado, mas no pde aceitar.
- Vamos ver. Isso pode dar certo.
Uma hora depois, Hamilton chegou procurando por Rodrigo. Era um rapaz moreno, alto, elegante, cabelos crespos, olhos castanhos e brilhantes. Apesar de ter trinta 
e seis anos, talvez pelo brilho dos olhos, dos cabelos revoltos, parecia mais jovem.
Arete atendeu-o, ele apresentou-se:
- Sou Hamilton, Rodrigo est me esperando. Arete convidou-o a acompanh-la at a sala de Rodrigo
que, vendo-o, levantou-se para abra-lo com prazer.
Depois deixou a sala para pedir a copeira para fazer um caf e verificar se ele desejava mais alguma coisa.
Quando ela voltou  sala acompanhando a copeira com o caf, Rodrigo chamou-a:
- Quero que voc conhea melhor o Hamilton. Arete  irm da viva de Marcelo que est residindo em Miami. Eu j lhe falei sobre o acidente que o vitimou.
- J. Como vai?
- Vou bem. Seja bem-vindo.
Ele fixou os olhos em Arete e respondeu:
- Obrigado. Ainda bem que voc  uma pessoa prtica e no se deixou envolver pelas pessoas a sua volta.
Foi Rodrigo quem respondeu:
- De fato. Arete sabe lidar com as emoes e no entra no que os outros dizem.
- Essa  uma rara qualidade. Muitas pessoas preferem dramatizar os fatos o que provoca sempre mais sofrimento.
- Se eu fosse me deixar levar pela famlia de Marcelo, teria me desequilibrado. Voc aceita um biscoito, uma gua?
- Obrigado. S o caf.
Arete deixou a sala e Rodrigo comentou:
- Rapaz, como  que voc bateu os olhos nela e viu como ela ?
Hamilton sorriu:
-  que eu sou observador. Alis, gosto de estudar as pessoas, saber como agem.
- Arete veio na hora certa. Enquanto Marcelo era vivo, eu no me aproximei muito da famlia dele. Depois que ele morreu fiquei meio rfo. Era ele quem cuidava 
da parte administrativa, sabe como , contratos, bancos etc. Eu nunca tive jeito para essas coisas. Arete apareceu e se ofereceu para me ajudar. Eu sabia que ela 
era uma executiva muito eficiente, Marcelo falava isso, ento entreguei tudo em suas mos e no me arrependo. Ela  tima. Sou-lhe muito grato.
- Ela tem padro alto?
- Muito mais do que eu preciso aqui. Nossa empresa  pequena, mas desde que ela veio, atende os clientes, defende meus projetos, discute contratos com uma segurana 
que me deixa muito  vontade. Alm do que se contenta com a diviso de lucros, recebe a parte que caberia a irm. Ofereci-lhe um salrio de acordo com nossas possibilidades, 
mas ela recusou dizendo que a irm deseja que ela fique com a parte dela.
- Nota-se que ela est fazendo isso para ajudar a irm.
-  ... Tenho observado que a famlia de Arete  muito unida. Quando Marcelo era vivo, eu os conhecia superficialmente, depois que ele morreu ento, procurei me 
afastar deles por causa do desentendimento com os pais de Marcelo que culpam Aline pelo acidente. Eu j lhe contei isso.
- Voc ficou no meio da briga deles.
- Fiquei. A situao piorou quando Arete veio trabalhar aqui. Eles no acharam justo Aline herdar os bens, mas ela tinha direito e eles no puderam fazer nada. 
Na situao que eu estava, no podia recusar a oferta de Arete, mesmo porque foi um arranjo muito conveniente para mim.
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-Voc fez bem.
- , mas os pais de Marcelo e at o irmo, nem me cumprimentam mais. No estou contente com isso, mas no pude fazer nada. Eles nem querem ouvir as minhas razes. 
Eu pretendia ficar neutro, mas no consegui.
- Por qu?
-Arete caiu da escada e quebrou a perna, precisei socorr-la, tomei todas as providncias, e todos os dias levava os papis da empresa porque ela queria trabalhar 
mesmo em casa. Ento descobri a famlia maravilhosa que ela tem.
- A vida sabe mostrar a verdade quando  preciso.
- De fato, como vivo sozinho na cidade, acabei encontrando neles um carinho do qual eu estava saudoso.
- Arete  uma mulher muito bonita.
- Bonita e inteligente, o que  raro as duas coisas juntas. Eles riram e Rodrigo comeou a fazer a proposta
de trabalho, meia hora depois, ele chamou Arete para anotar os dados do contrato.
Depois dela anotar tudo disse sorrindo:
- Agora  hora de comemorar. Vamos brindar pelo sucesso da nossa empresa.
Em seguida chamou a copeira que entrou trazendo uma bandeja com taas e uma garrafa de champanhe e alguns salgadinhos.
Rodrigo abriu, serviu e levantou a taa dizendo:
- Ao progresso de todos ns.
Eles tocaram as taas e beberam satisfeitos. Depois, Hamilton ficou de comear a trabalhar na manh seguinte.
233
XIX

s oito horas, Cora foi  procura de Marcelo conforme o combinado. Entrou e foi encontr-lo cabea baixa, pensativo, triste. Aproximou-se sorrindo:
- Vim busc-lo. Ainda no est pronto?
- Desculpe, Cora. Mas eu no vou.
- Nada disso. Esse ar de vtima que adotou no lhe cai bem. Reaja. Vamos. Arrume-se. Deixei uma roupa linda em seu armrio.
Cora puxou-o pelo brao e Marcelo levantou-se indeciso.
- Vamos, rpido. No gosto de chegar atrasada. Depressa.
Ela arrastou-o para o quarto e em poucos instantes ele estava pronto. Sem dar-lhe tempo para pensar, Cora passou o brao no dele e saram.
A noite estava estrelada e o perfume das flores no jardim estava delicioso.
- Que lindo
- tornou Cora aspirando o ar
- que gostoso. Est sentindo?
- Estou.
- Sorria. Ningum pode ficar triste em um lugar abenoado e lindo como este. Esquea suas dores, seus
23!o
problemas. Vamos a uma festa. Amanh voc pode voltar a eles se preferir.
-  Do jeito que voc fala parece que eu gosto de viver triste.
- Se voc gosta eu no sei, mas que est viciado a olhar tudo atravs da tristeza, isso est.
-  Se voc tivesse passado o que eu passei no diria isso.
Ela riu bem humorada:
- Saia do "pobre de mim" onde est sua fora, sua coragem? Por que apaga sua luz dessa forma? Voc continua vivo, o acidente que o vitimou foi apenas uma viagem. 
Voc continua jovem, bonito, de posse de todas as suas faculdades. Do que se queixa? Devia envergonhar-se disso.
Ele parou surpreendido. As palavras dela ativaram seu orgulho e ele respondeu:
- Eu no sou um fraco. Eu posso reagir.
- Ento reaja. Agora  a hora. Chegamos na festa e voc vai entrar comigo, de cara alegre e com disposio para esquecer todo passado e se divertir.
Ela tinha razo, pensou ele. Naquele momento de nada adiantaria ficar pensando no que aconteceu. Estava cansado. Queria descansar. Esquecer todo sofrimento e desfrutar 
um pouco de alegria.
Sorriu, ofereceu o brao a Cora e disse:
- Eu sempre fui um rapaz alegre. Voc vai ver como eu sou capaz de me divertir.
Eles entraram no salo decorado com flores frescas que espargiam seu delicado perfume no ambiente. Marcelo olhou surpreendido:
- Eu nunca vim aqui.  muito bonito.
-  E agradvel. Cuidado com seus pensamentos enquanto estivermos neste salo. Se permitir qualquer pensamento negativo, ser impulsionado a sair mesmo que no queira.
- O salo est lotado. Como conseguem controlar todas essas pessoas?
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- H dispositivos de controle energtico especiais, este lugar trabalha o positivismo dos freqentadores.
Por isso voc me trouxe aqui.
Cora riu e havia um brilho malicioso em seus olhos quando respondeu:
- No foi apenas por isso. Vamos dar uma volta, vou apresent-lo a alguns amigos.
Nas mesas as pessoas conversavam alegres, uma orquestra tocava uma valsa vienense e muitos casais rodopiavam no centro do salo.
Eles foram andando ao redor, Cora parou diante de uma mesa e apresentou Marcelo. Eram pessoas simpticas, a conversa fluiu fcil.
Marcelo teve sua ateno voltada para a mesa vizinha. Sentada em meio a dois casais estava uma moa muito parecida com Mirela.
Seria ela? Talvez no. A Mirela enfermeira que ele conhecera aparentava ser mais velha. Essa alm de mais nova estava ricamente vestida e muito elegante. Marcelo 
sentiu-se atrado por ela e sem desviar os olhos foi a sua frente e perguntou:
-  voc, Mirela? Ela levantou-se:
- Sou. Como vai, Renato?
-  Meu nome  Marcelo, voc sempre me chama de Renato.
- Ainda no me habituei com outro nome.
- Voc est diferente. Mais jovem, mais bonita.
-  que agora recuperei um pouco mais de equilbrio. Marcelo lanou o olhar para Cora e vendo que continuava conversando animada com os amigos convidou:
- Quer danar?
Ela concordou e logo estavam rodopiando pelo salo. Marcelo a apertava nos braos e sentia um prazer muito grande com essa proximidade.
Sentia que a emoo ia tomando conta e de repente era como se estivessem em um salo de um palcio onde
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ele estava em meio a alguns msicos cantando enquanto ela danava com outros e ele no a perdia de vista.
De repente ele se deu conta que era ela, que estava agora em seus braos, com o rosto muito prximo ao seu.
Sentiu vontade de beij-la e notou que ela tambm estava muito emocionada.
- Vamos dar uma volta no jardim. Precisamos conversar. Segurando-a pela mo, caminhou at o jardim, e
conduziu-a a um caramanchao florido ao lado e uma vez l, abraou-a e beijou-a nos lbios demoradamente. Ento sentiu seu peito encher-se de uma alegria como nunca 
se lembrava de haver sentido.
- Eu amo voc - disse apertando-a de encontro ao peito.
Naquele momento havia esquecido completamente de Aline.
- H muito tempo tenho esperado por este momento. Nos ltimos tempos cheguei a temer que houvesse deixado de me amar.
- Eu ainda estou confuso. Sinto por voc um amor muito grande, mas no sei explicar o porqu.
- No precisa explicar nada. Para mim basta saber que voc ainda me ama como antigamente.
-  Eu sinto como se tivesse vivido momentos de extrema angstia dos quais agora estou me libertando.
- Ns vivemos um grande amor e a vida nos separou para nos ensinar o que precisvamos aprender. Hoje, mais amadurecida, reconheo que aprendi muito durante o tempo 
em que ficamos separados.
- Eu sinto que voc diz a verdade. Por que no consigo me recordar de tudo?
- Venha, Renato, sente-se a meu lado. Vou contar-lhe tudo com detalhes novamente. Estou certa de que isso ir ajud-lo.
Sentaram-se no banco, Mirela segurou a mo dele e comeou a falar. Contou tudo desde o comeo, at a
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morte de seu marido, a vingana que ele ajudado por Mimo lhes imps.
Enquanto ela falava, Marcelo ia se recordando de tudo, e aos poucos sua aparncia foi mudando. Quando ela parou, olhou-o emocionada abraando-o:
- Renato! Voc se lembrou! Voltou a ser como era antes.
Ele enlaou-a e beijou-a apaixonadamente vrias vezes. Depois, quando a emoo se acalmou, Mirela disse:
- H uma coisa que quero lhe contar. Quando cheguei aqui, estava intrigada pela sua obsesso por Aline. Temia que seu amor por ela houvesse substitudo o que sentia 
por mim e tudo estivesse terminado entre ns. Confesso que senti cime dessa mulher que roubara seu amor.
Ela fez ligeira pausa e vendo que ele a ouvia com ateno continuou:
- Tive a curiosidade de conhec-la, consegui ir v-la e ao aproximar-me fui tomada de grande emoo. Reconheci nela o esprito de Giuiiana, minha filha com Giulio.
Nessa hora Marcelo levantou-se assustado:
- No pode ser! Eu sentia por Giuiiana um amor de pai.
- Eu sei e por isso lhe fazia todas as vontades, como quando estvamos juntos. Soube tambm que Marcos nasceu como seu irmo Mrcio.
- Por isso eu cuidava dele como se fosse um filho. Meu Deus! Eu no sabia de nada.
- Era preciso que fosse assim.
Eles ficaram conversando, esclarecendo todas as dvidas e Marcelo agora se sentia mais seguro, mais forte. Recordando o passado, tudo fazia sentido, se encaixava 
e ele mudou com naturalidade seu modo de ver, de sentir.
Aquela insatisfao, aquela necessidade de ficar perto de Aline desaparecera por completo.
- Vamos procurar Cora. Foi ela quem insistiu para que eu viesse aqui. Quero agradecer-lhe.
- Eu tambm tenho muito o que agradecer a essa amiga querida.
Os dois, de mos dadas, deixaram o caramancho e foram para o salo. Vendo-os se aproximar, transformados, radiantes, Cora entendeu logo o que havia acontecido.
Levantou-se e foi abra-los:
- Que bom v-los to bem!
Marcelo retribuiu o abrao dizendo comovido:
- Obrigado por tudo que fez por mim. Eu estava no inferno e agora estou no paraso.
Mirela interveio:
- Eu lhe contei a respeito de Giuliana.
- Eu nunca poderia imaginar a verdade. Cora meneou a cabea sorrindo e respondeu:
- Pois eu penso que sua obsesso de querer ficar ao lado dela, mesmo sabendo que ela preferia seguir outro caminho, era o desejo inconsciente de rever Mirela atravs 
de Giuliana.
- Eu no sabia que ela era Giuliana reencarnada. Alis, eu nem acreditava em reencarnao.
- Voc no se lembrava, mas seu esprito sabia porquanto todos os acontecimentos dessa sua vida passada estavam l todo o tempo influenciando suas decises.
- Ele a tratava como marido, da mesma forma que quanto teve para com ela carinhos de pai
- tornou Mirela.
- E,
- continuou Cora
- Aline tinha para com voc um amor filial. Por isso no titubeou em deix-lo para seguir outro caminho. Os filhos costumam fazer isso quando esto adultos.
- De fato,
- disse Marcelo
- tudo agora ficou claro. Mas antes eu confundia os sentimentos e isso me martirizava. A verdade restabeleceu meu equilbrio, eu penso que estou preparado para seguir 
meu caminho. S espero que possa viver ao lado de Mirela.
- Vocs esto no mesmo nvel espiritual. Acredito
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que tenham a chance de ficar juntos enquanto assim o quiserem. Em todo caso, no sou eu quem decide.
Mirela segurou a mo de Marcelo dizendo alegre:
- Tenho muitos projetos de progresso que desejo poder realizar, mas em todos eles voc est do meu lado.
- Seria muito cruel separar-me de voc agora.
-  Primeiro vamos ver se conseguimos programar nosso futuro juntos, depois sonho em poder auxiliar Mrcio, meu filho querido. Ele tem pontos fracos que precisa vencer 
para amadurecer. Quanto a Aline, ela  mais lcida, sabe o que quer e estou certa que vai saber cuidar de si muito bem.
- Eu tambm me preocupo com Mrcio. Ele sempre teve dificuldade de resolver seus desafios. Enquanto estive do seu lado, como irmo mais velho, procurei proteg-lo. 
No sei como estar agora j que no pude mais estar do lado dele.
- Foi bom para ele perder a muleta que voc sempre lhe ofereceu
- comentou Cora
- Acontece que Joo, seu pai,  muito fechado, sem comunicao com os filhos. Porm, o problema maior  Ivone que est sempre vendo mal em tudo. Desconfia das pessoas, 
pensa que todos esto querendo ludibri-la. Assim, est sempre muito negativa e atrai pessoas perturbadas, tanto encarnadas ou desencarnadas.
-  verdade, minha me pensava que ter medo de tudo era se proteger, evitar que o mal acontecesse.
- Mas acontece exatamente o contrrio
- tornou Cora
- Quando ela teme, est demonstrando sua crena no mal e isso  que atrai o mal. Semelhante atrai semelhante.
- Ela no sabe dessas coisas. Eu gostaria muito de poder ajud-la. Apesar disso, foi uma me dedicada que cuidou de mim com muito carinho.
- Eu sei. E isso  um ponto a favor dela. Mas enquanto Ivone no modificar essa crena de que h perigo em tudo, alimentar o medo, ela no vai poder viver em paz, 
nem ser feliz.

Marcelo sentiu uma onda de tristeza, mas Mirela interveio:
-  No podemos nos preocupar. O importante  melhorarmos nossas condies, pedirmos orientao aos especialistas, aprendermos como fazer uma ajuda efetiva e depois, 
procurarmos ajud-los. Eu acredito que esse  o caminho.
Cora bateu palmas alegre:
- Muito bem, Mirela! Isso mesmo. Contem comigo. O que eu puder fazer para ajudar farei com prazer. Eu tenho um amigo do qual gosto muito que est me esperando para 
danar. H pouco tocaram um tango argentino e vocs precisavam ver os casais danando. Por que no vamos aproveitar a festa?
Mirela passou o brao pelo de Marcelo dizendo contente:
- Isso mesmo. Vamos comemorar nossa alegria nos envolvendo na msica.
- Vamos - concordou Marcelo feliz.
Em poucos instantes estavam no salo onde os casais danavam ao som de um bolero e os dois comearam a danar sentindo o romantismo da msica que expressava bem 
o amor que os unia.
Na tarde seguinte, Mirela pediu que seu orientador espiritual os recebesse. Na hora que ele marcou, os dois foram introduzidos em sua sala.
Srgio era um rapaz loiro, alto, magro, cabelos crespos, olhos claros, aparentando uns trinta anos, vestindo uma camisa colorida, cala cinza.
A primeira impresso de Marcelo foi que ele era jovem demais para ser conselheiro, porm, ao se aproximar, quando seus olhos se encontraram, ele sentiu tal emoo 
que esqueceu sua primeira impresso.
Os olhos de Srgio, de um verde esmeralda, emitia uma energia viva que penetrava seus interlocutores como um raio devassador.
Marcelo teve certeza de que apenas com esse olhar ele havia devassado todo seu interior e sentiu-se um pouco embaraado.
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- Sentem-se
- pediu ele.
Eles obedeceram e Mirela apresentou:
- Este  o Renato. Voc j conhece toda minha histria.
- Fique a vontade, Renato. Em que posso ajud-los?
Mirela exps o desejo deles viverem juntos e a vontade de progredir, estudar e quando fosse possvel ajudar as pessoas queridas que ficaram na carne.
Ele ouviu em silncio e depois perguntou a Marcelo:
- Como vocs pensam fazer isso?
- Eu gostaria de poder ficar ao lado deles, inspirando pensamentos bons. Sei que todos tm um lado melhor e  isso que desejo faz-los sentir
- disse Marcelo.
-  Eu faria a mesma coisa com Mrcio e poderia transmitir-lhes energias regenerativas
- ajuntou Mirela.
-  No momento no seria bom irem ficar ao lado deles na crosta. O astral por l anda muito carregado, h muita violncia, dios, revolta, guerras e vocs ainda no 
sabem estar imunes a essas energias.
- Eu gostaria muito de ajud-los!
- comentou Marcelo um tanto decepcionado.
- Vocs no precisam ir at l para fazerem o que desejam. Podem fazer isso  distncia. A ajuda s funciona quando o doador est bem.
- Como assim?
- indagou Mirela.
-Vocs precisam de um tempo de convivncia para rever seu relacionamento.
- Ns nos amamos h muito tempo!
- lembrou Marcelo.
- Mas estiveram distanciados, vivendo outras experincias. Durante esse tempo, vocs mudaram. Precisam avaliar se realmente desejam continuar juntos.
-  o que mais quero agora. Esperei por isso durante muitos anos. Meu amor continua o mesmo
- tornou Mirela.
- Eu tambm sinto isso.
- timo. Mas a convivncia sempre  reveladora. Portanto, vou conseguir um lugar para que vocs possam morar e um trabalho que vo precisar fazer como cooperao 
conforme as normas da nossa cidade. Mas
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ao mesmo tempo, indicarei o curso de magnetizao. onde aprendero a ajudar as pessoas que desejarem, mesmo  distncia.
Ele levantou-se e Marcelo tornou:
- Obrigado pela ajuda.
Srgio chamou uma assistente e pediu-lhe que encaminhasse os dois para o curso indicado.
- Meu nome  ngela. Queiram acompanhar-me.
Eles obedeceram e inscreveram-se no curso recebendo instrues para comear no dia seguinte. Depois ngela disse sorrindo:
- Srgio deu-me instrues para lev-los  casa que vocs devero morar.
Mirela trocou com Marcelo um olhar satisfeito e de mos dadas acompanharam ngela, caminhando pelos jardins floridos at chegarem em uma rua onde havia algumas casas 
pequenas, mas graciosas, rodeadas de jardins. Embora fossem todas trreas, uma era diferente da outra.
Emocionados eles entraram e j  primeira vista, adoraram o lugar. Mirela estava feliz como h muito no se sentia e Marcelo parecia estar sonhando.
- Vocs podem se mudar hoje mesmo se desejarem
- esclareceu ngela.
-  o que faremos
- respondeu Marcelo satisfeito. Eles saram, foram arrumar seus pertences e uma
hora depois, voltaram  nova residncia.
Assim que se viram sozinhos, Marcelo abraou Mirela dizendo sorrindo:
- Me belisque para eu sentir que isto  verdade. Parece que estou sonhando e que vou acordar de repente vivendo aquele pesadelo que foi minha vida nos ltimos tempos.
- No  preciso, Renato. Esta  a verdadeira vida, e estamos juntos de novo. Desta vez  para sempre.
-  Sim. Estamos juntos e nunca mais a deixarei. Nunca poderia imaginar que a vida continuaria depois
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Que deixei meu corpo morto naquele acidente. Mas essa  a verdade da vida! Ah se as pessoas soubessem disso quando ainda esto no mundo! Fariam tudo diferente. Um 
dia isso ainda acontecer. Por agora, precisamos ter pacincia e esperar.
Mirela abriu a janela e Marcelo a abraou e ficaram olhando o jardim florido l fora.
- Posso lhe fazer um pedido?
- disse Marcelo.
- Fale.
- Prefiro que me chame de Marcelo. Gosto mais desse nome.
- Est bem, Marcelo. O nome no importa. O que ou quero  ficar com voc.
Ele beijou-a nos lbios com amor e abraados continuaram olhando as flores l fora, olhos brilhantes de ternura.
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XX

Aline levantou e se preparou para mais um dia de trabalho. Estava pronta quando a campainha tocou e ela foi abrir.
- Entre, Olvia. Estou pronta. J tomou caf?
- J. No quero chegar atrasada.
Fazia seis meses que Olvia chegara a Miami e desde ento tornara-se muito amiga de Aline e Rachel. Tanto que esta ltima havia lhe arranjado um emprego na mesma 
empresa em que as duas trabalhavam.
Como Aline estava sempre em companhia de Gino, e o romance entre eles continuava firme, estavam mais apaixonados a cada dia, Rachel encontrara em Olvia a companheira 
para os passeios que antes fazia com Aline.
De vez em quando, Aline e Gino programavam algum passeio com as duas, mas eles gostavam de viajar nos fins de semana para outras cidades o que ficava difcil para 
Rachel, por causa de John, que sempre gostava de praticar esporte e ela o acompanhava.
Com a amizade que as unia, Olvia havia contado s duas amigas a razo pela qual fugira da casa materna.
Quinze dias depois de sua chegada a Miami, Olvia havia telefonado para sua me que estava muito zangada por ela haver sado sem lhe dizer nada.

-  Eu sempre ouvi tudo que voc tinha para me dizer. No precisava ter fugido de casa dessa forma e ter me deixado to angustiada. Voc foi ingrata. Nunca esperei 
que fizesse isso comigo.
- Eu sei, me, mas se eu dissesse que queria vir para c, voc no ia deixar.
- Gilberto est inconsolvel! Nunca pensei que ele gostasse tanto de voc! Ficou abatido, quase adoeceu. Custou para se conformar. Queria ir  polcia, procurar 
voc, traz-la de volta. Se fosse seu pai de verdade no seria to preocupado.
- Eu imagino como ele ficou! Por isso eu no disse nada. H muito desejava ser independente.
- Voc est com algum, algum rapaz?
- No, me. Eu vim para trabalhar, aprender a cuidar de mim.
-  E a faculdade? Gilberto foi l, soube que voc trancou a matrcula. Ele quer que voc volte.
- Nem pense nisso. Amanh vou comear a trabalhar em uma empresa e pretendo continuar estudando aqui. Estou ligando para dizer que estou bem.
- Onde voc est?
- Vou lhe dizer, mas no quero que d meu endereo a Gilberto.
- Por qu? Ele  quem est mais preocupado.
- Por isso mesmo. Vai querer vir aqui, me buscar. Eu no quero ir. E se ele insistir, vamos acabar brigando. Estou muito bem. Moro em um lugar lindo, tenho tudo 
que preciso, tenho uma vizinha brasileira, da minha idade e uma amiga americana que arranjou meu emprego. No preciso de nada.
- No tem saudades de casa?
- Tenho saudades de voc, mas do resto no.
- Vou anotar seu endereo.
- Olha, estou em Miami e vou dar-lhe apenas o telefone. Se eu souber que Gilberto est vindo atrs de mim,
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vou embora desta cidade. Por isso, peo-lhe, no o deixe atrapalhar minha vida.
- Ele nunca atrapalhou sua vida. Voc est sendo muito Ingrata. Mas eu no quero lhe causar nenhum problema.
Olvia deu o telefone e desligou. Depois disso, de vez em quando sua me ligava e conversavam.
Durante o trajeto para a empresa, elas trocavam idias sobre trabalho. Olvia estava satisfeita com o emprego, embora ela houvesse comeado em uma funo simples 
de ajudante administrativa, o salrio era suficiente para suas despesas e havia grande possibilidade de progredir.
Entusiasmada e orientada por Rachel, ela esforava-se para aprender sempre mais.
Chegaram dentro do horrio e cada uma assumiu seu lugar comeando a trabalhar. No fim da tarde, Olvia foi chamada pelo diretor de sua rea que lhe comunicou que 
ela havia sido promovida  secretria de uma das executivas.
Depois dos cumprimentos, ela foi conduzida  ante-sala da sua nova chefe e descobriu que seu salrio havia sido duplicado e ela teria outras regalias relativas a 
sua funo.
Poderia ter um carro financiado pela empresa e gratificaes peridicas.
No fim do expediente, ao reunir-se com as duas amigas como de hbito, contou-lhes a novidade.
- Isso no pode ficar assim
- comentou Aline
- precisamos comemorar.
- Concordo
- aduziu Rachel
- Vamos ao bar do hall nos reunir. Vou buscar John e levar para Beth e irei ao encontro de vocs.
- Eu vou ligar para Gino nos encontrar l.
Olvia estava radiante. Pela primeira vez sentia o prazer da vitria. Ela conquistara a promoo pelo seu prprio esforo e pela sua capacidade. Era uma vitria 
modesta, mas ela sabia que tinha condies de conquistar mais.
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A conscincia da prpria capacidade fez com que ela olhasse o futuro com prazer e confiasse em dias melhores.
Passava das dez quando Olvia chegou em casa depois das comemoraes. Havia sido apresentada a alguns amigos da Rachel que ela no conhecia, estava alegre e feliz.
Lembrou-se de ligar para a me e contar a novidade. Pelo horrio, sabia que ela atenderia.
A criada atendeu e pouco depois Olga estava no telefone. Olvia contou-lhe sua promoo e como estava feliz por estar progredindo.
Ao que Olga respondeu um pouco triste:
- Voc est feliz por ser promovida a uma simples secretria. Por que no volta para casa? Voc no precisa disso para viver. Aqui tem tudo que desejar.
- Voc nunca precisou trabalhar para se sustentar e no pode saber o prazer que  ser independente, auto-suficiente. Lamento que seja apenas isso que voc tenha 
para me dizer.
- No estou depreciando seu progresso. Mas quando penso que voc  uma moa rica, que poderia estar usufruindo de uma vida de luxo, est trabalhando para estranhos, 
vivendo em um pequeno flat, a troco de um salrio que acredito insignificante, sinto-me triste.
- Mas estou feliz. E isso no tem preo.
- Quer dizer que aqui voc era infeliz?
- No quis dizer isso, mas eu gosto de ser til, de testar minha capacidade, de saber que posso me sustentar. Voc nem imagina como  bom trabalhar, ter dignidade, 
gastar um dinheiro que voc conseguiu por seu prprio mrito.  uma realizao.
- Voc est feliz e isso me conforta. Mas saiba que quando se cansar disso tudo, seu lugar est aqui, como sempre esteve. Volte quando quiser e ser recebida de 
braos abertos.
- Obrigada, me. Eu sei disso.
Olvia despediu-se e Olga desligou o telefone. Gilberto que ouvira parte da conversa tornou:
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- Era Olvia. Ela no quer voltar.
-  Era. Ela disse que est feliz, foi promovida no emprego. Imagine s, trabalha como secretria.
- Acho que essa menina no est boa da cabea. Penso que deveramos ir at l para conversar, tentar faz-la entender que deve voltar para casa.
- No. Isso no. Quando ela voltar, ter que ser por vontade prpria. Ns tambm temos nosso orgulho. Afinal, ela foi embora porque quis e deixa entender que no 
era feliz ao nosso lado. Um dia ela vai acordar e sentir que seu lugar  aqui, ao lado das pessoas que mais a amam no mundo: Eu e voc.
- E se ela no quiser mais voltar?
- No creio. Ela est brincando de ser independente. Um dia ela vai se cansar e voltar para casa. Voc vai ver.
Ele no respondeu, mas sentia-se triste e preocupado. No suportava mais as saudades de Olvia. Sua presena dava luz a aquela casa. Sem ela tudo ficava sem cor. 
Mas no se atreveu a dizer mais nada.
Fazia seis meses que Hamilton estava trabalhando com Rodrigo e tudo estava indo muito bem. Os dois continuavam amigos como quando haviam sido colegas na faculdade 
e trabalhavam juntos com prazer e entusiasmo.
Arete desde que Hamilton chegara, sentira-se atrada por ele e a cada dia mais crescia essa atrao que ela fazia tudo para esconder.
Hamilton havia sido noivo durante dois anos, quando desejou se casar, descobriu que ela era apaixonada por um antigo namorado. Romperam o noivado e ele, desiludido, 
no queria prender-se a ningum, com medo de sofrer de novo.
Por isso, seu relacionamento com as mulheres eram superficiais, companhias para fins de semana, ou encontros eventuais sem nenhum compromisso.
Ele notara nos olhos de Arete um brilho maior, e um interesse novo, porm, embora a achasse atraente no desejava misturar as coisas porquanto preservava
muito seu trabalho, estava satisfeito e no queria que nada atrapalhasse.
Naquela tarde, Arete entrou na sala em que os dois estavam trabalhando, aproximou-se sorrindo:
- Tenho uma tima notcia. Aquele grande projeto que vocs fizeram juntos acaba de ser aprovado.
Os dois gritaram quase ao mesmo tempo:
- Que maravilha!
- timo!
Arete fez um ar de mistrio:
- E tem mais!
- O qu?
- indagou Rodrigo.
-  Eles desejam contrat-los para a construo. O Doutor Mendes ligou pessoalmente e quer agendar uma reunio com vocs para discutir o assunto. Alegou que nosso 
projeto retratou o que eles desejavam e foi alm, de modo que eles acreditam que s ns somos capazes de realiz-lo do jeitinho que est. No desejam mudar nada.
Rodrigo olhou Hamilton indeciso:
- No sei... Geralmente ns acompanhamos a execuo mas nunca assumimos uma construo desse porte. No sei se teremos condies para isso.
Arete interveio:
- Por que no? Vai dar trabalho, teremos que contratar pessoas, mas estou certa de que poderemos fazer isso tambm. Nossa empresa est crescendo.
-  tentador
- disse Hamilton
- Sei que uma construtora  muito rentvel. Vamos marcar essa reunio, ouvir o que eles tm a dizer e principalmente, se vai valer a pena o esforo.
- Eu tenho acompanhado a execuo dos nossos projetos, feito clculos de lucros, e estou certa de que eles so compensadores.
-Voc tem feito isso?
- indagou Rodrigo admirado.
- Tenho. Eu precisava discutir nossos preos com os clientes, e essa informao facilitava nossa discusso.
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- Agora eu sei porque Rodrigo deixava essa questo a seu critrio.
- No sei... -tornou Rodrigo -  muita responsabilidade.
- Contrataremos engenheiro, mo de obra especializada. Num projeto desses no se pode economizar sem perder a qualidade.  exatamente por isso que Doutor Mendes 
quer nos contratar.
-  Acho que no perderemos nada indo a essa reunio - sugeriu Hamilton.
- Est certo. Marque a reunio para daqui a duas semanas. Enquanto isso, voc vai pesquisando, fazendo clculos para que possamos avaliar a proposta que ele quer 
nos fazer.
-  Eu os convido para jantar esta noite. Precisamos comemorar.
-  Infelizmente esta noite tenho um compromisso. Mas se deixarem para amanh, irei com vocs
- respondeu Arete.
Hamilton olhou-a surpreendido. No esperava essa resposta.
- Nesse caso, fica para amanh - decidiu Rodrigo.
-  Fica para amanh
- concordou Hamilton
- mas ento quero que seja em grande gala. Vou lev-los a um lugar maravilhoso.
Arete deixou a sala satisfeita. Ela no tinha nenhum compromisso, mas disse isso para ver a reao de Hamilton. Ela sempre fora cortejada, mas nunca se interessara 
de verdade por ningum.
Se desejasse poderia sair todas as noites com algum, mas quando fazia isso para se distrair, alguns ficavam em volta com insistncia e nos ltimos tempos ela decidira 
s aceitar um convite quando estivesse realmente interessada.
Na noite seguinte, Hamilton ficara de ir busc-la em casa s oito e de irem ao encontro de Rodrigo no local combinado.
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Arete arrumou-se com capricho, vestiu um vestido longo verde musgo que lhe modelava o corpo, deixando seus ombros nus e um decote em "v" que alm de deixar seu 
colo perfeito  mostra, era muito elegante.
Ela colocou perfume e olhou-se no espelho, satisfeita. Seus cabelos castanhos ligeiramente ondulados, soltos sobre os ombros, seus grandes olhos castanhos, sua boca 
carnuda e bem feita, ressaltavam sua beleza e sua classe.
Vendo-a descer, Dalva no se conteve:
- Arete, como voc est linda!
- Hamilton vai nos levar a um lugar para comemorar.
- Voc deveria sair mais. Faz tempo que eu no a vejo to bem arrumada.
A campainha tocou e Arete disse:
- Deve ser ele. Boa noite, me.
- Divirta-se, minha filha.
Ela abriu a porta e o olhar de admirao de Hamilton a deixou de bom humor e disposta a aproveitar aqueles momentos.
- Boa noite, Hamilton.
- Boa noite.
Ele continuava olhando-a parado, sem dizer nada. Notando seu estupor ela perguntou:
- Vamos?
Ele pareceu acordar e respondeu:
- Claro. Desculpe.
Ela sorriu e ele abriu a porta do carro para que ela entrasse. Os olhos de Arete brilhavam de prazer notando o embarao dele.
- Voc foi pontual
- comentou sorrindo.
- Eu no gosto de deixar ningum me esperando.
- Essa  uma qualidade que eu admiro.
- O que mais voc admira nas pessoas?
- Inteligncia, bom humor, elegncia, discrio, alegria. Rodrigo vai conosco?
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 No, combinamos nos encontrar l. Ele ligou o carro e saram.
- Voc est diferente esta noite
- disse e!e lanando lhe um olhar curioso.
- Voc disse que a comemorao ia ser de gala e ou procurei estar  altura.
- Se eu soubesse disso teria vestido um smoking.
- Esse seu terno azul marinho est muito elegante.
- Ainda bem que voc pensa assim.
Eles foram conversando sobre assuntos diversos at o restaurante onde deveriam jantar.
O lugar era muito bonito e elegante. No salo as mesas dispostas em semi-crculo, no meio a pista de danas e na frente ficavam os msicos.
Os arranjos eram artsticos e de muito bom gosto e a msica popular, muito boa.
Hamilton apresentou-se e o recepcionista levou-os a mesa que ele reservara. Depois de acomodar Arete, ele sentou-se.
O garom aproximou-se e ele perguntou a Arete:
- Voc toma alguma coisa?
Ela pediu um aperitivo, ele tambm.
- Rodrigo continua o mesmo
- comentou sorrindo
- desde os tempos de faculdade ele nunca chega no horrio.
- Eu j descobri isso. Mas as qualidades dele superam de muito essa falha.
Hamilton olhou-a e pensou: "Ser que Rodrigo j se interessou por ela? Afinal, tanto tempo ao lado de uma mulher to atraente". E perguntou:
- Voc o aprecia muito no ?
- Sim. No incio eu no o conhecia bem, mas com o tempo, principalmente quando ca da escada, machuquei-me, ele se aproximou mais de meus pais e todos aprendemos 
a gostar muito dele.
- Voc quebrou a perna, no foi?
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-  Sim e luxei o brao. Foi um tempo meio ruim. Rodrigo tambm no passou muito bem. Tinha dores de cabea, mal estar.
- Vai ver que vocs captaram energias negativas.
- Voc acredita nisso?
-  Sim. Tenho estudado esse assunto e sei que elas existem.
- Pois quando eu ca da escada, minha prima Dora foi rezar por mim em um Centro Esprita que ela freqenta sempre e eles disseram que meu tombo no foi casual. Que 
um esprito me empurrou e que seria bom eu ir fazer um tratamento.
- E voc foi?
- Sim e tive uma experincia muito interessante, tanto que mudei minha forma de pensar.
- Eu sabia que ia lhe fazer bem e certamente abreviou sua cura.
- De fato. O mdico me disse que eu me curei mais rpido do que outras pessoas com o mesmo problema. L recebi muita ajuda. Olha o Rodrigo, est chegando.
Rodrigo aproximou-se, cumprimentou-os e depois disse:
- Voc hoje conseguiu ser mais bonita do que j .
- Obrigada. Voc tambm est mais elegante do que j .
Eles riram alegres e Rodrigo pediu um aperitivo dizendo:
- Esse j  por conta da comemorao.
A conversa fluiu fcil, mas no passou despercebido a Hamilton os olhares masculinos que Arete atraa. Isso o incomodou um pouco. Voltou-se para ela e convidou:
- Quer danar?
- Sim.
- Voc no se importa de ficar sozinho?
- indagou ele a Rodrigo.
- No. Fiquem  vontade.
Ele estava mais interessado em uma mesa onde havia duas moas lindas, com as quais ele trocara sorrisos logo na entrada.
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O conjunto tocava um samba cano e Hamilton enlaou Arete e comearam a danar. Ela notou que ele danava bem, deslizando com leveza e prazer.
Eu queria danar com voc, mas ao mesmo tempo no queria que Rodrigo ficasse aborrecido.
- Por que ele ficaria?
- No sei. Vocs trabalham juntos h tempo e eu ainda no sei que tipo de amizade tm um pelo outro. :.;<> j houve algum outro sentimento entre vocs.
- Voc quer saber se ns j namoramos?
-  sempre direta como agora?
- Sou. No gosto de meias palavras que podem nos confundir.
- Voc no respondeu a minha pergunta.
- Eu e Rodrigo somos apenas amigos. Nunca tivemos nada alm disso. Por que pergunta?
-  Curiosidade. Voc to atraente, ele um homem inteligente, que sempre teve sucesso com as mulheres.
- De fato. Rodrigo alm de ser um homem bonito, inteligente, tem muitas qualidades. Penso que ele tem condies para tornar feliz uma mulher.
- Quer dizer que isso passou pela sua cabea?
- No, porque  preciso que haja mais do que isso,  necessrio que exista atrao. Ns nunca sentimos isso um pelo outro.
- Voc diz isso com tanta certeza. Como pode saber?
Ela riu e seus olhos brilhavam maliciosos quando
respondeu:
- Uma mulher sente quando isso acontece, mesmo se no houver reciprocidade.
- Voc dana muito bem.
-   voc que sabe levar. Parece at que faz isso todas as noites.
- Anos atrs eu danava muito. Mas nos ltimos tempos fui deixando. Faz mais de um ano que eu no danava.
A msica parou, e em seguida comeou um bolero. Os dois olharam para a mesa onde Rodrigo estava e o
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viram conversando animado com as duas moas na outra mesa.
- Parece que ele j se arranjou muito bem
- tornou Arete.
- Nesse caso, podemos continuar a danar.
Enlaou-a novamente, desta vez encostando seu
rosto no dela e continuaram danando.
Hamilton sentia que a proximidade dela o envolvia fazendo-o esquecer de tudo, notando que ela tambm se entregara ao prazer da dana, apertou-a levemente e continuaram 
a danar, esquecidos do mundo a sua volta, envolvidos pelas emoes que brotavam e eles deixavam fluir.
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Gilberto chegou em casa e procurou Olga com insistncia. Foi encontr-la no quarto e disse eufrico.
- J sei onde Olvia est.
- Como assim?
- Est em Miami. Tenho o endereo do emprego dela.
- Como conseguiu?
-  Encontrei a Silvinha, filha do doutor Niro e ela parou para me dizer que havia voltado de Miami e l encontrara Olvia casualmente, quando saa do trabalho. Passou-me 
o endereo. Acho que podemos marcar nossa viagem para busc-la.
- Busc-la? Mas ela no quer voltar.
- Bobagem. Ns vamos e a convenceremos a vir.
- Pois eu no vou. Ela vive muito bem longe de ns, prefere companhia de estranhos  nossa, por que deveremos nos dar o trabalho de ir busc-la e pedir-lhe para 
voltar?
- Porque ela  uma moa ingnua, precisa da nossa proteo e deve morar com os pais.
- Pois eu no penso assim. Quando ela estava conosco, vivia insatisfeita, triste pelos cantos, desanimada. Chega disso. Ela s volta quando tiver vontade. Se
ela passa bem longe de ns, podemos tambm viver bem sem ela.
Ele no se conformou:
- Voc est errada. A estas horas Olvia j deve ter se arrependido. S no tem coragem de nos pedir para voltar.
- Onde voc est com a cabea? Por que tem tanto interesse em que ela volte? Isso me parece estranho.
Ele resolveu contemporizar.
-  No h nada de estranho. S desejo proteger nossa filha. Mas se voc no quer, no insisto.
- Ainda bem. Ela precisa de uma lio.
Inconformado, Gilberto foi para a biblioteca, fechou
a porta  chave, abriu uma gaveta secreta, tirou algumas fotografias e sentou-se embevecido contemplando-as.
Eram fotos de Olvia, algumas sorrindo e outras as que ele tirara quando lhe dera o sonfero para conseguir seus propsitos escusos.
Ficou olhando-as e no conteve as lgrimas. Tinha que dar um jeito, traz-la de volta. No podia viver mais sem ela.
Essa obsesso no o deixava dormir, e muitas vezes enquanto Olga ressonava tranqila, ele levantava-se e ia ver as fotos, pensando em Olvia desesperado.
Durante o dia, quando era servido algum prato que Olvia gostava, no se alimentava direito, ou quando algum a mencionava, ou mesmo quando via os retratos na sala 
que Olga deixara no lugar de sempre caa em depresso.
De repente, ele comeou a pensar: E se ela em Miami houvesse arranjado um outro? Ela era bonita demais para ficar sozinha.
Certamente no queria voltar por causa disso. Ao imaginar que ela poderia estar nos braos de outro, trocando carinhos, amando, beijando-o, entregando-se como nunca 
fizera com ele, sentiu uma onda de dio invadir seu peito.
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E, de repente, esse dio foi crescendo, tornou-se insuportvel, ento sua vista escureceu, um tremor envolveu seu corpo, ele caiu ali mesmo e as fotos espalharam-se 
pelo cho ao seu redor.
Uma hora depois, Olga foi procur-lo na biblioteca, mas a porta estava fechada por dentro. Por que Gilberto tinha passado a chave na porta?
Ela bateu, a princpio levemente, depois com fora, mas no obteve resposta. Assustada, ela chamou pelo criado dizendo:
- O Gilberto fechou-se na biblioteca faz mais de uma hora. Estou batendo e ele no abre. Teria acontecido alguma coisa? Ser que ele saiu, fechou a porta e tirou 
a chave?
- Eu o vi entrar a, mas no o vi sair. Acho que  melhor tentarmos abrir essa porta. Ele pode estar passando mal.
- Voc tem a chave dupla. V busc-la, depressa.
Ele foi e voltou em seguida, tentou introduzir a chave
na porta, mas ela no entrava.
- A outra chave est do lado de dentro. No consigo abrir.
- Nesse caso vamos forar a porta. Temos de entrar de qualquer jeito.
Ele chamou o motorista e ambos foraram a porta sem conseguir abri-la. O motorista disse:
- Vou buscar uma chave de fenda e tentar abrir. Pouco depois ele voltou e com a chave de fenda
conseguiu tirar a chave que estava na porta e o criado pode finalmente abri-la.
Olga entrou na frente e vendo Gilberto estendido no cho gritou desesperada:
- Corre, Gilson, vai chamar o mdico.
Depois, aproximou-se dele tentando ver se respirava. Foi quando viu as fotos, algumas embaixo da escrivaninha, outras espalhadas pelo cho.
No primeiro instante no entendeu bem o que estava acontecendo. O que as fotos de Olvia estavam fazendo ali?
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Enquanto o criado foi chamar o mdico, o motorista colocou o ouvido sobre o peito de Gilberto tentando ouvir se o corao estava batendo.
Olga, assustada, pegou uma das fotos e o que viu a deixou em choque. Era Olvia, nua nos braos de Gilberto.
Ela quase desmaiou, mas a raiva, a surpresa, a fizeram reagir. Esqueceu o estado do marido e juntou as fotos, olhando-as uma a uma e seu rosto passou da palidez 
ao rubor intenso e ela olhou para o corpo de Gilberto estendido no cho, atirou-se sobre ele gritando:
- O que vocs fizeram comigo? Responda, responda. Por que no diz nada?
Ela comeou a sacudi-lo, querendo que respondesse, mas ele continuava mudo.
O motorista, assustado, segurou-a dizendo  criada que se aproximara:
- Por favor, me ajude. Dona Olga est fora de si.
- Doutor Gilberto est morto? - perguntou a criada assustada.
- No consegui ouvir o corao, mas ele est respirando muito fraco. V dizer ao Gilson para chamar uma ambulncia. O mdico no vai adiantar. Ele precisa ir para 
o hospital. Corra.
Olga continuava sacudindo Gilberto exigindo que ele respondesse.
O motorista inclinou-se sobre ela dizendo:
- Dona Olga. Contenha-se. O Doutor Gilberto est muito mal. Ele pode morrer. Por favor, no faa isso com ele.
Ela olhou-o parecendo no entender ele continuou:
- Vamos. Tente se acalmar. Precisamos socorr-lo. Doutor Gilberto est muito mal.
Ela ainda segurando as fotos, olhou para o corpo imvel do marido, depois para o motorista, desta vez entendeu e perguntou:
- Ele est morto?
- Ainda est respirando, mas sua respirao est diferente. J vi pessoas com esse modo de respirar e
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garanto que no  coisa boa. Pedi ao Gilson para chamar uma ambulncia.
Olga levantou-se com dificuldade. Sentia no peito uma dor imensa e em sua cabea havia muitas perguntas.
Gilberto no podia morrer antes de responder a todas elas. Trincando os dentes com raiva ela disse:
-  Enquanto esperamos a ambulncia, fique aqui. Vou me arrumar. Quero ir com ele para o hospital.
Olga, embora sentindo as pernas bambas, foi para o quarto, vestiu-se rapidamente, colocou as fotos dentro de um envelope, e depois na bolsa.
Desceu exatamente quando a ambulncia entrou no jardim da casa. Os padioleiros entraram com um mdico e Gilson levou-os a biblioteca.
O Mdico imediatamente colocou o dedo no pescoo de Gilberto, depois com o estetoscpio examinou o peito, olhou as plpebras e pediu:
- Tragam o material de emergncia.
Os dois padioleiros saram e voltaram em seguida com alguns aparelhos e um tubo de oxignio. O mdico imediatamente ligou o oxignio e colocou nas narinas. Aplicou 
uma injeo na veia e tornou:
- Do jeito que est no podemos remov-lo. Vamos ajud-lo a reagir.
Olga ouviu e no respondeu. O que ela mais queria era que ele no morresse antes de responder as perguntas que lhe queimavam o crebro.
No se conformava com o fato de Gilberto ter tido um caso com Olvia. Nunca poderia imaginar uma coisa dessas. Por isso ele andava triste, suspirando pelos cantos. 
Por isso ele no se conformava dela haver ido embora e queria traz-la de volta a todo custo.
Miservel traidor! A trara com sua prpria filha. E Olvia, por que se prestava a essa vileza? Nunca os perdoaria.
Perdida em seus pensamentos, Olga no se deu conta de quanto tempo demorou para que finalmente o mdico dissesse:
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- Ele reagiu. Vamos remov-lo com muito cuidado. Enquanto os padioleiros cuidadosamente removiam Gilberto para a ambulncia, o mdico aproximou-se de Olga:
- A senhora o acompanha? Precisamos de uma pessoa da famlia para a internao.
- Eu vou. Como ele est?
- Sofreu um enfarto. Reagiu um pouco, mas por enquanto no posso dizer nada.
Durante o trajeto para o hospital, dentro da ambulncia, enquanto o mdico, sentado ao lado do paciente acompanhava atentamente o caso, Olga observava sentada ao 
lado.
De onde estava, perto dos ps de Gilberto, ela de vez em quando fixava o rosto do marido, remoendo a terrvel descoberta que fizera.
No hospital, ele foi colocado na U T I. e o mdico lhe pediu que sasse.
Como ela recusasse, ele argumentou:
-  melhor para o paciente. Mas a senhora poder entrar de vez em quando para v-lo. Garanto que ele ter tudo que precisa e faremos tudo para que se recupere.
- Ele no voltou a si. Est muito mal?
-  Est em estado de coma provocado. Assim ele tem mais chance de se recuperar. Vamos fazer alguns exames e ento poderemos fazer algum prognstico.
Olga saiu, mas permaneceu em um hall prximo onde havia algumas poltronas e um sof.
Ela no podia esquecer as fotos. Queria que ele voltasse a si para exigir-lhe explicaes. Ao mesmo tempo tinha vontade de pedir a Olvia que voltasse para atirar-lhe 
em rosto sua traio.
Ela foi chamada  secretaria para providenciar a internao e depois voltou ao sof prximo  U T I.
O mdico, vendo-a ali aproximou-se:
- Como ele est?
- No piorou, ao contrrio teve uma leve melhora. A senhora est muito abatida. Por que no chama outra
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pessoa da famlia para acompanhar o caso e vai para casa descansar?
- No temos ningum mais. Minha nica filha mora no exterior. Eu no saio daqui. Quero estar perto dele quando acordar.
-  Isso pode demorar. Nesse caso seria melhor ir para casa, deixar o telefone e avisaremos assim que ele acordar.
- No, doutor. Quero ficar aqui, perto dele.
- A senhora no pode passar a noite sentada. No vai agentar. Quando ele acordar, dever ficar algum tempo em tratamento.
- Nesse caso vou pedir um quarto. Poderei descansar e vir v-lo de vez em quando.
- Est bem.
Ele se foi e Olga conseguiu um quarto no mesmo andar e estendeu-se na cama querendo descansar.
Sabia que no conseguiria dormir, mas pelo menos relaxar um pouco. Seu corpo doa e a cabea latejava.
Havia momentos em que sua respirao parecia diminuir e ela respirava fundo para se aliviar.
As horas foram passando e ela sabia que no momento no poderia fazer nada seno esperar.
Em Miami, Aline foi ter com Olvia para conversar. Gino viajara a trabalho, no viria naquela noite. Fazia pouco mais de um ano que estava trabalhando e sentia saudades 
da famlia.
Arete havia ligado contando que os negcios estavam melhorando e que o patrimnio que herdara do marido estava aumentando.
A presena de Hamiltoncontribura para isso e Arete falava dele com tanto entusiasmo que Aline percebeu que finalmente a irm estava apaixonada.
A princpio ela negou, mas acabou confessando:
- Voc tem razo. Eu estou mesmo apaixonada por ele. Mas ele, apesar de me lanar olhares significativos, no passa disso. Penso que no est interessado.
- Alguma coisa me diz que ele algum dia vai se dar conta da mulher maravilhosa que voc .
Arete riu alegre e respondeu:
- Voc diz isso porque  minha irm e gosta de mim.
- No. Eu digo isso porque sei que voc  muito atraente e est sozinha porque quer.
Aline adoraria poder ter uma conversa face a face com Arete, como nos velhos tempos. Ela era a pessoa que mais a compreendia.
Tocou a campainha e Olvia atendeu.
- Que bom que voc veio. Entre, Aline.
- Hoje o Gino est viajando e eu senti saudades de casa. Vim me consolar com voc.
- s vezes eu tambm sinto, embora tenha sofrido muito com a famlia.
- Minhas frias comeam na semana que vem e eu estou pensando em ir ao Brasil visitar minha famlia.
- E o Gino?
- Se ele puder, talvez v. Mas seno irei sozinha.
- Ele no vai achar ruim?
- Felizmente, Gino  muito diferente do meu ex-marido. Respeita minha individualidade, permite que eu seja o que gosto de ser e eu fao o mesmo com ele porque  
assim que eu penso. Por isso nos damos to bem.
- Fico admirada. Afinal, ele  italiano e eles so muito ciumentos.
- No o Gino. s vezes noto que ele percebe quando algum me olha com admirao, mas controla e finge que no v. Ele confia em mim, sabe que  dele que eu gosto. 
E com isso, cada dia gosto mais. Depois, ele no gosta de rotinas, como eu, e est sempre criando coisas novas. Estar com ele  sempre um prazer.
Olvia riu e comentou:
- E com isso ele a conquistou mesmo.
-  verdade.
- Voc pretende ficar quanto tempo no Brasil?
- Tenho um ms, no sei se ficarei todo esse tempo. Vai depender de algumas coisas.
- Eu sei, da saudade do Gino.
- No. Do que vou encontrar no Brasil. Apesar de haver decorrido mais de um ano, pelo que sei, a famlia de Marcelo continua me recriminando por t-lo deixado. Quanto 
a meus pais, sei que tambm vo me recriminar quando eu chegar, mas eles me amam, esto com saudades e isso logo passar.
Voc deve ter uma famlia maravilhosa! Como eu gostaria que a minha fosse assim.
-  De fato, minha famlia  tima, mas penso que mesmo que no fosse eu os amaria da mesma forma. Voc no ama seu padrasto pelo que ele lhe fez, mas a sua me, 
apesar de tudo, sei que voc ama.
- Amo. No tempo de meu pai tudo era diferente. Depois que ele morreu e ela se apaixonou pelo Gilberto, ela parece ter perdido a noo da realidade. S faz o que 
ele quer, perdeu completamente a individualidade, se apagou. E ele abusa, se faz de carente, e ento ela se derrete e acaba lhe fazendo todas as vontades, atendendo 
a todos os seus caprichos.
- Muitas mulheres fazem isso e acabam apagando a prpria luz, e por fim at os parceiros se cansam delas. Foi o que aconteceu com Marcelo. Ele se tornou minha sombra 
e o amor acabou.
O telefone tocou e Olvia atendeu:
- Olvia!
- Me!
- Sou eu. Estou ligando para lhe dizer que Gilberto sofreu um enfarto e est inconsciente na U T I.
- Por isso voc est com essa voz to diferente.
- Estou como sempre. Pensei que voc gostaria de saber que ele est muito mal e os mdicos no sabem dizer se vai escapar.
- Sinto muito, me.
- Sente mesmo? Pois no parece. Se voc se importasse realmente comigo, no teria feito o que fez.
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- Me, eu vim embora porque no suportava viver ao lado de Gilberto. Eu nunca me dei bem com ele. Voc estava feliz ao lado dele. No precisava de mim. Achei melhor 
cuidar da minha vida, seguir meu caminho.
- Ele nunca se conformou com isso. Eu no sabia porque. Mas agora eu sei. Vi as fotos, quero dizer-lhe que pode ficar a pelo resto da vida. Depois do que voc fez, 
nunca mais quero v-la. No posso perdoar a traio dele, muito menos a sua que  minha filha e deveria pelo menos ter me respeitado.
Olvia empalideceu e no conteve as lgrimas:
- Me, voc precisa me ouvir. Eu no tive culpa. Ele me deu um sonfero e quando acordei, estava na cama dele.
- Agora quer se fazer de inocente porque ele no est em condies de falar, mas eu no acredito. Voc o estava abraando, nua e quer que eu acredite nisso?
- Me, pelo amor de Deus, estou dizendo a verdade. Ele tirou essas fotos para me chantagear. Ele me dopou e me violentou aos quatorze anos. Depois disso eu nunca 
mais tive nada com ele. Minha vida era fugir dele que sempre me perseguia.
- Isso  mentira. Se fosse verdade voc teria me contado.
- Ele fez essas fotos enquanto eu estava dopada e com elas me chantageava o tempo todo. Dizia que se eu lhe contasse, lhe mostraria essas fotos e diria que era eu 
que o estava tentando. No suportando mais essa presso, decidi vir embora daquele jeito. Fugi porque ele nunca permitiria que eu sasse de casa.
- No posso crer que o homem que eu amei tanto fosse to depravado. Voc est dizendo isso para fazer-me crer em sua inocncia.
- No, me. Eu juro por tudo que  mais sagrado que estou lhe dizendo a verdade.
- No creio. Voc me traiu e eu nunca a perdoarei. Era s isso que eu queria lhe dizer.
Olga desligou o telefone e Olvia ainda tentou:
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- Me... No diga isso, por favor...
Mas ela havia desligado e Olvia colocou o telefone no gancho chorando copiosamente. Aline abraou-a com carinho dizendo:
- Calma Olvia. Ela ficou chocada, mas vai refletir, pensar melhor e se arrepender.
- Ela disse que nunca me perdoar! Eu fui a vtima daquele canalha. Mais uma vez ela ficou do lado dele. Recusa-se a crer que ele possa ter feito o que fez. Diz 
que ele no seria capaz, mas ele foi!
Aline pegou um copo de gua e deu-o a ela:
- Beba, acalme-se.
Ela apanhou o copo com as mos trmulas e tomou alguns goles. Depois continuou soluando deixando fluir atravs das lgrimas todas as angstias, todos os medos, 
toda revolta que guardava no corao.
Aline ficou ali, abraada a ela, mandando para ela vibraes de carinho e amor esperando que a tempestade passasse.
Depois, sentadas uma ao lado da outra, segurando a mo de Aline, Olvia comeou a falar, rememorando detalhadamente toda tragdia que fora sua adolescncia.
Aline, j conhecia a histria, mas deixou-a falar porque percebeu que ela estava precisando colocar para fora todas as energias da revolta que guardara no corao.
269

XXI

Olga acordou sobressaltada. Olhou em volta e pensou em Gilberto. Ela fora para o quarto, tomara um banho, deitara-se vestida para descansar um pouco e vencida pelo 
cansao adormecera.
Levantou-se apressada e foi at a U T I procurar notcias. A enfermeira, vendo-a olhando pelo vidro, fez sinal para que ela esperasse um momento e depois foi atend-la.
- Como est ele?
- Melhor. Ainda h pouco abriu os olhos e fechou-os novamente. O mdico veio, examinou-o e disse que ele melhorou. Agora est dormindo e seu sono est mais natural.
- Eu desejo entrar para v-lo.
- Pode ficar um pouco.
Olga entrou, sentou-se ao lado da cama olhando atentamente para o rosto do marido. Ele dormia, mas apesar do oxignio, sua respirao no lhe pareceu normal.
A enfermeira continuava atenta, o que fez Olga pensar que a melhora no teria sido to grande.
O dia estava amanhecendo e os primeiros raios de sol j apareciam atravs das frestas da persiana. Olga no desviava os olhos do rosto de Gilberto, lutando com seus 
pensamentos de tristeza, raiva e dor.

De repente ele abriu os olhos e Olga levantou-se aproximando seu rosto do dele.
- Olga... - balbuciou ele com voz fraca - onde estou?
- No hospital. Voc desmaiou na biblioteca e o trouxemos para c.
Ele fechou os olhos e ficou calado por alguns minutos, depois, abriu-os novamente olhando-a aterrorizado.
Ele se lembrou que estava olhando as fotos quando se sentiu mal. Olga as teria visto?
Seus olhos se encontraram novamente e pela expresso dela teve certeza de que ela as encontrara.
O ar comeou a lhe faltar e a enfermeira interveio:
-  melhor a senhora sair. Ele no pode se emocionar. Precisa descansar.
- Ele no est bem e eu no vou sair.
- Nesse caso vou chamar o mdico. Sua presena o emocionou e isso pode prejudic-lo.
Ela saiu para chamar o mdico e Gilberto disse num sussurro:
- Perdo, Olga e pea a Olvia que me perdoe por tudo que lhe fiz. Ela no tem culpa, eu a dopei
- respirou fundo e continuou
- No me culpe, Olga. Eu me apaixonei por ela desde o primeiro dia, lutei contra isso, mas no suportei... Eu sofri muito esse tempo todo...
As lgrimas corriam pelo rosto de Olga que no encontrava palavras para responder. O mdico entrou apressado e disse:
- A senhora precisa sair. Gilberto interveio:
- No, doutor. Ela tem que ficar. Eu no tenho muito tempo. Sinto que estou no fim. Diga que me perdoa, Olga, pelo amor de Deus.
Olga sentia a cabea atordoada e uma dor muito grande que ela no sabia se era pelo medo de que ele morresse ou pela descoberta de que ele nunca a amara como ela 
acreditara.
De repente ele ergueu a cabea, os ombros, seu corpo agitou-se e depois caiu na cama de novo.
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Enquanto o mdico tentava ressuscit-lo, uma enfermeira pegou Olga pelo brao e conduziu-a para fora. Ainda em estado de choque, ela continuou sentada no sof, incapaz 
de raciocinar, deixando que as lgrimas lavassem seu rosto.
Meia hora depois o mdico aproximou-se dela dizendo:
- Fizemos tudo, mas no foi possvel salv-lo. Sinto muito.
Vendo o estado dela, conduziu-a para o quarto, aplicou-lhe uma injeo e depois mandou a enfermeira ligar para a residncia dela, pedindo que algum viesse para 
cuidar das providncias legais porque Olga no estava em condies de faz-lo.
Gilson e o motorista foram imediatamente para l, e conduzidos ao quarto de Olga que apesar do calmante estava acordada.
Eles tomaram todas as providncias e avisaram um primo de Gilberto que concordou em ajud-los no que fosse necessrio.
Foi a esposa desse primo que acompanhou Olga at sua casa, garantindo-lhe que o marido faria tudo que fosse preciso para o sepultamento.
Depois do enterro, esgotada e sem foras foi que finalmente Olga conseguiu dormir.
Seja pela quantidade de calmantes que havia ingerido ou pela depresso que se seguiu aos acontecimentos, Olga dormiu mais de dezesseis horas seguidas, preocupando 
a criada que de vez em quando subia at seu quarto para verificar se ela estava bem.
Quando acordou, no sentia vontade de levantar. Deixou-se ficar na cama, pensando em tudo que acontecera.
A criada insistiu para que ela se alimentasse e,  prima Julieta que ligasse para Olvia. No entendia porque ela no fora avisada da morte do padrasto.
Olga justificou-se:
- Foi tudo muito rpido. No quis preocup-la. Pensei que ele fosse se recuperar.
- Se quiser eu mesma posso ligar.
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- No. Eu quero fazer isso.
Tanto Julieta insistiu para que ela se alimentasse que Olga comeu um pouco s para ver-se livre dela. Depois disse que queria ficar sozinha para descansar mais um 
pouco e ela se foi.
Ela nunca fora muito ligada a esses primos de Gilberto, agora, depois de tudo que acontecera a presena deles a fazia lembrar-se mais ainda do que ele lhe fizera.
Por isso, resolveu: levantou, fez-se de forte, arrumou-se e desceu na hora do jantar.
Vendo-a entrar na sala, Alberto, marido de Julieta, disse satisfeito:
-Ainda bem que voc reagiu. Estvamos preocupados.
-  verdade
- ajuntou Julieta
- Voc no pode se entregar.
- Foi o que pensei. Por isso, apesar da dor, estou aqui.
O jantar foi servido e Olga procurou mostrar-se natural e depois, quando foram sentar-se na sala de estar, ela tornou:
- No sei como agradecer-lhes o que fizeram por ns. Minha filha est no exterior e eu no tenho outros parentes.
- No fizemos mais do que a obrigao. Sempre desejamos nos aproximar mais de vocs. Mas no surgiu ocasio. Lamento que tenha sido agora, desta forma - disse Alberto.
- Penso que vocs tambm tm seus compromissos, filhos, negcios etc. e no desejo tomar mais seu tempo. Apesar da tristeza, estou disposta a no me deixar abater. 
A vida continua e no h como parar.
- Certamente, depois do que houve sua filha voltar para casa para fazer-lhe companhia. Se quiser eu poderei ficar mais alguns dias, at que ela chegue.
-  No  preciso. Voc no pode abandonar sua famlia. Eu estou bem. Depois, tenho os criados que esto comigo h anos e so muito dedicados. No preciso de nada. 
Podem ir em paz.
- Nesse caso, ns vamos
- tornou Alberto.
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Depois de alguns minutos, eles despediram-se e Olga respirou aliviada. Pensou em ligar para Olvia, sentia-se exausta e deixou para ligar na manh seguinte.
No ligara antes porque sabia que Olvia no haveria de querer comparecer ao enterro de Gilberto. As ltimas palavras dele confirmaram tudo quanto ela lhe contara 
ao telefone.
Pensando com mais calma, ela imaginou o quanto Olvia deveria ter sofrido com tudo que ele lhe fizera, sem poder falar nada.
Pela primeira vez pensou: Se Olvia houvesse lhe contado a verdade, teria acreditado?
Certamente no. Estava cega. Iludida por um canalha que se aproveitara de sua cegueira para violentar sua filha adolescente.
Uma onda de remorso a acometeu. A culpa era dela que deveria ter sido mais esperta e percebido que o interesse dele nada tinha de paternal.
Aos quatorze anos, Olvia era uma criana. Isso era um crime. Ele merecia ser preso. Ela notou que no estava sentida por ele ter morrido. Como seria a vida deles 
se ele continuasse vivo?
Ela se separaria. Teria coragem para isso? Mil pensamentos conflitantes passavam pela sua cabea sem encontrar resposta.
Na manh seguinte ela ligou para Olvia.
- Olvia, temos que conversar.
- Eu sei, me. Voc desligou o telefone, no acreditou em mim.
- , eu no acreditei, mas aconteceram coisas que me fizeram acreditar. Eu sei que voc disse a verdade.
Olvia emocionou-se:
- Me, no sabe o peso que tira do meu corao.
- Posso avaliar minha filha. Peo-lhe que me perdoe. No tenho sido uma boa me.
- No diga isso. Eu adoro voc.
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- Eu tambm a adoro. Preciso contar-lhe que Gilberto sofreu um enfarto, foi para o hospital, mas no resistiu e veio a falecer.
- Sinto muito.
- Foi melhor assim. Depois que descobri o que ele fez com voc, nossa vida em comum seria impossvel. A vida resolveu por ns. Estou ligando para pedir que voc 
volte para casa. Que me d a chance de ser para voc a companheira, a amiga, a me que no fui. Por favor, filha. Volte. Somos apenas ns duas no mundo. Vamos ficar 
juntas.
As lgrimas corriam pelas faces de Olvia que emocionada respondeu:
- Est bem, me. Vou organizar tudo e voltar para casa. Estou com muitas saudades de voc.
- Que bom, filha. Avise-me para que possa ir busc-la no aeroporto.
Elas se despediram e Olvia respirou aliviada. Sentiu-se livre, de bem com a vida. Pela primeira vez sentiu o prazer de ser jovem, bonita e de poder olhar o futuro 
de frente.
Sua me sabia de tudo e acreditava em sua inocncia. Parecia-lhe haver acordado de um pesadelo.
Iria pedir demisso do emprego, ver as passagens e voltar o quanto antes para o Brasil.
No fim da tarde encontrou Aline no estacionamento. Era com ela que voltava para casa todos os dias uma vez que ainda no quisera comprar um carro.
Vendo-a, Aline percebeu logo o quanto ela estava alegre.
- Aconteceu alguma coisa? Voc est radiante!
- Aconteceu. Minha me ligou, e vou deixar o emprego e voltar o quanto antes para o Brasil.
- Por qu?
- Gilberto teve um enfarto, morreu. Mas antes contou toda a verdade a minha me. Ela me pediu perdo e quer que eu volte pra casa.
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- Que bom! Seu inferno acabou. Agora voc est livre para fazer o que quiser!
- Isso mesmo. J conversei no departamento pessoal, informei sobre falecimento do meu padrasto e que eu precisava voltar para o Brasil. Penso que vo fazer um acordo 
e me liberar imediatamente. Hoje mesmo vou me informar sobre a passagem.
- Segunda-feira estarei de frias e reservei a minha para o Domingo. Podemos viajar juntas.
- E o Gino?
- Ele no pode viajar, vai ficar, mas tomar conta de minha casa enquanto eu estiver fora.
Olvia sorriu:
- Parece que voc encontrou o companheiro ideal.
-  verdade. Cada dia que passa estou mais certa disso. Gosto de ficar com ele. Sua presena no me oprime, ao contrrio, me motiva a progredir, a realizar meus 
projetos. Por causa disso, sinto muito prazer a seu lado porque posso falar o que sinto e ouvir o que ele tem a dizer.
- Eu gostaria de um dia encontrar um amor assim. Aline olhou-a nos olhos e respondeu:
- Eu consegui porque no me importei de pagar o preo.
- Sei o que quer dizer. Voc no estava feliz, sabia o que queria, virou a mesa e largou tudo. Claro que pagou o preo e conquistou uma vida melhor.
-  Isso mesmo. Vamos passar na agncia de viagens e reservar sua passagem para domingo. Iremos juntas. Acha que vai dar tempo?
- Acho. Na empresa eles entenderam e penso que no vo demorar a me liberar.
- Em caso de morte na famlia eles costumam ser muito solidrios.
Elas passaram na agncia de viagens e conseguiram reservar a passagem no mesmo vo de Aline, embora em assentos separados, com promessa de conseguirem
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uma mudana de assento para que pudessem ficar juntas durante o vo.
Depois, as duas entusiasmadas, planejaram tudo. Olvia queria comprar alguns presentes, para a me e para os criados, seus velhos amigos.
Aline indicou-lhe algumas lojas onde comprara parte dos presentes que levaria para a famlia. Estavam alegres e felizes.
Na manh seguinte, quando Olvia chegou na empresa, ficou sabendo que seria seu ltimo dia de trabalho. No fim da tarde, ao sair, despediu-se dos colegas e de todos, 
foi Rachel quem mais sentiu sua partida.
As duas haviam ficado muito amigas.
- John vai sentir sua falta - comentou Rachel com os olhos midos.
- S ele?
- No. Muitos colegas aqui, eu e meus amigos que aprenderam a gostar de voc.
- Pode estar certa de que terei muitas saudades de todos, principalmente de voc, de John. Mas espero voltar para v-los e tambm que vocs nos visitem no Brasil. 
Nossa casa estar  sua disposio e teremos muito prazer em receb-los.
- Eu no conheo o Brasil, gostaria muito de ir.
- V mesmo.
- No vamos nos despedir. Pretendo ir ao bota fora no aeroporto.
- Estarei esperando.
Nos trs dias que faltavam ainda para o Domingo, Olvia passou fazendo compras. Precisou comprar mais duas malas para acondicionar tudo.
Ao viajar para Miami ela se utilizara de duas malas pequenas para no chamar ateno da me.
Tudo pronto, foram para o aeroporto acompanhadas de Gino e l encontraram Rachel com o filho, e alguns amigos.
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Tanto Aline como Olvia estavam emocionadas. Aline porque ia rever a famlia e obrigatoriamente recordar a morte de Marcelo, talvez enfrentar a famlia dele. Olvia 
porque ia encontrar a me, saber dos detalhes da morte do padrasto e naturalmente falar sobre o passado.
Conseguiram a troca de assentos e durante o trajeto as duas falaram sobre o que esperavam encontrar no Brasil, de como seria doloroso rever os fatos tristes do passado.
Apesar disso, estavam regressando felizes, porque ambas haviam obtido sucesso.
Olvia voltava amadurecida, mais confiante uma vez que havia conseguido viver sozinha em um pas desconhecido, trabalhar, fazer amigos e voltar s porque desejava.
Por outro lado, Aline realizara seus sonhos de adolescente, conquistara seu espao e um amor mais forte e verdadeiro do que encontrara no casamento.
Com o corao batendo forte, as duas desceram do avio em So Paulo, passaram pela fiscalizao e finalmente saram cada uma empurrando o carrinho com as malas.
Arete estava esperando e assim que viu Aline correu para ela abraando-a efusivamente. Em seguida, Olvia viu Olga que ansiosamente a esperava e atirou-se nos braos 
dela emocionada.
Passados os primeiros momentos foi a hora das apresentaes.
- Me, esta  minha amiga Aline. Morava vizinha a meu apartamento em Miami. Apoiou-me muito.
Olga abraou-a sorrindo e Aline apresentou Arete a ambas:
- Esta  minha irm Arete, que tem sido meu brao direito a vida inteira.
Depois dos abraos foram saindo e Olga fez questo de dar seu carto a Aline dizendo:
- Gostaria de receb-las em minha casa.
- Iremos com prazer. - respondeu ela - Olvia tem o telefone da casa de minha me. Gostaria de apresent-la
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 minha famlia. Estou de frias e volto para Miami dentro de trs semanas.
- Vamos nos ver muito durante esses dias - prometeu Olvia.
Elas se despediram e uma vez no carro de Arete, Aline perguntou:
- Como vo as coisas em casa?
- Em casa, bem. Nossos pais esto muito emocionados com sua chegada. Parece que isso os fez recordar todo o passado. No falam em outra coisa.
- Era isso o que eu temia. Cheguei a me perguntar se no seria melhor deixar para vir nas frias do ano que vem. Mas as saudades eram fortes e isso me fez decidir.
-  Fez bem. Rodrigo est ansioso esperando sua chegada. Ele s no veio ao aeroporto porque achou que seria melhor voc ficar mais  vontade com nossa famlia.
- Ele sempre foi muito delicado.
- Eu adoro trabalhar com ele.  delicado, atencioso, um pouco fechado, mas muito correto e trabalhador. A empresa est crescendo e indo muito bem. Penso que melhoramos 
seu patrimnio.
- Isso me faz lembrar da famlia de Marcelo. Eles j se conformaram de eu herdar os bens?
- Penso que no. Ainda no nos cumprimentam e Rodrigo que tinha um bom relacionamento com eles, tambm foi posto de lado. Ficaram ofendidos por ele ter me aceito 
para trabalhar.
- Como Rodrigo reagiu?
-A princpio ficou um pouco aborrecido, mas depois no s aceitou a atitude deles como passou definitivamente para o nosso lado. Ele freqentou muito nossa casa 
quando eu quebrei a perna e nos conheceu melhor. Desde ento, passou a nos apreciar e hoje todos somos muito amigos.
- Fico feliz. Tornar a encontrar a famlia de Marcelo vai ser constrangedor porque sei o que eles pensam de mim. Conforta-me saber que Rodrigo est do nosso lado.
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Ns somos scios e eu terei de conversar com ele, tratar de assuntos pessoais e assim ser muito mais fcil.
- Hamilton tambm est com vontade de conhec-la. Eu falo tanto em voc que ele tem curiosidade.
- Eu tambm desejo conhec-lo. Sei que voc tem bom gosto e imagino que ele deve ser muito interessante.
Arete suspirou e respondeu:
- s vezes sinto que no lhe sou indiferente. Mas parece que ele tem medo de alguma coisa. Sempre que percebe estar se aproximando mais, corta imediatamente.
- Ele deve ter tido alguma desiluso amorosa. Nunca lhe falou sobre isso?
- Sei que foi noivo, esteve de casamento marcado, mas de repente tudo acabou. Ele no gosta de tocar nesse assunto.
- Pois eu acho que a est a causa do medo que ele tem e por isso quando se sente atrado por voc, foge.
- Pode ser. Mas se for isso, ele  quem ter de resolver. Eu no posso fazer nada.  uma questo ntima.
Aline sorriu maliciosa e disse:
- Talvez eu possa dar um empurroznho.
- O que voc pensa fazer? Cuidado. Eu tenho meu orgulho e prefiro morrer a que ele saiba o quanto eu o amo!
- Confie em mim. Eu penso que a mulher precisa ter dignidade e no correr atrs do homem que ama. Mas nada impede que ela use alguns artifcios para acelerar a conquista.
As duas riram e Arete respondeu:
- Voc estava me fazendo falta! Em poucos instantes fez-me ficar em ponto de bala.
- timo. Assim  que se fala.
Elas chegaram em casa e tanto Dalva como Mrio esperavam impacientes. Ele nem fora para a loja, deixara-a nas mos dos empregados, o que raramente fazia s para 
esperar a filha.
Ambos a abraaram com lgrimas nos olhos e muito carinho. Aline voltara mais bonita, muito bem vestida,
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elegante e com alegria abriu as malas e distribuiu os presentes.
Eles sabiam que ela no voltara para ficar e que pretendia continuar vivendo em Miami. Por isso no comentaram sobre Marcelo, deixando o assunto para mais tarde. 
No queriam que Aline se aborrecesse logo na chegada.
E isso fez com que o ambiente se tornasse alegre e festivo. Foi depois do jantar quando eles sentaram-se na sala para conversar que Dalva tocou no assunto:
- Parece mentira que voc est aqui! Ainda no consegui me conformar com tudo que aconteceu.
Mrio concordou com a cabea e Aline percebeu que o momento to temido havia chegado e ela no tinha outro caminho seno enfrentar.
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Dois dias depois, o telefone da casa de Olvia tocou e ela atendeu:
- Aline! Tudo bem?
-Tudo. Eu ia ligar ontem, mas no tive tempo. Tive que ir  empresa ver como estavam as coisas e atender ao que eles desejavam. Mas hoje, quero que voc e sua me 
venham jantar aqui em casa. Alm de meus pais e Arete, estaro Rodrigo, que era scio de Marcelo e o outro arquiteto que trabalha com ele.
- Iremos. A que horas  o jantar?
- s oito. Mas quanto antes vocs vierem melhor. Assim poderemos conversar bastante.
- Obrigada pelo convite. Estaremos l.
Ela desligou e disse a Olga, que se aproximava:
- Aline nos convidou para jantar hoje. Eu aceitei.
-   uma moa bonita e agradvel. Depois,  sua amiga. Fez bem.
- Ela  mais do que amiga. Ajudou-me a conseguir o emprego na empresa em que trabalha, sempre me apoiou. Quando eu ficava deprimida, ela procurava me deixar alegre.
- Mais uma razo para eu gostar dela.
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Olga, apesar da tristeza do que lhe acontecera, procurava reagir e redimir-se diante da filha por sentir-se culpada de no a haver protegido o suficiente.
O choque com a descoberta do comportamento de Gilberto no s traindo sua confiana como prejudicando sua filha haviam destrudo de um s golpe o amor que sentia 
por ele, deixando em seu lugar alm da desiluso, um sentimento de repulsa que a fizera aceitar sua morte como um mal menor.
Sempre se perguntava: se ele houvesse sobrevivido, como seria a sua vida? Certamente teriam se separado. A morte a poupara de ter que decidir.
Agora estava interessada de suprir a falha que julgava ter por no haver notado o interesse doentio do marido por Olvia, empenhando-se em tornar a vida da filha 
mais feliz.
Olvia passara a adolescncia inteira infernizada pela maldade de Gilberto e ela desejava compens-la de alguma forma, fazendo tudo para que ela se alegrasse.
Faltavam cinco para as oito quando as duas tocaram a campainha da casa de Aline. A criada abriu e as introduziu na sala onde j estavam, alm da famlia, Rodrigo 
e Hamilton.
Aline levantou-se e foi abra-las com carinho e depois as apresentou a todos.
A conversa fluiu agradvel, sobre a vida em Miami, que os dois rapazes tambm conheciam.
Rodrigo, desde que fora apresentado a Olvia no conseguia desviar os olhos dela. Enquanto Olga acompanhou Dalva que desejava mostrar-lhe uma coleo de peas de 
porcelana antiga que herdara de sua av materna e Mrio as acompanhara, os jovens ficaram conversando na sala.
A criada lhes servira um copo de vinho branco, colocara alguns petiscos sobre a mesinha. Hamilton se aproximara de Arete e Aline dizendo sorrindo:
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- Vocs no se parecem fisicamente, mas espiritualmente tm muita afinidade.
- Como sabe?
- indagou Aline.
- Ele sabe
- tornou Arete
- Hamilton tem um sexto sentido bastante desenvolvido.
- Sou s um bom observador.
-  Por que voc no assume sua sensibilidade?
-tornou Aline.
- Voc  ateu?
- No. Creio em uma fora superior, mas no sou religioso.
- Ser espiritualista no  ser religioso - rebateu Aline -Todos ns somos espritos. Eu aceito isso como uma coisa natural.
Arete interveio:
- Desde que eu comecei a estudar o sexto sentido, descobri que Hamilton o tem muito desenvolvido. Por vezes diz coisas que estamos pensando ou que j nos aconteceram. 
Agora mesmo ele sentiu que temos afinidade.
Ele riu e respondeu:
- Eu tenho estudado a vida e sei que os fenmenos paranormais existem. Estive com mdiuns e tive oportunidade de assistir fenmenos convincentes. No sou incrdulo 
como vocs parecem acreditar. Ao contrrio, olho esses acontecimentos como fatos naturais. Sei que somos espritos, que sobreviveremos  morte do corpo, que inclusive 
poderemos nos comunicar com os que ficaram, conforme as circunstncias.
Ele fez ligeira pausa e continuou:
-  Mas no sou adepto das religies. Elas detm meias verdades, foram elaboradas por homens que interpretaram as revelaes espirituais e nessa interpretao colocaram 
um pouco de suas crenas e idias.
-  Nisso eu concordo. Nunca aceitei certas idias moralistas, fora da realidade que algumas religies pregam como verdade absoluta
- tornou Aline.
- Ento vocs pensam como eu. Ns temos que estudar a vida, como ela funciona, como devemos
escolher os nossos caminhos para vivermos melhor valorizando nossas qualidades, tentando melhorar nossos pontos fracos.
- Eu no sabia que voc pensava assim. Por que nunca me disse isso?
- indagou Arete admirada.
- Porque nunca conversamos sobre esse assunto.
- Eu gostaria de conversar mais sobre isso. Estou comeando a estudar a espiritualidade, mas s vezes no vou mais fundo com receio de entrar na iluso.
- Voc tem um bom senso prtico,
- respondeu ele srio
- e  por isso que eu gosto de olhar os fatos que a vida mostra, de maneira aberta, sem nenhum preconceito. Assim me protejo no s do fanatismo, como da iluso.
- Gostei
- tornou Aline
- Voc falou como nossos mestres no Instituto Ferguson. Eles so pesquisadores e procuram no dia a dia as provas do que acreditam.
A conversa seguiu animada entre os trs e enquanto isso, Rodrigo sentara no sof ao lado de Olvia perguntando:
- Voc tambm vai voltar a Miami?
- No. Eu vim para ficar. Estava com muitas saudades e depois, minha me perdeu o marido, est sozinha e quero ficar ao lado dela.
- Talvez no seja por muito tempo.
Olvia olhou-o surpresa:
- Como assim?
-  Uma moa como voc, se j no estiver comprometida, logo arranjar algum e sua me perder a companhia.
- Nem pensar. No pretendo me casar. Quero viver a minha vida em paz.
- Pensa to mal assim do casamento?
-  Penso. Eu tive uma adolescncia tumultuada e infeliz. Agora estou livre, quero viver, aproveitar minha liberdade. No vou me amarrar de forma alguma.
Rodrigo estava admirado. A maior parte das moas que conhecia estavam ansiosas para arranjar algum, casar, viver junto. Nunca encontrara uma que fosse avessa a 
essa idia. Estaria sendo sincera?
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Olvia estava sendo sincera. Para ela o casamento significava sofrimento, iluso, traio. Fazia-a recordar-se da amarga experincia que tivera com o casamento da 
me.
Rodrigo tornou:
- Eu penso como voc. Aprecio minha liberdade. At agora tenho escapado de um relacionamento srio e pretendo continuar assim.
Olvia fixou-o e sorriu. Rodrigo era um homem fino, bonito, educado. Deveria ser muito assediado pelas mulheres.
- O que foi?
- perguntou ele.
- Estou pensando que para voc no deve ser fcil escapar das mulheres.  o que elas chamam de um bom partido.
Ele riu divertido e concordou. Aline aproximou-se e tornou:
- Vou ficar aqui trs semanas. Quero sair, rever a cidade, me divertir e gostaria que vocs dois, que devem estar em dia com a vida social e noturna, nos sugerisse 
o que fazer, aonde ir.
- Faremos mais, - respondeu Rodrigo - as levaremos a todos os lugares da moda e nos divertiremos tanto que talvez a convenamos a ficar por aqui para sempre.
- Isso no
- protestou Aline
- Agradeo, mas preciso voltar para Miami. Por mais que seja bom estar aqui, pretendo ficar por l durante mais algum tempo.
- Nesse caso
- tornou Hamilton
- s nos resta acompanh-la a todos os lugares para mostrar-lhe as vantagens de morar aqui.
- Eu aceito o desafio, se Olvia e Arete concordarem. As duas concordaram e Arete levantou o copo de vinho dizendo:
- Que esses dias sirvam para selar nossa amizade. Todos brindaram e pouco depois Dalva os convidou a passarem para a sala onde o jantar ia ser servido.
Passava da meia noite quando Olga e Olvia se despediram, Rodrigo e Hamilton sentiram que tambm deveriam se retirar.
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Depois de haverem prometido descobrir um lugar para ir na noite seguinte, os dois se despediram e uma vez no estacionamento, antes de entrar no carro comentaram 
sobre o jantar.
- Muito bonita a irm de Arete
- disse Hamilton.
- Eu achei Olvia bem mais interessante.
- Bem que eu notei seu interesse.
- Alm de linda, ela me disse que deseja ser livre e no pretende nem se casar.
- Isso  raro.
-   a nica que eu vi at hoje. Se estiver sendo sincera...
-  difcil saber. As mulheres gostam de manipular.
-  Ela alegou que teve uma adolescncia infeliz. Por que ser?
- Arete falou qualquer coisa. Parece que o padrasto a maltratava.
- Ento  por isso que ela fala to mal do casamento. Eu fiquei surpreso com Aline. Quando era casada com Marcelo, falava pouco, parecia introvertida, mas esta noite 
ela pareceu-me completamente diferente.
- Pelo que sei, o marido dela a tratava super bem. Era at exagerado em lhe fazer todas as vontades.
- Marcelo a mimava demais.
- Mas isso no a deixava expandir-se. Agora que ele no est mais, ela pode ser o que  sem que ningum a contenha.
- Estou comeando a entender porque ela o deixou. Eu no suportaria viver ao lado de algum que me cercasse de tantos cuidados. Isso sufoca.
- Por essa e por outras razes tambm sou avesso ao casamento.
- Pois eu, apesar de no querer compromissos no momento, um dia, desejo me casar, constituir famlia, como meus pais fizeram. Mas s quando encontrar a mulher certa.
Hamilton ficou calado e Rodrigo perguntou;
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- No que est pensando?
- No que voc disse. Eu me pergunto: se eu encontrasse a mulher certa teria coragem para me casar?
- Essa vida de solteiro tambm cansa.
- s vezes eu sinto isso. Mas continuo priorizando minha liberdade. Posso lhe fazer uma pergunta?
- Faa.
- Arete  uma mulher atraente. Voc nunca sentiu interesse por ela?
- No. Para mim Arete  apenas uma boa amiga e excelente scia. Por que pergunta?
- Por nada. Ela  uma mulher exuberante, por onde passa chama ateno, e me pergunto: Por que est sozinha at agora? Ela deve ter mais de trinta anos.
-Tem trinta e dois embora parea mais jovem. Alm disso,  muito elegante e tem classe. Tambm noto como ela chama a ateno dos nossos clientes. Mas  sempre muito 
discreta e nunca notei da parte dela qualquer interesse. A no ser por voc. Algumas vezes, quando voc est inclinado sobre a mesa de trabalho, percebo o olhar 
de carinho que ela lana sobre voc.
- Eu nunca notei...
- mentiu ele.
-  que ela disfara quando voc olha. Nunca lhe passou pela cabea que ela pode estar interessada em voc?
- J. Mas eu, quando pressinto o perigo, fujo dele como o diabo da cruz.
Eles riram contentes. Ento despediram-se e cada um foi para seu carro.
J no final da tarde seguinte Rodrigo pediu para Arete combinar com as outras duas o que fariam naquela noite.
Eles poderiam ir a um concerto de uma orquestra de cordas no Municipal ou a uma festa no Clube de Portugal, onde haveria um jantar e cujos convites Rodrigo conseguira 
com um amigo.
Elas preferiram ir  festa do Clube de Portugal e adoraram. Depois disso, eles passaram a sair juntos,
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quase todas as noites hora indo comer uma pizza, ora vendo um Show de um artista famoso, ora jantando na casa de Olga ou na de Aline.
Desde a primeira noite em que saram juntos, Rodrigo no fez cerimnia, ficou o tempo todo ao lado de Olvia, danara s com ela e Hamilton, como bom cavalheiro, 
danava com as outras duas.
Mas era com Arete que ele se sentia emocionado. O perfume que vinha dela o deixava atordoado ele a apertava de encontro ao peito sem perceber.
Havia momentos em que lhe era difcil controlar a vontade de beij-la e ele fechava os olhos, tentando no olhar para sua boca bonita.
Arete sentia que ela o atraa e no entendia porque ele resistia tanto. Do que teria medo?
A ss com Aline ela abria o corao ao que a irm respondia:
- Tenha pacincia. Ele est entregando os pontos. D para notar o esforo que faz para conter-se. Vai chegar um momento em que ele no poder mais segurar.
- Ser?
- Voc vai ver.
-  Falta uma semana para voc ir embora. Se ele agentar at l, penso que no estaremos tanto tempo juntos como agora e tudo voltar a ser como antes.
-  Depois do que observamos nesses dias, nada voltar a ser como antes. Pode esperar.
- Voc fala, mas eu no tenho o mesmo otimismo. Aline riu bem humorada:
- Voc parece uma adolescente apaixonada. Est na hora de eu fazer alguma coisa.
- Voc no pode me criticar. Nunca vi voc fazer com Marcelo o que faz com Gino. Nem se importam de gastar tanto dinheiro de telefone.
- Est certo. Reconheo que com Gino  diferente. Nunca senti por homem nenhum o que sinto por ele.
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 um deslumbramento, uma emoo viva, uma euforia! Quando estamos juntos, o tempo voa. s vezes penso que como ele  muito arrebatado, eu esteja me deixando levar 
pelas energias dele.
- No  s isso.  que agora voc encontrou um amor de verdade. Sempre pensei que voc nunca amou Marcelo.
- Talvez.
- Eu j me apaixonei duas vezes. Uma na adolescncia e outra pouco depois. Mas nunca senti por nenhum dos dois o que sinto pelo Hamilton.  um carinho, um sentimento 
bom que me faz bem.
- Amanh  noite combinamos de sair para danar. J sei o que fazer.
- O qu?
- Deixe comigo.
Na noite seguinte quando Hamilton chegou para busc-las, Aline no estava pronta. Nariz vermelho, olhos lacrimejando apareceu na sala onde Arete e Hamilton a esperavam.
- O que aconteceu?
- indagou ele.
- Estou resfriada... a cabea di, sinto arrepios, acho que estou com febre. Hoje no vou poder sair com vocs.
- Nesse caso no vamos
- disse Arete.
- Nada disso. Rodrigo j deve ter ido buscar Olvia, vocs esto prontos e eu me sentirei culpada se por minha causa vocs ficarem em casa. Estou tomando bastante 
remdio, amanh j estarei boa e poderei sair com vocs.
Arete estava hesitante, mas Aline insistiu, Hamilton tambm e ela concordou. Saram.
No carro, Hamilton olhava Arete procurando controlar a admirao. Ela estava com um vestido vermelho escuro, um decote generoso que deixava a mostra seu colo bonito, 
os cabelos ligeiramente ondulados soltos nos ombros eram a moldura perfeita para seu
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rosto expressivo onde os grandes olhos castanhos e a boca carnuda eram destaque.
Alm disso, havia o perfume delicioso que vinha dela e Hamilton aspirava-o com prazer.
Arete notou que ele estava perturbado pela sua presena e fixando-o perguntou de repente:
- Por que voc controla tanto o que sente?
- O qu?
Ela repetiu a pergunta e desta vez ele entendeu:
- Porque no me deixo levar com facilidade pelas emoes. Um homem precisa ter domnio sobre si mesmo.
Arete aproximou mais seu rosto do dele dizendo baixinho:
- Pois eu no. Quando sinto uma emoo agradvel deixo fluir. Por que no faz o mesmo?
Ela o olhava com os lbios entreabertos, olhos que deixavam transparecer seu carinho e ele no conseguiu dominar-se.
Colou seus lbios ao dela em um longo beijo em que ambos extravasaram o que sentiam. Com o corao batendo descompassado, eles continuaram se beijando num crescendo 
de euforia e prazer.
Quando serenaram um pouco, Hamilton disse com voz um tanto rouca de emoo:
- O que voc est fazendo comigo? Eu sempre soube me controlar.
-Voc no gostou da experincia?
- perguntou ela desafiadora.
Como resposta, ele a beijou novamente repetidas vezes. Depois permaneceram abraados em silncio, cada um imerso em seus pensamentos.
Arete rompeu o silncio:
- Por que voc resistiu tanto?
Ele suspirou e respondeu:
- Eu suspeitava que com voc eu corria o risco de me envolver profundamente. Desde que a vi senti forte atrao.
- Aconteceu o mesmo comigo.
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- Eu sa de um relacionamento doloroso em que sofri uma desiluso terrvel. No queria passar pela mesma coisa de novo.
Arete alisou o rosto dele com carinho:
- Quem lhe garante que acontecer o mesmo agora?
- Eu fui trado por uma pessoa em quem confiava a ponto de querer me casar. Ela ia se casar comigo estando apaixonada por outro. Foi terrvel!
- Mas  uma situao muito diferente: eu estou apaixonada por voc!
Ele beijou-a novamente vrias vezes. Depois perguntou:
- Voc ainda quer ir ao encontro de Rodrigo e de Olvia? Arete sorriu e respondeu:
- No. Prefiro ficar aqui com voc. Tenho impresso que Rodrigo vai nos agradecer.
- Eu tambm. E Olvia?
- Tambm.
Atrs da janela do quarto, Aline espiava e vendo que o carro continuava parado em frente da casa sorriu satisfeita.
293
XXII

Rodrigo foi buscar Olvia para irem ao encontro dos amigos conforme o combinado. Quando ela surgiu, ele conteve a respirao. Ela estava com um vestido de seda verde 
garrafa que tornavam mais verdes seus olhos e ressaltavam o castanho dourado de seus cabelos.
A custo ele conteve a admirao. Durante o trajeto, conversaram sobre assuntos banais e por fim Olvia tornou:
- Aline est doente e no ir encontrar-se conosco esta noite. Mas Arete e Hamilton iro.
- O que ela tem?
-  Um forte resfriado. Espero que amanh esteja melhor. Combinamos de sair. Ela quer comprar alguns presentes para levar aos amigos.
- Soube que ela est namorando.
- Est e parece muito apaixonada. Arete comentou que ela nunca sentiu pelo marido o que sente pelo Gino.
- Acredito que ela nunca tenha amado o marido, seno no o teria deixado.
- Ficou aborrecido por saber que ela est gostando de outro? Voc era muito amigo dele.
- Se fosse em outros tempos talvez ficasse, mas hoje, no. Quando Marcelo a conheceu, interessou-se
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a tal ponto que sua vida passou a girar em torno dela. Foi to insistente que conseguiu casar, mas ela no se sentia feliz a seu lado.
- Por qu?
- Marcelo era muito apegado, ficava em volta dela mesmo durante o dia, telefonava, controlava tudo quanto ela fazia. Isso passou a incomod-la e acabou matando o 
interesse dela, que desejou libertar-se dessa fixao.
- Voc no est sendo nada gentil com seu amigo.
-  que ele exagerava e isso no d certo com ningum. Quando voc ama, no pode sufocar a pessoa amada, nem absorver at seus pensamentos sem que ela tenha liberdade 
para escolher o que deseja. Ela cansou e o deixou.
- Agora entendo. Aline sempre comenta que aprecia o Gino porque ele no interfere em seus gostos, nem tolhe sua liberdade. Ela cita isso como uma grande qualidade 
que ele tem e afirma que  por isso que, a cada dia, sente-se mais feliz a seu lado.
- Eu tambm no gostaria de viver ao lado de uma mulher que se colasse em mim, estivesse sempre em volta sem dar-me a liberdade de ser eu mesmo.
- Eu sei como  isso. Eu fui muito vigiada e controlada pelo meu padrasto e acabei fugindo de casa. Ningum agenta uma coisa dessas.
- Talvez seja por isso que voc diz que no deseja se casar. Mas a bem da verdade devo dizer que nem todos os homens so assim. Eu, por exemplo, respeito a individualidade 
das pessoas. O dia em que eu me relacionar seriamente com algum, vou permitir que ela seja o que , e desejar que faa o mesmo comigo. Sem isso um relacionamento 
no se mantm.
- Voc est solteiro e pelo visto tambm no deseja se casar.
- A  que voc se engana. Um dia, se encontrar a mulher que eu quero, pretendo me casar e ter filhos. Uma famlia pode ser a coisa melhor do mundo.
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Olvia lembrou-se dos momentos em que seu pai ainda era vivo e sentiu saudades.
- Depende da famlia - comentou - Enquanto meu pai viveu conosco, fomos muito felizes. Tivemos momentos de alegria e prazer. Mas depois que ele se foi e minha me 
casou de novo, comeou meu tormento.
- Minha famlia mora no interior e eu sinto muitas saudades. Mas eles no querem vir para ca.
Eles chegaram no restaurante, desceram, entraram e olharam em volta. Arete e Hamilton no haviam chegado.
- Desta vez chegamos primeiro, eu vou cobrar -
comentou Rodrigo.
O meutre aproximou-se, ele pediu a mesa e se acomodaram. O lugar era de classe, havia arranjos de flores frescas sobre as mesas e a msica era agradvel.
Pediram um aperitivo e resolveram esperar os amigos para pedirem o jantar. O conjunto tocava um blues e Rodrigo convidou Olvia para danar.
Sentindo a proximidade dela, ele se emocionou Nunca antes sentira tanta atrao por uma mulher. Olvia notara o interesse dele, mas fingia no perceber.
O tempo passava e Hamilton e Arete no chegavam-
Enquanto esperavam eles foram tomando os aperitivos e se entusiasmando com as msicas. Danavam todas-
Por fim Rodrigo sugeriu:
- Vamos pedir o jantar. Acho que eles no viro.
-  melhor mesmo. Estou me sentindo um tanto area-Sentaram-se, ele fez o pedido, ento comeou a
tocar um samba e Olvia pegou Rodrigo pela mo:
- Vamos danar, essa no d para perder. Empolgados, danaram at o fim. Olvia estava feliz. Esquecera de suas mgoas e para ela s havia aquele
momento de alegria.
Enquanto danavam seus olhos brilhavam radiantes e seus lbios entreabriam-se em um sorriso. Rodrigo no se conteve, apertou-a de encontro ao peito e encostou os 
lbios em seus cabelos.
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Ela no se afastou e quando comearam a tocar um bolero, eles continuaram danando de rosto colado sentindo o prazer da proximidade e um sentimento doce no corao.
Foi natural o beijo que Rodrigo depositou nos lbios dela e ela correspondeu. Rodrigo sentiu seu amor crescer diante da possibilidade de ser correspondido e disse 
baixinho em seu ouvido:
-  Eu a amoOlvia. Voc  a mulher que eu quero para ser minha companheira por toda vida.
Ela afastou-se um pouco, olhando-o fixamente como que querendo ler nos olhos dele se era verdade.
- Vamos nos sentar
- disse ela separando-se dele e dirigindo-se  mesa.
Rodrigo acompanhou-a, puxando a cadeira para que ela se acomodasse. Depois sentou-se.
Naquele instante, o garom trouxe o jantar e colocou na mesa auxiliar, apanhando o prato dela para servir.
Os dois ficaram em silncio, esperando que ele se afastasse. Rodrigo olhava-a tentando descobrir porque ela reagira daquela forma.
Estava mexido, sensibilizado pela emoo que aquele beijo provocara.
- Olvia, o que foi, voc se zangou?
- No quero falar nisso agora.
- Est bem. Vamos comer.
Rodrigo gostava de ser direto, sentia-se inquieto, era-lhe difcil esperar que ela falasse no assunto. Mas procurou serenar suas emoes. No estava habituado a 
descontrolar-se tanto.
Eles comeram em silncio, no quiseram sobremesa e Rodrigo tomou um caf.
- Vamos embora
- pediu Olvia.
- Est bem.
Depois de pagar a conta, eles foram para o carro. Uma vez l, sentados um ao lado do outro, Rodrigo no se conteve. Segurou a mo dela dizendo:
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- Olvia. Quero saber o que voc sente por mim. Estou muito emocionado. Tenho por voc um sentimento muito forte, profundo e receio que no esteja sendo correspondido. 
Preciso saber. No posso continuar nessa dvida que est me atormentando.
Olvia levantou o rosto e seus olhos estavam cheios de lgrimas.
- Voc est chorando! O que aconteceu?
- Eu sinto muito.
-  isso, voc no me quer.
- No. Estou confusa, triste, sem saber o que fazer.
- Olvia! Eu a amo. Desejo que seja feliz. Se voc no corresponde a meu afeto, no a recriminarei. Ningum pode forar o corao. Diga a verdade.
O tom com o qual ele disse isso, o carinho que ela viu em seus olhos, fez com que ela chorasse ainda mais.
Sem saber porque ela soluava, ele a abraou, tentando confort-la e esperou que a crise serenasse. Quando ela se calou, ele alisou seus cabelos e pediu:
- Fale, Olvia, conte o que est machucando seu corao.
Ela no resistiu. Contou tudo o que lhe acontecera na adolescncia e finalizou:
- Rodrigo, eu no posso amar. Carrego comigo um ressentimento muito grande e no seria uma boa mulher para voc.
Ele tirou o leno e enxugou os olhos dela depois respondeu:
- Para mim s uma coisa importa: Voc no sente nada por mim?
-  Eu amei voc desde o primeiro dia. Mas reagi. No queria sofrer e tentei por todas as formas arrancar esse sentimento do meu corao, mas no consegui.
-   isso que eu queria saber. Para mim nada mais importa.
- Importa sim. As feridas do passado ainda doem dentro de mim.
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Rodrigo beijou seus olhos, o rosto, a boca e por fim respondeu:
- Eu a ajudarei a esquecer tudo isso. Juntos vamos ser felizes.
- Tem certeza de que  isso o que quer?
- Tenho. Voc  a mulher da minha vida. Trocaram longos beijos, depois abraados, ele ligou o carro e levou-a para casa.
Olvia entrou em casa emocionada, em seu corao havia uma alegria que h muito no sentia. Ao dividir com ele suas preocupaes quanto ao passado, encontrou como 
resposta amor, compreenso, alvio e bem estar.
Sentiu que para ela se abria uma chance de felicidade que no ousara esperar.
A casa estava s escuras e Olvia foi para o quarto, deitou-se, mas no dormiu logo. Recordou-se dos beijos que haviam trocado, reviveu todos os momentos daquela 
noite mgica onde tudo conspirara para que se entendessem at que vencida pelo cansao finalmente adormeceu.
Na manh seguinte, levantou-se bem disposta. Rosto corado, sorriso fcil. Na mesa do caf, Olga vendo-a, percebeu a mudana e comentou:
- Como voc est radiosa! H muito tempo no a via assim. Voc est linda!
Sem poder conter-se, Olvia contou tudo com tal calor que ao final Olga comentou:
- Que ele estava apaixonado, eu notei, mas eu temia que voc no correspondesse.
- Por qu?
- Considero Rodrigo um excelente rapaz e gostaria de t-lo como genro. Mas como voc nunca se interessou por ningum, sempre avessa ao namoro, temia que o recusasse. 
Mas eu estava enganada.
- Estava. Eu gostei dele desde o primeiro dia, mas o passado me atormentava. Eu temia que quando lhe contasse a verdade, ele no me quisesse. Por isso procurava 
no me iludir.
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- Voc foi uma vtima. Qualquer pessoa de bom senso entenderia.
- Ele foi maravilhoso. Carinhoso, amigo,
Olga levantou-se, beijou o rosto da filha com carinho
- Voc merece, minha filha.
Depois do caf, Olvia ligou para Aline para saber de sua sade. O fato de Arete no ter ido ao encontro a fez pensar que ela poderia ter piorado.
Aline a atendeu com satisfao e respondeu:
- Eu nunca estive to bem.
- Como assim, voc no estava doente?
- Nunca estive. Eu s queria dar uma mozinha para
Arete e Hamilton.
Em poucas palavras ela contou o bom resultado que haviam obtido. Olvia ouviu tudo e quando ela terminou disse:
- Ento foi isso. Voc quis ajudar Arete e sem querer ajudou tambm a mim.
- Como assim?
- Eu e Rodrigo fomos ao restaurante, esperamos Arete e Hamilton para jantar, enquanto isso fomos tomando aperitivos, danando sem parar. Ficamos alegres e ento, 
nos beijamos. Foi uma noite mgica. Estamos namorando.
- Que coisa boa! Eu sabia que Rodrigo estava apaixonado e pressenti que era correspondido. Vocs ficam to bem juntos, entendem-se, h uma forte afinidade entre 
os dois. Isso vai dar certo.
-Vai. Eu contei a ele sobre o passado e recebi muito carinho. Estou feliz.
- Fico contente em saber. Agora estou me aprontando para ir ao escritrio. Tenho que levar alguns documentos assinados. Quer ir comigo?
-Acha que no vou incomodar?  um lugar de trabalho.
- Estou certa que no. Voc vem para c, e iremos juntas busc-los para o almoo. Ser uma alegre surpresa, voc ver.
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- Est bem. Dentro de meia hora estarei a.
As duas despediram-se e Olvia foi para o quarto retocar a maquilagem. Pegou o carro, apanhou Aline e foram para o escritrio.
L chegando, deixaram o carro em um estacionamento prximo e saram caminhando pela calada at o prdio do escritrio.
Nessa hora Olvia ouviu uma voz chamar:
- Olvia!  voc?
Elas olharam e Mrcio estava parado na frente delas. Foi ento que ele notou Aline, perdeu o jeito, empalideceu. Olvia respondeu sorrindo:
- Mrcio?
Ele olhava-as estupefacto sem saber o que dizer. Aline notou e tentou quebrar o gelo:
- Como vai, Mrcio?
Ainda chocado ele balbuciou:
- Bem. Eu no sabia que voc tinha voltado. Sua me no me contou.
Ele estava embaraado e tentou fingir que no vira Aline. No podia entender como as duas poderiam estar juntas.
Aline pensou que ele houvesse se referido  Dalva e perguntou:
- Voc foi falar com minha me?
- No estou falando com voc. Estou me referindo a Dona Olga.
- Mas foi bom termos nos encontrado
- tornou Aline olhando firme nos olhos dele
- Eu queria mesmo conversar com voc e com seus pais.
- Para que? Ns no temos nada a dizer um ao outro. O que voc fez no tem perdo. Meu irmo morreu por sua causa. E,  melhor no ir falar com meus pais, eles no 
iro receb-la.
Olvia interveio:
- Vocs precisam dar chance de Aline se explicar. No podem julgar os fatos sem ouvi-la.
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- Voc parece estar do lado dela, sabe-se l a histria que lhe contaram. A verdade  que ela matou meu irmo.
Os olhos dele brilharam rancorosos e Aline sentiu um arrepio desagradvel percorrer seu corpo.
- Vou entrar, Olvia. Espero-a l dentro.
- Irei com voc. Olha, Mrcio, voc est sendo injusto. Foi um acidente. Agora preciso ir. Outra hora conversaremos. Fao questo de voltar ao assunto.
Ela seguiu Aline que havia entrado no prdio e Mrcio ficou olhando-a desaparecer sentindo renascer o dio que guardava no corao.
Ele precisava descobrir porque as duas estavam juntas. O que teria acontecido? Certamente estavam indo  empresa da qual ele se considerava espoliado.
Precisava descobrir tudo. Distanciou-se, procurou um lugar onde ningum o visse e decidiu esperar.
Meia hora depois ele viu Aline ao lado de Arete que estava de mos dadas com Hamilton. Mais atrs, Olvia de brao com Rodrigo.
Ele sentiu seu dio aumentar. No queria ser visto. Entrou na farmcia prxima e escondeu-se atrs da coluna. Viu quando o grupo passou pela porta da farmcia, Rodrigo 
e Olvia trocando olhares amorosos. Notou que ele beijara os cabelos dela revelando certa intimidade que o fez sentir-se mais amargurado.
Rodrigo estava se revelando pior do que a prpria Aline. Por isso estavam se entendendo bem. Alm de se derreter com a famlia daquela assassina ainda lhe roubara 
o amor de Olvia.
Por que Rodrigo tinha que vencer em tudo enquanto ele era o perdedor? No podia se conformar. Queria saber mais. Comeou a segui-los a distncia e cada vez percebia 
mais o romance entre Olvia e Rodrigo.
Isso no podia ficar assim. Desde que Olvia fora embora, de tempos em tempos ele passava diante da casa dela na esperana de v-la de volta.
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Quando ela estava fora, de vez em quando ligava para casa de Olvia pedindo notcias. Ficou sabendo da morte de Gilberto, foi ao enterro na esperana de que ela 
estivesse.
Quando ela teria chegado? Desde quando estaria se relacionando com Rodrigo? Ele havia deixado vrios recados, pedindo que quando chegasse lhe ligasse, mas ela no 
o fizera.
O culpado era Rodrigo que se interpusera entre os dois. Eles entraram no restaurante e Mrcio continuou observando-os discretamente.
Eles conversavam, riam felizes, esquecidos da morte de Marcelo, do sofrimento de seus pais como se nunca houvesse acontecido nada.
Era revoltante. Olvia debruava-se sobre Rodrigo, olhos brilhantes de amor e se derretia cheia de amabilidades com Aline.
Mrcio sentia a boca amarga, o estmago queimando. Ele no podia permitir que isso continuasse. Seu irmo estava morto, no podia se defender, mas ele estava ali, 
vendo tudo e haveria de encontrar uma forma deles pagarem pela maldade.
Eles terminaram de almoar, saram e foram caminhando devagar at o prdio do escritrio. Entraram e Mrcio continuou esperando do lado de fora.
Demorasse o quanto demorasse, ele no podia sair dali. Tinha de saber o que estava acontecendo. Como Olvia fora relacionar-se com Aline e Rodrigo.
Meia hora depois, rindo e conversando, Olvia e Aline saram do prdio e caminharam at o estacionamento. Apanharam o carro e se foram.
S depois disso  que Mrcio foi para casa. Vendo-o entrar Ivone notou logo que ele estava transtornado:
- Voc demorou para vir almoar. Eu estava preocupada. Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara...
- Aconteceu sim. Aquela assassina est de volta.
- Isso no  novidade.
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-  Nos encontramos na rua. Lembra-se de Olvia, aquela moa que conheci no terreiro de pai Jos?
- Aquela que voc estava querendo namorar e viver?
- Essa mesma. Ela voltou, estava com Aline e o que  pior, pendurada no brao de Rodrigo que estava todo derretido e amvel.
- Eu sabia que aquela histria de Rodrigo gostar de ns e s aceitar Arete na empresa, porque ela estava representando a irm, era uma tremenda de uma mentira. 
Ele quis  ficar do lado deles. Ns fizemos bem em cortar relaes com ele. Ele j conhecia Olvia antes dela ir viajar?
- No.
- Como  que estavam juntos ento?
- Isso eu tambm gostaria de saber. Alm de entregar os bens de Marcelo a Aline, agora Rodrigo roubou a nica garota que eu queria namorar. Desde que ela se foi 
eu esperava ansioso que voltasse. Como ele teve tempo de passar na minha frente?
- Pode ser que no estejam namorando.
-  Eu vi como eles se tratavam. Ela parecia muito interessada nele.
- Ela viu voc?
- Nos encontramos na rua. Eu no tinha percebido que era Aline quem estava com ela. Chamei Olvia e elas pararam, ento foi que vi Aline. Perdi o jeito.
- E ela?
- Cumprimentou-me, disse que h muito queria falar comigo para explicar tudo e que antes de ir embora iria procurar voc e o papai para conversar. Respondi que seria 
intil porque vocs no iriam receb-la.
- Pois eu gostaria muito de ficar frente a frente com ela e poder dizer-lhe tudo que tenho vontade.
- No foi o que pensei. Seja o que for que ela disser no vai trazer Marcelo de volta nem amenizar a dor que sentimos. Portanto,  melhor que ela no aparea.
- Voc precisa esfriar a cabea, ir procurar Olvia, conversar com ela. Pode ser que esteja enganado, que
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ela no tenha nada com Rodrigo e esteja esperando que voc se declare.
- No creio. Ela nunca olhou para mim do jeito que olhava para ele. Mas mesmo assim, no me dou por vencido. Irei procur-la, afinal, somos amigos, Olvia sempre 
me tratou muito bem. No h razo para eu me manter distante. Ela pediu que a procurasse.
- Assim  que se fala. Se quer conquistar essa garota, precisa lutar. Voc  um moo bonito, cheio de qualidades, formado, bem empregado. No perde nada para aquele 
traidor do Rodrigo.
-  o que farei. Agora quero almoar rpido porque estou em cima da hora para voltar ao escritrio.
Imediatamente Ivone apressou-se a servir o almoo ao filho que enquanto comia no conseguia esquecer as cenas que presenciara momentos antes.

Naquela noite, reunida com Arete e os pais, Aline comentou o encontro que tivera com Mrcio e finalizou:
- Apesar dele haver dito que seus pais no querem me ver, sinto vontade de tentar conversar com eles.
-  Para que? - indagou Dalva - Eles no querem ouvir. Tudo o que voc disser no vai adiantar.
-  perda de tempo
- comentou Mrio.
- Mesmo assim, gostaria de tentar. Eu me sentiria melhor se eles entendessem porque eu fui embora.
- Voc disse que a atitude de Mrcio foi agressiva, prova de que eles continuam com raiva de todos ns
-comentou Arete
- Alm de perder tempo voc vai se aborrecer ainda mais.
Aline calou-se. Mrcio sempre fora muito ligado a Marcelo e carinhoso com ela. Naquela tarde quando se encontraram, notou logo sua expresso triste, seu olhar rancoroso, 
muito diferente do menino que ela conhecera dcil e de expresso leve.
Estava claro o quanto ele sofrera com a morte do irmo e o quanto se atormentava acreditando que ela fosse culpada.
Apesar da atitude raivosa dele, ela sentia-se penalizada. A tragdia inesperada, fizera-o perder a paz e
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afundar na amargura, no dio, o que poderia ter conseqncias desastrosas.
Ao analisar os fatos, Mrcio ao invs de procurar saber a verdade, entrara no julgamento, atirando a culpa da morte do irmo sobre ela, o que no era verdade.
A princpio, ela tambm se sentira um tanto culpada e conversara sobre isso com o Doutor Morris, seu orientador espiritual no Instituto Ferguson. Ao que ele respondera:
- Voc no tem culpa de nada. Foi seu marido quem provocou os fatos que o vitimaram. Primeiro, por agarrar-se a voc, sufocando-a, o que provocou uma reao que 
considero saudvel de libertar-se. Era um direito seu.
- Mas ele no entendeu.
-Voc se libertou. O desespero dele em correr atrs de voc para impedi-la de embarcar denota o medo que ele sentia de perder a muleta. Tanto que pretendia ficar 
a seu lado at depois de morto.
- Mas o acidente ocorreu por que eu o deixei.
- No, Aline. O acidente ocorreu porque ele estava com tanto medo que acabou provocando o acidente. Sossegue seu corao. Voc no tem culpa de nada. Ele fez tudo 
sozinho.
Pensando melhor, Aline concordou e, desde ento, analisando as atitudes de Marcelo durante o noivado, o casamento, ela percebeu que, de fato, o fracasso de seu casamento 
se devia a ele, por causa de seu apego.
Quanto mais pensava mais percebia o quanto as atitudes do marido a incomodavam. Ela era uma pessoa livre, cheia de idias, mas ele apesar de parecer amigo, s aceitava 
as idias que a mantivessem colada a ele.
Sentia vontade de conversar com Mrcio, com os pais de Marcelo, mas do jeito que eles estavam, como faz-los enxergar a verdade?
Seria melhor esperar que o tempo passasse e um dia ela pudesse encontr-los melhor.
Faltavam cinco dias para Aline voltar a Miami, ela comprara presentes para os amigos e alguns especiais para Gino.
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Havia contado aos pais que estava namorando, mas no lhes disse que era srio para no preocup-los. Eles no estavam preparados ainda para v-la em outro casamento.
Mas para Arete, ela confidenciava que estava muito apaixonada pelo Gino e pretendia passar o resto da vida ao lado dele.
Mrcio, no dia seguinte do encontro com Olvia e os amigos, ligou para ela que o atendeu alegre. Depois dos cumprimentos ele tornou:
- Eu gostaria de conversar com voc.
- timo. Venha tomar um ch conosco esta tarde.
- A que horas?
- A hora que quiser. Estarei esperando.
Ele desligou e cuidou de se arrumar muito bem. Havia comprado um carro novo e isso o fez sentir-se melhor. No foi trabalhar depois do almoo e, antes das quatro, 
estava tocando a campainha da casa de Olvia.
Ela o recebeu com carinho e conduziu-o para dentro onde Olga o cumprimentou educadamente, acompanhou-os  sala de estar e depois de conversar durante alguns minutos, 
deixou-os sozinhos.
Sentados um ao lado do outro no sof, Mrcio comentou:
- Desculpe. Ontem, eu fiquei desconcertado quando a vi com Aline. Nunca imaginei que vocs se conhecessem.
- Nos conhecemos em Miami. Fui morar pegado a casa dela e ficamos amigas. Viajamos juntas para o Brasil. Ela vai voltar para Miami dentro de mais alguns dias.
- Voc fica, no ?
- Sim. Eu fui embora porque no me dava bem com meu padrasto. Voc sabe. Mas ele no est mais aqui. Voltei porque no quis deixar minha me sozinha, eu estava com 
muitas saudades.
-  Eu tambm. Enquanto voc esteve fora, eu de vez em quando vinha aqui saber notcias. Senti muito a sua falta.
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- Eu precisava ir embora e foi muito bom. Aprendi a viver sozinha, trabalhei para me manter. Foi uma experincia muito positiva.
Mrcio calou-se durante alguns segundos, hesitou um pouco e depois perguntou:
- Voc conhece Rodrigo h muito tempo?
- Desde que voltei ao Brasil. Aline me apresentou.
- Ele foi scio de meu irmo.
- Eu sei. Ele me contou.
- Talvez ele no lhe tenha contado que depois da morte de Marcelo, minha famlia e eu rompemos com ele.
- No. Ele no disse nada.
- Eu pensei que ele houvesse contado a histria a seu modo.
-  Ele jamais faria isso. Depois, a vida dos outros no nos diz respeito.
- Ele agiu mal conosco. Era como irmo de Marcelo, depois que ele morreu, virou para o lado dos nossos inimigos. Aproximou-se de Arete, freqenta a casa dos pais 
de Aline,  todo amvel com eles e nunca se interessou em nos ajudar a recuperar a herana de meu irmo.
Olvia no se conteve:
-Vamos mudar de assunto. No gosto que fale mal de Rodrigo que no est aqui para se defender.
- Voc o defende. Bem que eu notei que vocs estavam muito ligados.
- Ns estamos namorando.
Mrcio empalideceu e perguntou:
- Voc dizia que no queria se casar, agora mudou de idia?
- Mrcio, eu o aprecio, voc me ajudou em um tempo em que eu estava sofrendo muito, foi meu amigo, mas isso no lhe d o direito de investigar minha vida ou comentar 
minhas decises.
Mrcio mordeu os lbios e conteve o mpeto que sentia de gritar sua raiva, sua decepo.
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-  Desculpe. Eu esperava ansiosamente sua volta imaginando que quando voltasse, ns pudssemos reatar nossa amizade.
- Nada impede que continuemos amigos.
- Mas eu esperava muito mais.
- Sinto muito. Eu s posso oferecer amizade.
- A culpa  de Rodrigo. Se ele no houvesse atravessado em meu caminho, voc aceitaria meu amor.
- Voc est sendo injusto. Ele sequer sabia que nos conhecamos.
- Voc ainda o defende. No posso entender. Olvia colocou sua mo sobre a dele dizendo com carinho:
- Eu gosto de voc, Mrcio. Mas amor  um sentimento que nasce espontneo e que no se pode forar. O que sinto por voc  gratido, amizade. Apenas isso. Ningum 
tem culpa. Essas coisas acontecem.
Mrcio baixou a cabea tentando dissimular a raiva. Como ela podia ser to ingrata? Ele ficara noites sem dormir imaginando o reencontro quando ela voltasse. Idealizando 
cenas de amor, onde ambos se entregavam  paixo.
Ele tinha isso como certo. No podia aceitar que estivera enganado esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo sentiu que seria melhor no discutir. Respondeu com voz que 
procurou tornar calma:
- Lamento que voc no me ame. Tenho por voc um sentimento verdadeiro e sincero. Mas como voc mesma diz, no se pode forar o amor.
Olvia sentiu-se aliviada, estendeu a mo e props:
- Amigos?
- Amigos - respondeu ele apertando a mo que ela lhe oferecia.
Depois ele mudou de assunto, perguntando sobre a vida em Miami, as experincias que ela tivera e contou que havia sido promovido no trabalho e comprara um carro 
zero.
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Olga chamou-os para o ch e a conversa generalizou-se. Passava das seis quando Mrcio deixou a casa de Olvia.
Estava amargurado, triste, decepcionado. No podia aceitar aquela situao sem fazer nada. Precisava tirar Rodrigo do seu caminho. Mas como?
Pensou no terreiro de pai Jos, mas ele no conseguira cumprir o que prometera. Havia gastado o dinheiro, ainda estava pagando o emprstimo da tia e tanto Arete 
como Rodrigo continuavam bem, nada lhes havia acontecido.
Pelo visto, pai Jos no tinha fora nenhuma. Ele precisava arranjar um lugar mais forte, que funcionasse de fato. Mas onde?
Naquele momento, dois vultos escuros o envolveram, ele no viu, mas sentiu alguns arrepios.
Um deles disse-lhe ao ouvido:
- No se preocupe. Ns vamos ajud-lo a encontrar o lugar certo.
- Isso mesmo - comentou o outro - Ns conhecemos um lugar que funciona.
- Estou certo que vou encontrar - pensou Mrcio.
- Vai mesmo. Vamos ajudar.
Os dois vultos escuros riram satisfeitos. H muito eles esperavam a chance de envolv-lo sem conseguir. Agora o prprio Mrcio favorecera essa oportunidade.
Ele chegou em casa pensando no assunto. Ivone, vendo-o notou logo que no estava bem.
- O que foi? Voc parece aborrecido.
- E estou mesmo. Fui visitar Olvia e fiquei decepcionado. Ela e Rodrigo esto namorando.
-  verdade mesmo?
- . Eu falei das minhas intenes e ela delicadamente respondeu que o que sente por mim  apenas amizade. No posso aceitar isso. Eu gosto dela demais.
- O que pensa fazer?
- No sei... Pensei ir ao terreiro de pai Jos, mas...
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- Isso no funcionou para ns. Gastamos dinheiro  toa, ele no fez nada.
- Isso mesmo. Mas no conheo nenhum outro lugar para ir.
- Pois eu sei. A Malvina me contou que a comadre dela descobriu que o marido a estava traindo. Foi a esse lugar, fez o trabalho, a outra passou mal, mudou at de 
cidade e o marido voltou para casa, de rabo entre as pernas, todo arrependido.  de um lugar assim que ns precisamos.
- Eu sabia que ia encontrar. Pede a ela o endereo. Vou at l o quanto antes.
Uma hora depois, Ivone entregou a ele um papel dizendo:
- Esse  o endereo.  uma mulher muito poderosa que tem um grupo que trabalha com ela. Disse que o preo no  caro.
Mrcio apanhou o papel, leu e disse:
- Vou l hoje mesmo. A que horas abre o centro?
- No  um centro. No tem hora certa. Voc telefona e combina a hora.
Mrcio foi direto ao telefone, ligou, a pessoa quis saber quem havia indicado, ele disse e depois ela marcou para dali  meia hora.
Os dois vultos escuros comemoraram satisfeitos. Mrcio estava nervoso, lavou o rosto para se acalmar, penteou os cabelos e procurou Ivone:
- Me, eu j vou.
- Cuidado, meu filho. Se ela quiser cobrar muito seu pai no vai querer dar o dinheiro e no teremos como pagar.
- Voc no disse que era barato?
- A Malvina disse, mas nunca se sabe. Chega de fazer dvidas.
- Pode deixar. Sei o que estou fazendo.
Uma vez no carro, consultou o papel, procurou no guia e depois de localizar, foi at l.
Vinte minutos depois estava diante da casa, que apesar de antiga estava bem cuidada.
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Tocou a campainha, foi atendido por uma moa morena:
- Quero falar com Dona Rosa. Meu nome  Mrcio. Ela est me esperando.
- Pode entrar.
Ele entrou. Foi conduzido at uma sala onde ela bateu delicadamente na porta antes de a abrir.
A sala estava na penumbra, havia no ar um cheiro de ervas misturado a um de perfume forte. Nas paredes, quadros de grficos diferenciados, um console com imagens 
de santos um rosrio pendurado em uma cruz de madeira, muitas velas coloridas e ao fundo uma mesa forrada com um pano vermelho, iluminada apenas por um abajur de 
luz tambm vermelha. Atrs da mesa uma mulher de meia idade o esperava, vestida com um manto bordado de pedrarias, tendo na cabea um turbante de veludo verde, possua 
o rosto oval, grandes olhos escuros e penetrantes.
Impressionado com o ambiente, Mrcio estava hesitante:
- Entre - pediu ela apontando uma cadeira em frente da mesa-sente-se.
Sua voz era grave e ele obedeceu. Ela continuou:
- No precisa me dizer nada. Eu sei tudo. Colocou na frente dele um baralho e pediu:
- Corte com a mo esquerda.
Ele obedeceu. Ela com as mos cheias de anisco-meou a dispor as cartas, fazendo tilintar as vrias pulseiras que tinha nos pulsos.
Depois olhou nos olhos de Mrcio e disse:
- Voc veio aqui por causa de uma mulher.
-  verdade.
- Voc a quer, mas ela gosta de outro.
- Isso mesmo. Esse outro est sempre no meu caminho.
- Eles querem se casar.
- Isso no! - protestou ele.
- Eles vo se casar. O destino deles est marcado. Melhor seria que voc desistisse de fazer o que deseja.
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- No posso! Ele era scio de meu irmo que morreu e amigo da famlia. Agora, virou nosso inimigo, no vai mais  nossa casa. E por ltimo roubou a mulher que eu 
amo.
Rosa estremeceu e sua mo deixou cair o mao de cartas que segurava. Seus olhos se fecharam, ela suspirou fundo, seu rosto transformou-se e sua voz estava mais grave 
quando disse:
-  Mrcio, h muito desejava falar com voc! Sou eu, Marcelo. Finalmente podemos conversar!
Mrcio empalideceu, comeou a tremer e balbuciou:
- No pode ser... Como ela sabe o nome dele?
- Ela no sabe. Sou eu, Marcelo, quem est falando com voc. No tenha medo. Oua o que preciso lhe dizer.
Mrcio tremia, mas ao mesmo tempo, em sua garganta brotou um soluo que ele no conseguiu conter:
- Voc sentiu minha falta, eu sei. Mas acredite: eu tambm sinto muitas saudades de voc, de nossos pais. Sei que voc no aceitou ainda a minha morte, mas acredite, 
eu tinha que passar tudo que passei. Eu tinha que morrer da forma como morri.
- Aline foi culpada
- disse Mrcio.
- No. Aline no teve culpa de nada. Vocs esto enganados. Ela precisava seguir o caminho dela e eu o meu. O nico responsvel pelo que me aconteceu fui eu. Eu 
errei e com isso programei a minha lio. Agora aprendi muito e sei que fui eu quem no soube lidar com Aline. Eu estava errado. Eu a sufoquei. Ela no agentou.
- No pode ser. Voc sempre foi muito bom para ela. Fez tudo para agrad-la. Ela foi ingrata.
- No, Mrcio. Aline estava certa. Eu no lhe dava paz nem liberdade para ela fazer o que veio para fazer. Eu estava tolhendo o caminho dela.
- Voc a amava.
- O que eu sentia por ela no era amor, era apego. E apego no faz bem a ningum. Ela se libertou e com isso eu tambm me libertei.
- Quer dizer que ela o ajudou?
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- Ela procurou o caminho dela e com isso eu encontrei o meu. Essa  a verdade. Por isso, estou aqui, falando com voc.
- Eu fiquei perdido sem voc.
- Eu assumo tambm essa culpa. Eu sempre resolvi seus problemas e no o ensinei a fazer isso sozinho. Quando eu vim embora, voc ficou perdido. Por isso estou aqui. 
Quero dizer que voc  uma pessoa de valor.
- No creio.
-   verdade. Voc est vendo os fatos de uma forma errada. Por isso tem tido tantos pensamentos de vingana, de rancor e isso pode lev-lo a muitos sofrimentos. 
Vim aqui para alert-lo, para contar-lhe a verdade e pedir que no julgue ningum. Voc  um rapaz de bons sentimentos e no pode se deixar envolver por esses pensamentos 
ruins.
Mrcio no suportou mais, os soluos brotaram fortes e ele chorou toda sua dor.
Rosa levantou-se e comeou a passar a mo sobre a cabea de Mrcio com carinho. Quando ele finalmente parou de chorar ela passou a mo pela testa dele e disse sorrindo:
- Ento, meu querido, est pronto para outra?
Mrcio no conteve a emoo. Esse era o gesto
que Marcelo sempre fazia dizendo a mesma frase sempre que ele tinha um problema e conversavam.
Mrcio sentiu que era ele mesmo quem estava ali, num verdadeiro milagre, conversando de novo com ele.
Sem conter-se, Mrcio levantou-se e abraou Rosa dizendo:
-  voc, Marcelo. Eu sei que  voc.
- Sou eu. Agora preciso fazer-lhe um pedido.
- Faa. Farei tudo que disser.
- Quero que deixe de lado esse rancor e v conversar com Aline. Diga-lhe que estou bem e que aqui encontrei a minha verdadeira felicidade. Que desejo que ela seja 
sempre muito feliz e que um dia ainda conversaremos novamente porque a vida continua depois da morte.
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- Quer mesmo que eu lhe diga isso?
- Quero e quero tambm que conte tudo que conversamos aos nossos pais. Eu gostaria muito que eles procurassem o Rodrigo e a famlia de Aline para desfazer esse mal 
entendido.
- No sei se vo aceitar.
- Vo sim. Conte tudo que eu disse.
- Mas o Rodrigo me roubou a mulher que eu amo.
-  Ela est no destino dele e no no seu. Tenha pacincia e espere porquanto vai aparecer a mulher que lhe est destinada e que o far muito feliz. Aceite a realidade 
e cuide melhor de si e fique em paz. No queira mudar os fatos da vida. Com isso voc pode estar impedindo a felicidade que a vida lhe reserva e mergulhar na dor. 
Prometa que far isso.
- Est bem. Voc disse, eu aceito. Vou fazer tudo como voc pediu.
- Esse  meu querido Mrcio que sempre continuar em meu corao. Saiba que apesar de no poder me ver, estarei sempre ao seu lado para lhe inspirar coisas boas 
para que possam faz-lo mais feliz. Diga a nossos pais que continuo vivo e amando-os como sempre. Agora preciso ir. Adeus.
Rosa estremeceu e teria cado se Mrcio no a segurasse. Ela passou a mo pela testa olhando em volta, depois deixou-se cair na cadeira assustada:
- O que aconteceu aqui?
- No se lembra?
- No. Perdi os sentidos. Como estava em p do seu lado?
-A senhora recebeu o esprito de meu irmo Marcelo, que conversou comigo. Muito obrigado. Nunca pensei que isso pudesse me acontecer.
- Meu Deus! Aconteceu de novo! Fazia tempo que eu no perdia os sentidos. Desculpe, vamos continuar.
-  No, senhora. Muito obrigado. J recebi muito mais do que vim procurar. Serei sempre muito grato  senhora por esta noite. Deus a abenoe.
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Ele levantou-se, perguntou quanto lhe devia ao que ela respondeu:
- No posso lhe cobrar nada. Pode ir em paz.
Ele saiu aliviado, eufrico querendo ir logo para casa contar aos pais o que havia acontecido.
L fora estavam os dois vultos escuros que quiseram aproximar-se dele, mas no conseguiram.
Um comentou:
- O que aconteceu com a Rosa? Por que tinha esses guardas na porta? Nunca vi uma coisa dessas, alm de no nos deixarem entrar, ainda nos jogaram longe.
- E agora nos impedem de seguir com ele. Reparou como ele estava com uma luz no peito?
- Eu vi.  melhor irmos embora. Desta vez no conseguimos nada. Com ele no quero lidar mais.
- Nem eu. Vamos embora.
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Mrcio entrou no carro eufrico. Tinha pressa de ir para casa contar a novidade aos pais. Sentia no peito uma alegria que nunca sentira depois da morte de Marcelo.
Ao entrar em casa encontrou os pais conversando na sala. Ivone levantou-se. Notou logo que ele estava diferente.
- Foi bom encontr-los juntos. Tenho uma novidade. -Vamos conversar na cozinha - disse Ivone - eu fiz
um bolo e quero que experimente.
- Depois, me. O recado que tenho  para os dois.
- Recado, de quem? - indagou Joo levantando os olhos do jornal.
- De Marcelo.
- O que h com voc, enlouqueceu? Ele est morto.
- No, pai. Eu conversei com ele.
- Como assim? - indagou Ivone.
- Vou lhes contar. Sente-se, me.
Ela obedeceu, Mrcio sentou-se tambm e comeou a falar, primeiro de sua revolta e dos motivos que o levaram a procurar Rosa.
Nesse momento os espritos de Marcelo e Mirela entraram e postaram-se ao lado de Mrcio que emocionado comeou a relatar o que havia conversado com o irmo.
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Marcelo ficou ao lado dos pais enquanto Mirela permanecia ao lado de Mrcio. Os dois vibravam luz para que aquelas pessoas pudessem perceber a verdade.
Na medida em que Mrcio falava seus pais se emocionavam e lgrimas rolavam de seus olhos. Eles sentiam uma saudade muito forte do filho querido.
Ouvindo seu recado, era como se ele estivesse ali, de novo para restabelecer a paz que eles haviam perdido desde a sua trgica morte.
Mrcio finalizou:
- Marcelo me deu provas de que era ele mesmo quem estava falando atravs daquela mulher. Falou seu nome, o de Aline, fez comigo uma brincadeira que costumava fazer 
desde quando eu era criana. Depois, eu senti que ele estava ali. Era ele, me! Eu sei que era ele!
Os trs emocionados se reuniram em um abrao e tanto Marcelo como Mirela se juntaram a eles. Permaneceram assim durante algum tempo.
Depois Joo disse srio:
- Temos que fazer o que ele pediu. Ns erramos e precisamos pedir desculpas a Rodrigo e a Aline.
- No sei como fazer isso. Ela pode no nos receber
- comentou Ivone.
- No creio. Quando nos encontramos, Aline disse que desejava conversar conosco. No parecia com raiva
- esclareceu Mrcio.
- Precisamos ver Aline antes que ela volte para os Estados Unidos
- comentou Joo.
- Amanh mesmo irei  casa dela para conversar e contar-lhe o que aconteceu - disse Mrcio.
- Faa isso, meu filho. Vamos ver como ela reage. Durante algum tempo eles continuaram conversando
e tanto Joo como Ivone no se cansavam de pedir para que Mrcio repetisse as palavras de Marcelo.
Na manh seguinte, Aline acordou cedo pensando no estranho sonho que tivera. Nele Marcelo aparecera, com um rosto um pouco diferente do que ele era, mas ela sabia 
que era ele. Estava de mos dadas com uma
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linda mulher, haviam conversado, porm Aline no se recordava sobre o que.
S poderia ter sido uma fantasia. Mas aquele encontro lhe parecera to real que durante todo o dia ela no conseguiu esquec-lo.
No fim da tarde o telefone tocou e ela atendeu.
- Aline? -Sim.
-  Mrcio. Aconteceu uma coisa e eu preciso conversar com voc. Posso passar em sua casa agora?
- Claro.
- Obrigado. Dentro de alguns minutos estarei a.
Aline desligou o telefone, admirada. O que teria
acontecido para faz-lo mudar tanto? Na vspera ele estava to zangado e agora se mostrara quase amvel. Dalva entrou na sala e perguntou:
- O que voc est fazendo a perto do telefone com essa cara de susto? Quem foi que ligou?
-  O Mrcio. Ele est vindo aqui para conversar comigo. Ontem ele parecia to zangado! Disse que aconteceu uma coisa. O que ser?
- Seja l o que for, deve ter sido alguma coisa boa. Para ele mudar...
- . Vamos esperar.
Quando a campainha tocou, Aline foi abrir. Percebeu que Mrcio estava acanhado, fingiu no perceber, sorriu:
- Entre, Mrcio.
Conduziu-o  sala, designou o sof para que ele se sentasse e depois sentou-se do lado dele.
Mrcio respirou para tomar coragem e comeou:
- Eu sofri muito com a morte de meu irmo. Fiquei revoltado. Ele era meu companheiro, meu amigo.
- Eu me lembro como vocs se queriam bem.
- Meus pais tambm sofreram muito. Ainda no se recuperaram dessa perda.
- Eu sei disso. Todos ns sofremos. Minha famlia tambm sentiu a morte dele.
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- Mas ns ficamos revoltados, colocamos a culpa em voc, ficamos com muita raiva at da sua famlia, mas ontem aconteceu um fato que mudou tudo isso.
- Fale, Mrcio, o que foi?
Ele estava comovido, respirou fundo e continuou:
- Voc precisa saber a verdade. Eu estava com muita raiva do Rodrigo porque descobri que ele e Olvia esto namorando. H algum tempo eu estou apaixonado por ela, 
esperando ansioso que ela voltasse. No me conformei com o namoro deles, principalmente por Rodrigo haver me roubado Olvia. Ento decidi ir a uma mulher para fazer 
um trabalho e separar os dois.
Ele se calou e Aline notou que estava com dificuldade de prosseguir:
- Continue.
- No  fcil fazer uma confisso destas. Mas estou disposto a dizer a verdade.
- No estou aqui para julgar voc. Fale sem receio.
- Obrigado. Deram-me um endereo ontem  noite e eu fui  procura dessa mulher.
Ento ele passou a relatar o encontro com o esprito de Marcelo. Aline ouvia com ateno e no conteve as lgrimas. Ele no omitiu nenhum detalhe e finalizou:
- Fiz o que ele me pediu, contei a meus pais, ns percebemos a injustia que estvamos fazendo com todos vocs. Estou aqui para pedir que nos perdoe. Voc no teve 
culpa de nada.
Aline levantou-se e abraou-o com carinho, depositando um beijo em sua testa:
- Abenoado seja o Marcelo por ter vindo contar a verdade. Eu fiquei muito triste com a atitude de vocs. Desde que cheguei eu estava pensando em procur-los para 
falar dos meus sentimentos. Meu amor pelo Marcelo acabou, mas ele no quis entender isso. Eu no podia continuar um relacionamento fingindo o que no sentia. Por 
isso fui embora. Tenho para com Marcelo um respeito muito grande e foi exatamente por isso que o deixei.
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Pensei que ele sofreria no comeo, mas que depois encontraria outra mulher que o amasse como merecia.
- O amor no se pode forar. Eu amo Olvia, estava disposto a lutar para conquist-la ainda que fosse por meios escusos, mas Marcelo fez-me compreender que eles 
estavam destinados um para o outro e eu precisava esquecer.
- Ele est certo. Os dois se atraram desde o dia em que se conheceram. Foi algo muito forte. Mesmo que voc conseguisse o que pretendia, no seria feliz com ela. 
A vida sabe o que faz. Seu destino  outro.
- Entendi isso. Mas  bom saber que voc no est com raiva de ns, pelo mal que lhe fizemos.
- No. Dentro de quatro dias estarei indo embora. Mas antes pretendo visitar seus pais, abra-los.
- V mesmo e ser muito bem recebida.
- Eu telefonarei avisando.
Mrcio levantou-se para despedir-se, mas parou porque Dalva entrou na sala trazendo uma bandeja. Tinha os olhos midos e notava que havia chorado. Colocou a bandeja 
sobre a mesinha e voltando-se para Mrcio tornou:
- Voc no vai embora antes de tomar um ch e comer um pedao daquele bolo que voc gostava tanto. Ontem quando eu o fiz, pensei muito em voc.
- Obrigado Dona Dalva. Eu aceito.
Dalva o serviu, Aline quis uma xcara de ch e eles falaram de outros assuntos. O ambiente tornara-se leve e agradvel.
Depois que Mrcio se foi, Aline comentou:
- Me, eu havia lhe falado sobre o que tenho aprendido sobre espiritualidade e vida aps a morte. Vocs ouviram, mas tinham suas dvidas. Depois do que aconteceu 
hoje, penso que elas acabaram.
- Eu estava na sala ao lado e ouvi tudo que conversaram. Fiquei arrepiada. Nunca pensei que o esprito de Marcelo voltasse para nos defender. Eu pensava que
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se ele estivesse mesmo vivo no outro mundo, estaria com raiva de todos ns. Mas no. Ele no s nos defendeu como justificou seus motivos.
-  Uma frase dele deixou-me aliviada: "O que eu sentia por ela no era amor, era apego. Ela se libertou e com isso eu tambm me libertei". Ele descreveu o que eu 
sempre senti, mas no sabia explicar.
- Estou feliz que seja assim. Por que voc no volta definitivamente para casa? Agora tudo est bem.
-  No, me. Eu gosto da minha vida em Miami, quero viver l um pouco mais. Porm tenho certeza de que algum dia voltarei para ficar.
- Esperaremos voc de braos abertos. Estou ansiosa para seu pai chegar a fim de contar-lhe o que aconteceu. Ele vai ficar satisfeito.
- Sei disso. Agora vou at a empresa conversar com Arete e Rodrigo. Eles tambm iro gostar.
Aline foi se arrumar. Saiu e, dentro em pouco, estava chegando na empresa. Vendo-a entrar Arete sorriu:
- Que bom que veio cedo. Assim poderemos almoar juntas. Estou comeando a ficar com saudades. Faltam poucos dias para voc ir embora, quero aproveitar sua companhia 
em todos os minutos que puder.
- Vocs tambm podem ir para Miami de vez em quando.
-  o que estou pensando fazer.
- Agora voc est muito ocupada por aqui. No vai querer deixar Hamilton sozinho.
- Claro que no. Quando eu for, ele ir comigo.
- Esse namoro est to srio assim?
- Ontem Hamilton me pediu em casamento e eu aceitei.
- Parabns. Estou certa de que sero felizes. Tenho uma novidade boa para lhes contar: Aconteceu um milagre.
- O que foi?
- Vamos procurar Rodrigo.
Elas entraram na sala onde Rodrigo e Hamilton trabalhavam e depois dos cumprimentos Aline falou sobre a inesperada visita de Mrcio e tudo quanto ele lhes contara, 
finalizando:
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- Eu disse a vocs que o esprito de Marcelo logo que morreu colou-se a mim e eu comecei a ficarmal, sonhava com ele, sentia sua presena. Por isso procu rei o Instituto 
Ferguson tive a certeza de que era ele mesmo. Fiz o tratamento espiritual que indicaram e melhorei. Estou certa de que Marcelo recebeu ajuda, entendeu que no podia 
continuar perto de mim e foi embora. As palavras que ele disse a Mrcio me esclareceram, trouxeram alvio e paz.
Rodrigo ouvira tudo muito emocionado. Enquanto Aline falava, ele sentira arrepios pelo corpo, parecia-lhe ver o rosto do amigo em sua frente o que o fez dizer quando 
Aline se calou:
- Arete me falou sobre espiritualidade e vida aps a morte, mas eu nunca me detive muito nesses assuntos. As palavras de Marcelo me tocaram fundo e senti vontade 
de entender o que isso quer dizer.  como se ele estivesse nos dizendo: Acordem. A vida continua depois da morte e o esprito  eterno.
-  Isso muda nossa maneira de ver a vida. Saber que as pessoas que j morreram continuam vivendo em outro lugar e que um dia as veremos de novo, conforta e traz 
paz
- exclamou Hamilton.
-  verdade. Se vocs quiserem, podero ir comigo ao Centro Esprita que freqento com mame. Papai tambm quer ir. L podero estudar, aprender sobre os fenmenos 
paranormais.  um lugar agradvel que refaz nossas energias e eleva nossos pensamentos. Desde que comecei a ir, venho me sentindo bem melhor.
- Comigo aconteceu o mesmo
- tornou Aline
- L no Instituto Ferguson eles estudam bastante, fazem pesquisas, indicam livros de cientistas sobre os fenmenos da mediunidade.
- Esses so os que eu gostaria de ler
- respondeu Rodrigo.
- Eu j li alguns deles, fiquei muito interessado em me aprofundar, mas vim para So Paulo e no tive oportunidade. Eu tambm quero ir com vocs
- aduziu Hamilton.
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- Quando eu chegar a Miami, mandarei a voc alguns livros e apostilas utilizadas nos cursos do Instituto. Vocs vo adorar.
- Vou convidar Olvia para ir conosco
- tornou Rodrigo.
- Conte a novidade
- incentivou Arete.
- Eu e Olvia vamos nos casar.
Aline tornou:
- Eu quero ver quem  o mais corajoso e vai marcar o casamento primeiro.
- Ns vamos nos casar antes de vocs
- provocou Hamilton.
- Eu serei o primeiro
- disse Rodrigo convicto.
- Olvia sabe disso?
- brincou Aline.
- Sabe e aprova. J deu o sim.
A conversa fluiu fcil e alegre. Aline pensou em Gino e sentiu saudades. Conformou-se lembrando que dentro de mais alguns dias estaria nos braos dele.
Aqueles dias de ausncia a fizera compreender que os dois estavam muito ligados. Nunca sentira pelo marido o amor que sentia pelo Gino.
Ao lado dele sentia-se livre e segura, era uma gostosa sensao de prazer que nunca usufrura. O temperamento dele dava-se bem com o dela. No havia cobranas nem 
apego, apenas respeito e carinho.
Depois de almoar com eles, Aline foi para casa. Dalva a esperava satisfeita. Assim que a viu foi dizendo:
- Voc nem imagina como seu pai ficou quando soube de tudo. Chegou s lgrimas. Claro que disfarou e eu fingi que no notei. No pensei que ficasse to emocionado.
- Todos ficamos.  muito bom desfazermos aquele mal entendido.  noite, pretendo ir at  casa deles.
- Quer que eu v junto?
- No precisa. Desejo conversar, esclarecer melhor todos os fatos.
Dalva ficou calada durante alguns instantes, depois disse:
- Estive pensando em fazer um jantar na vspera de sua viagem, reunindo todos para selar nossa amizade.
- Que boa idia, me! Chamaremos Olvia e Hamilton tambm.
- No seria melhor apenas os da famlia? Aline riu bem humorada:
- Hamilton pediu Arete em casamento. Logo ser da famlia.
Dalva levou a mo aos lbios tentando conter uma exclamao de surpresa:
-  verdade isso? Arete vai se casar? Como  que no me disse nada?
-   verdade. As coisas esto acontecendo muito depressa. Rodrigo tambm pediu Olvia em casamento!
- No diga! Eu notei os olhares que ele lanava sobre ela. Nesse caso, ambos devem vir mesmo e tambm D Olga. Nossa famlia est aumentando. Lamento que voc esteja 
sozinha.
Aline abraou a me e respondeu:
- No ser por muito tempo. Gino est me esperando em Miami e eu no penso em deix-lo escapar.
Dalva olhou-a sria e perguntou:
- Tem certeza de que ser feliz ao lado dele?
- Tenho, me. No se preocupe. Nosso relacionamento  muito diferente do que o que eu tinha com Marcelo. Ele me entende, no me sufoca.  um homem bonito de corpo 
e alma. Eu o amo como nunca amei Marcelo. Ficamos muito felizes juntos.
- Se voc se casar com ele, nunca mais voltar a morar no Brasil.
- No diga isso. Ficarei l mais algum tempo. Mas no o resto da vida.
- Mas e se Gino no quiser vir?
- Gino  um homem do mundo. Viajou muito. No conhece o Brasil, mas deseja muito conhecer. Estou certa de que no por obstculo.
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-  Nesse caso, tudo bem. Meu sonho  que voc volte a morar aqui novamente.
- Eu sei, me. Voc e papai podero ir para l passar um tempo. Miami  uma cidade linda! Estou certa de que vo gostar.
- Seu pai no larga daquela loja.
- Mandarei as passagens e ele ter de ir.
Dalva sorriu feliz. O tempo ruim havia passado e ela sentia que podia confiar no futuro.
Eram sete horas quando Aline tocou a campainha da casa de Mrcio. A criada abriu, Aline pediu para falar com Dona Ivone.
Pouco depois, Ivone apareceu e vendo-a ficou sem saber o que dizer.
- Como vai, Dona Ivone?
Ivone recuperou um pouco de sangue frio e respondeu:
- Bem. Entre, Aline. Voc ligou, o Mrcio disse que viria, mas no acreditei.
Aline entrou e logo Mrcio apareceu dizendo amvel:
- Ainda bem que veio, Aline.
- Seu Joo est em casa?
- Est na sala lendo o jornal. Vamos at l,
convidou Mrcio.
Ivone continuava sem graa. Havia falado tanto mal da nora e temia que ela viesse para falar sobre isso. Porm Aline estava ali para selar a paz.
Uma vez na sala, Mrcio chamou:
- Pai, Aline veio nos visitar.
Joo fechou o jornal e levantou-se um pouco tenso. Aline estendeu a mo:
- Como vai, Seu Joo?
- Bem. E voc?
Aline notou que tanto ele como a mulher estavam inibidos.
- Sente-se, Aline
- convidou Mrcio indicando uma poltrona.
Todos se acomodaram e Aline olhando-os nos olhos disse:
- H muito eu desejava conversar com vocs. A morte de Marcelo machucou todos ns embora eu saiba que deve ter dodo muito mais em vocs. Quando soube do que havia 
acontecido, fiquei chocada, sofri muito, pensei em vocs. Analisei os fatos e questionei se eu fora culpada pelo que aconteceu.
Fundo suspiro saiu do peito de Ivone enquanto ela lutava para segurar as lgrimas.
- Ns tambm pensamos isso - tornou Mrcio.
- Mas depois, analisando melhor os fatos, senti que o acidente que o vitimou foi uma fatalidade. E no me cabia nenhuma culpa por isso. Meu nico erro foi ter aceito 
me casar com Marcelo. Ns ramos muito diferentes um do outro. Enquanto eu queria viajar, trabalhar fora, conhecer outros lugares, Marcelo fazia o oposto. Queria 
ficar em volta de mim, me cercando de cuidados.
- Ele era muito bom e voc no deveria queixar-se por isso
- objetou Ivone.
- No estou me queixando. Ao contrrio. Marcelo era um moo bom, carinhoso, mas me cercava de tantos cuidados, nunca me deixava tomar qualquer iniciativa, ele resolvia 
tudo. Eu fui me sentindo insatisfeita, parada, sem poder fazer nada.
- Mas ele permitiu que voc trabalhasse
-tornou Ivone.
-  verdade. E por algum tempo isso me ajudou. Mas depois, comecei a sentir um vazio no corao e ento, descobri que ns nunca poderamos ser felizes juntos. No 
era essa a vida que eu desejava levar. Eu queria fazer as coisas por mim mesma. Ele nunca permitiu. At o momento em que descobri que o amor que sentira por ele 
havia terminado.
- Por que ento no foi sincera e disse isso a ele?
-questionou Ivone.
- Ele nunca aceitaria. Era apegado demais. Telefonava para casa ou para o trabalho muitas vezes ao dia. Eu tinha a sensao de que estava sendo vigiada. Fui me sentindo 
infeliz. Pensei que no era justo continuar casada
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se no amava meu marido como ele merecia. Ento me ofereceram um emprego em Miami e resolvi aceitar.
- Por que fugiu daquele jeito?
- tornou Ivone enquanto as lgrimas desciam pelo seu rosto.
- Marcelo nunca me deixaria ir embora. Faria qualquer coisa para me segurar. Ento pensei em fugir, deixar uma carta. Mas nunca imaginei que ele pudesse correr daquele 
jeito e sofrer aquele acidente. Se eu tivesse pelo menos suspeitado dessa possibilidade, teria feito diferente. Eu sabia que ele sofreria, mas acreditava que com 
o tempo, iria se recuperar e encontrar outra mulher que o amasse de verdade.
Ela fez ligeira pausa e vendo que todos continuavam calados, prosseguiu:
- Dentro de quatro dias, irei embora. Desejava procur-los desde que cheguei, mas meus pais e Arete, disseram que vocs estavam zangados conosco, que seria intil. 
Vocs no podem imaginar a alegria que todos ns sentimos quando Mrcio foi nos procurar, falar sobre a mensagem de Marcelo, pedindo para que voltssemos a ser amigos.
Ivone no conseguiu segurar o pranto e Aline abraou-a dizendo com carinho:
-  Mesmo do outro lado da vida, Marcelo pensou em ns. Entendeu meu gesto e foi alm, afirmando que procurando a minha liberdade eu o libertei. Ele  um esprito 
nobre, bondoso, foi embora porque chegou sua hora de ir.
- Era to moo, to bonito
- respondeu Ivone entre soluos.
- Isso di muito. Porm, Dona Ivone, ele continua vivo do outro lado da vida. Ele  o mesmo filho amoroso que a senhora teve. Todos ns vamos morrer um dia. Quando 
chegar a sua hora, certamente ele a estar esperando para dar-lhe as boas vindas e o abrao carinhoso de sempre.
- Ser mesmo?  bom demais para ser verdade.
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Mrcio aproximou-se:
-   verdade, me. Ele est vivo! A vida continua depois da morte do corpo! Ns tivemos essa prova.
Joo interveio:
- Marcelo continua vivo! Uma noite, antes de Mrcio receber a mensagem dele, eu sonhei com ele. Eu estava muito acabrunhado, deprimido, com muitas saudades. Mas 
no disse nada a ningum porquanto no queria entristec-los. Encontrei-o sentado em um banco de um jardim maravilhoso. Assim que me viu, levantou-se e me deu um 
abrao to gostoso! Foi to real! To verdadeiro que cheguei a sentir o cheiro dele, como quando estava vivo. Eu no suportei e chorei ento ele me disse:
"Pai, eu continuo vivo. No chorem mais por mim. Aqui encontrei minha felicidade. Vamos esquecer a dor e cultivar a alegria".
- Eu acordei em seguida, ouvindo suas ltimas palavras, sentindo ainda o seu cheiro. Por isso quando Mrcio deu a mensagem, tive a certeza de que era verdadeira.
- Por que voc no me contou, Joo?
- Para no entristec-la ainda mais.
Ivone parou de chorar e Mrcio deu-lhe um leno que ela segurou, enxugando o rosto. Vendo-a mais calma, Aline disse:
- O que Marcelo pediu ao Seu Joo, devemos nos esforar para fazer. Os espritos nos vem embora no possamos v-los. J pensaram como ele deveria sofrer vendo o 
estado em que todos ficamos?
Ivone olhou-a e perguntou:
- Voc acha que ele viu nosso sofrimento?
- Claro. Ele deveria estar muito preocupado principalmente com vocs, que ele ama tanto.
- Ele foi um filho de ouro...
- Isso mesmo, Dona Ivone.
- Eu fico triste por t-lo feito sofrer...
- A dor da perda  natural. Porm agora, a senhora j sabe que ele continua vivo em outro lugar, que est
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feliz e o que  melhor, continua nos amando a todos. Por isso ele disse que  hora de cultivar a alegria, de deixar de lado a tristeza e tocar a vida para frente.
- Ser que ele est por perto?
- Pode at ser
- respondeu Aline.
- Nesse caso, no vou mais chorar. No quero que ele fique triste. Vou fazer um caf e trazer um pedao de bolo para todos ns celebrarmos este momento.
Joo abraou-a com olhos brilhantes:
- Gostei de ver. De agora em diante vamos nos lembrar dele com amor e saudade, e no com tristeza.
Aline acompanhou Ivone  cozinha e enquanto ela fazia o caf, Aline cortou alguns pedaos de bolo colocando nos pratinhos para serem servidos.
Nos tempos em que era casada com Marcelo, ela costumava sempre ajudar Ivone a arrumar as bandejas, a decorar os pratos.
Vendo-a fazer isso com naturalidade, Ivone sentiu um brando calor envolvendo seu corao:
- Parece mentira que voc est aqui, comigo!
- Estou contente. Sempre gostei muito de vocs todos. Foram para sala servir o caf, eles perguntaram
sobre sua vida em Miami, ela falou de sua casa, da empresa e finalizou:
- Estou bem l, agora estarei melhor depois desse nosso encontro. Mame vai fazer um jantar de despedida em nossa casa e ficaremos muito felizes se forem.
Ivone olhou para o marido e para Mrcio, que respondeu:
- Iremos com o maior prazer.
Aline despediu-se e Mrcio ofereceu-se para lev-la at em casa. Aline aceitou. Uma vez no carro ela comentou:
-  Nesse jantar, Rodrigo e Olvia vo estar. Eles esto noivos.
- Eu j esperava por isso. No se preocupe. No vou ficar triste nem nervoso. Sei que ela no era para
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mim. Marcelo disse que vai aparecer em minha vida a mulher certa, com a qual serei feliz.
- Que bom que entendeu. Se Marcelo houvesse feito isso, no teria se casado comigo. Mas certamente tnhamos que passar por essa experincia, para aprender a valorizar 
nossa liberdade.
- Por que, antes vocs no a valorizavam?
- No. O Marcelo apegou-se a mim de uma forma errada e eu me deixei envolver pelo amor que ele dizia sentir, pelas qualidades que ele possua de moo bom e me deixei 
aprisionar. O casamento para ns foi uma priso. Enquanto ele s tinha olhos para mim, eu tinha vontade de ser eu mesma, de poder fazer as coisas do meu jeito, o 
que com ele era impossvel. O amor s funciona quando  inteligente. Quando mesmo vivendo juntos cada um consegue continuar a ser si mesmo. Nossa unio desde o comeo 
estava fadada ao fracasso.
- Nesse caso sinto que se me casasse com Olvia ia acontecer o mesmo. Eu fiquei fascinado desde o comeo, pela beleza dela, mas tambm pela classe, pelo ambiente 
requintado onde ela vivia. Mas percebo que somos diferentes e que um relacionamento com ela nunca daria certo.
- Ainda bem que entendeu. O tempo  o melhor amigo. Seja paciente e espere a vida trazer aquela que o far feliz.
Chegando em casa de Aline, despediram-se com a promessa de que todos eles iriam ao jantar de despedida de Aline.
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XXIII

Mrcio olhou-se no espelho meticulosamente. Ele vestira sua melhor roupa, caprichara na barba bem feita, nos cabelos, no perfume discreto, agradvel, mas mesmo assim 
notou que seu rosto estava abatido.
Acompanharia os pais ao jantar na casa de Aline, porm desde que soubera do noivado de Olvia no conseguira furtar-se a um sentimento de perda e de desnimo.
Pensara em desistir de ir a esse jantar onde teria de suportar a felicidade dos noivos, presenciar os carinhos que trocariam, porm se no fosse Aline poderia pensar 
que ele ainda conservava o antigo ressentimento.
Ele desejava cumprir o que prometera a Marcelo. Em seu corao no havia mais a antiga revolta que tanto o atormentava. Os encontros com a famlia de Aline tiveram 
o dom de lhe restituir a serenidade alm do que retomar aquela amizade fez-lhe bem uma vez que os apreciava.
O pai bateu na porta do quarto:
- Vamos, Mrcio. Est na hora. No queremos nos atrasar.
- Estou pronto. J vou.
Lanando um ltimo olhar ao espelho, tentou suavizar a expresso do rosto e saiu.
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Ao chegarem  casa de Aline, foram recebidos por ela que os abraou:
- Que bom v-los! Entrem, por favor.
Ivone entrou na frente, abraou Aline, depois Dalva se aproximou, as duas abraaram-se e no puderam conter as lgrimas.
Os dois homens esperaram mais atrs, comovidos. Mrio, vendo-os aproximou-se de mo estendida. Trocaram forte aperto de mo e ele disse:
- Venham comigo. Talvez elas queiram conversar. Aline os acompanhou at a sala, Mrcio notou que
Olvia no estava e suspirou aliviado. Era-lhe penoso que ela notasse sua tristeza.
No hall, depois de controlarem um pouco a emoo, Dalva tornou:
- Hoje  um dia feliz para mim. Estou muito contente que tenham aceitado o meu convite.
- Estar aqui me trouxe tristes recordaes.
- Comigo aconteceu o mesmo.  difcil esquecer uma pessoa to querida como Marcelo.
- Ele gostava muito de todos, mas tinha um carinho especial por voc.
- E eu por ele. Mas hoje no  dia de tristeza. Afinal ele deseja que estejamos alegres. Portanto, vamos deixar o passado e comemorar nossa amizade. Penso que ele, 
se nos puder ver, ficar mais feliz com isso.
- Tem razo. Hoje  um dia de alegria.
As duas entraram na sala e Arete levantou-se para abra-la, apresentando-lhe Hamilton.
A campainha tocou e a criada foi abrir. Olvia entrou em companhia de Rodrigo e de mais uma moa.
Depois de abraar Dalva, Rodrigo apresentou a jovem:
- Minha irm chegou hoje do interior e tomei a liberdade de traz-la sem avisar.
- Fez muito bem. Seja bem-vinda.
- Obrigada.
- Venha, vou apresent-la aos demais. Como se chama?
- Mrcia.
Aline aproximou-se e depois de abraar Olvia e Rodrigo, Dalva a apresentou:
- Minha filha, Aline. Mrcia, irm de Rodrigo.
- Muito prazer. Vocs so muito parecidos, s que ela  muito mais bonita.
- Tambm acho,
brincou Rodrigo satisfeito. Dalva apresentou a jovem aos demais e ela, com
sua simpatia, os cativou. Seus olhos vivos, seu sorriso fcil, sua alegria contagiante animou o ambiente um pouco tenso pelas lembranas do passado.
Tentando fingir que no estava triste com o noivado de Olvia, Mrcio ficou ao lado de Mrcia, rindo, participando das brincadeiras, tornando-se espirituoso, o que 
provocou em Aline o comentrio:
-  Mrcio, no conhecia esse seu lado. Voc me surpreendeu.
-  que estou inspirado hoje, brincou ele.
O jantar foi servido, ao voltarem  sala de estar, Aline comentou:
- Hoje, depois de muito tempo me sinto completamente feliz. Por isso quero agradecer a todos por terem vindo. Quando eu estiver longe, recordarei estes momentos 
com muita alegria. Por vrias razes, esta  uma noite especial.
Todos aplaudiram e Aline continuou:
- Sinto vontade tambm de agradecer a Deus por nos dar essa oportunidade de reatar nossos laos de amizade que eu espero sejam fortes e eternos.
Eles no podiam ver, mas Marcelo e Mirela estavam ali, juntos, emocionados observando a cena. Mirela aproximou-se de Aline colocou a mo sobre sua testa e ela continuou:
- Depois que Marcelo se foi to inesperadamente, todos sofremos, mas eu tive a felicidade de descobrir
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que a morte no existe e que ele continua vivo em outra dimenso do universo. Aquele corpo que morreu naquele acidente foi apenas um invlucro que seu esprito largou 
quando no serviu mais. E a prova veio quando ele mesmo, preocupado com nossas lgrimas, procurou nos contar que continuava vivo e que nossos sofrimentos o estavam 
infelicitando.
Aline fez ligeira pausa e observando que todos a ouviam emocionados e atentos ela prosseguiu:
- Ele mandou dizer que est bem e pediu que cultivemos a alegria, confiando na vida e em nosso futuro. Por isso, esta noite  muito especial.  mgica porquanto 
sinto neste momento que ele est aqui, do nosso lado, nos abraando feliz. Vamos tambm lhe desejar felicidades nessa nova vida em que est agora. E para ele eu 
digo: Eu agradeo a voc por tudo quanto fez por mim. Nunca o esquecerei. Obrigada, meu Deus, por tantas ddivas.
Ela calou-se, Mirela afastou-se um pouco. Marcelo aproximando-se, beijou-a delicadamente na testa.
Aline sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e teve a impresso de ver o rosto dele prximo ao seu e sorriu. Ele estava l.
O ambiente tornou-se mais leve, as pessoas mais alegres, a conversa flua fcil.
Marcelo lanou um olhar para Mirela dizendo:
- Finalmente ela veio.
- Mrcio ainda no sabe.
Os olhos de Marcelo brilharam maliciosos e respondeu:
- Ele precisa saber.
Depois ele aproximou-se de Mrcio, que conversava com Mrcia, dizendo em seu ouvido:
-  Ela  a mulher de sua vida. Veja como  linda! No perca tempo. Vocs sero muito felizes!
Mrcio no ouviu o que ele estava dizendo, porm sentiu a atrao por Mrcia aumentar. Ela era linda e
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muito inteligente. Qualidades que sempre sonhou encontrar em uma mulher. Possua lbios tentadores e a custo dominou a vontade de beij-la.
Mirela sorriu, olhou para Marcelo:
-Voc no acha que est sendo muito apressado?
- No. Quando antes ele esquecer a iluso de Olvia,  melhor. S estou dando um empurrozinho. No viu como ele ficou?
Mirela o abraou dizendo alegre:
- Agora podemos ir. Tudo est em paz.
- Sim e ns poderemos seguir nosso caminho. Marcelo passou o brao na cintura dela e ambos comearam a volitar. A noite estava clara e o cu estrelado. Deslizando 
sobre a cidade, abraados, os dois contemplavam a beleza do universo  sua volta, reverenciando a vida e a grandeza de Deus.
Fim
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Sucessos de ZIBIA GASPARETTO                  i
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H mais de dez anos Zibia Gasparetto vem se mantendo na
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Crnicas: Silveira Sampaio
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Crnicas: Zibia Gasparetto
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   PEDAOS DO COTIDIANO
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   O AMOR VENCEU
   O AMOR VENCEU (em edio ilustrada)
   O MORRO DAS ILUSES
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   O FIO DO DESTINO
   LAOS ETERNOS
   ESPINHOS DO TEMPO
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   QUANDO A VIDA ESCOLHE
   SOMOS TODOS INOCENTES
   PELAS PORTAS DO CORAO
   A VERDADE DE CADA UM
   SEM MEDO DE VIVER
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Dentro de uma viso espiritualista moderna, estes livros iro ensinado a produzir um padro de vida superior ao que voc tem, atraindo prosperidade, paz interior 
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MARCELO CEZAR (ditado por Marco Aurlio):
 A VIDA SEMPRE VENCE
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   MEDO DE AMAR
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   O PREO DA PAZ
MNICA DE CASTRO (ditado por Leonel): .  UMA HISTRIA DE ONTEM
   SENTINDO NA PRPRIA PELE
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   AT QUE A VIDA OS SEPARE
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Aprenda a lidar melhor com as suas emoes, para conquistar um maior domnio interior.
- Prosperidade
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- Confrontando a solido
- Confrontando as crticas
- Confrontando a depresso
- Prece da Soluo (pelo esprito Calunga)
 srie VIAGEM INTERIOR (n1,n2en03):
Atravs de exerccios de meditao mergulhe dentro de voc e descubra a fora da sua essncia espiritual e da sabedoria. Experimente e ver como voc pode desfrutar 
de sade, paz e felicidade desde j.
 srie REALIZAO:
Com uma abordagem voltada aos espiritualistas independentes, eis aqui um projeto de 16cds para voc melhorar.
Encontros com o Poder Espiritual para prticas espirituais da prosperidade.
Nesta coleo voc aprender prticas de consagrao, dedicao, tcnicas de oraes cientficas, conceitos novos de fora espiritual, conhecimento das leis do destino, 
prticas de ativar o poder pessoal e prticas de otimizao mental.
 srie VIDA AFETIVA:
1 - Sexo e espiritualidade
 srie LUZES:
Coletnea de 8 cds, nos volumes 1 e 2.
Atravs de curso ministrado no Espao Vida e Conscincia, pela mediunidade de Gasparetto, os espritos desencarnados que formam no mundo astral o grupo dos Mensageiros 
da Luz, nos revelaram os poderes e mistrios da Luz Astral, propondo exerccios para todos aqueles que querem trabalhar pela prpria evoluo e a melhoria do planeta.
Nesta coletnea trazemos aulas captadas ao vivo, para que voc tambm possa juntar-se s fileiras dos que sabem que o mundo precisa de mais luz.
 srie ESPRITO (composto de 12 cds):
1-esprito do trabalho 2-esprito do dinheiro
3- esprito do amor
4- esprito da arte
5- esprito da vida
6- esprito da paz
7- esprito da natureza
8- esprito da juventude
9- esprito da famlia
10- esprito do sexo
11 - esprito da sade 12- esprito da beleza
A realidade tem muitas camadas, porm mais profunda  aquela que gera a existncia das outras. Ns a chamamos de Esprito. Sendo o centro de cada um de ns,  pois 
o guia de nossos destinos rumo  realizao.
Eleve-se, aprofunde-se e acorde para o seu esprito.
 srie PALESTRA:
1- Meu amigo, o dinheiro
2- Seja sempre o vencedor
3- Abrindo caminhos
4- Fora espiritual
ESPAO VIDA & CONSCINCIA
 um centro de cultura e desenvolvimento da espiritualidade independente.
Acreditamos que temos muito a estudar para compreender deforma mais clara os mistrios da eternidade.
A Vida parece infinitamente sbia em nos dotar de inteligncia para sobreviver com felicidade, e me parece a nica sada para o sofrimento humano.
Nosso espao se dedica inteiramente ao conhecimento filosfico e experimental das Leis da Vida, principalmente aquelas que conduzem os nossos destinos.
Acreditamos que somos realmente esta imensa fora vital e eterna que anima a tudo, e no queremos ficar parados nos velhos padres religiosos que pouco ou nada acrescentaram 
ao progresso da humanidade.
Assim mudamos nossa atitude para uma posio mais cientificamente metodolgica e resolvemos reinvestigar os velhos temas com uma nova cabea.
O resultado  de fato surpreendente, ousado, instigador e prtico.
 necessrio querer estar  frente do seu tempo para possu-lo.
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CEP 04276-000  Fone Fax: (11) 5063-2150
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